sábado, 17 de junho de 2017

UM "PRÉMIO" DIFERENTE E ESPECIAL

Comecei o dia bisbilhotando o facebook. E eis que encontro esta referência, que me fez "ganhar o dia". As razões são as de Maria José Moura. Creio, para lá das apreciações pessoais, que gostará de conhecer o dossiê de candidatura que a nossa Câmara Municipal tem em preparação. E que dará novo alento à leitura pública no concelho de Moura.


sexta-feira, 16 de junho de 2017

NOITE SEM LUZ

Um acidente num posto transformador deixou parte de Moura sem iluminação pública durante muitas horas. Sítios como o jardim público lançavam uma generosa luz sobre a escuridão. Os volumes ficaram mais recortados e pormenores esquecidos ganhavam vida. Deambulei um pouco por ali. Ainda pensei em ir buscar o tripé e tentar algumas exposições mais prolongadas. Era quase meia-noite. Sucumbi ao pragmatismo. E, sobretudo, ao cansaço. Quando a luz voltar a faltar estarei preparado.


quinta-feira, 15 de junho de 2017

ANTÓNIO AUGUSTO MARQUES DE ALMEIDA (1936-2017)

Foi meu professor de Matemática para as Ciências Sociais e Humanas no ano letivo de 1981/82. A primeira aula foi no dia 7 de dezembro, na sala 7. Recordo o sorriso meio irónico com que entrou na sala e deparou com a turma, silenciosa e aterrorizada. Matemática?? A cadeira era obrigatória. Com sensibilidade e inteligência, o Prof. Marques de Almeida levou a "coisa" por outros caminhos. Interessou-nos por Bento de Jesus Caraça, pela matematização do real, pela visão qualitativa e não quantitativa. As aulas eram espaços de liberdade e Marques de Almeida obrigava-nos a improvisar. Uma das componentes obrigatórias era a "apresentação oral". Tinhamos de falar durante 10 ou 15 minutos sobre um tema à nossa escolha. Optei pelo cinema português e pela visão que os estrangeiros colhiam de Portugal através dos filmes. Com aquele pequenos exercício, Marques de Almeida queria que nos disciplinássemos e que puséssemos o cérebro a trabalhar cronometricamente. Lembrei-me do seu austero "tens 10 minutos para terminar" muitas vezes ao longo da vida. Orientou-me nas leituras, obrigou-me a ler o Capitalismo monárquico português, de Manuel Nunes Dias, fez-me trabalhar sobre a feitoria portuguesa de Antuérpia e, sobretudo, ajudou-me.

Perdido em dúvidas filosóficas, sozinho e sem vontade especial de estudar História, teria errado se não fosse o apoio que me deu. A generosa nota com que terminei Matemática foi um impulso decisivo para a carreira que mais tarde escolhi. Marques de Almeida parecia-me um homem quase idoso. Constato agora que tinha apenas 45 anos... Faleceu ontem. Vi-o a última vez há uns bons quatro ou cinco anos.


Coincidências e ironias do destino: doutorei-me, em Lyon, no amphithéâtre Benveniste. O nome de judeu que motivou a criação pela família Benveniste, em 1996, de uma cátedra na Universidade de Lisboa. Primeiro diretor dessa cátedra? Marques de Almeida.

Professores importantes no meu percurso de aprendizagem?
António Augusto Marques de Almeida
Cláudio Torres
Eduardo Borges Nunes
João B. Serra
Manuel Rio-Carvalho
Muito poucos, em quatro anos.
De entre o que foram meus professores sem me terem dado aulas não posso esquecer António Borges Coelho e José Luís de Matos.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

A ESTÁTUA



Nas suas mãos a voz do mar dormia
Nos seus cabelos o vento se esculpia

A luz rolava entre os seus braços frios
E nos seus olhos cegos e vazios
Boiava o rasto branco dos navios

O Hotel de Moura, num relance, às 22:49. Sophia de Mello Breyner Andresen, no silêncio da noite.

terça-feira, 13 de junho de 2017

PASSADO E FUTURO DO CONVENTO DO CARMO DE MOURA


O Convento do Carmo de Moura vai integrar o Projeto REVIVE. O projeto REVIVE abre o património ao investimento privado para desenvolvimento de projetos turísticos, através da realização de concursos públicos.
A participação do Convento do Carmo neste programa de dinamização resultou dos contactos e diligências feitas pela Câmara Municipal de Moura junto da Secretaria de Estado do Turismo.

Esta simples notícia, difundida na passada semana pela Câmara Municipal, provocou um conjunto desencontrado de reações. Do júbilo à desconfiança, da esperança à provocação, de tudo um pouco fui lendo.

Vale a pena recordar de que estamos a falar e como aqui chegámos. A igreja tem origem medieval (um olhar mais atento permite identificar, ainda hoje, elementos arquitetónicos do primitivo edifício, que se enquadrava no chamado “gótico alentejano”). O conjunto é uma mistura de épocas e de campanhas de obras. A última utilização efetiva foi como hospital. A construção de um novo equipamento (primaira asneira), sem se planear o uso seguinte do convento (segunda asneira), deu mau resultado. Há mais de 25 anos que todo aquele conjunto está sem utilização. Ideias disparatadas e sem sentido (como a do pólo universitário ou a do ‘centro cultural’) cairam por terra, por mais que evidente inviabilidade. Contactos, feitos em 2014, com o Ministério da Admistração Interna, para a instalação de um Centro Municipal de Proteção Civil, acabaram por se gorar.

Qual o cerne da questão? Atribuir ao edifício funções compatíveis com a sua dignidade, garantir a vibalidade da sua manutenção e, questão crucial, pagar a fatura. Quanto custa a recuperação do Convento do Carmo? Algo entre quatro e cinco milhões de euros.

