quinta-feira, 16 de abril de 2015

ENTRE LIVROS E PINTURA


Sábado é mais um daqueles dias de 110 atividades barreiras. Da Póvoa a Moura, do passeio da Associação Equestre à iniciativa da Comissão de Festas. Pelo meio estão a abertura da Feira do Livro e a exposição de pintura de António Galvão. Estava prevista há algum tempo e o Tói já não estará na abertura, porque o destino lhe trocou as voltas. Voltarei a este tema, de forma mais detalhada.

Todos à Feira do Livro!
Todos à Galeria do Espírito Santo!



A MORTE DE UM APICULTOR

No final de dezembro de 2010 trouxe este livro para o blogue. Dizendo isto:

No outro dia, ao telefone com uma colega ouvi isto: "Estou a ler um livro fantástico, que me foi oferecido por um lado. Tenho a certeza que nunca leste A morte de um apicultor". Não foi por maldade, mas respondi de imediato que esse livro de Lars Gustafsson (n. 1936) foi das melhores leituras dos últimos tempos. Foi um caso raro de pontaria, já que em anos recentes pouco tenho lido, para além das coisas profissionais.

Encontrei, numa releitura, pontos comuns com percursos recentes:

Estar tão perto de uma vida diferente, desenrolando-se noutro lugar, numa ambiente totalmente diferente, proporcionava-me como que uma vida dupla - e era talvez dessa vida dupla que eu sempre precisara sem o saber.

(Sempre suspeitei que todas as soluções se encontravam algures entre a minha vida e uma outra.)


Fotografia de Daniel Blaufuks

quarta-feira, 15 de abril de 2015

PEER REVIEW

A primeira vez que me pediram para fazer "arbitragem científica" achei graça à designação, ainda que já a conhecesse. Pedirem-me que fosse "árbitro" levou-me a imaginar num campo relvado, de apito na boca, correndo de um lado para o outro de livro na mão.

Era um artigo para uma publicação referente ao período medieval, ligada a uma universidade. Por várias vezes me têm sido solicitadas essas avaliações, sendo que a última, bastante embaraçosa, se referia a uma pessoa de reputação intocável. Pensei "mas quem sou para fazer esta avaliação?". O artigo era de elevada qualidade e limitei-me a um brevíssimo comentário de aprovação.

Confesso que participo, com prazer, nestes processos. Mas admito, algo envergonhado, que não pratico. A "Arqueologia Medieval", cujos 12 números publicados (1992-2012) coordenei, nunca teve peer review. Porquê? Por opção "política". Para sairmos de um sistema demasiado certinho e, num certo sentido, excessivamente rigoroso. Alguns dos artigos publicados na "Arqueologia Medieval" não passariam numa arbitragem científica feita com todos os requisitos. Alguns desses artigos nem sequer seriam considerados de arqueologia medieval, num sentido estrito. Outros tinham até falhas menores, em termos metodológicos. Mas também não passariam no crivo, ou no apito, de um árbitro mais atento. Porque os publicámos, então? Porque, por vezes, estávamos ante primeiras publicações de jovens licenciados ou porque eram artigos sobre outros domínios (arquitetura, linguística, antropologia) que davam sal à revista.

Em 1992 vaticinaram(-me) vida curta à revista. Era tudo inviável: o modo de pedido de artigos, a avaliação dos mesmos, o modelo de financiamento da publicação etc. Para não falar, bem entendido, na escassa qualificação do editor (eu), que aos 29 anos se atrevia a tomar decisões sobre estas matérias. Sempre sob a benevolente tutela do diretor da revista, Cláudio Torres.

Sempre gostei de projetos improváveis e "impossíveis". O da "Arqueologia Medieval" foi mais um deles.

