segunda-feira, 14 de setembro de 2015

YOUTH WITHOUT YOUTH - E A FEIRA FOI

O problema de uma feira é este. De quinta, às 19, até domingo, às 22, não há pontos mortos. Crónica fotográfica de quatro dias sem respiração possível.


Quinta, 10
Visita do Presidente da Câmara de Cuba - passagem pela Zona Industrial

Inauguração da feira


Sexta, 11
Visita do Alcaide de Olivença - deslocação ao recinto da feira

Sessão com o Prof. Pedro Aboim (Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril) - novas perspetivas para as ementas

Sunset Color Party


Sábado, 12
Concurso de méis - entrega de prémios

Corrida de touros - foto: facebook do Real Grupo de Forcados Amadores de Moura


Domingo, 13
Apresentação da iniciativa Prémio Municipal de Artesanato e, finalmente,

Entrega dos prémios do concurso de petiscos

domingo, 13 de setembro de 2015

A TERRÍVEL TENTAÇÃO DO TABACO

É um dos meus filme preferidos. E esta é uma das suas cenas mais divertidas. A juventude, a tentação, a luxúria, a transgressão, tudo em muito poucos minutos. O sr. Jean Nicot (1530-1600) não poderia imaginar coisas assim. O filme de Fellini data de 1973. A principal intérprete da cena é Maria Antonietta Beluzzi (1930-1997).

Amarcord regressa ao blogue. Com toda a justiça. É o filme da semana.

sábado, 12 de setembro de 2015

MARIANO PIÇARRA - PRÉMIO DE DESIGN 2015

Mariano Piçarra ganhou o Prémio de Design Português (Prémio Pádua Ramos em design de interiores), com o projeto que concebeu para a exposição 360º - Ciência Descoberta (referida em tempos aqui no blogue - v. aqui). Havia outras duas categorias em que foram atribuídos prémios: design de produto e design de comunicação.

Sobre a exposição teci uma brevíssima consideração, que reproduzo: 360º - Ciência Descoberta é um trabalho deslumbrante. Peças antigas vivem no meio da modernidade. Para que o trabalho de investigação tenha resultado em pleno muito contribuiu a museografia, da autoria de Mariano Piçarra.

Sou amigo do Mariano Piçarra há mais de 30 anos. É dos mais abertos adversários da minha opção pela vida política... Coordenei dois livros de fotografia, aos quais o Mariano deu brilhante contributo: Mértola (editado em 1997) e Moura - crónica da festa (de 2001). O trabalho mais insólito (é a palavra adequada, acreditem!) foi, porém, o do projeto da musealização da torre de menagem do Castelo de Moura. Iniciado em 1989, foi metido na gaveta pela vereação socialista em 1990. Guardo desse episódio memórias vivas, em particular pela desqualificação que o projeto (subscrito pelo Mariano e por mim) foi alvo. A História vive-se no tempo longo. O processo foi retomado em 1999, nele se incluindo um projeto de luminotecnia de Vitor Vajão. Dificuldades de vária ordem, e mais alguns escolhos que foram sendo criados, não pararam o processo, ainda que o tenham demorado um pouco mais. A Torre de Menagem abriu ao público em 24 de junho de 2013. Tinham passado 24 anos desde a apresentação do projeto à Câmara de Moura.

Parabéns, Mariano. Está na hora de retomarmos outras coisas que foram sendo adiadas.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

POUCO CIENTÍFICOS E AINDA MENOS TROPICAIS - pergunta: quem foi a grandessíssima besta?

A vontade de conhecer e a necessidade de conhecer acompanham-nos. Pelo menos, a muitos de nós. Grande parte da nossa História foi marcada pela procura do Conhecimento. A aventura marítima andou, de perto, ligada à pesquisa científica. Portugal formou, ao longo de décadas, de séculos, gente nestes domínios. A Botânica, a Zoologia, a História, a Linguística, a Antropologia, devem imenso a gente esforçada e competente. Muitos deles trabalhavam numa instituição agora extinta: o Instituto de Investigação Científica e Tropical. Não interessam complexos neocolonialistas ou tentações ligadas a um passado que urge esclarecer e combater. Mas sim, e sempre, o Conhecimento.

