quarta-feira, 19 de abril de 2017

UM POÇO, DOIS POÇOS, TRÊS POÇOS...

A princípio havia UM poço árabe, em plena Mouraria (na esquina do largo com a travessa e com a segunda rua). Que não era árabe nem nada parecido, mas a tradição permaneceu. Na verdade é uma peça tardo-medieval, à qual se veio juntar OUTRO bocal, encontrado na Primeira Rua da Mouraria. Um e outro têm uma cronologia que andará pelos séculos XIV-XV. Aqui, as ruas "não se ficam atrás", e eis que há meses foi identificado um TERCEIRO bocal na Treceira Rua da Mouraria. Não é medieval, nem por sombras. Na melhor das hipóteses, terá cronologia seiscentista.

Os três bocais serão as estrelas da Casa dos Poços, na esquina do largo com a travessa e com a segunda rua. Memória, herança cultural e promoção turística, num processo que arrancou a custo e que agora ganha asas. A partir de final de junho, a nossa Mouraria contará com mais um elemento patrimonial de grande valia.

O bocal nº 3 no local de restauro - a popular indisciplina das curvas e a geometrização palaciana

PRO MEMORIA


A formação de historiador pode pesar um tanto nestas coisas, admito. Mas o registo de factos relevantes parece-me importante. A reabertura do Cine-Teatro, no Domingo de Páscoa, foi pretexto para assinalar obras recentes e sobretudo, para recordar a reinauguração, ocorrida em 1995, e da qual não havia registo escrito no local.

Ai dos que desprezam a memória e não valorizam o passado dos sítios...

ARTE E IMPROVISO - ESCULTURA AUTOMÓVEL

As oficinas são sítios extraordinários. O mais interessante é ver como os objetos mais simples do quotidiano ganham novas formas e novas funções. Há dias, um conjunto de placas de matrícula ganhou contornos diferentes. Assim, verticalizadas e fora do seu contexto habitual, podem ser junk art ou um ready-made. Não sei se o são, mas o quotidiano tem, no seu improviso, coisas assim divertidas.

Oficina automóvel da CMM - 29.3.2017 (08:05)

terça-feira, 18 de abril de 2017

ORIENTE E OCIDENTE, A UM MÊS DO FESTIVAL ISLÂMICO

Cumpre-se um hábito antigo. Darei, também em 2017, o meu contributo ao Festival Islâmico de Mértola. Em 2015 foi com uma curta-metragem de ficção, este ano será com duas exposições. Uma (Al-Sharq wa Al-Gharb) é produzida expressamente para o evento: um conjunto de fotografias de espaços religiosos na Europa, no Maghreb e no Médio Oriente, que serão montadas no Largo da Alcachofra. A outra é uma reposição. Volta a estar patente ao público Arquitetura de Mértola entre Roma e o Islão, que comissariei, em conjunto com Virgílio Lopes, em 2010.

Um regresso duplo a um sítio de gratas recordações.

Ver - http://www.festivalislamicodemertola.com


sábado, 15 de abril de 2017

ENTRETANTO, NA COREIA DO SUL...

... já é Sábado de Aleluia. Esta imagem de Cristo na cruz, marcada por formas um tanto insólitas, está num parque de esculturas cristãs em Yeongcheon, 250 kms a sudoeste de Seoul e 440 km a sudoeste de Pyongyang.

Hoje, muito em especial, o local deve ser sítio de peregrinação. Há cerca de quatro milhões de católicos na Coreia do Sul. 

sexta-feira, 14 de abril de 2017

ISIDORO AUGUSTO

Dia de pausa com uns minutos para olhar livros lá por casa. Um deles, Fazedor de imagens, foi-me oferecido pelo autor, Isidoro Augusto, em 20.12.2015. Coisa estranha, não tenho ideia nenhuma disso... Ainda para mais, o livro é excelente e o fotógrafo um artista de qualidade. Há paisagens, sempre melancólicas e introspetivas, e imensos trabalhos gráficos. Ganhei o dia, graças a Isidoro Augusto. Deixo aqui um texto de António Ramos Rosa.