ECONOMIA POLÍTICA - AULA Nº 1

Hoje, às 8:10, na Antena 1:

Repórter - "Quanto custam os cachecóis?"
Vendedor - "Os do Porto, 5 euros. Os do Bayern, 10".
Repórter - "O dobro?? Qual a justificação para a diferença?"
Vendedor - "Os alemães têm mais dinheiro que nós, muito maior poder de compra e, além disso, estão fartos de nos roubar".

Está percebido, ou é preciso chamar o Dr. Camilo Lourenço ou o Dr. Rui Ramos?

terça-feira, 14 de abril de 2015

QUANDO DUARTE DARMAS PASSOU POR MOURA: 6/10 - TORRE TRECENTISTA

Nesta perspetiva do desenho de Duarte Darmas é possível puxar por um detalhe, no torreão virado a noroeste. O autor viu ali uma peça invulgar, à qual deu destaque. Como fazer a sua datação?

1) O início das obras ("refazimento do alcácer") é decidido por volta de 1320;
2) Quando Duarte Darmas passa por Moura, em 1510, a torre está terminada.

Dois séculos é um lapso enorme, em arqueologia medieval. Pedi ajudas várias. Segundo um especialista (cf. infra), o brasão poderá ser um pouco posterior a meados do século XIV. Há ainda aspetos  de organização planimétrica que aproximam a torre de Moura da de Beja, de finais do mesmo século. 

Segundo o meu colega Miguel Metelo de Seixas:
"A pedra em questão é, de facto, interessante. A sua datação em meados do século XIV bate certo com o que se conhece de outras manifestações heráldicas coevas, quer em relação ao formato do escudo, quer à figuração das quinas e dos castelos. (...) O número e a disposição dos castelos são invulgares para exemplares líticos, porém comuns quando comparados com a numária, e talvez por aí se consiga aventar uma datação mais precisa, ainda que baseada apenas em termos estilísticos (o que é sempre limitativo). O enquadramento das armas naquela moldura rectangular também me parece típica do mesmo período."

Parece, portanto, plausível que as obras tenham sido iniciadas antes de meados do século XIV e se tenham prolongado por algumas décadas. Admitir uma cronologia fernandina para o seu término não me parece disparatado. Tal como também não se pode excluir a possibilidade de uma obra concretizada em várias fases. Mas sempre segundo um mesmo plano, conforme o prova a coerência de talhe dos silhares.




segunda-feira, 13 de abril de 2015

ALUMNUS I

Arrancou hoje. O Prof. Doutor Arsénio Fialho, do Instituto Superior Técnico, proferiu duas palestras absolutamente fascinantes. É o primeiro dos antigos estudantes locais a participar no Projeto Mouralumni. Uma forma de puxar pela alma local e de valorizar aquilo que se faz nos estabelecimentos de ensino secundário do concelho.


Arsénio Fialho (n. 1964), doutorado em Biotecnologia, pelo Instituto Superior Técnico (IST), em 1996. É atualmente investigador no iBB (Instituto de Bioengenharia e Biociências do IST). Este mourense tem no centro da sua pesquisa o estudo de proteínas bacterianas como novos agentes anticancerígenos. É também professor de biologia molecular, biologia celular e bioquímica no Departamento de Bioengenharia do Instituto Superior Técnico.

domingo, 12 de abril de 2015

A MÁSCARA, EM HOMENAGEM A TEX AVERY

O filme de hoje tem 20 anos e continua a passar regularmente na tv. Jim Carrey é irritante, mas aqui é-o menos, porque tem uma máscara.

O filme, dirigido por Chuck Russell (tive de ir ver ao google, porque do realizador não reza a História), não seria possível sem o génio imenso de Tex Avery (1908-1980). Este texano, que nunca ganhou oscars, emmys, golden globes e tretas do estilo, e cujos filmes são uma antologia do slapstick, tinha lugar cativo nos programas de animação de Vasco Granja. Era a minha parte preferida da tarde, no meio dos filmes polacos e checos. Destes recordo apenas o Koniec...

