segunda-feira, 30 de setembro de 2019

UMA MESQUITA NA BAIXA

Já conhecia a mesquita da Rua da Conceição, mas só através da bibliografia. No final da semana passada, a Ana Caessa convidou-me a visitar a escavação. Que eu supunha terminada há muito. Não só está em curso, como é um trabalho absolutamente fascinante. O Nuno Mota e ela andam às voltas com troços de Lisboa que estão em fase de releitura. Que a mesquita tenha sido colocada no teto do criptopórtico já é notável. Que se trate de uma pequena mesquita de bairro é um facto inédito na nossa arqueologia. Que ao lado estejam os muros que delimitam a cidade romana é outro dado relevante. Tenho, ao longo deste ano e meio, ido descobrindo pequenos troços da cidade antiga. O labor de dezenas de arqueólogos começa, com qualidade e consistência, a ganhar leituras cada vez mais claras.

Ver:
Ana Caessa, Cristina Nozes, Nuno Mota - Uma mesquita no arrabalde ocidental de al-Ushbuna in "Espaços e poderes na Europa urbana medieval" (coord. Amélia Andrade et al.), Lisboa, Instituto de Estudos Medievais, 2018 - está disponível na net.


O PAN E O ENSINO DA HISTÓRIA

E o PAN lá vai, embalado no seu discurso da treta e num programa aterrador. No seu programa, fanático e obcecado, lemos pérolas como esta:

REVER O CURRÍCULO ESCOLAR DA DISCIPLINA DE HISTÓRIA PARA ENSINAR FACTUALMENTE, E DE FORMA ACRÍTICA, A HISTÓRIA DE PORTUGAL, NOMEADAMENTE O PERÍODO COLONIAL.

Li isto algures e pensei (pensei mesmo, sem ironia) que fosse brincadeira ou mais uma fake news. Fui ao programa do PAN e está lá. Para além do disparate factual (um retrocesso de muitas décadas), chama a atenção a apologia da forma acrítica. Podiam ter acrescentado acéfala.

Para quem possa andar distraído, a verdadeira ameaça à Liberdade não vem do Chega, nem de Pinto-Coelho, que são fenómenos folclóricos. Vem do PAN, porque o seu estruturado discurso esconde as maiores enormidades. São vegetarianos e gostam de animais. E daí? Hitler também.


domingo, 29 de setembro de 2019

JOÃO VIEIRA - A IMPROVÁVEL CONSAGRAÇÃO

Aos 43 anos, João Vieira ganhou a medalha de prata nos 50 quilómetros marcha, nos Mundiais de Doha. Ou seja, foi de Moura a Beja em pouco mais de quatro horas...

O que mais me impressiona em carreiras como a dele é o facto de nunca perderem o norte e permanecerem sempre focados. Treinos rigorosos, uma vida disciplinada, uma existência austera e sem tréguas.

O palmarés impressiona:
12 vezes campeão nacional de 20 km. marcha
3 vezes campeão nacional de 50 km. marcha
3º lugar no Campeonato da Europa / 2006 (20 km marcha)
2º lugar no Campeonato da Europa / 2010 (20 km marcha)
3º lugar no Campeonato do Mundo / 2013 (20 km marcha)
2º lugar no Campeonato do Mundo / 2019 (50 km marcha)

OS OLHOS DE SARAH

Ao ver, ontem, a exposição Sarah Affonso e a arte popular do Minho fiquei com a ideia que a artista pintava, sempre e em todas as figuras, os olhos do seu amado. Mesmo antes, e premonitoriamente, de o ter conhecido.

Hay ojos que miran, -hay ojos que sueñan, 
hay ojos que llaman, -hay ojos que esperan, 
hay ojos que ríen -risa placentera, 
hay ojos que lloran -con llanto de pena, 
unos hacia adentro -otros hacia fuera. 

