sábado, 13 de fevereiro de 2016

MÚSICA

Depois de uma interessante manhã de debate no posto de turismo municipal, a tarde é dedicada à placidez de outros temas, na solidão do meu gabinete. Com a música em pano de pano.

La Musique
La musique souvent me prend comme une mer!
Vers ma pâle étoile,
Sous un plafond de brume ou dans un vaste éther,
Je mets à la voile;


La poitrine en avant et les poumons gonflés
Comme de la toile
J'escalade le dos des flots amoncelés
Que la nuit me voile;


Je sens vibrer en moi toutes les passions
D'un vaisseau qui souffre;
Le bon vent, la tempête et ses convulsions


Sur l'immense gouffre
Me bercent. D'autres fois, calme plat, grand miroir
De mon désespoir!


O quadro é de Columbano Bordalo Pinheiro (1857-1929), foi pintado em 1882 e intitula-se Um concerto de amadores (how appropriate!). Columbano sempre me pareceu um pintor pouco considerado, ainda que possa ser erro de perspetiva da minha parte. Outra música, literalmente, é a do poema de Charles Baudelaire (1821-1867). 

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

EXIGÊNCIA, ESFORÇO, APLICAÇÃO ETC.

Independentemente de outras avaliações quanto ao desempenho de Nuno Crato, estou 100% (cem por cento) de acordo com esta frase. O nacional-porreirismo não foi, não é, nem será solução.

ESCULTURA ARQUEOLÓGICA

O tema é recorrente em sítios arqueológicos. Que fazer com as centenas de quilos de pequenos cacos que dificilmente terão préstimo? O artista plástico Li Xiaofeng (n. 1965) usa fragmentos de porcelana para construir as suas esculturas. Estão no limiar do kitsch... Mas são, ao mesmo tempo, divertidas e inspiradoras. E apontam soluções. Alô, colegas da arqueologia!

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

BARCO ABANDONADO

O poema, escrito por António Borges Coelho quando estava preso em Peniche, tornou-se célebre na voz de Luís Cília. O mundo de seis passos era a cela do António. Uma imagem que tento, com pouco sucesso, recriar. Nunca perguntei ao António se crê que os barcos abandonados chegaram mesmo a Portugal. Talvez na próxima vez que o encontrar.

A fotografia é de Arthur Rothstein e foi feita na China, há 70 anos.


Sou barco abandonado
Na praia ao pé do mar
E os pensamentos são
Meninos a brincar.

Ei-lo que salta bravo
E a onda verde-escura
Desfaz-se em trigo
De raiva e amargura.

Ouço o fragor da vaga
Sempre a bater no fundo,
Escrevo, leio, penso,
Passeio neste mundo
De seis passos
E o mar a bater ao fundo.

Agora é todo azul,
Com barras de cinzento,
E logo é verde, verde,
Seu brando chamamento.

Ó mar, venha a onde forte
Por cima do areal
E os barcos abandonados
Voltarão a Portugal.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

MOURA - FÓRUM 21: GASTRONOMIA, IDENTIDADE CULTURAL E TURISMO

Retoma-se o Fórum 21, agora em quarta edição. Uma parte importante das nossas raízes culturais está na gastronomia, fator importante de identidade cultural. Que fazer e como fazer para afirmar este domínio? Debate no próximo sábado de manhã, no posto de turismo municipal.

Serão intervenientes:
António Ceia da Silva – Presidente da Entidade Regional de Turismo.
Jorge Queiroz – Sociólogo/ director do Museu Municipal de Tavira.
José Carlos Lobito – Formador.
Mariana Lourinho – Cozinheira e proprietária (Restaurante O Encalho).
Pedro Aboim – Professor na Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril.
E o autor do blogue.

CARNAVAL 2016

OK, o Carnaval já foi. Queimam-se hoje os últimos cartuchos, com o enterro. No meio do stress, houve espaço para uns minutos de relativa descontração.

Resenha pessoal destes dias: 

Sexta - foto com "farpela" emprestada pela minha amiga Zeza.

Sábado - dia de não-carnaval, passado com amigos, bem perto da Amareleja.

Domingo - escapadinha fotográfica, em Santo Amador.


Segunda - fracasso quase total com este disfarce... Fui reconhecido pela forma de andar, pela maneira de colocar os braços, pelo riso e pelos sapatos (!). Mas às 4 da manhã ainda havia, contudo, alguns distraídos que perguntavam "quem é o gajo?"