Exagero, delírio, humor, música, fantasia, cor, impossibilidade, provocação. Procurem sff coisas de Tex Avery na net e vejam, entretanto, esta cena:



Entre 1998 e 2004 fui pontuando as idas a França com a compra de cassettes VHS com a obra completa de Tex Avery. Era a minha fraca compensação pelas sucessivas ausências junto dos mais novos cá de casa.

O SECAM dos vídeos é incompatível com o PAL usado entre nós. Os miúdos viram a obra de Tex Avery a preto e branco, de um ponta à outra (legendada em francês, que eu ia traduzindo em tempo real). Ficaram fãs.

AMARELEJA - UM PROJETO A COMEÇAR

Finalmente aconteceu. No passado dia 7 foi assinado um protocolo entre a Fábrica da Igreja da Amareleja e a Câmara Municipal de Moura. Foi o remate de um processo que teve, por vezes, contrariedades inesperadas. O ato foi também pretexto para uma rápida visita ao castelo e para uma apresentação do levantamento do imóvel.

Que vai acontecer? A elaboração de um projeto para que o edifício tenha uma cobertura total ou parcialmente amovível e possa ser utilizada todo o ano. No essencial será um processo de reabilitação simples e prático.

Quando haverá projeto? Seguramente durante o corrente ano. Será apresentado publicamente à população logo que possível.

Quando começarão as obras? Espero que em 2016, mas isso não é promessa que se possa fazer assim, ainda sem projeto.

Quem poderá usar o espaço para a organização de eventos? A Câmara Municipal, a Comissão Fabriqueira, a Junta de Freguesia, as associações culturais e desportivas etc.

Será um processo importante e com o qual todos ficaremos a ganhar.





Melhor é o fim das coisas do que o princípio delas; melhor é o paciente de espírito do que o altivo de espírito.

Não te apresses no teu espírito a irar-te, porque a ira repousa no íntimo dos tolos.
Nunca digas: Por que foram os dias passados melhores do que estes? Porque não provém da sabedoria esta pergunta.


Eclesiastes, 7:8-10

sábado, 11 de abril de 2015

PORTUGAL AO QUADRADO

Não resisto a reproduzir, com a devida vénia, este texto hoje publicado pelo embaixador Francisco Seixas da Costa no blogue Duas ou Três Coisas (http://duas-ou-tres.blogspot.pt/):

Uma certa organização internacional, onde as línguas de trabalho são o francês e o inglês, decidiu colocar nas portas dos gabinetes que, na sua sede, atribui às delegações de cada Estado que dela faz parte, uma placa com a designação do país.
Guardei esta deliciosa foto da nossa placa. Felizmente que o alemão, o português e o espanhol não são línguas oficiais da dita organização, caso contrário a placa seria ainda mais interessante...

PATRIMÓNIO(S)


Sexta a fundo. Das 7.15 à 1.30, nonstop.

Património, reabilitação, arqueologia, arquitetura, museus, um dia (em) cheio na Galeria do Espírito Santo. Foi a terceira edição do Fórum 21, na altura em que se preparam a quarta e a quinta. Com temas, mas ainda sem datas.

Devia ter tido um pouco mais de juízo, em vez de me embrenhar na longa viagem pela noite. Valeu a pena. Fui ao encontro de outros Patrimónios: a música espontânea, o vinho do Alentejo, o insuperável património da amizade.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

E MAIS ALGUMAS HETERODOXIAS MUSICAIS

A propósito da escolha de músicas, a partir de um desafio feito no facebook, confessei (mais) algumas das minhas heterodoxias musicais (v. também aqui e aqui). Ao regressar hoje de Évora, dei por mim a ouvir o rei do mambo Pérez Prado (1916-1989). Comprei um disco com as suas músicas em 1984, em Madrid. Um LP, que faz parte das relíquias lá de casa. Onde também está uma original e movimentada orquestração do "Coimbra".