Son como las flores -que cría la tierra. 
Mas tus ojos verdes, -mi eterna Teresa, 
los que están haciendo -tu mano de hierba, 
me miran, me sueñan, -me llaman, me esperan, 
me ríen rientes -risa placentera, 
me lloran llorosos -con llanto de pena, 
desde tierra adentro, -desde tierra afuera. 

En tus ojos nazco, -tus ojos me crean, 
vivo yo en tus ojos -el sol de mi esfera, 
en tus ojos muero, -mi casa y vereda, 
tus ojos mi tumba, -tus ojos mi tierra.

Miguel de Unamuno




SHELL SCOTT

O livro era exatamente este. Andava lá pela casa da Salúquia sem que houvesse a mínima indicação da sua "origem". Num dos verões da adolescência (1978? 1979?), e à falta de outra leitura, peguei-lhe. Li-o de uma ponta à outra, descobrindo o interesse de autores "secundários". Havia histórias bem urdidas - recordo a trama da maior parte delas, sei lá porquê... - e uma que não chegava ao fim. Pela simples razão que a última folha, e a contracapa, tinham sido arrancadas. Era a história de um homem que a Segurança do Estado encerra num farol, esperando que ele assassinasse o bebé que ali fora deixado, para colocar à prova a sua super-sensibilidade ao som.

No outro dia, na Biblioteca Nacional, entre a releitura de Oleg Grabar e a consulta da monumental edição do CHAM Velhos e Novos Mundos. Estudos de Arqueologia Moderna lembrei-me: "terão as antologias de Shell Scott?". Tinham, claro. Pedi o segundo volume (dado à estampa em abril de 1967) e voltei à página de um conto começado a ler há mais de 40 anos. A última página é dececionante e talvez tivesse tido mais graça ficar na dúvida sobre o remate da narrativa. Numa senda um pouco borgesiana.

O autor do conto é Theodore Mathieson (1913-1995), que publicou em várias das antologias de Alfred Hictchcock.

Shell Scott era editado pela Ibis, uma casa que já fechou e que ficava a menos de dois quilómetros do sítio onde me encontro.

TWIMC: a cota é L. 78038 P.

sábado, 28 de setembro de 2019

AUTO DE FÉ

Um livro foi apreendido numa biblioteca pública como prova de um suposto crime de plágio. Um livro tem conteúdos supostamente indecentes. O livro é o mesmo e as "justificações" são atabalhoadas. O sítio onde o ataque ao livro, e a sua apreensão, foi perpetrado foi uma biblioteca pública. O informador rejubilou.

Não suporto proibições. Muito menos de livros. A culpa é dos informadores? É. Mas é sobretudo de quem, por medo ou por conveniência, os segue.

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

QUINTA COLUNA Nº. 6: SÃO CUCUFATE

Quarenta anos passaram e chegou o tempo da celebração. A festa que aconteceu no passado fim de semana sublinha tudo isso. O passar do tempo e o êxito da tarefa. O sítio arqueológico era, no final dos anos 70, pouco mais que um sumptuoso cenário. Tomou a seu cargo a direção do projeto de escavações do sítio um ainda jovem professor da Universidade de Coimbra. Aos 45 anos, Jorge Alarcão reuniu uma equipa disposta a fazer a fazer da arqueologia muito mais que um simples trabalho de campo. As escavações prologaram-se por vários anos. Em 1990, eram dados à estampa dois monumentais volumes resumindo os trabalhos arqueológicos, sob a direção de Jorge Alarcão, de Robert Étienne e de François Mayet. “Les villas romaines de São Cucufate” é um trabalho exemplar e de fôlego. Ao longo dos anos em que os trabalhos foram concretizados o Município da Vidigueira era dirigido por um alentejano maior, o comunista Carlos Góis. Um homem vertical e digno, que apostou no Património muito antes disso ser moda ou um gesto de bem parecer.

