quarta-feira, 12 de agosto de 2015

TÃO LONGE DE DEUS

“¡Pobre México, tan lejos de Dios y tan cerca de Estados Unidos!” - Porfirio Díaz (1830-1915).

Quando olhamos para o interior raiano, são frases assim que (nos) ocorrem. A distância não será tanto de Deus, como dos centros de decisão. O tráfego nas nossas ruinosas vias de comunicação é o reflexo direto de um País virado para o seu umbigo.

A Juromenha, como Terena e outros castelos da raia, é o reflexo de um abandono antigo, e que a cada dia se agrava. São, ainda assim, sítios especiais e encantadores.



Ver: http://portugalfotografiaaerea.blogspot.pt/search/label/Juromenha

terça-feira, 11 de agosto de 2015

NO CALOR DO DIA E DA NOITE

O dia 12 de agosto marca, para esta Comissão de Festas, o início do fim de um percurso. Durante quase um ano, cerca de duas dezenas de jovens trabalharam com afinco para construir um evento que é, para todos os amarelejenses, a grande festa da vila. No turbilhão de atividades, a Comissão de Festas envolveu famílias, amigos, entidades públicas e privadas. Durante quase um ano, de forma empenhada e solidária foi-se fazendo o percurso que agora culmina.

De 12 a 16 de agosto vamos ter cinco dias e cinco noites de grande animação. Não vão faltar artistas nos cartazes – numa contagem rápida cheguei quase às duas dezenas! – nem luz e som nos dias e nas noites da Amareleja. “E mais...” promete-se, nas redes sociais. E nós não duvidamos que assim seja. Durante mais de 100 horas a vila não vai parar. As noites vão colar-se aos dias, com a aurora a ser a continuação das luzes artificiais dos espetáculos mais tardios. A juventude amarelejense não vai ter descanso e não nos vai dar descanso.

Os dias da festa são dias de regresso. Os 6500 habitantes de 1950 são hoje pouco mais de 2500. A Amareleja tem hoje extensões na Amadora, na Cova da Piedade, no Barreiro e converteu-se num sítio mítico para os que lá estão. Os que partiram um dia, os seus filhos e netos, regressam nesta altura ao ponto de origem. Por estes dias cumprem-se roteiros sentimentais pelas ruas da da vila, “ali viveram os teus avós”, “naquela casa nasci eu e na rua ao lado a tua mãe”. Recordam-se vizinhanças, amizades, namoros. Por isso também esta festa é tão forte e tão sentida por todos.

Na Festa da Santa Maria é tudo intenso. Tudo se vive com calor. É tanto o culminar de um ano de trabalho como um ponto de encontro entre os amarelejenses de todas as partes do mundo, tanto uma manifestação sagrada como a expressão do mais belo paganismo.

De 12 a 16 de agosto também eu serei amarelejense adotivo. Por dever de ofício, seguramente. Mas, sobretudo, por prazer.

Amareleja, 29 de junho de 2015
Santiago Augusto Ferreira Macias

Presidente da Câmara Municipal de Moura



Texto redigido para o programa da Comissão de Festas de Amareleja / Santa Maria 2015

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

JOANA RAMALHO - CAMPEÃ DO MUNDO

A Câmara Municipal de Moura saúda e felicita a jovem mourense Joana Ramalho pelo título de campeã mundial de sub-18 em pesca desportiva. 

A jovem pescadora do Clube Mourense Amadores de Pesca e Caça Desportiva sagrou-se campeã a título individual no Campeonato do Mundo de Jovens Água Doce que foi disputado na Sérvia, na cidade de Smederevo, no sábado, 8 de agosto.

Joana Ramalho, que já tinha estado em 2014 nos campeonatos mundiais, na Holanda, conseguiu este ano trazer para Portugal e para Moura um troféu a nível mundial, deixando a sua cidade orgulhosa do trabalho que tem vindo a desenvolver nesta modalidade desportiva e que lhe deu agora este prémio internacional.


Moura, 10 de agosto de 2015
O GABINETE DE COMUNICAÇÃO E RELAÇÕES PÚBLICAS DA CÂMARA MUNICIPAL DE MOURA


CINCO ANOS MAIS TARDE...

Há conquistas recentes. E números significativos. A Assembleia Geral da ONU reconheceu no dia 27 de julho de 2010 o acesso a uma água de qualidade e a instalações sanitárias como um direito humano (“Diário de Notícias” de 29.7.2010).

O texto "declara que o direito a uma água potável própria e de qualidade e a instalações sanitárias é um direito do homem, indispensável para o pleno gozo do direito à vida". Nessa altura, 884 milhões de pessoas no mundo não tinham acesso a uma água potável de qualidade e mais de 2,6 mil milhões não dispunham de instalações sanitárias básicas. A falta de condições a esse nível era causadora de dois milhões de mortes anuais, na sua maioria crianças.

A recente inauguração de uma exposição sobre a água, no Museu Municipal, no passado dia 30 de julho, vem chamar a importância para este recurso e para a necessidade do seu uso democrático.

