quinta-feira, 10 de março de 2016

A FALHA DEVE SER MINHA, MAS...

1. Não percebo a falta de cortesia dos deputados do meu Partido na tomada de posse do Presidente da República;

2. Não percebo, nem estou de acordo, com a cegada dos livros do 1º ciclo gratuitos para todos os estudantes. Este equívoco igualitarismo arrasta as piores demagogias... Coloca no mesmo patamar quem precisa e quem não precisa de apoio do Estado (e há muito alunos que precisam de ajuda que vai além do custo dos livros) e deixa de lado uma questão essencial: quanto vai custar ao erário público o preço obsceno dos livros escolares, muitos dos quais caem na categoria "trampa total"?

Victor Vasarely

ERA UMA VEZ O ALENTEJO

Ia, no outro dia, descendo a rua quando ouvi, 20 metros mais abaixo, alguém que cantava no rio uma belíssima moda. Era uma daquelas vozes melancólicas e cheia de uns trinados que, mesmo no cante alentejano, vão sendo cada vez mais raros.

A voz do pescador enchia o anfiteatro natural que Mértola é, para meu encanto e para espanto de um grupo de turistas alemães  que assistia, fascinado, àquela magnífica exibição.

Ao escutá-lo não pude deixar de me lembrar de Michel Giacometti, que me contou que tinha em tempos ouvido as mesmas melodias, os mesmos cantos de trabalho, em Marrocos e em Portugal, prova provada que o mundo de cá e o mundo de lá são criação recente das polícias e das alfândegas. Não pude deixar de pensar naqueles que melhor representam as músicas de tradição mediterrânica. Na Ti Chitas, pastora de Penha Garcia, na "Senhora do Almortão", nos adufes de Idanha e em alguns grupos corais do Alentejo. Recordei-me das vozes únicas de Pepe Marchena e de El Cabrero e de, ainda que seja difícil convencer muitos portugueses que os fandangos de Huelva estão entre as mais belas sonoridades do mundo. Vieram-me também à memória os nomes de Manuel Bento, Perpétua Maria e Francisco António, artesãos daquela estranha e magnífica arte do cante e do toque campaniço.

A arte do cante do Mediterrâneo português definha. É com amargura que se ouve cantar cada vez pior, por entre grupos de música etnopimba e por entre supostas, e mais que discutíveis, modernizações. A voz daquele pastor de meia-idade representa o que vai resistindo de uma cultura milenar. Há muitas centenas de anos que as margens do Guadiana, e os esplendorosos cerros à sua volta, ouvem pescadores cantar a mesma musicalidade, dita umas vezes em latim, outras em árabe, outras enfim em português. A quem terá ele escutado aqueles sons? Terá ensinado algum neto a cantar como ele? Ou, no dia em que ficar demasiado velho, ninguém tomará o seu lugar naquele barco do Guadiana?

Ao ritmo lento da remada, o pescador continuou a cantar. No fim, os turistas romperam em aplausos e aos bravos!, como se estivessem em plena Ópera de Berlim. O pescador retomou as cantigas. Fui-o seguindo, até o perder na curva do rio.

Este texto foi publicado no "Diário do Alentejo", em 1998 ou 1999. Lembro-me do Cláudio ter ficado entusiasmado com a crónica, muito mais do que eu esperaria. Tenho lá em casa o disco, editado pela CORTIÇOL há uns 25 anos, e que me serviu de mote à crónica. Se um dia me dissessem que poderia escolher um CD para levar para um sítio distante escolheria esse. O mesmo que tanta emoção causou à Júlia e que tanto me comove. Lembrei-me dele, de novo, nestes dias em que tanto se fala do Alentejo. Vi há pouco um vídeo em que alguns patrícios cantam Alentejo, Alentejo, no lançamento de um livro. Reconheci o José Serrano e o Paulo Barriga. Não sei se são afinados. Mas tinham um ar convicto...

Ao contrário de muitos conterrâneos não estou furioso nem enraivecido com o autor de um livro sobre o Alentejo recentemente editado. Até porque não o li... Sinto-me orgulhoso com tanta atenção. Só isso e nada mais.




quarta-feira, 9 de março de 2016

CÂMARA ABERTA: CONCELHO DE MOURA, CONCELHO AGRÍCOLA - DIA 2

Segundo dia da Câmara Aberta. A atenção esteve virada para as empresas, para os seus investimentos e para as suas necessidades de crescimento. Incluímos aí o interesse dos agricultores da Póvoa de São Miguel no processo de expansão do perímetro de rega de Alqueva.

