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segunda-feira, 11 de março de 2019

CRÓNICAS OLISIPONENSES - XXVI

"Alto lá", que este prédio não estava aqui ontem. Havia, às 10:09:55 (diz o telemóvel), no enfiamento da Rua da Alfândega, um novo arranha-céus. Não era. Era "apenas" o MSC BELLISSIMA na sua viagem inaugural. Dando uso ao novo terminal de cruzeiros e mostrando, com espavento, os seus 315 metros de comprimento. Capacidade? 4500 passageiros. Cabem lá dentro a Amareleja, Safara e Santo Aleixo. E ainda sobram uns lugarinhos.

Na ida para a Rua de S. João da Praça vi-o de relance. À vida, percorri com vagar o Terreiro do Trigo, lembrando-me de António Gedeão:

A catedral de Burgos tem trinta metros de altura
e as pupilas dos meus olhos dois milímetros de abertura.
Olha a catedral de Burgos com trinta metros de altura!


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

TORRE DO RELÓGIO DA AMARELEJA – pro memoria


Escrevi, no dia 1 de julho de 2016 (o tempo passa rápido), um texto neste jornal, sobre este assunto. É importante retomar agora o tema. Relembrar o que se passou. Porque foi um processo que esteve longe de ser pacífico.
As obras de recuperação de edifícios antigos têm uma sina. No fundo, há sempre quem queira, em simultâneo, que um determinado edifício seja reabilitado, seja modernizado, mas ficando na mesma. Uma coisa que, evidentemente, não é possível. Voltarei a este tema, mais adiante.
Recordo aqui a cronologia do que se passou:
Junho de 2014 - envio de proposta de protocolo à Comissão Fabriqueira e ao Bispo de Beja.
Abril de 2015 - assinatura de protocolo com a Comissão Fabriqueira de Amareleja.
Julho de 2016 - conclusão do projeto.
Setembro de 2016 - apresentação da candidatura para financiamento.
Fevereiro de 2017 - aprovação do financiamento.
Abril de 2017 - lançamento da empreitada.
Setembro de 2017 - assinatura do contrato da empreitada, um dos últimos que realizei antes das eleições autárquicas.
Qual o montante da candidatura? 496.028,76 euros.
Qual o montante de financiamento comunitário? 421.624,45 euros.
Qual o montante da responsabilidade da Câmara de Moura? 74.404,31 euros.
Escrevi, em julho de 2016 que o objetivo era “dotar a chamada Torre do Relógio de uma cobertura, a qual será parcialmente amovível, para permitir que se possa tirar partido das noites de verão; dotar o espaço de condições que permitam diferentes utilizações: religiosa, cultural (exposições, feira do livro etc.) e musicais”. Foi nessa direção que se caminhou.
A evolução da obra foi marcado por uma pequena polémica. A cobertura foi classificada como mamarracho. Onde é que se já se viu? Um teto metálico, num sítio daqueles… E aqui regresso às modernizações. Por vezes, há quem queira que fiquem as coisas como estavam. Algo que não é possível. Melhor que eu, o arq. Tiago Mota Saraiva poderá dar detalhes sobre esta questão. Em todo o caso, é claro que para o edifício ter novas funções e uma utilização permanente (e poder manter abertura no teto, para as noites de calor) não era possível deixa tudo como estava. Do ponto de vista arquitetónico, a solução é arrojada, moderna e adequada. Foi, e é, uma solução pensada para o futuro.
Do ponto de vista prático, o que se previa – e há um protocolo assinado e aprovado – era que a Câmara gerisse o espaço. Isso deveria ser feito em estreita articulação com os amarelejenses. Em quatro momentos do ano (Páscoa, Santa Maria, Nossa Senhora da Conceição e Natal), a Torre do Relógio seria destinado, em exclusivo, a iniciativas da Igreja. É esse, nesta data, o ponto em que as coisas estão.

A obra aproxima-se do fim. Constato-o com manifesta satisfação. Como repetidamente tenho escrito. Defendo o trabalho que realizámos, entre 2014 e 2017. E que criou condições para que a obra se realizasse. É possível fazer outras obras na Amareleja? Há outros projetos? Ótimo. Venham eles. A Amareleja merece.

Texto publicado hoje, em "A Planície"

sábado, 10 de novembro de 2018

TORRE DO RELÓGIO - MAIS DOIS, TRÊS MESES?