No nosso concelho o uso da água para toda a população é, e não nos esqueçamos desse facto, uma conquista recente. Até há cerca de 50 anos, apenas uma minoria tinha acesso a água canalizada e a um abastecimento regular. As obras ficavam dependentes de benesses pessoais e de favores de pessoas bem colocadas no regime. Uma das principais lutas do pós-25 de abril foi, justamente, a da garantia do abastecimento de água e de redes de saneamento dignas desse nome. Recordo-me perfeitamente do Rio da Roda ser um esgoto a céu aberto e das águas residuais correrem em valas abertas em ruas da Salúquia. Uma realidade que foi ultrapassada mas que nunca deveria ser esquecida. Nas aldeias, a situação era substancialmente pior. Só com a Revolução de Abril e com o Poder Local Democrático esses problemas foram atacados de forma frontal e direta. Foi, nesse processo, um momento decisivo o abastecimento de água às freguesias, com o início do funcionamento da estação do Ardila, em 1988. Nos últimos anos, a luta por uma água pública e de qualidade continuou. Houve intervenções recentes, no valor de milhões de euros, em Moura e no Sobral da Adiça. Temos, hoje, água de qualidade e que cumpre todos os requisitos. As limitações que temos são as frequentes nas regiões meridionais. É assunto que, infelizmente, continua a dar azo às maiores e mais descabeladas e desavergonhadas demagogias.

A água começa a escapar, hoje, ao controle das autarquias. Com os sistemas de captação nas mãos de empresas e com uma entidade de cariz totalitário a determinar os sistemas de tarifas (refiro-me à ERSAR, que, sem ter sido eleita, objetivamante manda nas Câmaras quanto aos aumentos de preços a que nos obriga). Há restrições financeiras às renovações e melhoramentos de redes, de que todos necessitamos. O objetivo é a privatização e contra isso estamos e estaremos nós.

Por isso também, a exposição “Água: património de Moura” é uma peça de divulgação cultural e de combate político. Ao longo de quase dois anos nos encarregaremos de sublinhar essa mensagem.


Texto publicado na última edição de "A Planície".
Fotografia de Artur Pastor.

domingo, 9 de agosto de 2015

JORGE JESUS, AS CLASSES A e B e O POVO

Ainda a época não começou e já Jorge Jesus faz das suas. Provoca o treinador do Benfica e acende a fogueira do jogo de logo à tarde. Oxalá se lixe mas isso são cá coisas minhas...

Posto isto, devo confessar que tenho por Jorge Jesus grande simpatia. Os intelectuais troçam do estilo, do penteado, dos evidentes pontapés na gramática, das bravatas, das provocações, da maneira de pronunciar palavras em línguas bárbaras (aquela do Unaite tornou-se um clássico...). E depois? É um homem genuíno e de uma franqueza quase infantil. E como ele própria disse, não é o Eça de Queirós... Pois não, mas ganhou três campeonatos para o Benfica e levou o clube a duas finais europeias. O Sporting fez, portanto, uma boa contratação.

Quando um dia fiz notar a uma amiga o discurso incoerente e básico de um político de um certo concelho alentejano, tive como resposta "essa é a tua leitura; há aqui questões de literacia... o que te parece uma intervenção bacoca, é vista por outros como um discurso de grande nível; isso depende sempre da perspetiva em que no colocamos". E não é que tinha razão?

Jorge Jesus tem um discurso popular. Que é entendido e apreciado. Não pelas classes A e B. Mas pelos outros. No fim, quem ri é ele.

FAINA

Melhor dizendo, regresso de outra faina... Dois dias, que vão ser três, de reclusão, para terminar o corpo central de um livro. A partir de segunda-feira, nem pensar em tal. Esta faina está quase concluída, depois de um percurso longo e tormentoso. Wellesiano, num certo sentido. Regresso, assim, da minha faina. Como os pescadores quenianos, retratados por Mirella Ricciardi. Que já por aqui passou, em tempos.

sábado, 8 de agosto de 2015

NARRATIVA? MAS QUAL NARRATIVA?


É, no essencial, uma história TI-PI-CA-MEN-TE portuguesa. Falta de direção política, cedência do SEC a pressões de ordem diversa, improviso, ausência de visão de longo prazo. O diretor do museu demite-se em conflito com a tutela, o processo vai em frente, mas sem coerência. Foi a curiosidade de saber o que iria encontrar que me levou à exposição "Narrativa de uma coleção - Arte Portuguesa na Coleção da Secretaria de Estado da Cultura (1960-1990)", inaugurada há duas semanas no Museu Nacional de Arte Contemporânea.

Foi uma experiência de prazer, pela quantidade e qualidade das obras, mas foram também horas penosas. Não há uma folhas explicativas ou um só (um, para amostra) texto de enquadramento que nos explique o que estamos a ver ou que sugira uma linha condutora. Vogamos entre autores e tendências, sem que resulte clara a lógica do percurso. As peças são ótimas. Algumas delas são de crucial importância para se perceber a evolução dos artistas. Mas a exposição, do ponto de vista didático, é uma inexistência. Uma lástima, com tanta matéria-prima. Não era isto, de certeza, que os curadores tinham preparado...

Aguardemos o que se vai passar. Esperemos, em especial, pelo catálogo.