Somos, cada vez mais, um País tristemente virado sobre si. Ou que, fora de portas, apenas procura o seu reflexo. Fazemos lembrar, como dizia em tempos o meu amigo Joaquim Caetano, uma tirada de Groucho Marx: "But enough talk about me, let's talk about you...What do you think of me?". Extinguir uma instituição como esta é um ato analfabeto, de pequena vingança sobre a investigação. Os cientistas são integrados algures, o arquivo é integrado noutro, a alma do sítio perde-se. Mas isso do genius loci não é para esta rapaziada...

Foi último presidente do IICT e seu coveiro Jorge Braga de Macedo, especialista em Economia Internacional, Macroeconomia, Economia do Desenvolvimento e formado em Yale. Ou a prova de como a Ivy League não garante, à partida, coisa nenhuma...

A sua gestão teve um momento inesquecível e o único que ficará para a História: quando o IICT apoiou exposições da sua própria filha, artista plástica. Isso explica tudo, o durante e o depois.

O IICT foi extinto, cobardemente, faz agora um mês.


quinta-feira, 10 de setembro de 2015

EM DEFESA DAS NOSSAS TERRAS

A maioria PS/PSD chumbou, ontem, na Assembleia Municipal de Moura, um plano de trabalho intitulado Em Defesa das Nossas Terras. A que se destinava o investimento proposto, que seria disponibilizado através de empréstimo bancário?

100.000 euros - Proteção Civil (equipamento para os Bombeiros Voluntários de Moura).
200.000 euros - Habitação Social (150.000: Bairro do Carmo / 50.000: pequenas reabilitações no âmbito do projeto Ágora Social).
235.000 euros - Reabilitação de património (175.000: igreja de Safara / 60.000: igreja da Estrela).
200.000 euros - Parque de máquinas (125.000: autocarro de 28 lugares / 75.000: equipamentos para o setor das águas).
450.000 euros - Vias de comunicação (150.000: Ponto do Coronheiro / 225.000: repavimentações de ruas / 75.000: reparações em estradas municipais).

Total: 1.185.000 euros

Pretexto utilizado pelo PS/PSD para o voto contra: a utilização destas verbas deveria ser proveniente do orçamento municipal e não de um empréstimo.

Coisas destas só se dizem por desconhecimento, creio eu. Explicando e concretizando:

1) As verbas no orçamento correspondem, cada vez mais, a uma previsão ou a uma indicação, e não a uma possibilidade de real concretização;
2) A Lei dos Compromissos limita o uso do orçamento, o que faz com que muitas vezes as verbas estejam em orçamento, mas não sejam passíveis de uso. Por causa da lei acima citada e dos fundos disponíveis que a(s) Câmara(s) consegue(m) de facto, utilizar;
3) Os empréstimos bancários são uma disponibilidade de tesouraria, pelo que as verbas podem ser de imediato utilizadas. Temos demonstrado, ao longo de 2015, trabalho, obras, capacidade de decisão e de concretização. É isso que preocupa o PS/PSD. E ainda bem que assim é...

Fruto de uma cuidada gestão, a Câmara Municipal tem diminuído os pagamentos em atraso (de 2.600.000 euros para 200.000 euros) e tem melhorado a sua situação. Isso traduz-se também em capacidade de endividamento e na possibilidade de concretizar mais investimentos. É essa dinâmica, iniciativa e ação que preocupa PS e PSD.

No ano de 2016 não poderemos:
* Apoiar os Bombeiros como gostaríamos;
* Continuar o programa de apoio à habitação como os munícipes merecem;
* Restaurar as igrejas de Safara e da Estrela;
* Renovar o parque de máquinas da Câmara;
* Reparar a ponte do Coronheiro;
* Reparar ruas e estradas.

Cada um assumirá as suas responsabilidades. Nós assumiremos as nossas.