É assim. A obra avança. Agora teve mais um mês e meio de prorrogação para ser concluída. É bom que os que tanto criticaram, no passado, o não cumprimento de prazos percebam que as coisas são assim mesmo. Há sempre dificuldades e problemas a resolver. Pela parte que me toca:

1. Não critico o atraso na conclusão da obra;
2. Saudarei, com prazer, a inauguração da obra da torre, na qual nos empenhámos profundamente (o contrato da obra foi por mim assinado, recordo, no dia 6 de setembro de 2017).

Importante são as coisas e os sítios. Muito menos importantes são os "protagonismos".

Fotografias - ateliermob



segunda-feira, 23 de julho de 2018

TORRE DO RELÓGIO - MAIS UM PASSO

Cobertura metálica, para uma obra arrancada a ferros. Tout va avec. Já faltou mais para estar concluída. A imagem é de hoje e está no Instagram do ateliermob, a equipa autora do projeto.

domingo, 24 de junho de 2018

AMARELEJANDO, AO FINAL DA TARDE

Emotivo final de tarde, no novo bar do Campo das Cancelinhas. Um espaço prático e funcional, que vai ficar ao serviço de todos. E que vai ser um importante ponto de apoio às iniciativas que o Grupo Desportivo Amarelejense ali vai promover.

Um simpático convívio, no qual convidado a estar presente. Foi a oportunidade para rever amigos com quem tenho convivido algo menos, no decurso dos últimos meses.

Recebi o meu cartão de sócio. Isso também me agradou.



quinta-feira, 14 de junho de 2018

AMARELEJA, UMA JORNADA SENTIMENTAL


Recordava, no outro dia ao almoço, com Jorge Calado, a produção do livro “Amareleja”. O Jorge, que só ali foi, pela primeira vez, em 2016, apanhou depressa o pulsar da aldeia [chamemos-lhe assim, como gostam muitos amarelejenses]. “É uma terra forte e com grande orgulho e identidade”, dizia, convicto. O Jorge gostou imenso da Amareleja, o que facilmente se percebe pelo texto que escreveu.

Ao longo de quatro anos vivi, com especial intensidade, a relação com a Amareleja. Sem grande suporte político, e contando com um punhado de amigos, fui passando pela aldeia uma vez e outra. Uma atitude muito criticada por vários mourenses das minhas relações “eles não ligam a ninguém, o que é que lá vais fazer tantas vezes?”. Discordei sempre dessa perspetiva. E ia à Amareleja porque gostava de lá ir. Porque nunca gostei de pessoas que dizem que sim só porque sim. E os amarelejenses nunca dizem que sim só porque sim, para fazerem o frete e por bem parecer. Tive, entre 2013 e 2017, momentos duros. Alguns bastante difíceis. Decidi que nunca desistiria. Porque gostava muito da Amareleja. Porque gosto muito do sítio e das pessoas desse sítio. Nunca promoveria e participaria num livro sobre um sítio que me fosse indiferente. Por isso escrevi que “é a paixão dos fortes feita rua e gente”. E também que “a aldeia é um sítio e muito mais do que um sítio. A Amareleja espraia-se em linhas longas e contínuas, Ferrarias abaixo, Alto de Bombel acima. Não há declives fortes ou cortes abruptos. A Amareleja estende-se num suave ondular, numa geografia toda feita de recortes e de imprecisões. Como suave é o andar das mulheres com quem nos cruzamos. O poder ordenador das leis e do urbanismo chegou tarde às terras mais escondidas. As amarelejas do interior habituaram-se a tomar conta de si. O ziguezaguear das ruas e a improvisação dos limites são a marca de sítios assim”.

Quando esse convívio regular terminou, alguma coisa me ficou a faltar. No dia 24 irei recuperar um pouco, nem que seja só um pouco, do tempo perdido nos últimos meses. Irei ao Alto de Bombel? Certamente. E ao bar da música. E ao do GDA, seguramente. E à sociedade do terreiro, sem dúvida. E haverá viagem à Lua. E à do Vela. E ao Barriga Cheia. E ao Moreira. E ao novo Xico Mota. E por aí fora, tarde fora, noite dentro. E acho que o dia se me fará curto para tanto sítio.

No próximo dia 24 irei estar na inauguração do bar do Campo das Cancelinhas, na Amareleja. Retomarei, nem que seja só por umas horas, a minha jornada sentimental. Numa terra que é a paixão dos fortes. E que se não existisse, eu também não existiria.