AMARELEJA - UM PROJETO CONCLUÍDO

Sem grandes comentários, aqui deixo duas imagens do arranjo realizado em torno da Ribeira de Vale de Juncos, em Amareleja, e que resultou do excelente trabalho de um ateliê qualificado: PROAP. Depois de alguma, e pouco profícua, polémica, foi inaugurado esta espaço. A obra, financiada e realizada pela Câmara Municipal em terrenos pertencentes à Junta de Freguesia, está a ser adotada pela população para a prática desportiva. O mercado também já lá se realizou (e sobrou espaço).

O espaço foi devolvido aos amarelejenses. Essa é a parte fundamental.

Falta resolver o problema da ribeira em si? Falta. Avançaremos assim que o Ambiente nos der luz verde. Cumpriremos essa missão tal como terminámos esta obra, mais a de saneamento na esquina da Rua das Flores e tal como avançámos com o Pavilhão das Cancelinhas.

Ver: http://www.proap.pt/pt-pt/


quarta-feira, 8 de abril de 2015

ALGURES EM LISBOA

Um edifício da autoria de Jorge Segurado (1898–1990), arquiteto com ligações a Moura e cuja obra já por aqui passou. O sítio retratado é a Casa da Moeda, em Lisboa, a uns 750 metros de onde vive um amigo meu.

Daqui a pouco retomo Moura, a curta distância de um projeto de juventude de Jorge Segurado. Aqui fica um poema para esse meu amigo.

Hoje de Manhã
Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...
Não sabia por caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.

Assim tem sido sempre a minha vida, e
assim quero que possa ser sempre —
Vou onde o vento me leva e não me
Sinto pensar.


Alberto Caeiro, Poemas inconjuntos


ALGURES NO NOVO MÉXICO

Uma paisagem ao estilo de João Hogan, mas aqui pela mão de Georgia O'Keefe (1887– 1986), cujo corpo já por aqui passou. O sítio retratado é Black Mesa, no Novo México, a uns 75 kms. de onde vive uma amiga minha.

Dia de quase pausa, mas só no blogue, quando é necessário recuperar fôlego. Aqui fica o poema para a minha amiga.


Não Basta
Não basta abrir a janela
Para ver os campos e o rio.
Não é bastante não ser cego
Para ver as árvores e as flores.
É preciso também não ter filosofia nenhuma.
Com filosofia não há árvores: há idéias apenas.
Há só cada um de nós, como uma cave.
Há só uma janela fechada, e todo o mundo lá fora;
E um sonho do que se poderia ver se a janela se abrisse,
Que nunca é o que se vê quando se abre a janela.

Alberto Caeiro, Poemas inconjuntos

terça-feira, 7 de abril de 2015

QUANDO DUARTE DARMAS PASSOU POR MOURA: 5/10 - CONVENTO DO CARMO

Mais um recanto de Moura, visto por Duarte Darmas. No lado esquerdo de uma das vistas está uma igreja identificada com as palavras "ho carmo". O edifício enquadra-se no estilo a que se convencionou chamar gótico alentejano. É uma igreja de três naves, com a central mais alta que as outras, rasgando-se a fenestração no clerestório. Contrafortes cilíndricos rematados por pináculos alinham-se ao longo dos muros das naves laterais. Se olharmos para esta representação concluímos rapidamente que o edifício medieval foi anulado pelas construções dos séculos XVI a XVIII, cujo espavento acompanha o progressivo aumento de rendimentos do Convento do Carmo. Foi isso que se passou? Quase. Ao passar junto à fachada da igreja, olhai com atenção e reparai, do lado direito, no que resta de um dos contrafortes medievais, envolto pelas sucessivas obras do templo. Do castelo vê-se com toda a nitidez esse pormenor construtivo.