ISIDORO AUGUSTO
ou a metamorfose do vazio


por

ANTÓNIO RAMOS ROSA


Nestes desenhos foto-gráficos de Isidoro Augusto não há nada de simbólico, alegórico ou metafórico. É que eles nada representam ou figuram, pois são um puro acto cujo objecto é a sua própria génese. Pode dizer-se que este acto é uma afirmação do vazio enquanto lugar da aparição da forma. Assim, a forma surge do vazio no limite em que a sua emergência é a própria formação do vazio. O artista deixa de representar seja o que for para se encontrar face ao visível na sua pureza integral, sem a alienação de qualquer ponto de vista. Este espaço visível mostra-nos então a invisibilidade do ser.


Num certo sentido, tudo o que eu apreendo ou contenho, só o compreendo se souber que é algo inapreensível e que eu posso deixar ser. Só assim a infinidade se revela na sua invisibilidade, na plenitude do vazio. Esta experiência é fundamental porque se trata de uma forma de conhecimento do absoluto. Será este o sentido destes desenhos, dos quais não se pode dizer que tenham um tema ou reproduzam um objecto (real ou imaginário)? O essencial neles seria o vazio, o espaço de que nasce o sentido ou o não-sentido - ou o que transcende o sentido. Na verdade, a imagem nestes desenhos não reenvia a uma realidade exterior ou interior, não é uma representação de um fragmento do visível recortado na experiência quotidiana; é antes um modelo de organização do espaço, conjunto de puros signos sem referência ou qualquer sugestão figurativa. Assim, neles nada se significa, nada se revela a não ser o tema estrutural que constitui a figura ou a imagem do desenho, a qual está para além de qualquer interpretação. Há, talvez, em cada delicada marca, traço ou mancha, ou em cada sombra destas manchas, ou ainda nas linhas que se rompem em minúsculos intervalos, há nestas marcas e nestas falhas, talvez, uma subtil encarnação do desejo ou o frémito de um corpo desejante. Todavia, este frémito não se torna tema ou figura, uma vez que se inscreve na metamorfose do invisível ou na formulação pictórica de um espaço puro.


De certo modo, o que Isidoro Augusto faz é dissociar as significações estabelecidas em partículas in-significantes, mostrando-as e relacionando-as em novas estruturas, que não requerem o sentido institucionalizado, porque são abertas e totalmente vazias. Por outros termos, estes desenhos fotográficos de Isidoro Augusto são menos significativos do que dessignificantes e é essa abertura estrutural, a sua delicadíssima complexidade ou a sua subtil simplicidade, a sua transparência, que os tornam extremamente sugestivos e reveladores de um puro espaço em que a visão se alia à metamorfose do vazio.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

MOURA NA "MAIS ALENTEJO"

Saiu a "Mais Alentejo" (nº 138). Há três páginas dedicadas à exposição "Água - património de Moura", que estará patente ao público até dia 11 de junho. Boas fotografias e um bom texto numa ajuda à divulgação do nosso património e do nosso potencial.

Nota pessoal (e destinada a amizades de longa data): não tenho o casaco torto e em desalinho de propósito ou por ser "imagem de marca". É assim há décadas. Vocês sabem...

GABINETE DO EMIGRANTE - DIA 1

Gabinete do Emigrante já pode ser contactado

O Gabinete do Emigrante está a ser instalado, no espaço do Ágora Social, em Moura, e já pode ser contactado por telefone e e-mail.

A Câmara Municipal está a organizar esta estrutura, com os meios da autarquia, com o objetivo de reforçar o apoio aos emigrantes do concelho de Moura sobretudo na área da informação, desde o encaminhamento de materiais noticiosos até ao esclarecimento célere de questões sobre os serviços camarários prestados.

Os emigrantes do concelho de Moura podem contactar o Gabinete do Emigrante através do número de telefone 285 250 490 ou do endereço de correio eletrónico gabinete.emigrante@cm-moura.pt/.

Brevemente será também criado um link no sítio da Internet da Câmara Municipal de Moura, em www.cm-moura.pt, que remeterá para questões ligadas ao Gabinete do Emigrante.

Recorde-se que a ideia para a criação desta estrutura surgiu após a recente realização de uma edição da Câmara Aberta em Lausanne, na Suíça.


Moura, 13 de abril de 2017

O GABINETE DE COMUNICAÇÃO E RELAÇÕES PÚBLICAS DA CÂMARA MUNICIPAL DE MOURA

A gare de Austerlitz, no início dos anos 60. Foi o local de chegada de muitos dos nossos.