Fotografia de José Manuel Rodrigues. Preparamos (ele e eu) um livro sobre o vinho e a Amareleja.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

MIGRANTES



Há dias, Orbán proferiu uma frase que melhor define o seu espírito "europeu". Perguntado qual era a diferença entre a "cortina de ferro" do tempo soviético e o "muro" de 175 km que mandou construir entre o seu país e a Sérvia, disse isto apenas: "O primeiro era contra nós, este é a nosso favor".


no blogue http://duas-ou-tres.blogspot.pt

Os acontecimentos dos últimos dias, e a atuação de Viktor Orbán, vieram lançar dúvidas terríveis sobre o futuro. Fui, quase sem o querer, remetido para as obras de Ângela Ferreira (n. 1958), que vi há semanas no Chiado 8. A errância e o improviso, a informalidade da arquitetura como forma de interpretação do espaço como modo de adaptação e de sobrevivência. Os cabo-verdianos em Portugal, os portugueses na Suiça, os sírios sabe Deus onde...  O preconceito e o medo, que tantas vezes vi, nos anos 70 e 80, nos subúrbios de Lisboa, renascem com novos ingredientes: o Islão, o terrorismo, a ameaça da destruição da civilização ocidental. Não defendo corporações, mas saber um pouco de História é fundamental.

terça-feira, 8 de setembro de 2015

OMNISCIÊNCIA INTERNACIONALISTA

Você está aqui. E aqui. E aqui. E mais aqui. E também aqui.

A Revolução faz-se assim. Estando em toda a parte.

SOUS LE CIEL DE MOURA

O Pavilhão Gimnodesportivo de Moura e o seu sheltering sky.

Fotografia - Luís Xinha

FEIRA 2015

De quinta às 19 até domingo às 22.

A Feira de Moura começaria hoje (dia 8) pelo calendário antigo. Desde há quase 30 anos que acertamos o relógio pela segunda sexta-feira de setembro.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

ARQUITETURA NEOÁRABE EM REGUENGOS DE MONSARAZ

Eia, Abú Bacre, saúda os meus lares em Silves e pergunta-lhes
se, como penso, ainda se recordam de mim.

Saúda o Palácio das Varandas da parte de um donzel
que sente perpétua saudade daquele alcácer.

Ali moravam guerreiros como leões e brancas gazelas. 
E em que belas selvas e em que belos covis!

Quantas noites passei divertindo-me à sua sombra
com mulheres de cadeiras opulentas e talhe fatigado,

brancas e morenas, que produziam na minha alma
o efeito das espadas refulgentes e das lanças obscuras!

Quantas noites passei, deliciosamente, junto a um recôncavo do rio 
com uma donzela cuja pulseira rivalizava com a curva da corrente!

O tempo passava e ela servia-me o vinho do seu olhar
e outras vezes o do seu vaso e outras o da sua boca.

As cordas do seu alaúde, feridas pelo plectro, estremeciam-me
como se ouvisse a melodia das espadas nos tendões do colo inimigo.

Ao retirar o seu manto, descobriu o talhe, florescente ramo de salgueiro, 
como se abre o botão para mostrar a flor.


Al-Mutâmide (1040-1095) e a sua Evocação de Silves. Um poema e a não menos poética tradução de António Borges Coelho. Tudo por causa da arquitetura neoárabe de Reguengos de Monsaraz. Que adquire contornos oníricos à luz da noite.

FESTA DO AVANTE? QUAL FESTA DO AVANTE???

Dias de silêncio, aqui no blogue.
E na comunicação social.
O blogue poderá interessar aos que aqui passam. Pelo que o silêncio não é relevante.
Já o silêncio da comunicação social, quanto à festa do Avante! é bem mais significativo. Não vale a pena tentar calar assim uma das maiores manifestações culturais e políticas do nosso País. Bem sei que temos a Joana Amaral Dias em pelota, mais o dr. Portas, vestido mas desnudado pelos manifestantes. Ainda assim, tanto silêncio é um pouco pesado.

Momento divertido do comício (versão pessoal): Jerónimo de Sousa fala, em dado momento, em "inspiração". Um jovem amigo pergunta "não te cheira a inspiração?".  Alguém confirmou: "estes moços estão, de facto, em plena inspiração". Dois jovens sorviam um charro, ao nosso lado, como se não houvesse amanhã...