São Cucufate é hoje um sítio visitável e com um percurso didático. O sítio é uma vitória sobre a inércia. Das várias fases da estação arqueológica é a “villa” do século IV a que chegou até nós de forma mais visível. Podemos imaginar o esplendor do palacete nos seus dias de maior riqueza. Com o tanque em frente ao edifício, com os banhos e as amenidades que os senhores do sítio criavam para um quotidiano que era a antecâmara do paraíso. O templo que ali vemos foi depois cristianizado, tal como o de Milreu ou o da Quinta do Marim. O sítio foi ganhando um pendor religioso cada vez mais vincado. Até cair no esquecimento e ser resgatado pela arqueologia.

A celebração do passado fim de semana é um sinal dos tempos. Um sinal necessário, mas melancólico. Os grandes projetos de arqueologia do sul estão num ponto de viragem. A escavação de Mértola arrancou em 1978, a de Silves sensivelmente na mesma altura, Mesas do Castelinho começou alguns anos mais tarde. O compromisso autárquico de outrora é hoje, e com a exceção de Mértola, menor e marcado por outras prioridades. Vive-se um fim de ciclo.

Jorge Alarcão deixa uma marca indelével na Arqueologia Portuguesa. Sabiamente, optou por publicar as suas obras de maior fôlego (de que foi autor ou coordenador) em línguas usadas de forma corrente pela comunidade científica. São disso exemplo as “Fouilles de Conimbriga” (em sete volumes, entre 1974 e 1977) e “Roman Portugal” (em dois volumes, que são quatro..., publicados em 1988). O conhecimento cruzou fronteiras.

Nos dias que passam as prioridades são outras. Claro que há novos projetos e uma nova geração a fazer coisas e a iniciar o seu percurso. Com a certeza, porém, que não poderão contar com homens como Carlos Góis ou como Serrão Martins. Impera o curto prazo. A visão de longo prazo desse outro alentejano maior que se chama Jorge Alarcão é coisa cada vez mais rara.

O ciclo de São Cucufate está, por agora, encerrado., A reabilitação foi feita, escutou-se aquilo que o chão nos diz e os livros foram publicados. Aguardemos o que a próxima geração (não a minha, que já não é a próxima) tem para dizer.

O sítio de São Cucufate está classificado como monumento nacional desde 1947.

As ruínas de São Cucufate, em tempos que já lá vão.

Crónica publicada hoje, no "Diário do Alentejo".

27.9.1979 - A MORTE SAIU À RUA

Foi há 40 anos. Recordo-me do dia com se fosse hoje. Dois trabalhadores da UCP Bento Gonçalves, no concelho de Montemor-o-Novo, foram mortos a tiro, durante uma ação de protesto. António Casquinha, de 17 anos, e José Geraldo "Caravela", de 54, militantes comunistas, já não voltaram casa, nessa trágica quinta-feira.

A força da GNR disparou para ar... Era primeira-ministra Maria de Lurdes Pintasilgo. Era Ministro da Agricultura Joaquim da Silva Lourenço. Era Ministro da Administração Interna Manuel Costa Brás. Era Ministro da Justiça Pedro Sousa Macedo, mais tarde presidente do Supremo. Não houve conclusões. Ninguém foi acusado. Ninguém foi responsabilizado.

O momento foi imortalizado por João Hogan. A extraordinária tela pertence à Câmara Municipal de Cuba. Foi ocultada entre 2001 e 2013, por opção do presidente da câmara de então. Está hoje em lugar digno e apropriado.


A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome pra qualquer fim
Uma gota rubra sobre a calçada cai
E um rio de sangue dum peito aberto sai

O vento que dá nas canas do canavial
E a foice duma ceifeira de Portugal
E o som da bigorna como um clarim do céu
Vão dizendo em toda a parte o pintor morreu

Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
Só olho por olho e dente por dente vale
À lei assassina, à morte que te matou
Teu corpo pertence à terra que te abraçou

Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim
Na curva da estrada, há covas feitas no chão

E em todas florirão rosas duma nação

(José Afonso)

quinta-feira, 26 de setembro de 2019

CDU - 6.10.2019

E não podendo aí (em Moura) estar, aqui fica a minha presença. O voto é daqui a uns dias e será presencial, bem entendido. Quanto às razões, poderia dispensar de as enunciar, mas será tema para texto autónomo. Daqui a dias.

quarta-feira, 25 de setembro de 2019

IMPROVISAÇÃO 33

Não é bem uma improviso e só voltarei a assinalar este dia em 2021 (35 anos) e em 2026 (40 anos). Se lá chegar. Faz hoje 33 anos que entrei para a Função Pública. Improvisation 33 (Orient 1) é o título do quadro que Wassily Kandinsky (1866-1944) pintou em 1913.