António Palolo, Sem título, 1973

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

SITE AQUÁTICO - http://www.cm-moura.pt/expo.agua/

A exposição Água - património de Moura já tem site. Bastante simples, e com intuitos informativos. Irá sendo enriquecido e completado ao longo destes quase dois anos. A programação e as atividades da exposição aqui estarão. Em permanência. Não podemos hoje dispensar este tipo de recursos. Mais do que isso, podemos e devemos usá-los. Tradição e modernidade, investigação e divulgação podem e devem complementar-se. É isso que iremos fazer.

Ver:
http://www.cm-moura.pt/expo.agua/

E, também, a reportagem no "Diário do Alentejo":
http://da.ambaal.pt/agenda/?id=1687

A DISTÂNCIA DE UM SONHO

Último dia de férias ligado a um site, flightaware. Seguindo o percurso de uma amiga que achou que valia a pena o risco de uma estada longa lá longe. Dentro de dias estará em Pecos. Não resisti a perguntar se conhecia a expressão "the law west of the Pecos". Não conhecia, claro. Isso são coisas de semivelhos. Figuras como o juiz Roy Bean ou o sheriff John T. Chance ou o  sheriff J.P. Harrah só lhe serão familiares mais tarde. Tenho disso a certeza.

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

SUBITAMENTE NA CIDADE BRANCA

Uma rápida passagem pela cidade branca. Pretexto para se retomar um filme, que considero falhado em quase toda a linha. Wim Wenders cedeu à tentação folclorista e quis meter o Rossio na Rua da Betesga, para usar uma expressão alfacinha. Esta encomenda da Lisboa - Capital da Cultura teve, ainda assim, inegáveis méritos. Deu visibilidade à cidade. Sublinhou a importância mundial dos Madredeus. Já não é coisa pouca. E até mesmo os mais talentosos, como Wenders, têm direito a momentos menos bons.

Celebre-se a cidade. E a (sua) música.

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

DO MEDITERRÂNEO

Regresso breve a Mértola. Por uma tarde, que o tempo mais não permite. Participação no curso livre Patrimónios do Mediterrâneo. Iniciativa conjunta das Universidades Nova de Lisboa, de Évora e do Algarve, com o apoio do Campo Arueológico de Mértola. Entre 13 e 22 de setembro.

A imagem do cartaz é, provavelmente, grega, eventualmente das Cíclades. É curioso como a imagem do Mediterrâneo se liga tanto a este tipo de fotografia.

Ver - www.camertola.pt



terça-feira, 4 de agosto de 2015

ILHA

Nem Moura, nem Mértola, nem Pasárgada. O nome da ilha pode ter sugestões narcísicas, mas o sítio para escrita é, por certo, este. Quando e como é que não sei... Senti isso mesmo, com 25 anos de diferença. 



ILHA

Deitada és uma ilha. E raramente
surgem ilhas no mar tão alongadas,
com tão prometedoras enseadas,
um só bosque no meio florescente,

promontórios a pique, e de repente,
na luz de duas gêmeas madrugadas,
o fulgor das colinas acordadas,
o pasmo da planície adolescente.

Deitada és uma ilha. Que percorro
descobrindo-lhe as zonas mais sombrias.
Mas nem sabes se grito por socorro

ou se te mostro só que me inebrias.
Amiga, amor, amante, amada, eu morro
da vida que me dás todos os dias.


David Mourão-Ferreira

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

PAINT IT BLUE



Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem: outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Por que tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.

Ricardo Reis, in "Odes" 

Dia de pausa. Helena Almeida é um discreto nome de grande valor. Este seu trabalho data de 1977, é mais moderno que muita duchampice barata que por aí anda. Study for Inner Improvements é o título do trabalho. Pintem-se os dias de azul. O futuro, em particular.

domingo, 2 de agosto de 2015

PERIQUITOS E CANÁRIOS

À boleia do blogue de Francisco Seixas da Costa, que hoje reproduz algumas das frases mais célebres de um antigo Presidente da República. Figura decorativa do regime fascista, a dinâmica de Américo Tomás cingia-se às alterações de grafia do seu próprio nome, mistério nunca esclarecido: umas vezes era Thomaz, outras Tomaz, noutras ainda fica-se por um mais popular Tomás.

Os arquivos da RDP conservam a gravação de uma das suas intervenções públicas. O nível é evidente, e ser Chefe do Estado a mais não obrigava... Aqui a reproduzo, porque todos nós precisamos de uns momentos de descontração.