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

AVANTE! 2015

Irei só no domingo, que o País é maior do que parece...

Haverá um mar de gente na Atalaia. As TV não darão por isso... Há outros valores. Talvez a sô dona Judite da têvêi dê uns minutitos ao tema (e ao senhor Jerónimo, pitoresca maneira de tratar o secretário-geral do PCP). Nas reportagens haverá as tretas do costume e filmarão muitos idosos de cabelos brancos (hei, pssst! podem filmar-me a mim, que estou todo grisalho...). Vai uma apostinha que vai ser assim?

Tirando estes fait-divers, vai ser a grande Festa do Povo. É assim desde há quase 40 anos.

Ver - http://www.festadoavante.pcp.pt/2015/inicio

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

ARQUITETURA NEOÁRABE EM BAFATÁ

Foi a surpresa maior de ontem. Depois de um dia onde as surpresas não faltaram (na reunião de câmara chegou-se ao ponto de me atribuir um texto que nunca escrevi, no que foi o momento borgesiano do meu mandato autárquico), a mais agradável de todas foi esta bela fotografia de Alfredo Cunha. Um edifício neoárabe na Guiné-Bissau? Sim, com merlões de inspiração omeia, com uma porta de arco em ferradura apontado, bordejado pelo desenho de arcos polilobulados. Um desenho culto e de ressonâncias académicas.

Onde raio fica isto? Bissau não é, Cacheu também não, Bolama também não. Nem Bula, nem Canchungo. Encontrei depois a resposta: é Bafatá. Azar meu, nunca fui para Leste. OK, num próximo roteiro ficam Mansoa, Bafatá e Gabu.

Quem será o autor de tão insólito e bonito edifício?


A Espantosa Realidade das Cousas


A espantosa realidade das cousas 

É a minha descoberta de todos os dias. 

Cada cousa é o que é, 
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra, 
E quanto isso me basta. 

Basta existir para se ser completo. 

Tenho escrito bastantes poemas. 
Hei de escrever muitos mais. Naturalmente. 

Cada poema meu diz isto, 
E todos os meus poemas são diferentes, 
Porque cada cousa que há é uma maneira de dizer isto. 

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra. 
Não me ponho a pensar se ela sente. 
Não me perco a chamar-lhe minha irmã. 
Mas gosto dela por ela ser uma pedra, 
Gosto dela porque ela não sente nada. 
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo. 

Outras vezes oiço passar o vento, 
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido. 

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto; 
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem estorvo, 
Nem idéia de outras pessoas a ouvir-me pensar; 
Porque o penso sem pensamentos 
Porque o digo como as minhas palavras o dizem. 

Uma vez chamaram-me poeta materialista, 
E eu admirei-me, porque não julgava 
Que se me pudesse chamar qualquer cousa. 
Eu nem sequer sou poeta: vejo. 
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho: 
O valor está ali, nos meus versos. 
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade. 

Alberto Caeiro, in Poemas Inconjuntos

MOURA - MELHOR AMBIENTE

Divulgando, com prazer, duas intervenções que estão em curso em Moura:

1. A substituição da cobertura do Pavilhão Gimnodesportivo, a que se seguirá a renovação do pavimento. Em dezembro, teremos um pavilhão renovado e melhorado. A obra tem um custo global que ultrapassa 200.000 euros. O telhado, em fibrocimento, não apresentava risco para a saúde pública. A sua destruição parcial, durante uma intempérie, obriga, contudo, a uma completa renovação.
Conclusão da obra: dezembro de 2015.

2. A construção de um viveiro, capaz de dar condições de trabalho adequada ao setor do jardins. Trata-se do culminar de um processo, pelo qual todos lutámos. Do jardim se passou para um quintalão, onde com esforço, se improvisou o que era possível. Agora, as condições passam a ser outras. Para benefício de todos.


quarta-feira, 2 de setembro de 2015

AVALIAÇÃO CIENTÍFICA EM PORTUGAL

Imagino que devam ter pena de mim e continuam a mandar-me regularmente informações sobre a atividade científica na Pátria. Fico sensibilizado e agradeço, claro.