Dia 25 de setembro de 1986 calhou a uma quinta-feira. Aos 23 anos, 3 meses e 22 dias tornava-me Chefe da Divisão Sócio-Cultural da Câmara Municipal de Moura. Iria penar um tanto...

terça-feira, 24 de setembro de 2019

NO MEU TEMPO...

"No meu tempo é que era bom...". Era? Não era. Bom era eu ter 20 ou 21 anos. De resto, o ensino universitário era pior, as bibliotecas eram piores, as instalações eram piores. "Eles" agora sabem menos? De certo modo, sim. Mas são os menos culpados desta situação. No meu tempo era pior e havia menos condições. Ontem, à noite, ao terminar a preparação de uma aula, dei-me conta da multiplicidade de recursos que temos ao nosso dispor e a forma como podemos / devemos utilizá-los em nosso benefício. Evitando os pop-ups, que quase se tornaram a dominante.

Em jeito de exemplo. Foi com enorme prazer que dei, há tempos, com desenhos do arquivo de de K.A.C. Cresswell (1879–1974) num site ligado à Fundação Aga Khan. Estão pela net essas e muitas outras coisas, outrora inalcançáveis. São pequeníssimos exemplos que ajudam a mostrar que agora é que é bom.


Ribat de Sousse

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

CDU - A PLURALIDADE DO SINGULAR

Passei a noite vendo e ouvindo os comentadores a salivar abundantemente ante o desaparecimento da CDU, na Madeira. É claro que os militantes do PCP foram "dispensados" de qualquer comentário. Muita graça teve, mesmo!, a fúria dos tais comentadores ao referirem "o PCP quase desapareceu". A sô dona Constança Cunha e Sá garantia que não haveria eleitos da CDU na Assembleia Regional. O resultado foi mau, mas quem desapareceu foram o BLOCO e o PAN. A CDU voltou à representação de 2011.

De madrugada, o Observador, atribuía a outros 1 deputado. É o estilo da chamada imprensa livre. Ou, como dizia o imortal Vasco Santana em "A canção de Lisboa", no meio de uma bebedeira «Ó Carlos, mas agora tu és dois». Para, de seguida, dizer «Claro! És Carlos. Carlos é plural». Já falta de vergonha, por exemplo, não tem plural...

O OUTONO, ÀS 8:50

Chega daqui a pouco. A luz muda, a atmosfera muda, o tempo muda. Utagawa Hiroshige (1797–1858) pintou esta paisagem de outono, hoje no Smithsonian, há quase 200 anos. Paul Verlaine (1844-1896) escreveu o poema há pouco mais de 150. Entre um e outro, o outono prevê-se calmo:
12.10 - Abertura da exposição "Caligrafias", em Moura;
01.11 - Lançamento do livro 929, pela Tinta da China;
16.12 - Data limite para entrega das candidaturas ao Prémio Vilalva.
O resto vai "acumular" em 2020. É um jackpot sem contrapartidas financeiras.








Chanson d’automne



Les sanglots longs
Des violons
De l’automne
Blessent mon coeur
D’une langueur
Monotone.
Tout suffocant
Et blême, quand
Sonne l’heure,
Je me souviens
Des jours anciens
Et je pleure
Et je m’en vais
Au vent mauvais
Qui m’emporte
Deçà, delà,
Pareil à la
Feuille morte.
Paul Verlaine, Poèmes saturniens

domingo, 22 de setembro de 2019

CRÓNICAS OLISIPONENSES - XXXVII

Crónica de domingo cinzento e bisonho. Texto de ócio, enquanto o trabalho espera um pouco...