O território está a passar por um processo de mutação que não imaginaríamos há uns anos. A Câmara Municipal tem acompanhado de perto essa realidade. O nível de participação em todos os atos públicos diz bem do interesse e do empenhamento dos munícipes na construção de um futuro que a todos diz respeito.


1. Visita ao terreno onde, na UP 11, a empresa "Herdade dos Cotéis" irá, em breve, iniciar obras para uma instalação fabril.

2. Em diálogo com investidores espanhóis aos quais foi atribuído um lote na UP 11.

3. Reunião com a APIVALE. Projetos de crescimento em discussão: compra de equipamentos, melhoria da qualidade dos produtos e articulação com a Herdade da Contenda no centro das atenções.

4. Comemorações do Dia Internacional da Mulher: o momento não-agrícola do dia. Apresentação do Plano de Apoio a Mães Trabalhadoras, compromisso assumido pela Câmara Municipal e que agora toma forma.

5. Reunião com a Cooperativa Agrícola de Moura e Barrancos: uma peça essencial ao desenvolvimento do concelho, com a qual mantemos um princípio de proximidade. Mas projetos em cima da mesa.

6. Visita às instalações do CEPAAL: a Feira Nacional da Olivicultura e o Congresso do Azeite em pano de fundo.

7. Reunião com os agricultores da Póvoa de S. Miguel. Foram assumidos compromissos, que são para valer, no sentido de se enfatizar a necessidade de, em tempo útil (enquanto há agricultores na freguesia) haver uma expansão dos perímetros de rega.

terça-feira, 8 de março de 2016

CÂMARA ABERTA: CONCELHO DE MOURA, CONCELHO AGRÍCOLA - DIA 1

Quinta Câmara Aberta deste mandato. Há princípios que se mantêm: diversificação geográfica das iniciativas, prioridade aos problemas concretos do concelho, contacto (ainda mais) próximo com a realidade. Num concelho em que a agricultura tem grande peso, e inegável importância económica, é a esse a setor que dedicamos a maior parte da nossa atenção ao longo destes dias.

Importa tanto o contacto com entidades oficiais como com os representantes do setor. Interessa-nos tanto fazer o balanço de investimentos efetuados como perspetivar iniciativas futuras. O debate e a discussão de ideias estão, também, no centro da nossa agenda.


O primeiro dia foi ontem.


Reunião com o Diretor Regional da Agricultura. Entre outros assuntos, falou-se da próxima OLIVOMOURA. Vários dossiês estiveram em análise. Mais dos que os resultados imediatos ficam pontes futuras para diálogo.

Mais uma ronda de consultas com os rendeiros dos Machados. Deixar arrastar o problema não interessa aos rendeiros nem interessa à economia familiar. A disponibilidade da Câmara Municipal neste aspeto particular continua a ser total.

Fórum 21 ("O futuro agrícola do concelho de Moura") e debate na Casa da Moagem, em Safara. Se a agricultura está no centro das preocupações, nada melhor do que trazer o tema para o centro geográfico do concelho.
Participantes: Ana Caeiro (CNA), António Miguel Rosado (AJAM), João Ramos (deputado - PCP) e Pedro do Carmo (deputado - PS).

segunda-feira, 7 de março de 2016

MOURA - MAIS INTERVENÇÃO SOCIAL

Sábado foi um dia um pouco diferente. Duas iniciativas de grande importância, do ponto de vista social, estiveram no centro da minha agenda. Nenhuma delas é gerida ou da responsabilidade da Câmara Municipal. Ambas contaram com o nosso acompanhamento. Daí a presença na abertura da delegação concelhia da Liga Portuguesa Contra o Cancro e na inauguração do Lar da Divina Providência, em Safara. A primeira fica instalada em edifício cedido pela Câmara Municipal de Moura, o segundo contou com o apoio das autarquias (Câmara e Junta de Safara). Facto decisivo: são dois exemplos de iniciativas que emergem de diferentes setores da sociedade civil. Capacidade de organização, iniciativa, envolvimento das entidades, de tudo isso se fizeram estes projetos.