LA LYS - A UM ANO DO CENTENÁRIO

Aniversário do 99º aniversário da Batalha de la Lys. A Câmara Municipal fez-se representar, como é sua missão

Estive presente na cerimónia, a convite do núcleo local da Liga dos Combatentes, por dever e por convicção. Ai dos que não respeitam e não valorizam a memória. Ai dos representantes do Povo que não respeitam os que se sacrificaram. A coroa de flores é coisa pouca e apenas simbólica. Mas mal andaria uma autarquia que esse ritual não cumprisse.



quarta-feira, 12 de abril de 2017

EL ATLETI - PEÑA EN LA CIUDAD DE MOURA



Fomos cinco. Nada mau para um primeiro momento. Um encontro de fim de tarde para assistirmos ao jogo Atlético de Madrid - Leicester. Da esquerda para a direita estão o Valter, o João, o Hélder, o Santiago e o Eduardo. O nosso Atleti foi assim-assim. O cachecol é do Hélder e ficou na taberna até à próxima.

A MÚSICA, A LUZ, AS SOMBRAS E A FILARMÓNICA


Regresso a uma antiga paixão: Cecília Meireles. E à música. As palavras foram evocadas ao ver, de manhã bem cedo (noite perdida...), as fotografias feitas há semanas à banda de "Os Amarelos". Retomei e enfatizei o contra-luz que, na altura, me chamou a atenção. Afinal, ainda não chegámos a outubro e as máquinas ainda não têm ferrugem...

Música

Noite perdida, 
não te lamento: 
embarco a vida 

no pensamento, 
busco a alvorada 
do sonho isento, 

puro e sem nada, 
- rosa encarnada, 
intacta, ao vento. 

Noite perdida, 
noite encontrada, 
morta, vivida, 

e ressuscitada... 
(Asa da lua 
quase parada, 

mostra-me a sua 
sombra escondida, 
que continua 

a minha vida 
num chão profundo! 
- raiz prendida 

a um outro mundo.) 
Rosa encarnada 
do sonho isento, 

muda alvorada 
que o pensamento 
deixa confiada 

ao tempo lento... 
Minha partida, 
minha chegada, 

é tudo vento... 

Ai da alvorada! 
Noite perdida, 
noite encontrada... 

In 'Viagem' 

terça-feira, 11 de abril de 2017

DO GHARB AO SHARQ

Final de tarde assim meio introspectivo, revendo o que será a minha participação no próximo Festival Islâmico em Mértola (até custa a crer que tenha usado, nas noites do Cairo, um rolo 3200 e mais custa a crer que o resultado não tenha sido um desastre) e os espaços de culto a ocidente e a oriente. No meio disto, dois sorrisos: a fotografia de cima data de 2003, a de baixo de 2007. Fazem parte do livro "Mar do meio", editado em 2009. O que aqui se apresenta são digitalizações.



QUE TERRA É ESTA EM QUE ESTAMOS?

A inspiração foi súbita. Vi passar os miúdos e pensei "é agora". Uma interessantíssima iniciativa desenvolvida pela Dra. Marisa Veiga, no âmbito do Museu Municipal de Moura, deu-me o pretexto para uma breve explicação sobre a arqueologia do castelo. Não resisti a explicar como eram feitas as inumações, usando uma das sepulturas medievais, aproveitando para explicar as mudanças do sítio, no lento e inexorável devir das coisas.

Os miúdos foram absolutamente fantásticos. A ideia era fazerem uma reportagem? Estamos mais que preparados! Perguntas complexas e dignas de profissionais.

O dia vai calmo. Mas aqueles 15 minutos valem por uma semana de dificuldades.

A pergunta no poema de Sebastião da Gama está, ainda, por responder.




segunda-feira, 10 de abril de 2017

O COQUEIRO FICAVA MUITO MAIS VEGETAL

Poema de Helena Lanari

Gosto de ouvir o português do Brasil
Onde as palavras recuperam sua substância total
Concretas como fruto nítidas como pássaros
Gosto de ouvir a palavra com suas sílabas todas
Sem perder sequer um quinto de vogal

Quando Helena Lanari dizia o «coqueiro»
O coqueiro ficava muito mais vegetal.