São fragmentos de uma Moura já quase desaparecida e que, por isso mesmo, registamos com maior prazer.


segunda-feira, 6 de abril de 2015

MÚSICA QUE FLUTUA

O poema Jangada, do brasileiro Juvenal Galeno (1836-1931) vai bem, na sua placidez, com esta magnífica fotografia de Alfredo Cunha. Quase ouvimos a música e sentimos a frescura da água e o rumor das pessoas em volta. A jangada de Juvenal Galeno fala do mar? E o barco não tem vela? E depois? O mar é onde um homem quiser.


Minha jangada de vela,
que vento queres levar?
tu queres vento da terra,
ou queres vento do mar?

Minha jangada de vela,
que vento queres levar?
Aqui no meio das ondas,
das verdes ondas do mar
és como que pensativa,
duvidosa a bordejar!

Saudades tens lá das praias,
queres na areia encalhar?
ou no meio do oceano
apraz-te as ondas sulca?
Minha jangada de vela,
que vento queres levar?


Páscoa, Fiscal, Amares 2014

domingo, 5 de abril de 2015

DO HÁBITO TALAR ÀS AZEITONAS


"Hábito talar", dizia a convocatória. Nunca comprei a farpela, pelo que tenho de usar sempre uma vestimenta tomada de empréstimo. Voltou a acontecer, num breve regresso a Coimbra. Ser arguente principal num doutoramento (a par do Prof. Carlos Etchevarne, da Universidade da Bahia) teve a sua graça, ainda para mais porque nunca tinha participado, em Coimbra, num cerimonial levado, sempre, com todo o rigor. Dão-me sempre o traje de um colega com menos 30 cm. de altura, mas isso é um detalhe...

A tese de Rosiane Limaverde é um percurso que reflete um extraordinário projeto de vida. Arqueologia Social Inclusiva? Sim. Mas, no essencial, intervenção política e o papel da cultura na transformação da sociedade. Distinção e louvor, por unanimidade, para esta Fundação Casa Grande.

O Alentejo está em pano de fundo? Sim. E Moura? Sempre. A deslocação teve como peça importante a possibilidade de participação de uma empresa do concelho num projeto de investigação internacional, promovido pelo prestigiado Consiglio Nazionale delle Ricerche (CNR), de Itália. A Herdade dos Cotéis irá integrar uma proposta de estudo sobre o azeite. Um produto eterno no Mediterrâneo, que será analisado numa perspetiva de longo prazo. A tutela portuguesa está na Universidade de Coimbra. Associarmo-nos aos melhores é boa política. Digo eu.

Ver: http://www.fundacaocasagrande.org.br


sexta-feira, 3 de abril de 2015

JESUS CRISTO SUPERSTAR

Última Ceia. Cena do filme Jesus Cristo Superstar, de 1973, obra do canadiano Norman Jewison (n. 1926), realizador eficiente e profissional, mas não mais que isso. Apesar do aparato e da música rock, a narrativa é conservadora e canónica. Este musical, de Tim Rice e Andrew Lloyd Weber, conheceu enorme popularidade. Vi o filme, em 1975 ou 1976, no já desaparecido Cinema Berna.

A minha cena preferida é a de Herodes, pelo estilo vaudeville. Vai mais comigo... Para o dia de hoje, esta é mais adequada.

Escolha cinéfila para a Páscoa, aqui vos deixo um dos meus filmes marcantes dos tempos de adolescência.


quinta-feira, 2 de abril de 2015

MOURA - FORUM 21: REABILITAÇÃO URBANA OU ARQUEOLOGIA E MUSEUS?

Terceira edição desta iniciativa camarária. Primeiro as fronteiras (fevereiro de 2014), depois a saúde (julho de 2014), chega agora a vez de se abordar em clássico local: reabilitação urbana? ou arqueologia e museus?