Descerramento da placa de inauguração e cerimónia na Escola da Porta Nova (permito-me notar o facto deste evento só ser possível devido às obras, tão contestadas na altura!, de requalificação da escola e da área evolvente).


Missa na inauguração do Lar de Safara. No final, as entidades públicas presentes (Câmara, Junta, Segurança Social) foram simpaticamente convidadas pelo Sr. Bispo da Beja a usar da palavra. Não é tanto o facto de haver intervenções que me surpreende, mas o local em si...

domingo, 6 de março de 2016

AZULEJOS SEVILHANOS E ARTE NOVA

Um aspeto talvez menos conhecido da nossa Moura. O prédio é na Rua 5 de outubro, outrora de Gonçalo Garcia (aka Rua dos Correios). No nº 30, mais precisamente. Para os da minha geração, era lá que ficava a papelaria da D. Leocádia, onde trabalhava o sr. Costa.

O prédio tem alguns tiques "português suave", mas é, de certeza, uma das minhas fachadas preferidas do século XX mourense. A frente do edifício está quase totalmente coberta por azulejos, que imitam o padrão sevilhano quinhentista. Hoje poderia/poderá ser considerado kitsch. Permito-me discordar. O edifício não atinge um estatuto palatino, mas é bem o símbolo de uma afirmação burguesa. Junto ao beirado, e acompanhando o desenho caprichoso do dito, uma fiada de azulejos arte nova dá um toque de distinção acrescida a este conjunto.

sábado, 5 de março de 2016

GO WEST

MISSÕES AO INTERIOR

A primeira vez que António Costa falou da criação de uma “unidade de missão para o Interior“ foi em plena campanha eleitoral, em Bragança. Prometeu que se fosse primeiro-ministro a criaria, integrando e mobilizando todos os ministérios, de modo a que as políticas do Estado contemplassem sempre essa vertente, contribuindo para valorizar o interior e fixar a população. O organismo, na sua dependência direta, foi assumido como tendo uma “função central”.
Hoje, em Idanha-a-Nova, é feito o lançamento solene: a coordenadora da unidade é Helena Freitas, ex-reitora da Universidade de Coimbra e atual deputada do PS, o adjunto é o presidente da Câmara de Proença a Nova, João Paulo Catarino — ambos deixarão os cargos.
Ao mesmo tempo será divulgado um estudo sobre o desenvolvimento rural, de Augusto Mateus, que prevê abordagens diferenciadas para as regiões. A dicotomia não é entre interior ou litoral, mas entre rural e urbano; o objetivo é dotar o primeiro dos serviços que abundam no segundo. A missão chefiada por Helena Freitas, que fica sob a tutela do ministro-adjunto Eduardo Cabrita, terá agora seis meses para elaborar um plano de coesão territorial e dar coerência a um plano de investimentos para o interior.
A abordagem ao interior vai também passar a incluir deslocações mensais dos ministros a diversas regiões, numa espécie de Governo aberto ou itinerante de dois, três dias, para aproximar Portugal do Governo ou vice-versa. A primeira será já este mês, em Coimbra, com os ministros das diversas áreas a discutirem os problemas da região. No final, haverá uma reunião conjunta dos ministros com os presidentes de Câmaras.
(No Expresso de hoje)

Comentários negativos são tão extemporâneos quanto o é qualquer tipo de entusiasmo. Aguardarei os resultados desta missão, com ardente expetativa. Entretanto, ocupar-me-ei de um par de minudências: candidaturas a financiamentos comunitários cada vez mais inatingíveis, captação de empresas para o concelho, investimentos em infraestruturas, reabilitação urbana etc. Desta vez, serei calmíssimo e paciente... E irei ouvindo o Go West, dos Village People. Na versão Pet Shop Boys, que é mais flashy..
(Go west) Life is peaceful there
(Go west) Lots of open air
(Go west) To begin life new
(Go west) This is what we'll do

RED BRICK

A história passou-se em Londres, nos anos 80, e causou gáudio na imprensa britânica. A embaixada soviética aprestava-se a mudar de instalações, transferindo uma das suas secções para um bairro vitoriano, onde imperavam as construções em tijolo vermelho. Até aqui tudo bem, salvo o facto do edifício projetado pelos soviéticos ter, como cor dominante, o azul. Nada feito, o projeto foi chumbado. O edifício teria mesmo de ser vermelho. Red é red e acabou a conversa. Era uma questão de coerência arquitetónica.

sexta-feira, 4 de março de 2016

QUERES DINHEIRO? VAI AO TOTTA!