“O senhor almirante Sarmento Rodrigues quis que eu dissesse algumas palavras. Ei-las. Tenho quase todos os livros que ele escreveu, todos eles com amigas dedicatórias, também um pequeno folheto que ele publicou sobre o canário encarnado porque ele preocupou-se imenso em conseguir um canário que não fosse da cor habitual e de vez em quando lamentava-se de não conseguir obter aquele canário que ele tanto desejaria possuir. E agora mais um simples episódio para juntar àqueles que eu ouvi aqui citar. Ele era muito meu amigo. E uma vez resolveu dar, dar-me dois periquitos, os melhores periquitos que tinha na sua colecção. Cheguei a casa com eles muito contente, mas em casa não receberam bem os periquitos. Resultado: tive de dar que os dar. Um deles sei a quem o dei. Tá aqui presente a pessoa: o almirante Noronha Andrade. Mas não lhe disse nada que me tinha desfeito dos canários (uma voz: dos periquitos), dos periquitos digo. E mais tarde, uns anos depois ele diz-me assim: então o senhor deu os melhores periquitos que eu tinha e que eu lhe tinha dado com tanto gosto? É verdade, dei porque não os podia ter em casa, mas não lhe disse nada para não o desgostar. Afinal de contas houve alguém que deu com a língua nos dentes e você ficou zangado comigo. Zangado não fiquei porque sou muito seu amigo.”

SWARM


O príncipe Feisal para Lawrence da Arábia (diálogo do filme de David Lean):

Or is it that you think we are something you can play with? Because we are little people; a silly people; greedy, and barbarous, and cruel. Do you know, Lieutenant, in the Arab city of Córdoba were two miles of public lighting in the streets when London was a village?

O argumento do filme é de Robert Bolt e de Michael Wilson. Este último era um dos blacklisted...

Saber História é importante. Em cargos de decisão, esse conhecimento, a mundivivência e uma visão fraterna do mundo são fundamentais.

TEXTOS RIGOROSAMENTE VIGIADOS

Quem está em funções públicas está, também, sujeito a um permanente e firme escrutínio. Num concelho onde quase toda a gente se conhece, mais apertado e pessoal se torna esse controle. Nada que não esperasse, nada que me faça perder a calma. Foi assim antes (na campanha eleitoral aturei, em silêncio, as mais sórdidas difamações) e é assim agora, quase sempre de forma anónima e convenientemente cobarde. Nada que me enerve.

A parte engraçada, e essa sim merece comentário, ocorreu anteontem. Um texto, escrito de forma neutra e apenas informativa, deste blogue foi denunciado e bloqueado no facebook. Foi, claro está, reposto poucas horas depois. Não havia nada que justificasse a sua eliminação.

1. Fico satisfeito, orgulhoso até, pela atenção que o trabalho que desenvolvemos em Moura merece;
2. Agrada-me que zelosos inquisidores queiram apagar o nosso trabalho;
3. Esta forma pouco esclarecida de se nos oporem terá a merecida resposta, no terreno e, também, através de uma ativa política de informação.

Tenham lá paciência, ok?

Espionagem literalmente de esgoto, neste caso no filme "The conversation", de Francis Ford Coppola

sábado, 1 de agosto de 2015

BORGES COELHO EM DISCURSO DIRETO

Foi meu professor sem nunca me ter dado uma aula. Leio-o desde os meus tempos de liceu (1978 ou 1979). Admiro-o desde então. É um dos nomes maiores da Cultura Portuguesa. Entrevistei-o para o livro Historiador em discurso directo, editado pela Câmara de Mértola em 2003. Em 2008 encarregaram-me, na Universidade do Algarve, de redigir um parecer que justificasse a atribuição do grau de Doutor Honoris Causa a António Borges Coelho. Fiquei lívido "quem diabo sou eu para avaliar o António?". Escrevi então um texto mais com o coração que outra coisa...

Há um mês, o semanário Sol entrevistou-o. Aqui reproduzo o texto do jornalista César Avó. Na íntegra, porque tudo o que o António diz (nos) é essencial.


Aos 86 anos, o historiador lança o quinto volume da sua História de Portugal - Os Filipes e trabalha já no próximo. Desculpa para ouvirmos um vulto da Cultura falar não só sobre a História de Portugal, mas também da sua, da descoberta de Marx em Murça através de um pedreiro à prisão em Peniche, da primeira experiência nos jornais à entrada na Faculdade de Letras, dez anos depois de Raízes da Expansão Portuguesa ter feito furor e sido censurado.
Em Os Filipes há algum dado que tenha destapado?
Tem uma estrutura bastante diversificada e que partiu dos factos, uns mais conhecidos, outros menos, uns propositadamente esquecidos e fundamentais que ficaram no limbo e agora foram postos em relevo. Por exemplo, a resistência dos Açores aos Filipes durante três anos é conhecida, mas praticamente poucos portugueses, excepto os açorianos, terão consciência disso. Foi uma resistência terrível. Também não sendo uma novidade, subestima-se o que foi a repressão em Lisboa e o assalto espectacular à capital pelo exército do duque de Alba e pela esquadra do marquês de Santa Cruz. E fala-se na monarquia dual, mas não era nada, era o projecto da monarquia católica universal. É evidente que o elemento que sustentava essa guerra era o ouro e a prata produzidos na América espanhola. Há livros fundamentais e a História de Portugal dirigida por Damião Peres em 1940 tem grandes colaboradores e está em muitos aspectos inteiramente válida hoje.