Local - a igreja do Espírito Santo
Dia - sexta-feira, 10 de abril (das 9.30 às 19.30)

Participantes (em ordem invertida, que é como as coisas aparecem na arqueologia):

Victor Mestre - Victor Mestre & Sofia Aleixo
Vanessa Gaspar - CMM
Tiago Mota Saraiva - Ateliermob
Teresa Ferreira - Intuição arquitectos
Sofia Salema - Pedro Guilherme & Sofia Salema
Sofia Aleixo - Victor Mestre & Sofia Aleixo
Pedro Guilherme - Pedro Guilherme & Sofia Salema
Pedro Ângelo - CMM
Patrícia Novo - CMM
Nuno Moquenco - CMM
Maria da Conceição Lopes - Universidade de Coimbra
José Martinho - CMM
João Nunes - PROAP
João Maria Trindade - Ventura Trindade Arquitetos
Francisco Motta Veiga - Fundação Anna Lindh
Clara Camacho - Direção-Geral do Património Cultural
António Pacheco - CMM
António Lamas - Pres. do Centro Cultural de Belém
Ana Paula Amendoeira - Dir. Reg. de Cultura do Alentejo

que intervirão em painéis sucessivos:

9.30 – Sessão de abertura
9.45 / 11.15 – Imóveis classificados: casas velhas / novas funções
11.15 – Pausa
11.15 / 12.45 – Dentro e fora do centro histórico
12.45 Debate
13.00 Pausa
14.30 /16.15 – Olhando os espaços exteriores
16.15 – Pausa
16.30 – Museus, arqueologia, património, reabilitação e desenvolvimento económico
18.30 – Debate e encerramento

VENHAM MAIS CINCO

Ontem fiquei contente ao ler o jornal "A Planície". Não um, não dois, não três, não quatro, mas cinco-artigos-cinco com a especial preocupação em fazer desmentidos, clarificações, em dar explicações, em atacar a atuação da Câmara Municipal e, em especial, do seu presidente (moi-même). Gostei, com toda a franqueza. O pior que podem fazer a uma pessoa é ignorá-la. Não fujo à regra.

Não vou responder, claro. Raramente o faço. Prefiro escrever sobre outros temas. Vou/vamos fazendo o meu/nosso percurso. Com trabalho e com convicção. E, vá lá, com algum reconhecimento.

Ora venham lá mais cinco!


Houve uma coisa que me perturbou. Num dos textos há vírgulas a separar o sujeito e o predicado. O autor tem particulares responsabilidades. Isso sim, é coisa para me desorientar...

James L. Steg (1922-2001) dedicou parte da sua carreira à arte da impressão. Esta obra intitula-se Walk of five men.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

ANTÓNIO GALVÃO (1945-2015)

Nunca fomos íntimos, embora fossemos amigos desde há muitos anos. O Tói era 18 anos mais velho que eu. Tratava-me por tu, como tantos da sua idade. Jamais eu me atreveria a retribuir... Sempre ouvira falar dele como figura respeitada, entre os colegas de profissão, entre os amigos do tempo de escola e entre os mourenses, da sua geração, que por ele têm uma quase devoção.

Cruzei-me com o Tói inúmeras vezes. Devo-lhe a simpatia da sua companhia, como numa tarde memorável passada num sábado de festa na "Aranha", a popular taberna da Rua da Verga. Homem discreto, foi sempre de uma grande firmeza política. As suas aventuras de aluno geravam respeito: a mais conhecida de todas era a atitude de desafio que tomava, ao colocar, muito discretamente, uma foice e um martelo em todos os seus desenhos, pinturas ou cenários. Fazia-o em tempos em que essas brincadeiras podiam sair muito caro. As colegas, em especial, ficavam aterrorizadas com a ousadia.

Ao Tói, Moura deve o talento e o afeto. Foi dele um inventivo cartaz, feito para as Festas de Nossa Senhora do Carmo, no início dos anos 70. Trabalho tributário da arte cinética, levantou celeuma e alguma incompreensão. Nada que o fizesse zangar. Devo ao Tói Galvão a capa do primeiro trabalho que promovi, na Câmara Municipal de Moura, em 1988: a edição da tese de licenciatura de José Fragoso de Lima. Foi uma das muitas atitudes de solidariedade que teve para com a sua querida Moura.