Nós é que fomos derrotados! Como se diz aqui na nossa terra, em linguagem de bárbaros, mais uma fueirada.

Viera Monteiro, o Presidente do Santander-Totta, esfrega as manitas de contente. Não é a gente que vai ao Totta, é o Totta que nos vai às algibeiras...

PROPEDÊUTICA A PIET MONDRIAN NA BÊ-TÊ-ELE

Tenho um jovem amigo, em Moura, que acha graça às analogias que costumo estabelecer entre coisas do quotidiano e peças de Arte e/ou Arqueologia. Com as similitudes entre quadros de De Chirico e um filme americano dos anos 50 ou a proximidade entre materiais para reciclagem e os trabalhos de Wolf Vostell. Ou ainda, os paralelos entre as esculturas de Christo e um estaleiro de obras da EDIA.

Há dias, dei-lhe o meu ponto de vista sobre isto: a Arte e a realidade à nossa volta podem ser (são, frequentemente) motivo de diversão. Assim nós queiramos. E procuremos. Hoje de manhã, na B.T.L., deparei com uma parede luminosa, onde se promovia um evento. Uma parede um pouco Mondrian, não é Fábio?



MOURA NA BOLSA DE TURISMO DE LISBOA 2016

Passagem rápida pela Bolsa de Turismo de Lisboa. Uma excelente presença da nossa Entidade Regional de Turismo: um espaço com qualidade, numa zona de grande destaque. O Município de Moura está lá, em triplicado: Câmara Municipal e as empresas Break e Alquevatours. Do contacto com os empresários resultou a convicção que se dão passos seguros e se ganha mercado. Há interesse do público e, em particular, dos operadores. Este setor tem crescido, no nosso concelho. E vai continuar a crescer.



MAMONAS ASSASSINAS

Um certo toque pimba em dimensão galática. Quando os Mamonas Assassinas morreram, em março de 1996, num desastre de avião, eu era um quase jovem. Vinte anos depois continuo a gostar do estilo desmesurado, brega e provocatório do grupo.

Um arquiteto carioca disse-me, há uns anos "toda a música brasileira é fado; exceto a bossa-nova, que é jazz". Esta letra e este estilo dão-lhe razão (o pior é que o Manuel tinha três anos e cantava excertos deste vira na praia...)

CÂMARA ABERTA: CONCELHO DE MOURA, CONCELHO AGRÍCOLA (programa)

E eis que se chega à 5ª Câmara Aberta. A agricultura no centro das atenções. Quatro dias de debates, de reuniões com investidores, de visitas a infraestruturas, de contactos e mais contactos. A nossa terra merece.

5ª CÂMARA ABERTA
Concelho de Moura, concelho agrícola


7 DE MARÇO, SEGUNDA-FEIRA
15:00 – Reunião com o Director Regional de Agricultura (na CMM)
18:00 – Encontro com os rendeiros dos Machados (na CMM))
21:00 – Fórum 21: “O futuro agrícola do concelho de Moura” (na Casa da Moagem, em Safara)

8 DE MARÇO, TERÇA-FEIRA
10:00 – Reunião com a Herdade dos Cotéis (na Lógica)
11:00 – Reunião com a Oleum (na Lógica)
12:00 – Reunião com a Apivale (na Lógica)
15:00 – Reunião com a CAMB (na Lógica)
16:00 – Visita às instalações da CEPAAL (no ex-Grémio da Lavoura)
18:00 – O futuro do regadio no concelho de Moura: encontro com agricultores (na Junta de Freguesia da Póvoa de S. Miguel)

9 DE MARÇO, QUARTA-FEIRA
15:00 – Visita ao Parque de Leilão de Gado, seguida de reunião (no Parque de Feiras e Exposições de Moura)
17:00 – Reunião de Câmara
18:30 – Apresentação à Comunicação Social do programa da Feira de Maio

10 DE MARÇO, QUINTA-FEIRA
18:00 – Encontro sobre “O aproveitamento agro-pecuário da Herdade da Contenda” (em Santo Aleixo da Restauração, na Sociedade Musical Os Restauradores)
Moura, 3 de março de 2016.