(Sophia de Mello Breyner Andresen)


A primeira imagem que me ocorreu quando vi esta fotografia não foi a do poema, mas sim uma outra, de alguém subindo um coqueiro. Achei, contudo, um desperdício começar a semana com cargas negativas...

domingo, 9 de abril de 2017

A ENTRADA DE CRISTO EM BRUXELAS

A tela data de 1888, embora o título seja Entrée du Christ à Bruxelles en 1889. O objetivo da obra de James Ensor não é satírico, mas sim o da atualização do tema, tentando o que seria a imagem da entrada de Cristo numa cidade atual. James Ensor (1860-1949) usou este quadro como resposta aos seus detratores: "Cette oeuvre mêle tous les principes de l'art d'Ensor : la lumière qui exalte les couleurs poussées au plus vif, le souci de modernité qui transplante le Christ dans la Bruxelles du XIXe siècle tiraillée par des mouvements politiques contradictoires, les masques qui brouillent la réalité, l'apothéose du peintre enfin. Ensor donne ses traits au Christ entrant dans Bruxelles, comme s'il sacrifiait sa vie et sa paix à la peinture" (v. nota mais desenvolvida aqui).

O quadro só pode ser visto presencialmente no Getty Museum, em Los Angeles. Como se diz na nossa terra, "não está aqui à tranqueira da porta".

Hoje é Domingo de Ramos.

STARDUST MEMORIES Nº 9: CASTELO DE MOURA

Não insistirei mais (juro!) no Al dolce guidami castel natio,da ópera Anna Bolena, que tanto me marcou.

Mas o castelo de Moura, que tenho o privilégio de ver todos os dias, é um sítio marcante da minha memória, do meu trabalho e da minha vida. Hoje de manhã, deparei com esta fotografia no facebook, numa página que tem o bizarro nome de "não me mexam nos jpegs". Muitas e boas imagens, de muitos sítios, dentro e fora de portas. Quem chamou a atenção para esta foi o mourense Francisco Feliciano.

Autor? Diogo Margarido, tanto quanto consegui saber um homem do Alto Alentejo. Ano? 1958. A fotografia é excelente, por muitos motivos. O enquadramento é inabitual. As diferenças com o presente são notórias. Hoje, o castelo é um espaço aberto. O elemento humano desapareceu. As casas também. Nas que vemos ao fundo, que ficavam na Rua do Meio, há um elemento que inspira beleza e ternura. Os vasos de flores estão expostos ao jeito de festão ou de uma grinalda, como se de um templo clássico se tratasse. O sentido estético de um Povo, algo que se perdeu um tanto, ou foi substituído pela lógica pequeno-burguesa...

Memórias de um espaço que já não conheci assim. Mas que me continua a ser indispensável.

sábado, 8 de abril de 2017

A CURVA NO RIO

Tinha pensado, sem segundas intenções...,  em V.S. Naipaul e em A bend in the river, um livro absolutamente brilhante. Fui levado ao livro apenas pelo título e depois de ter penado pelos meandros do Murtigão, ao longo de toda a manhã. A verdade é que um rio em linha reta seria muitíssimo menos interessante... O término foi no Convento da Tomina, um delírio de Fé, longe do mundo e dos homens e talvez mais perto de Deus.

As curvas levaram-me direitinho a Niemeyer, o tal que dizia "mulher pelada tem todas as curvas do mundo…”.

Não é o ângulo reto que me atrai,
nem a linha reta, dura, inflexível,
criada pelo homem.
O que me atrai é a curva livre e
sensual, a curva que encontro nas
montanhas do meu país, no curso sinuoso
dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo
da mulher amada.
De curvas é feito todo o universo,
o universo curvo de Einstein

sexta-feira, 7 de abril de 2017

UM NOVO PARQUE INFANTIL NO JARDIM DA PORTA NOVA

Dando espaço aos mais novos, durante a inauguração do novo parque infantil, no Jardim da Porta Nova. Mais uma promessa que se cumpre. Outros parques infantis tomarão forma. Uns serão reaqualificados, outros construídos de raíz. Aquilo que foi anunciado é para se cumprir. Fazer política é uma coisa tão simples quanto isso.