Terça - estudantinas na Amareleja. Eu mais eu. O meu sósia presidente tinha como grande semelhança a gravata. A bem dizer, era a única...

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

ENTRE DOMINGO E TERÇA, RECORDANDO "KISS ME KATE"

Não sei porquê, mas lembrei-m desta cena do filme "Kiss me Kate", uma obra com 63 anos...

Quem dança é Bob Fosse, que teria depois carreira como realizador. O estilo das roupas é meio carnavalesco (talvez seja essa parte da recordação a funcionar), mas o que me recordo sempre é do cenário, que parece decalcado de um quadro de De Chirico. O trabalho deve-se, creio, a Cedric Gibbons.


Memórias da pintura e do cinema, neste Carnaval.




domingo, 7 de fevereiro de 2016

A NOSSA MOURARIA - 50.000 VEZES

O calendário de 2016 da Guarda Nacional Republicana tem como imagem o bairro da Mouraria, em Moura. Mais precisamente, a Segunda Rua. Fico contente pela escolha. Uma outra forma de reconhecer o que ali se fez e que resultou de forma tão luminosa.

Do site da GNR:
A Guarda Nacional Republicana (GNR), em parceria com a EDP Distribuição, vai distribuir em todo o território nacional 50 mil calendários, no sentido de reforçar a proximidade à população mais idosa, alertando para a prevenção de burlas relacionadas com a cobrança ilegal de serviços prestados pela EDP. 
A grande visibilidade que este artigo tem no interior das residências torna mais fácil, em casos de emergência, o acesso aos contactos da GNR (colocados no próprio calendário), que poderão ser determinantes no apoio e na garantia da segurança desta faixa etária.

Ver - http://www.gnr.pt/default.asp?do=tnov0r6r_vz24r05n/016vpvn5/a16vpvn5_qr5p4vpn1&fonte=noticias&id=2658

sábado, 6 de fevereiro de 2016

O POÇO SEM ÁGUA

Mais um poço tardo-medieval em Moura. Foi encontrado, tal como os outros dois na Mouraria. Recolheu ao sítio devido (Museu Municipal), onde está a ser feita a sua limpeza. Integrará (derradeira peça, derradeiro parágrafo!) a monografia sobre a arqueologia nesta terra. Em concreto, será a estampa R do anexo A.

O poço é idêntico aos anteriores, em termos de medidas, morfologia e material. Tem também decorações incisas (um chocarreiro afirmou que o poço era a prova da existência de cerveja Sagres na Idade Média...) e chegou até nós miraculosamente. Estava bem à vista, no pátio de uma casa.

É um prazer divulgar isto, juntamente com um quente poema do mexicano Jaime Sabines (1926-1999), apropriado a estes dias que correm.





Canciones del pozo sin agua (5)

Esta noche vamos a gozar.
La música que quieres, 
el trago que te gusta
y la mujer que has de tomar.
Esta noche vamos a bailar.
El bendito deseo se estremece
igual que un gato en un morral,
y está en tu sangre esperando la hora
como el cazador en el matorral.
Esta noche nos vamos a emborrachar.
El dulce alcohol enciende tu cuerpo
como una llamita de inmortalidad,
y el higo y la uva y la miel de abeja
se me mezclan a un tiempo con su metal.
Esta noche nos vamos a enamorar.
Dios la puso en el mundo
a la mujer mortal
—a la víbora-víbora de la tierra y del mar—
y es lo mejor que ha hecho el viejo paternal.
¡Esta noche vamos a gozar!

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

ALUMNUS VI

Sessão nº 6 do MOURALUMNI. Há coisas em comum com o Carlos Silvestre: somos da mesma idade, somos amigos e fizémos o exame da 4ª classe no mesmo dia, no já distante ano de 1973. Depois do liceu, só nos encontrámos de forma esporádica. Fui sabendo do percurso do Carlos por amigos comuns. A interessantíssima apresentação a que assisti só deu razão ao convite. E deixou-me a convicção que este projeto só pode ter continuidade.