O GABINETE DE COMUNICAÇÃO E RELAÇÕES PÚBLICAS
DA CÂMARA MUNICIPAL DE MOURA


Fotografia: Artur Pastor

quinta-feira, 3 de março de 2016

MAGANA

O João e o Joaquim enveredaram pela produção de cerveja artesanal. Uma boa opção. Uma inovadora opção. Lembrei-me da marca DEVASSA. Cuja slogan é "um tesão de cerveja". Eis uma memória feliz do Rio de Janeiro (ler aqui).

Em termos de marketing é capaz de funcionar: "tira aí mais uma magana". Viva Moura, mais a sua irreverência!

NOBRE ARTE

Devem ter passado quase 40 anos. O episódio passa-se em 1978 ou 1979. O João tinha uns amigos de ar equívoco (estou a ser gentil...), que viviam na Porcalhota e que um dia o convenceram a levar-me ao boxe. A regularidade dos eventos era enigmática e a identidade dos pugilistas ainda o era mais. Num belo sábado à noite, deixei-me conduzir, sem especial entusiasmo, até ao Pavilhão dos Desportos. A minha falta de interesse foi compensada por uma noite memorável, e da qual guardo impressivas recordações. Não havia muito público, que se concentrava na bancada oposta à nossa, “ainda bem, que isto é capaz de dar barraca”, disse o João entre dentes, e eu não percebi onde poderia estar a barraca, a despeito de alguma agitação nos “tendidos”... Fomos para a parte de cima das bancadas e foi uma má opção. O fumo sobe e como toda a gente tabaqueava desalmadamente, às tantas aquilo parecia Londres, ouvi dizer que é assim, que nunca lá fui. Nevoeiro cerrado e visibilidade limitada.

E eis que entram os atletas. Grande e ruidoso entusiasmo “isto é boxe! isto é boxe”, berravam as claques. Ainda não era, mas ia ser. No primeiro combate, entrou no rinque, veloz, um boxeur, fazendo enérgicos exercícios de aquecimento e dando, em jeito de cumprimento, um rodopio rápido à Alexander Zaitsev. “Este gajo é bom”, sentenciou o João, fingindo sabedoria. Não era nada, o gajo era uma treta e, mal se berrou “seguuuuuuundoooss foraaaaa!”, já tinha sido aviado pelo adversário, um careca com estilo de urso, que lhe enfiou um banano de dimensões homéricas. Lá foi o Zaitsev numa padiola. Recuperou depressa, ainda bem, mas o KO estava consumado. O segundo combate foi mais complexo. Andaram para ali aos abraços o tempo todo e a decisão foi aos pontos. “Oh pá, parte os cornos a esse cabrão”, gritava um atrás de mim e nem me atrevi a virar a cabeça para trás. Depois foi o bom e o bonito. O público discordou da decisão. Discordou é maneira de dizer. Os adeptos das Águias da Musgueira resolveram treinar a nobre arte com a claque da outra equipa, da qual não recordo o nome. Um combate de boxe, todos contra todos, escada acima, escada abaixo, até chegar a polícia. Estava consumada a barraca, que continuou enquanto a comitiva amadorense saía a trote, em direção à segurança do ar livre. Fiquei sem saber o resultado, e os jornais do dia seguinte ignoraram a agitação. Tristes tempos esses, em que não havia reportagens da CMTV...

Não voltei ao boxe. Hoje disso me arrependo. O mundo mudou e esse Portugal popular e de chinela no pé é quase uma realidade distante. Hoje é tudo sério e “clean”, ainda que só na aparência, porque quanto mais “clean” pior. Ouvi dizer. O boxe, numa vertente mais rigorosa, acabou curiosamente por marcar pontos, por essa altura. João Manuel Miguel (Paquito) representou o nosso País nas Olimpíadas de Moscovo, em 1980. Foi derrotado, nos oitavos-de-final, pelo futuro campeão, o soviético Shamil Sabirov.