O caminho continua. Tem sido assim, no que a este mandato diz respeito, desde outubro de 2013.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

O DRAMA DA ESTRADA DO SOBRAL

POST PESSOAL (e para a minha irmã Júlia)

O título tem ressonâncias queirosianas, mas a realidade é mais prosaica. O meu amigo José Francisco Finha colocou ontem no facebook esta fotografia aérea da zona sul de Moura, tal como era em 1964. Nela identificamos o enorme espaço do atual Parque Municipal de Feiras e Exposições, então ocupado por uma courela. Recordo-me das malhadas dos meus parentes da Amareleja, que aí faziam meloais. O terreno era fértil, até ao dia em que semearam cártamo. Depois disso, a courela ficou reduzida a pó.

Recordo-me também de um dia ter aí ido brincar e de depois ter começado a chover. E de usar uns plásticos de umas sacas de adubo como impermeável e ter levado uma sova mestra à conta disso...

O pior, contudo, foram as amoreiras. Estão assinaladas na fotografia com as setas. Um belo dia, em 1969 ou 1970, decidi ir às amoras com a minha irmã. A qual não conseguia subir às amoreiras. Ficava no chão, enquanto eu comia amoras e mandava outras para baixo. Que ela aparava no seu vestido branco (!) de piquet. O vestido ficou num estado desgraçado. Levámos não uma, mas duas sovas mestras.

Já lá vão quase 50 anos. Quando ali passo, e isso sucede com frequência, vejo ali as amoreiras. E dois miúdos que, inocentemente, comiam amoras sem saberem que o início da noite seria difícil...


Aditamento:
Querido cúmplice aqui vão mais uns pequenos detalhes dessa belíssima tarde que passámos juntos (como tantas outras que já ninguém nos rouba) : não era um vestido era uma saia que foi feita com uns retalhos que sobraram da confecção de um vestido da ‪Elisa Estevas‪ ‪:) Nessa tarde para além das amoras, picou-nos uma abelha (já näo me recordo se a ti ou a mim :/) e como tu eras um "experto" escuteiro e até sabias que pondo lama em cima da picadela a pele nao incharia….Oups pequeno problema, no pino do verão no Alentejo não há lama…no problem que os alentejanos nao se deixam abater pela calma : fizeste chichi misturamos com um raminho e pronto a argamassa ficou pronta a aplicar !!!

SONOPLASTIA

Não é a minha cena preferida de O carteiro de Pablo Neruda. Essa será, creio, a das metáforas e da mãe de ar teso (conheci exatamente pessoas assim, outrora, na Salúquia e em Paymogo...), que já aqui passou em 7 de agosto de 2009. Mas é, talvez, a mais comovente desse grande filme. Mario grava sons. Com poesia. Como no momento em que grava o som das estrelas e depois diz numero sette: cielo stellato...dell'isola. Associem isso à música de Luis Bacalov e tentem ficar de coração empedernido...

"O carteiro de Pablo Neruda", de Michael Radford, é o filme destes dias.


quarta-feira, 5 de abril de 2017

O VENTO MUDOU - 50 ANOS

Repito um post de 1.4.2010:

Pergunta-me a leitora Dulcineia (um bom nome, que remete para o assalto ao Santa Maria) o que é feito dos Delfins. A Dulcineia vive em França há quase 20 anos, daí não estar ao corrente destas pequenas histórias da Pátria.

Os Delfins já não existem, mas pertencem à vida de muitos de nós. À minha pertencem, seguramente. Em 1984 fui alvo do gozo generalizado dos colegas da direcção da Associação de Estudantes de Letras (a Isabel Martins, o Carlos Almeida, o Luís Guerreiro, o Paulo Pacheco, a Rosa Ribeiro, a Vanda Inácio, a Ângela Luzia etc. etc.) por ter comprado um disco dos Delfins, a versão pop de O vento mudou, cantado em 1967 por Eduardo Nascimento. A Esquerda associativa próxima do PCP era então bastante dogmática. As heterodoxias (as de outros colegas e as minhas) eram vistas pela linha oficial com a condescendência que se reserva aos desalinhados inofensivos. Alguns colegas de então tiveram evoluções políticas erráticas. Não sei se já gostam dos Delfins. Nunca é tarde para começar.



Grande canção, O vento mudou continua (já lá vão 50 anos!) a ser reinterpretada: Da Vinci, UHF, Os Cardosos (!), Ricardo Oliveira... Que melhor homenagem pode ter uma música?