Pensava que era datada, típica do Estado Novo.
É uma visão nacionalista, mas tem alguns autores que não perderam a actualidade na História política. Nos últimos anos tem havido uma subestimação da História Política. Nenhum autor, sobretudo isolado, pode abarcar toda a vastíssima informação que houve no passado. Também não é necessário lê-la toda, mas a mais significativa. Não é por deitar pedras daqui da janela que provo a lei da atracção universal. Já está provada. Não se pode é ignorar a História Política. Os homens fazem a História e herdam um passado. Foi assim e não assado porque intervieram, quer colectivamente, quer individualmente. O historiador tem de estar envolvido na política, não pode estar a sachar cebolas e se não acompanha o movimento colectivo não compreende os documentos que lhe aparecem à frente. 

Voltando ao livro, há pormenores muito interessantes, como os falsos sebastiões.
É curioso e mostra como aquilo que alguns autores falaram da identidade hispânica e que se davam todos muito bem, ao nível popular, caramba, houve uma reacção que atingiu proporções… Oliveira Martins exagerou ao dizer que Portugal acordou com as bofetadas da França e de Inglaterra. Houve apoios e interesses dos ingleses e dos franceses, mas houve participação popular.

O livro demonstra muitas mudanças de posição.
Não é só hoje. Se hoje fizermos um retrato dos políticos no 25 de Abril e agora há mudanças do arco-da-velha.

Cita muito uma fonte, Pero Roiz Soares, que tem um estilo muito romanceado. É totalmente crível?
A literatura não é inimiga da História. Fernão Lopes, João de Barros ou Alexandre Herculano são grandes escritores. A História não é uma linguagem matemática. Utilizo esta fonte que tem sido completamente ignorada, mas ela é confirmada por uma série de outras fontes. Ele faz um relato fantástico sobretudo de Lisboa num período determinante para a História dos Filipes. 

Qual foi o grande erro da dinastia filipina? Não transformar Lisboa na capital do reino?
Isso é entrar muito nos 'ses'. Um dos 'ses' fundamentais é que a grande burguesia foi expropriada. Quem são as principais vítimas da Inquisição? A grande burguesia portuguesa e a que emigrou para Espanha e outros locais e à qual não lhe era permitida o desenvolvimento. Os que se mantiveram cá punham os capitais nos inimigos de Espanha. O grande problema é a derrota do projecto filipino, no final da Guerra dos Trinta Anos, com o Tratado de Vestfália que é a vitória da Europa do Norte, e a derrota do Papado e da monarquia habsburga. Isso de a capital ser Lisboa, especula-se, é uma coisa tradicional. Se tivesse acontecido seria mais difícil a Restauração, indiscutivelmente.

Disse que a História política é subestimada. Revê-se na corrente de Fernand Braudel?
Foi uma grande corrente. Eu fui sempre muito individualista. Se for ver as minhas referências vai ler que me põem sempre como marxista e nem sequer sabem o que li. Tive muita honra e muito orgulho em ler Marx, mas li muitos outros filósofos e muitos outros contemporâneos. A História não se faz através da ideologia, faz-se a partir dos factos e há ferramentas que são específicas da História. Pode-se dizer que Marx me influenciou no sentido de olhar para as pessoas? Sim, e todo o mundo contemporâneo. Há um autor contemporâneo por quem tenho uma admiração especial, o Eric Hobsbawm, que tem uma obra fantástica, A Era dos Extremos, e que é uma época mais difícil trabalhar, que é a época contemporânea. Agora menos, mas durante anos tinha sempre um livro de filosofia à cabeceira. Podia ser de um pré-socrático, podia ser dos dois filósofos que mais estudei na minha vida, Espinosa e Leibniz. Marx influenciou-me na minha vida política, o que não quer dizer que só falo depois de pedir opinião ao Marx. 

Revê-se hoje em Marx?
Considero um livro como o primeiro volume de O Capital uma obra admirável. Para achar que tem razão em tudo? Não pode ser esse o espírito de leitura, que é a leitura crítica. Se me perguntar pelo Manifesto Comunista, está actual? Há coisas que estão actuais, outras não. O tempo amarelece as folhas.

Poria a pergunta de outra forma. Revê-se na aplicação do marxismo na política?
Isto vai escandalizar os meus amigos: a aplicação do marxismo é a introdução de um certo espírito religioso na política. Aceito que na política haja certos autores como modelos. Mas não vou pedir licença ao autor tal para aprovar uma certa lei. Temos de partir da realidade viva e temos instrumentos de pensamento e aí entra Marx e entram outros autores. E entra tudo o que foi o final do século XIX e o século XX. E quando entra tudo, meus amigos, temos de deitar a mão à cabeça e confessar que correu de uma forma… enfim, não quero mais falar sobre isso.

Quando é que Marx entrou na sua vida? 
Muito cedo, tinha eu uns 17 anos, em Trás-os-Montes. 

Não devia ser um autor muito lido em Murça.
Saí do seminário convencido de que ia para o Inferno, mas a achar que antes isso do que continuar ali. Acabei por ser expulso. Saí quase com dificuldade em falar com as pessoas. Depois tornei-me muito amigo de um sobrinho do Militão Ribeiro, um grande militante comunista, e um mártir do fascismo, a expressão que lhe cabe é essa. E foi através de um pedreiro que li o Manifesto Comunista, numa tradução espanhola. Tinha escondido numa lata do quintal várias obras e disse-me: 'Ó senhor Toninho, leia que vai gostar'. E de facto gostei, é um texto político fantástico.