É um domínio que conheço razoavelmente bem. Fiz parte de unidades de investigação, orientei dissertações, integrei júris, as coisas habituais. Entre 2007 e 2013 integrei os painéis de avaliação de bolsas de doutoramento e pós-doutoramento na Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Razões de ordem política, bem visíveis, fizeram-me quase terminar o meu trabalho nesse domínio. Saí do painel de avaliação em boa hora. O que se tem passado nos últimos dois anos ultrapassa tudo quanto a  mais elementar decência admitiria. A cereja sobre o bolo (nunca percebi este dito, mas ok, é habitual): a minha unidade de investigação passou da classificação de very good (muito bom) para fair (suficiente). Emburrecemos todos de forma súbita...

Um conjunto de cientistas de alta qualidade lidera este processo de esclarecimento e de combate. Quando olho o passado recente, fico com a estranha sensação que muito do que se passa é uma vingança contra o que José Mariano Gago fez neste domínio. E à sua forma de liderar este processo de modernização. Se não é, parece...

Junto a minha voz, e a minha solidariedade, a:

Manuel Heitor
Carlos Fiolhais
Alexandre Quintanilha
Maria Fernanda Rollo
João Sentieiro

Ver - http://www.lnavaliacao.pt



Sempre gostei muito da imagem clássica do "cientista maluco". Qualquer dia, estamos assim, mesmo, mesmo.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

TEMPLO DE BEL - ANTES E DEPOIS

As estratégias delineadas em Langley. Resultados práticos de um sucesso político.


UMA CRÓNICA SOBRE O SUL


“A casa tinha um pátio. Vivi nele, não sei quando. Não me recordo onde fica essa casa. A frescura do solo e a brancura da cal são as minhas memórias do sítio. Os pátios das casas são o centro do mundo e é à volta deles que belas mulheres rodopiam, envoltas em túnicas e em perfumes.

Lembro-me delas, mas os seus nomes confundem-se com os de outras mulheres. Cheiravam a jasmins. E a rosas também. Gostava de estar com elas e gostava dos silêncios, o das mulheres e o do pátio.

Quando desaparecem os muros de uma casa, ficamos sós, entre o que resta das ruínas. Depois, queremos partir. Queremos chegar a casa.”

Este é o início do argumento do filme “Chegar a casa”, de Ibrahim Kanara. A casa  inicial desaparece, o homem está no meio do nada. Parte depois à busca do sítio de onde partiu, com um bússola que apenas indica o sul. Tem como memória única um velho postal, de uma rua de Ghardaia, no sul argelino. Um homem perde-se e procura, depois, o caminho para o local de origem. Cruza a noite e atravessa a chuva. Vagueia por entre multidões, antes de chegar a casa. No momento da chegada, confronta-se com fantasmas do passado. A dúvida instala-se, de novo. Onde está? Onde chegou e quando se perdeu?

São dúvidas perenes e que mais se sentem quando partimos de um sítio e mais tarde regressamos. Todos os que deixam os sítios de infância, as amizades de uma vida, as paisagens de sempre, passam por isso. Um sentido de permanente perda ou ausência nunca se desvanece por inteiro. Como no célebre poema de Álvaro de Campos “Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra”, acaba-se no dilema “Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,/Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.” Quando balançamos regularmente entre dois sítios, mais densa se torna a deambulação.  E mais ácida se torna a dúvida. As perguntas repetem-se, obsessivamente e sem resposta à vista: quando chegamos a casa? em que momento nos perdemos? alguma vez regressamos mesmo, depois de um dia termos partido? Em “Chegar a casa” a dúvida nunca é resolvida.

A irmã do autor disse-lhe, ao ver a montagem, “o filme é autobiográfico, sabias?”. Ele não se tinha dado inteiramente conta, mas era verdade. O filme não é uma obra de arte, mas o objetivo tinha a ver com o sul enquanto velha e não resolvida obsessão. Do seu sul, que é geográfico, mas vai além disso.


“Chegar a casa”, uma curta-metragem de 15 minutos, estreou no Festival Islâmico de Mértola de 2015.

Crónica publicada hoje em "A Planície".