UMA TARDE DIFERENTE

Encontro vespertino com os trabalhadores da COMOIPREL, da LÓGICA e da HERDADE DA CONTENDA. Tempo de balanço e de perspetivar o futuro. Tanto se falou de montarias (um tema sempre de grande interesse) como do Contrato Local de Desenvolvimento Social. Tanto se apresentaram os resultados na ocupação do Centro de Acolhimento às Microempresas como se constatou o bom desempenho da Escola Profissional. Muitos números? Decerto. Com a certeza que o futuro passa por projetos lançados no passado, há muito sedimentados e que agora nos permitem perspetivar o futuro com confiança.

Foi, que me recorde, o primeiro encontro deste género. Não será o último.

terça-feira, 4 de abril de 2017

NOUDAR

É o mais belo segredo escondido da minha terra. Pareceu-me mais bonito ainda, na luz vespertina do passado sábado. A beleza, as proporções  a harmonia do claustro de Santo António da Pipa são quase invisíveis. O claustro é pequeno. O sol quase se esconde. Ou pouco aparece. E parece estar sempre a pôr-se. Daí me ter lembrado de Paul Verlaine.


Soleils couchants

Une aube affaiblie
Verse par les champs
La mélancolie
Des soleils couchants.

La mélancolie
Berce de doux chants
Mon coeur qui s'oublie
Aux soleils couchants.

Et d'étranges rêves,
Comme des soleils
Couchants, sur les grèves,
Fantômes vermeils,

Défilent sans trêves,
Défilent, pareils
A de grands soleils
Couchants sur les grèves.

segunda-feira, 3 de abril de 2017

DO AZUL MAJORELLE A LUIS BARRAGÁN: OUTRA SETÚBAL

Nunca tinha visitado a Casa da Baía, embora conheça Setúbal, cidade que me está no coração. Não sei quem fez o projecto de reabilitação do edifício, mas tudo aquilo tem cores do sul. Tudo aquilo é feliz

O azul majorelle e aquele ar Luis Barragán tornaram luminoso o dia. Depois Luís de Camões veio em meu auxílio.

Julga-me a gente toda por perdido,
Vendo-me tão entregue a meu cuidado,
Andar sempre dos homens apartado
E dos tratos humanos esquecido.

Mas eu, que tenho o mundo conhecido,
E quase que sobre ele ando dobrado,
Tenho por baixo, rústico, enganado
Quem não é com meu mal engrandecido.

Vá revolvendo a terra, o mar e o vento,
Busque riquezas, honras a outra gente,
Vencendo ferro, fogo, frio e calma;

Que eu só em humilde estado me contento
De trazer esculpido eternamente
Vosso fermoso gesto dentro na alma.


domingo, 2 de abril de 2017

A SOMBRA DA TARDE - REVISTA E ATUALIZADA



Esta tarde, no meio da luz forte do fim da tarde, voltei a uma das minhas esculturas preferidas. É uma estátua etrusca, conservada no Museu Guarnacci, em Volterra. A sombra da tarde é uma obra-prima. Dela passei à poesia de Alfonso Gatto. Um plácido fim de tarde, à saída da Feira do Livro, no meio da luz dourada da estrada dos celeiros. Com il silenzio, il muovere dell'ombra.

L'erba, il silenzio, il muovere dell'ombra
Soli, nel pianto tuo della mattina,
l'erba, il silenzio, il muovere dell'ombra
e gli steli del vento. Il tuo sollievo
è di vederti calma nell'attesa
ch'io giunga da lontano, il tuo riposo
è la speranza d'incontrarci a sera
per caso in un inverno.
Lasciarti per sparire,
per essere il tuo cielo dove guardi
senza rimorsi, avere il tuo rimpianto,
la tua memoria, le tue mani vuote...
Forse è più dolce piangermi che avermi.
Alfonso Gatto (1909-1976)

CONTRA O CINZENTISMO, NONSENSE DOMINICAL

O título também podia ser De Adriano Ramos Pinto a Xana Toc Toc passando por Jeroen Dijsselbloem. Lá fora estão 22º, está um céu de um azul que até dói quando se olha. Diz o site da CNN que em Amesterdão está nublado e a temperatura máxima é 14º. Coitado do Jeroen Dijsselbloem...