A inclusão no projeto REVIVE resolve o problema? Não resolve. Cria um mecanismo que permite trabalhar soluções e financiá-las. Porque é que o convento foi incluído neste projeto? Porque insistimos junto do Turismo de Portugal e da Secretaria de Estado do Turismo para que tal acontecesse. Com que argumento? Um, muito simples. A capacidade demonstrada pela Câmara Municipal em recuperar e utilizar edifícios e espaços públicos (Quartéis, Matadouro, antigo quartel dos bombeiros, igreja do Espírito Santo, Pátio dos Rolins, igreja de S. Francisco, Lagar de Varas, Mouraria, castelo etc.). Em fazê-lo de forma determinada e com reconhecida qualidade. Tem sido assim. Há outras formas de fazer? Há, de certeza. Mas nunca vi uma só proposta nesse sentido.

De momento, o Convento do Carmo é o único imóvel no distrito de Beja a integrar o REVIVE. Podíamos ter tido outras opções? Decerto. Podíamos dedicar-nos à política da treta, da “coisinha piquinina”, das fraldinhas e dos dodots.


Preferimos outro caminho. A das infraestruturas e da reabilitação dos sítios. O antigo grémio, o Bairro do Carmo, a torre do relógio (Amareleja), o terminal rodoviário, todos com projetos aprovados e financiamento em vias de concretização são as intervenções que se seguem. O Convento do Carmo surge agora como passo seguinte. E de grande dificuldade. Podemos trocar isso por uma política de fraldinhas e de dodots? Podemos. Mas seria uma lástima. E as gerações futuras não nos perdoariam.

O presente texto foi editado hoje, em "A Planície". A fotografia de Ruth Bernhard (1905-2006), com o seu ponto de fuga indica-nos o caminho. Sempre em frente, sempre mais além. Com determinação e com a certeza do caminho que se trilha.

segunda-feira, 12 de junho de 2017

HOMENAGEM A MARIA JOSÉ MOURA

Neste blogue, em 23.6.2011:

Fui, entre setembro de 1986 e junho de 1992, funcionário da Câmara de Moura. Ninguém se banha duas vezes na água do mesmo rio e ninguém pode fazer duas vezes o mesmo percurso. Ao transferir-me para Mértola sabia que jamais voltaria ao quadro da autarquia da minha terra natal. Sem hesitações ou arrependimentos.

Desse percurso, curto e intenso, tenho boas e más recordações. A melhor de todas foi, sem dúvida, o processo de renovação da Biblioteca Municipal.

No dia em que assumi a chefia da divisão cultural da Câmara de Moura (25.9.1986) já tinha preparada uma ideia do que poderia ser a remodelação da Biblioteca Municipal. Passei dias a fio, nesses tempos bárbaros sem net nem telemóveis, até localizar a Dra. Maria José Moura, coordenadora do grupo de trabalho e então bibliotecária da reitoria da Universidade de Lisboa. Falar com ela foi o primeiro passo. Nos meses seguintes o programa de intervenção foi-se aprofundando, com a participação renitente do sr. João da Mouca, que preferia um programa mais discreto, e alicerçado no projeto de arquitetura de Maria Teresa Ribeiro. A nossa candidatura seria entregue em maio de 1987. Soubémos, algum tempo depois, que Moura integrava o primeiro grupo de sete municípios que, a sul, iria ter apoio. O contrato seria depois assinado e as obras iniciadas já em 1989.


Maria José Moura foi homenageada no passado dia 10. Num País de ingratidão, este gesto foi especialmente significativo. Devo-lhe/devemos-lhe muito. O meu percurso não seria o mesmo, se não me tivesse cruzado com ela, na impaciência dos meus 23 anos. A rede de leitura pública deve-lhe o nunca lhe poderemos pagar...

Obrigado, Dra. Maria José Moura!

domingo, 11 de junho de 2017

FIM DE FESTA

Um Adeus Português

Nos teus olhos altamente perigosos
vigora ainda o mais rigoroso amor
a luz de ombros puros e a sombra
de uma angústia já purificada

Não tu não podias ficar presa comigo
à roda em que apodreço
apodrecemos
a esta pata ensanguentada que vacila
quase medita
e avança mugindo pelo túnel
de uma velha dor

Não podias ficar nesta cadeira
onde passo o dia burocrático
o dia-a-dia da miséria
que sobe aos olhos vem às mãos
aos sorrisos
ao amor mal soletrado
à estupidez ao desespero sem boca
ao medo perfilado
à alegria sonâmbula à vírgula maníaca
do modo funcionário de viver

Não podias ficar nesta cama comigo
em trânsito mortal até ao dia sórdido
canino
policial
até ao dia que não vem da promessa
puríssima da madrugada
mas da miséria de uma noite gerada
por um dia igual

Não podias ficar presa comigo
à pequena dor que cada um de nós
traz docemente pela mão
a esta dor portuguesa
tão mansa quase vegetal

Não tu não mereces esta cidade não mereces
esta roda de náusea em que giramos
até à idiotia
esta pequena morte
e o seu minucioso e porco ritual
esta nossa razão absurda de ser

Não tu és da cidade aventureira
da cidade onde o amor encontra as suas ruas
e o cemitério ardente
da sua morte
tu és da cidade onde vives por um fio
de puro acaso
onde morres ou vives não de asfixia
mas às mãos de uma aventura de um comércio puro
sem a moeda falsa do bem e do mal

*

Nesta curva tão terna e lancinante
que vai ser que já é o teu desaparecimento
digo-te adeus
e como um adolescente
tropeço de ternura
por ti.


Alexandre O'Neill


A festa acabou, deixando um certo travo amargo de despedida. Este poema de O'Neill tem a ver com isso. Para mim tem.