Nas paredes da Câmara Municipal estão expostas várias das suas obras. Pintor colorista e de grande talento, nunca "investiu" tanto na carreira de pintor quanto as suas capacidades lhe permitiriam. O lirismo do Alentejo está bem presente nas formas que delineou e numa paleta inconfundível. Temos em preparação uma exposição sobre a sua pintura, a cuja inauguração já não assistirá, infelizmente.

Falei com o Tói, ao telefone, na passada semana, por causa da exposição. A conversa foi tranquila. Rematou o diálogo com algo como "quando tiveres notícias sobre o quadro [uma obra cujo paradeiro tentava localizar] diz qualquer coisa". Não voltei, surpreendentemente não voltarei a ouvir a sua voz.

CARO TAHER GHALIA

Foi com surpresa que reconheci, nas notícias, a janela do seu gabinete. As imagens eram confusas, mas a legenda que passava em baixo, na notícia do telejornal, com a notícia do massacre no Museu do Bardo, não deixava margem para dúvidas.

Há já algum tempo que não falamos pessoalmente. Talvez seja agora o momento para retomar o contacto. Desde 2009 ou 2010 que várias ideias ficaram em suspenso. Durante a reunião, aí no Bardo, fizemos a habitual troca de livros: entreguei-lhe a minha tese, você ofereceu-me a monografia sobre a igreja de Hergla. Tomou por amabilidade minha a afirmação de que o seu estudo me fora decisivo. Foi mesmo, por causa das representações em dois mosaicos, que você estudou, e que me forneceram várias pistas na minha própria investigação.

O seu museu é um dos mais belos do mundo. Isso você sabe perfeitamente. Ao saber do horror do massacre, e sem me ocupar agora das raízes de tanta tragédia, ocorre-me o começo de um poema de Konstandinos Kavafis, datado de 1904:

“O que esperamos na ágora reunidos?

É que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?
Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje.
Que leis hão de fazer os senadores?
Os bárbaros que chegam as farão.
(…)”

O poema de Kavafis termina num tom de resignação, quase com o desejo que os bárbaros permanecessem… Os riscos de hoje são esses mesmos, os da resignação e da capitulação, quando os sítios da cultura são aqueles que mais sofrem com os novos bárbaros. Tenho pequenos exemplos domésticos para lhe contar. Que vão da escala nacional a penosas barbaridades locais. Uma certa classe política detesta património e museus. Falámos disso, tal como falei desse tema, há uns bons anos, com o seu colega Fathi Bejaoui.

Voltarei, um dia destes, ao Bardo. Até porque não conheço a nova ala. Farei, como nas vezes anteriores, o percurso de que mais gosto: de Habib Thameur até ao museu, no metro de superfície, no meio da juventude local. Voltarei à frescura e à luz acolhedora das salas, ao branco das paredes e ao azul dos lambris. A coleção é sobretudo pré-islâmica, e as principais peças são romanas e cristãs. Nunca deixarei de me deter, longamente, ante o batistério de Kelibia, uma das mais belas peças de Arte que conheço. Ou em frente do Triunfo de Neptuno, trazido de Chebba, na altura em que essas coisas se faziam assim. E como tenho a mania dos detalhes nas obras de arte, voltarei a olhar a Ecclesia Mater, a de Tabarka.

Não lhes perdoaremos nem deixaremos de os combater. O ataque ao Bardo, e a horrível chacina de gente inocente, foi um ataque a todos nós. Aos que amam o Património e os Museus, decerto. Mas sobretudo aos que amam a tolerância, o Mediterrâneo e, se me permite que o diga, a nossa Tunísia.

Com amizade
Santiago Macias



(mail enviado ao meu amigo Taher Ghalia, diretor de um museu agora celebrizado pelas razões erradas)

Crónica publicada hoje em "A Planície" - a imagem reproduz o batistério de Kélibia (segunda metade do século VI)