Nós temos os vinhos do Porto Ramos Pinto (que sintetizam o pensamento Dijsselbloemiano em toda a sua dimensão) e Xana Toc Toc. São formas diferentes de combater o cinzentismo e a monotonia. Embora não se possa falar em Xana Toc Toc à minha prima Cristina, mas isso são outros temas...

Qual o sentido de tudo isto? Não sei. Mas deixo-vos o monólogo final do filme "The meaning of life":
Now, here's the meaning of life. (...) Well, it's nothing very special. Uh, try and be nice to people, avoid eating fat, read a good book every now and then, get some walking in, and try and live together in peace and harmony with people of all creeds and nations, and, finally, here are some completely gratuitous pictures of penises to annoy the censors and to hopefully spark some sort of controversy, which, it seems, is the only way, these days, to get the jaded, video-sated public off their fucking arses and back in the sodding cinema. Family entertainment bollocks. What they want is filth: people doing things to each other with chainsaws during tupperware parties, babysitters being stabbed with knitting needles by gay presidential candidates, vigilante groups strangling chickens, armed bands of theatre critics exterminating mutant goats. Where's the fun in pictures? Oh, well, there we are. Here's the theme music. Goodnight.




sábado, 1 de abril de 2017

OBSERVANDO A CANDIDATA


Mais assiduidade como Presidente de Câmara?
A assiduidade não é bitola? E exemplo será?
Não é preciso dizer mais nada, pois não?

FOTOGRAFIA - 1967/2017

A fotografia data do verão de 1967. Estou em pijama e cabelo cortado à tijela, na cozinha de uma casa em Montenegro, perto de Faro. Lembro-me da casa por causa dessa fotografia e porque um dia, em frente à casa, um cão se atirou a um motociclista, deixando-o maltratado. No retrato estou eu, orgulhoso, com uma máquina fotográfica de plástico ao pescoço. Quando clicava no obturador, saía da lente uma cabeça de leão... Eu achava que estava a fotografar. Na realidade, era um gesto de imitação. Por causa do João. O João andava quase sempre com uma Regula King, de fabrico alemão, que comprara em Luanda. Às vezes deixava-me disparar, e eu achava graça aqueles risquinhos que se viam quando espreitava pelo visor.
A fotografia foi-me útil anos mais tarde. Por razões profissionais e terapêuticas. Escondia uma crónica timidez detrás das lentes. Um amigo trouxe-me dos Estados Unidos uma Nikon FM2, com uma magnífica lente de 50 mm (1:8). Foi a primeira máquina a sério. A necessidade de fazer registos dos trabalhos de arqueologia levou-me a investimentos pesados: uma Leica R7 primeiro, uma Leica M6 dois anos mais tarde. Esta em especial, silenciosa e com uma lente extraordinária, passou a ser companhia fiel. De dia e de noite. A timidez continuou, anos a fio, quase sem cura. Deambular pelo Magrebe, pelo Médio Oriente e por África tornou-se, até me tornar autarca, parte da minha vida e da minha auto-formação. Rolos a preto e branco FP4 (125 asa) e HP5 (400 asa), usados consoante as circunstâncias. As máquinas tornaram-se introspeção e reflexão. Enquanto me concentrava naquilo não pensava noutras coisas. Enquanto tentava resolver os enquadramentos, não me preocupava com outros assuntos. Fotografar tornou-se, cada vez mais, um ato solitário e compensador.

Interessam-me as sombras, os reflexos e as diagonais. Não sou um bom fotógrafo. Não tenho, por isso, traumas nas vezes em que falhei e nas muitas coisas menos boas que fui fazendo. Lá para trás, ficaram duas pessoas: o miúdo de pijama que clicava numa máquina de brincar comprada em Ayamonte, e o adolescente que fazia "reportagens" à beira do Ardila no meio de infináveis patuscadas. Fotógrafo? Nem por sombras. Um homem na casa dos 50 que gosta de fazer retratos. Em maio, haverá uma pequena exposição de rua sobre espaços de culto, durante o Festival Islâmico, em Mértola. A partir de outubro, as máquinas ressuscitam. Se ainda não tiverem ganho ferrugem.

Crónica publicada hoje, em "A Planície"