Carlos Silvestre é Professor de Controlo e Robótica do Instituto Superior Técnico (IST) da Universidade de Lisboa e da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Macau. Frequentou a Escola Secundária de Moura até ao 11º ano e concluiu o 12º ano na Escola André Gouveia de Évora, em 1981. Licenciou-se em Engenharia Eletrotécnica e Computadores pelo Instituto Superior Técnico, em 1986. Concluiu o Mestrado, em 1991, o Doutoramento, em 2000, e a Agregação, em 2011, todos em Engenharia Eletrotécnica e Computadores, no Instituto Superior Técnico.
Atualmente lidera e participa em inúmeros projetos de investigação na Universidade de Macau e no Instituto Superior Técnico nas áreas da Robótica Aérea e Oceânica.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

ENTRE A AMOREIRA E FURTA-GALINHAS, COM O EDIANO ESPECTRO DE CHRISTO A PERSEGUIR-ME

Foi O momento insólito da visita a várias infra-estruturas da EDIA. Na estação elevatória de Caliços, parecia estarmos ante mais um trabalho do célebre artista plástico búlgaro. Bombas de água dispostas ao longo de uma nave, envoltas em panos brancos, a recordarem os inícios da carreira de Christo, quando embrulhava objetos de menores dimensões.

Arte espontânea e não-intencional. Por isso mesmo, o efeito me parece sempre mais divertido.



quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

O MEU 1 DE FEVEREIRO - OUTSIDE/INSIDE

Outra forma de passar o dia em que Moura foi elevada à categoria de cidade. Encontro, ao princípio da tarde, com José Pedro Salema, Presidente da EDIA, que, simpaticamente, me conduziu pelas infraestruturas terminadas ou em construção (barragens da Amoreira, Caliços e Furta-Galinhas e reservatório da Atalaia). Uma explicação circunstanciada sobre os projetos da empresa, com reflexos no presente e no futuro do nosso concelho.

No regresso, visita (mais uma) às instalações do Pavilhão Gimnodesportivo. Os melhoramentos, de valor superior a 200.000 euros, estão concluídos. O futuro da nossa terra passa, também, por aqui.




terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

SALINGER


If you really want to hear about it, the first thing you'll probably want to know is where I was born, an what my lousy childhood was like, and how my parents were occupied and all before they had me, and all that David Copperfield kind of crap, but I don't feel like going into it, if you want to know the truth. In the first place, that stuff bores me, and in the second place, my parents would have about two hemorrhages apiece if I told anything pretty personal about them. They're quite touchy about anything like that, especially my father. They're nice and all--I'm not saying that--but they're also touchy as hell. Besides, I'm not going to tell you my whole goddam autobiography or anything. I'll just tell you about this madman stuff that happened to me around last Christmas just before I got pretty run-down and had to come out here and take it easy. I mean that's all I told D.B. about, and he's my brother and all. He's in Hollywood. That isn't too far from this crumby place, and he comes over and visits me practically every week end. He's going to drive me home when I go home next month maybe. He just got a Jaguar. One of those little English jobs that can do around two hundred miles an hour. It cost him damn near four thousand bucks. He's got a lot of dough, now. He didn't use to. He used to be just a regular writer, when he was home. He wrote this terrific book of short stories, The Secret Goldfish, in case you never heard of him. The best one in it was "The Secret Goldfish." It was about this little kid that wouldn't let anybody look at his goldfish because he'd bought it with his own money. It killed me. Now he's out in Hollywood, D.B., being a prostitute. If there's one thing I hate, it's the movies. Don't even mention them to me.



Retomo um post de há seis anos, quando Salinger morreu. É um dos meus livros preferidos, ainda que já não me recorde porque gostei tanto dele.

Qualquer adolescente à procura de respostas se revê em Holden Caufield e na sua distância do mundo. Foi isso que aconteceu comigo. O cinismo de Caufield seria relativizado pelas experiências quotidianas, de uma sensibilidade à flor da pele, do jovem telegrafista Homer Macauley na Comédia Humana, romance escrito em 1942 por William Saroyan (1908-1981), um autor hoje quase esquecido entre nós.

A vida de reclusão de J.D. Salinger esteve na base do filme Finding Forrester, de Gus Van Sant (2000). Não é uma obra-prima, mas é um filme sensível, com nervo, livros, palavras e gente dentro. Nos dias de hoje já não é coisa pouca.

OS HOLANDESES


Mais uma crónica para mourenses acima dos 50 anos. Mais um desafio à memória de muitos de nós. A começar pela minha...