Já passaram muitos anos. Demasiados, poderei dizer. Ainda hoje recordo o som da multidão aos urros “isto é boxe”, o ambiente toldado, os pugilistas de qualidade duvidosa, duvidosa é favor, as claques numa cena de pancadaria medonha, e a voz protetora do João “vamos embora enquanto é tempo”.

Se tenho saudades? Não tenho. Mas acho graça lembrar episódios assim…

Crónica publicada em "A Planície" de 1.3.2016

DA CONFERÊNCIA DE POTSDAM À CERVEJA ARTESANAL

Mais uma empresa instalada no nosso CAMM. Agora, é a vez de uma pequena unidade de cerveja artesanal. No final da cerimónia de assinatura do protocolo de cedência de espaço propus, em jeito de brincadeira, uma fotografia ao estilo da Conferência de Potdsam...

1945 - Potsdam. Da esquerda para a direita: Winston, Harry e José.

2016 - Moura. Da esquerda para a direita: João, Santiago e Joaquim.

quarta-feira, 2 de março de 2016

LÁ LONGE, NA AMÉRICA


Lá longe, mas bem perto, para o que interessa a todos. Recordando a frase de Porfírio Diaz (1830-1915), "pobre México, tan lejos de Dios y tan cerca de los Estados Unidos." A globalização, e o domínio imperial, tornam curtas todas as distâncias. Daí o interesse pelas primárias...

Tenho seguido alguns debates. Nada de novo. Trump afirma-se no campo republicano e parece ser o único a saber projetar-se, através de um discurso execrável. Os outros candidatos não são novidade. Nos democratas, Bernie Sanders é aquilo que os americanos classificam como liberal. Para nós, um social-democrata encostado à esquerda. O seu discurso, moderadíssimo e de boas intenções, soa a ouvidos norte-americanos como quase-comunismo. Por isso, e por muito que custe à minha amiga em Montezuma (apoiante de Sanders), vai dar Hillary, a única capaz de frente ao outro louco. Oxalá, assim seja, apesar de tudo.

Sinal dos tempos: desde 1988 que o Partido Comunista dos Estados Unidos (sim, existe!) apoia os candidatos democratas...

Site dos meus camaradas do lado de lá - http://www.cpusa.org/

terça-feira, 1 de março de 2016

ANTÓNIO LAMAS

António Ressano Garcia Lamas tem uma longa carreira ao serviço da República. É professor catedrático do Instituto Superior Técnico. Foi Presidente do Instituto Português do Património Cultural (1987-1990), Presidente da Junta Autónoma das Estradas e, depois, do Instituto de Estradas de Portugal (1998-2000), Presidente do Conselho de Administração da Parques de Sintra - Monte da Lua, SA (2006- 2014) e, desde 2014, Presidente do Centro Cultural de Belém. Um longo e brilhante percurso, marcado pela ética, pelo rigor e pela competência.

Colaborei, circunstancialmente, com o Prof. António Lamas, quando fui um dos docentes de uma disciplina de História, coordenada pela Profª. Amélia Andrade, num Mestrado do IST. Ficámos amigos desde então. Foi uma honra poder recebê-lo em Moura, na passada primavera, no Fórum 21 subordinado ao tema  "Reabilitação urbana? Ou arqueologia e museus?". No meio de tantos afazeres, ainda arranjou tempo para um contributo importante num encontro dedicado a temas que lhe são caros.

O recente episódio do público enxovalho de que foi alvo é, certamente, pouco simpático para ele. O Prof. António Lamas não merece isto. Mas o que se passou é, sobretudo, pouco prestigiante para o Ministro da Cultura. E coloca numa posição desconfortável Elísio Summavielle.

MOURARIA

Abra-se o mês recordando a Mouraria de outrora. A fotografia é de António Passaporte (1901-1983), um eborense talentoso que percorreu Portugal de uma ponta à outra. O seu trabalho era bem mais que a atividade comercial a que se dedicava. Esta Mouraria (anos 50?) é diferente da que hoje conhecemos. A fotografia transmite um ambiente tranquilo, um pouco diferente do ruído urbano de hoje. O espírito do bairro, contudo, mantém-se.