Saiu do seminário porquê?
Sentia-me enclausurado. Disseram-me que perdi a vocação e que esse pecado, segundo o confessor, era imperdoável. O que até nem é correcto do ponto de vista religioso, porque todo o pecado é perdoável. Os nossos Descobrimentos foram fertilíssimos em pecados perdoáveis. Não sei se a consciência tinha aguentado tanto pecado mundo fora (risos).

Esteve lá quantos anos?
Cinco. Saí quando terminou a guerra, 1945. No quinto ano não estudei e escrevi uma História da Literatura Grega e Latina e queria ir embora. Estava a pensar fugir, mas acabei expulso. 

Como vem parar a Lisboa?
Concorri a Direito e vim fazer o exame de admissão. Foi com o pretexto de que vinha estudar, mas já na altura tinha ideias revolucionárias, e a família não queria que viesse. Cheguei a Lisboa e não tinha dinheiro. Tive o apoio de estudantes de Medicina, que me matavam a fome e vivi no quarto de um conterrâneo. Só três meses depois consegui arranjar emprego. 

Lisboa abriu-lhe os horizontes.
As eleições presidenciais e a faculdade também abriram… Entrei no MUD Juvenil.

Quem era a sua referência na altura?
O Carlos Aboim Inglez, que era meu colega de ano e de curso, e que me introduziu no MUD Juvenil. E um médico radiologista, que ainda hoje é vivo, que me matriculou em Histórico-Filosóficas porque desisti de Direito. Fiz o primeiro ano, depois vivi como membro do MUD Juvenil como quadro clandestino até ser chamado para funcionário do Partido Comunista durante meio ano.

Preferiu Lisboa a Coimbra, porquê?
Na minha terra não andavam na universidade sequer dez pessoas. Andava o meu irmão que era filho de uma lojista e de um guarda-fios, e depois havia os filhos dos senhores agrários e grandes comerciantes. Iam geralmente para Coimbra, para as estúrdias, era isso que atraía. Lisboa abria a porta para o mundo. E eu já tinha vivido em Lisboa durante dois anos. Os meus pais fixaram-se entre o largo do cemitério do Alto de São João e a Graça. A minha mãe abriu uma espécie de mercearia e o meu pai trabalhava como guarda-fios.

Por que voltaram para Murça?
A minha mãe tinha pequenas propriedades e havia diferenças no casal por causa disso. E o meu pai conseguiu ser colocado em Murça. Já antes tinha ajudado na construção das linhas da zona de Aveiro. O meu irmão mais velho foi gerado nessa linha (risos). A minha mãe voltou à terra e ficou muito conservadora, muito católica apostólica romana. Só no fim da vida é que ficou cheia de dúvidas.

E quanto a si, é crente?
Não. Houve coisas muito positivas na Igreja portuguesa e outras extremamente negativas. Respeito muito os homens da Igreja actual e ex-colegas meus. Por outro lado, em relação ao destino do homem, tenho a noção clara de que somos bocadinhos de nada no universo. A mitologia das religiões intelectualmente não me diz nada. Percebo, mas estou perto do Espinosa, quando escreveu que são instrumentos teórico-práticos de obediência. Sem ritual não há religião, não há crença. Eu mantenho algumas coisas. Às vezes gosto de cantar o cantochão. Gosto, é belo, acalma-me. Tive uma batalha muito grande para me libertar, tive conflitos e problemas gravíssimos na minha vida, mas esse não aflora.

É ateu?
Se lhe dermos o significado do Deus das religiões positivas, nesse sentido sou ateu. Tenho ternura por Jesus Cristo. Tive este sentimento ao longo da vida, gosto dos Salmos, não propriamente da História do povo de Israel. Agnóstico também não sou, porque significa que sobre este tema tenho dúvidas e se calhar o Deus de Israel existe e vai julgar-me. Essa conversa não é para mim. Há pessoas que têm necessidade de acreditar nos símbolos, etc., eu compreendo, tudo bem. Mas foram utilizados para fins nada brilhantes, como é o caso da Nossa Senhora de Fátima. Não brinquem comigo, vão lá com os três pastorinhos.

Acha que foi uma fraude?
Está provado pela documentação. Mas dirão: a razão não chega, a crença nasce do sentimento. No meu tempo houve uma segunda Nossa Sra. de Fátima em Trás-os-Montes. Não eram três pastorinhos, mas uma pessoa que tinha as chagas de Cristo. Um dia juntaram-se 50 mil pessoas e viram o sol a mudar de cor. Só que era gente a mais, uma concorrência muito grande para Fátima. E a senhora veio para a penitenciária de Coimbra. Esteve lá uma semana e continuou com as chagas. Proibiram as freiras de visitá-la, não chegou o nitrato de prata e as chagas acabaram. O padre e o médico seu irmão estavam na base de tudo isso.

Voltando atrás. Quem era o seu controleiro no MUD juvenil? 
Era o Dias Lourenço, foi o homem da mais audaciosa fuga de Peniche. E tive um outro, Guilherme de Carvalho, que esteve no Tarrafal, era filho de um banqueiro e é sogro de outro banqueiro, o Pina Moura.