Chegaram a Moura pela primeira vez na Primavera de 1970. A minha recordação é essa, mas pode ter sido antes. Durante vários anos, e sempre na mesma altura, lá chegavam eles. Eram “os holandeses”. Um casal mais os filhos, que estacionava a carrinha (seria uma Volkswagen Transporter, daquelas conhecidas como pão de forma?) na zona do matadouro. Mas seria mesmo na zona do matadouro, ou essa ideia fixou-se-me por lá a ter visto uma vez?

Até meados da década de 70, “os holandeses” faziam parte do nosso calendário. A notícia da sua chegada corria célere e era bichanada nas nossas aulas da escola primária “já chegaram os holandeses”. Corriam a vila, andavam pelas tabernas e relacionavam-se com a rapaziada mais nova. Nós com os miúdos, o casal com a juventude irrequieta local. Por vezes, traziam roupa já usada em razoáveis quantidades, que distribuiam aos mais carenciados. Nessa Moura que muitos já não conheceram, e outros preferem esquecer que existiu, as diferenças económicas e sociais eram mais flagrantes e violentas que hoje. Lembro-me de uma cena de pancadaria, motivada por alguma injustiça na distribuição do espólio trazido das margens do Mar do Norte.

Um belo dia, o holandês mais velho ganhou, aos meus olhos, o estatuto de quase-mago. Ou de mago mesmo. O televisor avariara-se. Ouvia-se o som, mas imagem nada. Os desenhos animados do Speedy Gonzalez e do Picapau tornaram-se uma miragem sonora... Eis que alguém informou o João que “o holandês” sabia umas coisas de televisores. Apareceu-nos a um final de tarde, com uma maleta de onde tirou uma válvula. Abriu o aparelho, substituiu a peça defeituosa e “abracadabra”, o Speedy Gonzalez voltou a aparecer no écran. Pouco me faltou para desmaiar de emoção.

Um ano, na época habitual, “os holandeses” não vieram. Talvez venham mais tarde, apostámos. Não chegaram mais tarde. Tal como não deram sinal de vida no ano seguinte. Nem nos que se seguiram. A minha memória detém-se aí. Mas não posso jurar que não tenham regressado algum dia.

Aos poucos, “os holandeses” foram caindo no esquecimento. Nunca cheguei a saber porque vinham a Moura, de onde eram, nem o que faziam na vida. Muito menos sei, ou saberei, porque deixaram de vir.


Recordações distantes de factos pouco relevantes, mas que fizeram parte da meninice de tantos de nós.

Crónica publicada em "A Planície" (1.2.2016)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

JOANA RAMALHO - MEDALHA DE MÉRITO MUNICIPAL


Excertos da minha intervenção, no decurso da cerimónia de atribuição da medalha de mérito municipal a Joana Ramalho, campeã do mundo de sub-18 em pesca desportiva. 

"É-me sempre muito difícil explicar a que ponto me dá prazer estar em cerimónias como esta.

Em primeiro lugar, pelo que ela representa para a nossa jovem atleta (espero que represente, claro), pelo facto de ser o reconhecimento de todos nós, de toda uma comunidade, pelo que a Joana conseguiu, e o que ela conseguiu não é coisa pouca. Deves estar orgulhosa e nós por ti, e contigo.

Em segundo lugar, porque o percurso da Joana representa o labor, o entusiasmo, o empenhamento, a dedicação, o amor dos que a rodeiam (do António, da Amélia, de toda a família e dos amigos que a apoiaram e apoiam nas vitórias e, sobretudo e de forma decisiva, nos momentos menos bons).

Em terceiro lugar, porque esta conquista reflete o querer, a determinação e o dinamismo do clube a que pertence e que tanto representa e significa para a nossa terra.
(...)
Em 2016 terá lugar no concelho de Moura o Campeonato do Mundo de Pesca ao Achigã em embarcação. A iniciativa é da Federação Portuguesa de Pesca Desportiva e conta, naturalmente, com a empenhada participação do Clube Mourense Amadores Pesca e Caça Desportiva. E terá o apoio da Câmara Municipal de Moura. É essa outra forma de reconhecermos o trabalho dos nossos dirigentes associativos, dos nossos clubes, dos nossos atletas. É também uma forma de dizer que o trabalho e a dedicação de jovesn ateltas como Joana Ramalho não são esforços isolados e têm o acompanhamento e a presença de todos nós.

Joana Ramalho, é com muita honra que te entrego a Medalha de Mérito Municipal, neste dia 31 de janeiro de 2016."