A pergunta que me pus foi "porquê segunda circular?". Onde fica a primeira? E haverá outras? Cito, ipsis verbis, do blogue BIC LARANJA:

A 2.ª Circular é fruto dos planos de urbanização e expansão de Lisboa do tempo do Estado Novo gizados pelo Eng.º Duarte Pacheco e ordenados num plano de avenidas radiais e circulares. O esquema é também conhecido por Plano Director de 1948 ou plano De Groer. As circulares, contadas do exterior para o interior, seriam:
  • a 1.ª, de Moscavide a Algés pelo N do aeroporto, Lumiar, Pontinha, Buraca e exterior do Monsanto.
  • a 2.ª, de que muito se fala, mas que poucos entendem cabalmente, pois que no plano De Groer ligaria o Cabo Ruivo a Pina Manique, entroncando aí na 1.ª; digo que poucos a entendem porque lhe chamam «circular» sem noção de que para sê-lo, a Av. do Marechal Gomes da Costa é parte integrante; em lugar disso chama muita gente (todos, tenho impressão) 2.ª Circular ao troço (radial) da Av. do Marechal Craveiro Lopes paralelo à Av. da Cidade do Porto.
  • a 3.ª, de Alcântara a Xabregas, pelo vale da ribeira (Av. de Ceuta), Sete Rios, Entrecampos, Av. E.U.A. e vale de Chelas;
  • a 4.ª, da Cruz da Pedra ao Areeiro pela Afonso III, Alto de S. João, Quinta das Olaias e dali pela João XXI, Av. de Berna e Av. Calouste Gulbenkian até entroncar na 3.ª e;
  • a 5.ª, a mais interior, pela Infante Santo, Estrela, Rato, Conde de Redondo, Anjos, Sapadores e St.ª Apolónia.
Plano Director de Urbanização de Lisboa, 1948.

sábado, 21 de setembro de 2019

EL CID, EM PAYMOGO

Procurava, há pouco, imagens de filmes para um projeto em curso, quando fui parar a EL CID. Não corresponde à época sobre a qual o projeto incide e duvido que possamos tirar partido deste estilo carnavalesco. Mas o visionamento trouxe-me à memória o sítio onde vi o filme. Foi no desaparecido Cine Victoria (seria esse o nome?), em Paymogo. Terá sido em 1970 ou em 1971 e achei o filme um pavor. Três horas de pastelão... Recordo apenas a cena da batalha, pelo clamor imenso, multiplicado pelo roufenho sistema sonoro da sala.

"El Cid" foi uma das produções concretizadas por Samuel Bronston em Espanha. Depois do flop de "A queda do império romano" (realizado, tal como o anterior, por Anthony Mann), a sua produtora foi à falência, deixando um razoável número de calotes na terra de nuestros hermanos.



O cinema era nesta esquina.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

A SEQUÊNCIA DOS DIAS

A semana que acaba. O verão que acaba. Subitamente, tudo se renova. Pego no enésimo moleskine e faço as contas aos dias que hão-de vir. Volto a Rui Cinatti, poeta tranquilo e personalidade multifacetada. E à suas palavras, lunares e solares.

O outono começa na segunda-feira, às 8:50.


AGARREI NO AR 

Agarrei no ar um véu
esmaecido de azul,
igual ao azul do céu
iluminado pela lua.

Eu passo a vida a sonhar
iluminado pela lua.


Rui Cinatti (1915-1986)

Tzompantli no Codex Ramírez - séc. XVI

quinta-feira, 19 de setembro de 2019

NATUREZA MORTA COM BIFE

Anda tudo em polvorosa por causa de uma decisão do reitor da Universidade de Coimbra. Não haverá mais carne de vaca nas cantinas da vetusta. Parece medida mais oportunista que outra coisa, como aliás se viu pelo que a seguir disse o líder do PAN.