Esteve preso na mesma altura que Álvaro Cunhal?
Estive dois anos com o Cunhal em Peniche. 

Foi logo para lá quando foi preso?
Não. Fui preso em Janeiro de 56 e estive meio ano nas celas do Aljube. Depois fui para Caxias, e daí fui levado em Dezembro para o Porto, onde fui julgado no processo do MUD Juvenil. O processo demorou cerca de sete meses, com sessões de manhã, à tarde, e algumas à noite, com 52 réus jovens e dois adultos, que eram o Óscar Lopes e um advogado. Fui condenado a dois anos e nove meses. 

Peniche era a mais dura das prisões?
Claro que era. Era um regime celular, cada um na sua cela. Havia quatro faxinas diárias, limpeza, varrer, lavar a loiça e por vezes descascar a batata. Quando não havia castigo uma hora de recreio e havia uma hora à tarde, no refeitório, em que podíamos escrever à família, ler e fazer perguntas por intermédio do guarda: 'Ó senhor guarda, posso perguntar?'. Era este o regime que melhorou ligeiramente pouco antes da fuga. Houve um grande movimento internacional e uma visita de personalidades estrangeiras à prisão. Então deixaram entrar um gira-discos e as perguntas tornaram-se mais simples, mas de resto tudo na mesma.

Conversava com Álvaro Cunhal?
Cifrado. Tínhamos uma linguagem própria. Havia determinadas palavras que não eram as autênticas. No recreio o guarda estava sempre no meio e dizia 'Fale mais alto que eu também quero ouvir'. Mas nós tínhamos a voz treinada e a voz ia até determinado sítio. De vez em quando ia qualquer coisa para o alimentar. E havia contacto com o exterior. A fuga foi organizada no interior e no exterior. Foi uma fuga espectacular.

Teve hipótese de fugir?
Tive. Não quis porque nessa altura continuava no partido mas queria levar a vida que levei depois, isto é, queria escrever, etc. Depois da fuga foi muito difícil, fui parar ao Aljube e à estátua. Represálias. Foi um trauma muito grande na minha vida. Quando saí, mais tarde, estava em liberdade mas sentia uma mágoa pelos outros que lá estavam presos. Os laços que se criam com os companheiros da prisão são indestrutíveis.

Quando é que saiu da prisão?
Em Maio de 62, em plena luta académica.

Entretanto casara-se na prisão.
A minha mulher, Isaura Silva, esteve quatro anos presa. Não era comunista, era do MUD Juvenil, estava envolvida na luta das enfermeiras, pelo casamento das enfermeiras. Estava proibida de me visitar porque não era minha parente. Mas houve uma luta para nos casarmos e acabou por ser autorizado. Aí vai a noiva no carro com o filho do Monjardino, que era o patrão dela na maternidade, e com as testemunhas. As minhas eram a Maria Amélia Padez, uma antifascista casada com um polaco que ajudou muitos portugueses a emigrar para Paris; o Alexandre O'Neill; e os meus cunhados que eram os padrinhos da noiva. O meu sogro fez um escândalo porque eu estava de um lado da mesa e a noiva do outro. Lá ficámos ao lado um do outro e ao fim de uma hora tudo acabou.

A comida era a da prisão?
Não, os meus sogros levaram e também vinho. Nós podíamos beber vinho uma vez por ano, no Natal, uma canequinha.

Como conheceu o O'Neill?
No MUD Juvenil. Fui um dos homens de contacto dele. E foi uma das casas onde dormi. Andei dois anos sem salário nem residência fixa. Com ele discutia poesia. Tínhamos longas discussões e chegou a propor-me fazer poemas em conjunto. 

Para as novas gerações a luta da sua mulher é algo de fantástico.
As enfermeiras e telefonistas não se podiam casar, é uma coisa incrível. As pessoas não têm ideia do que era o fascismo e há muita gente que acha que era bom, que havia autoridade.

Como foi quando saiu da prisão?
Tive à volta de 30 empregos. O essencial foi tradutor e explicador de História e Filosofia e fundador d'A Capital. Saí ao cabo de dois anos. Eu estava em liberdade condicional e queriam que eu fosse para a Rodésia cobrir a guerra colonial, e eu recusei. Depois mandaram-me a Peniche cobrir uma visita do Américo Tomás, a guarda de honra eram os guardas prisionais. Quando cheguei à redacção anunciei que me ia embora.

Como é que o tratam? Por professor?
Muita gente trata-me por professor. Estive como professor universitário durante 24 anos na Faculdade de Letras. E no período mais polémico, mais vivo e mais criador da alteração das estruturas, de reformas efectivas, com os estudantes e professores a terem um papel fundamental. 

Foi um tempo apaixonante.
Apaixonante. Hoje até me dá alguma tristeza entrar nos corredores da universidade e vê-los quase desertos. Naqueles tempos estavam sempre cheios de gente. E não era só a namorar. Não havia gabinetes, o meu gabinete foram os corredores ou uma sala ad-hoc. A investigação era feita em casa. 

Vivia em Lisboa?
Sim, mas coincidiu com o 25 de Abril vir para aqui (Parede). Fui um desalojado do 25 de Abril. A minha casa era de um cunhado meu que estava no exílio e voltou, pelo que vim para a minha casa de férias.

Havia muita discussão na faculdade?
Muita tensão. Mas isso fez parte e era gratificante.

Na altura tudo se punha em causa.
Exactamente. Vou dar-lhe um exemplo, sobre um seminário criado em 1974 sobre o infante D. Henrique. Caiu-me por acaso em cima e eu cheguei à universidade com a fama de ser o diabo vermelho. Quando entrei na sala do seminário verifiquei que os alunos olharam para mim com o ar de 'só nos faltava aparecer este'. Limitei-me a dizer: 'Em relação às vossas opiniões não tenho nada com isso. A única coisa que vocês têm de fazer é basearem-se sempre em documentação e depois têm as opiniões que quiserem'. Sei que passados aí dois meses estavam muito mais exaltados do que eu no mundo social e político. Não que eu fosse discutir política para a aula, na aula discutia as matérias. Para mim foi importantíssimo porque aprofundei conhecimentos e voltei-me para o ensino sempre com a intenção de indagar, de ir ao fundo, de não ficar pelo que disseram todos até à data, mas sim encontrar coisas novas, com base na documentação, e levar os alunos a interessarem-se pela investigação.

Como eram as suas aulas?
Geralmente tinham uma introdução e depois havia um debate sobre a matéria. Havia efectivamente intervenção dos alunos. Eram aulas extremamente vivas.

De certo modo era uma novidade.
Era. No meu tempo, os professores debitavam, os alunos tiravam notas, faziam uma sebenta e empinava-se. Comigo havia uma bibliografia mínima e para avaliação havia um trabalho que podia ser individual ou de grupo. 

A sua tese de doutoramento foi sobre a Inquisição de Évora. Porquê?
Começou por uma tentativa de mostrar como o pensamento moderno tinha a ver com a crise de cristãos-novos e cristãos-velhos e a emigração europeia a ela ligada. Tinha como centro a obra de Espinosa e o envolvimento dos cristãos-novos portugueses em Amesterdão. À medida que avancei à procura dos familiares de Espinosa levou-me a entrar a fundo na Inquisição de Évora. Alguns alunos meus fizeram o inventário dos processos da Inquisição de Évora até um determinado período e eu trabalhei sobre isso durante quase nove anos. Julgo não se ficar apenas pelo tribunal mas tenta verificar e qualificar as vítimas e dar ideia do que foi o imenso sofrimento das vítimas e do que isso significou para a cultura e para a História portuguesa e de que ainda hoje temos os restos em cima de nós. 

Que restos são esses?
É o espírito da denúncia: o tribunal vivia da denúncia, o pensamento estava continuamente em análise, os próprios pensamentos secretos estavam sob alvo da pesquisa da Inquisição. Dizia-se antes que a Inquisição nos livrou das guerras da religião. E o que ela nos trouxe? Queimaram em praça pública três mil desgraçados, muitos deles inocentes. Isto é diabólico e nós como povo ainda não tomámos consciência do que foi. Nem a Igreja, que foi a principal responsável.

A Inquisição foi um dos factos mais tenebrosos da História de Portugal?
Em certo sentido foi o pior, porque se manteve quase durante três séculos. Ao nível criador é terrível. Não é um acidente como o terramoto de 1755 ou a guerra da Restauração, que foi muitíssimo violenta. A Idade Média foi muito dura mas pôs a região portuguesa e de certo modo a Península Ibérica num grande desenvolvimento, para os parâmetros da época. Foi uma época extremamente criadora, foi essa geração de Aljubarrota que lançou Portugal na expansão. 

Estava a dizer que ficou nos portugueses o espírito da denúncia. E que mais marcas?
O medo. 

Os portugueses continuam com medo?
Ainda há muito medo. A prova disso é que os movimentos cívicos em Portugal têm pouca força. A situação social actual, com desemprego em massa, cria um medo terrível. Esta é a situação real no inconsciente colectivo, sobretudo nas zonas mais conservadoras.

Tendo em conta que estudou a presença árabe no nosso território, surpreende-o a barbárie do Estado Islâmico?
Se regressarmos à Idade Média, há um islão criador, no sentido em que vai buscar o passado greco-romano, e que conservou algumas obras fundamentais. E do lado cristão, vamos à Restauração, e como era castigada uma conjura? Pescoço fora, forca de cabeça para baixo ou de cabeça para cima, arrastados depois de mortos pelas ruas e partidos aos bocados. Toda a prática do medo é bárbara, miserável é o termo, e o equivalente quando destroem a memória da humanidade. Na verdade o Ocidente tem também muita culpa no cartório. A exploração das matérias-primas com a conivência de pequenas dinastias e de ditaduras terríveis. O que não quer dizer que devemos ficar parados a olhar.

Também pelo facto de muitos desses combatentes serem ocidentais.
Porque é que na Europa tantos jovens se deixam atrair, embora muitos enganosamente, para a aventura? O número de jovens que nos países desenvolvidos não se acham realizados é extremamente preocupante