Havia carne de vaca nas cantinas? Sorte a deles. Nos meus já distantes tempos de estudante (1981/1985) não me recordo, em momento algum!, de tal ter degustado. E bifes só nas natureza mortas das aulas de História da Arte.

Conheci bem três locandas: a de Ciências, a Velha e a Nova, sendo esta última a menos péssima das três. As refeições ficavam por 35$00 (0,15 €).

Raphaelle Peale (1774-1825 pintou este Still Life with Steak c.1817
Munson Williams Proctor Museum of Art

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

RITUAL DA FEIRA

Não estou em Moura, durante todo um ano e por junto, mais de 15 a 20 dias. Se tanto. Mas fico com a ideia de não partir nunca. O poema diz coisas diferentes, mas é o título que é muito bonito.

Nesta feira cumpriu-se mais um pequeno ritual. Têm sempre a simpatia deste convite. Fotografia e imperial. Correspondo sempre. Foi pena o dr. António Costa não ter querido provar a MAGANA. Sempre ajudava os moços a promover a excelente cerveja artesanal que fazem. Eu também dou uma ajuda, mas bolas!, eu não sou primeiro-ministro...


Na véspera de não partir nunca

Na véspera de não partir nunca 
Ao menos não há que arrumar malas 
Nem que fazer planos em papel, 
Com acompanhamento involuntário de esquecimentos, 
Para o partir ainda livre do dia seguinte. 
Não há que fazer nada 
Na véspera de não partir nunca. 
Grande sossego de já não haver sequer de que ter sossego! 
Grande tranqüilidade a que nem sabe encolher ombros 
Por isto tudo, ter pensado o tudo 
É o ter chegado deliberadamente a nada. 
Grande alegria de não ter precisão de ser alegre, 
Como uma oportunidade virada do avesso. 
Há quantas vezes vivo 
A vida vegetativa do pensamento! 
Todos os dias sine linea 
Sossego, sim, sossego... 
Grande tranqüilidade... 
Que repouso, depois de tantas viagens, físicas e psíquicas! 
Que prazer olhar para as malas fítando como para nada! 
Dormita, alma, dormita! 
Aproveita, dormita! 
Dormita! 
É pouco o tempo que tens! Dormita! 
É a véspera de não partir nunca!


Álvaro de Campos

PRÉMIO MARIA TEREZA E VASCO VILALVA - 2018

Está já em andamento a 12ª. edição do Prémio Maria Tereza e Vasco Vilalva para a recuperação e valorização do património. O prémio homenageia a memória dos Condes de Vilalva, o trabalho mecenático por eles desenvolvido e é dirigido à sociedade civil. O interesse em torno do galardão, que se reflete na quantidade na qualidade das propostas apresentadas, diz bem do seu significado.

Comissão de avaliação:
António Ressano Garcia Lamas, que preside.
Gonçalo Byrne
Luís Paulo Ribeiro
Raquel Henriques da Silva
Rui Nery
Santiago Macias

Prazo de entrega de candidaturas - 16.12.2019



terça-feira, 17 de setembro de 2019

CRÓNICAS OLISIPONENSES - XXXVI

Rua D. Luís I - nº 10, à entrada da escada de acesso ao Departamento de Património Cultural da C.M.L. (hoje: 12:17).

Não me tinha dado conta que aquilo estava ali. Uma prancha com a frase "dói-me a alma", ao lado da bandeira portuguesa. Será a alma lusitana que dói e por causa disso está ali a bandeira portuguesa? Coisas de tuga. Não imagino um sueco a escrever numa tábua "dói-me a alma".

Numa cena do filme Malteses, Burgueses e às Vezes..., de Artur Semedo, um personagem sai de um autocarro, em Lisboa. Em frente à paragem está uma papeleira, com um poema impresso. O homem lê o poema e exclama "isto é mesmo um país de poetas...". Sem dúvida que é.