Crónica publicada hoje, em "A Planície".

quarta-feira, 13 de junho de 2018

A TORRE


I pace upon the battlements and stare
On the foundations of a house, or where
Tree, like a sooty finger, starts from the earth;
And send imagination forth
Under the day's declining beam, and call
Images and memories
From ruin or from ancient trees,
For I would ask a question of them all.

Imagem da obra da Torre do Relógio, em Amareleja. A obra vai. Fico contente por ir assim, firme e bonita. Já não tardará muito. Um percurso iniciado há anos aproxima-se, assim, do fim. Depois será tempo de a usar. Como deve ser, nestas coisas. O texto acima, em língua bárbara, como dizia a minha professora de Jornalismo, é um excerto do poema The Tower, de W. B. Yeats.

domingo, 3 de junho de 2018

AGENDA DE JUNHO - DAQUI A TRÊS SEMANAS, NA AMARELEJA

Naturalmente, a minha agenda não tem o stress de outros tempos... Isso dá mais tempo para respirar. E para prever o que se passará. Daí que, salvo motivo de força maior, possa dizer que estarei no próximo dia 24 no Campo das Cancelinhas.

Aproveito para deixar aqui um excerto do texto nº. 29 do livro em preparação sobre a experiência autárquica em Moura:


Havia excelentes trabalhos nesta área [desportiva], no nosso concelho. Apontava sempre, e aponto, o exemplo da bela equipa diretiva do Grupo Desportivo Amarelejense. Um grupo coeso, de grande sentido prático e que se esforçava seriamente por recolher fundos e para conseguir melhorar a situação financeira do clube. Se uma coisa me chamava a atenção no GDA era o princípio de “primeiros entre iguais” que a direção punha em prática. Quer se tratasse de um jogo do campeonato, de uma maratona de futsal, de uma festa de início de época, de uma apresentação de novos equipamentos, de uma festa de aniversário sabia que iria encontrar a direção. Pronta a receber a representação da Câmara Municipal, claro está, mas, antes de mais, em fato de trabalho.

quinta-feira, 3 de maio de 2018

JÚBILO AMARELEJENSE

Fotografia na página do facebook do ATELIERMOB.

Notícias boas do avanço da Torre do Relógio. Um equipamento ao serviço da Amareleja e de todo o concelho. E, como é costume dizer-se, "já faltou mais".

domingo, 22 de abril de 2018

AMARELEJA GLOBAL

Só ao chegar a casa é que reparei. O vinho do Douro é produzido por uma empresa da Amareleja. O que comprei não foi exatamente este, mas o de 2015.

O vinho é bom.

E a Amareleja fica, assim, a 330 kms. da Amareleja.

sexta-feira, 30 de março de 2018

O QUE ACONTECEU AO PROJETO DO MUSEU DA AMARELEJA?

O projeto foi anunciado em setembro de 2015. Já lá vão dois anos e meio. Iria avançar um museu na Amareleja. Saudei a ideia com entusiasmo (ler aqui). O tempo passou e nada parece ter acontecido. Como profissional desta área, e como natural do concelho de Moura, só (me) pergunto: o que terá acontecido ao Museu da Amareleja? Vai para a frente ou não vai? É que se não for, é pena...

quinta-feira, 15 de março de 2018

AMARELEJA - BAR ABERTO

Fui surpreendido com a notícia da conclusão do Bar das Cancelinhas. A obra resultou de um longo processo tripartido GDA / Câmara / Junta. O projeto foi entregue ao GDA em abril do ano passado. Vi agora, no facebook, que os trabalhos estão terminados. Está na hora de ir pagar as quotas e ver o resultado final da obra.

A obra na Amareleja integrava um lote de intervenções em espaços desportivos. Fruto de um trabalho coletivo com as associações. E que fazem parte de uma prática (também coletiva) que sempre envolveu todos os elementos dos executivos camarários.

Quanto se previa investir?
Póvoa de Miguel - 44.324,18 € (apoio ao Grupo Desportivo Povoense)
Moura - 42.442,57 € (apoio ao Moura Atlético Clube)
Amareleja - 40.000 € (apoio ao Grupo Desportivo Amarelejense)
Safara - 13.533,49 € (apoio à Associação Rituais d'Aldeia - Clube de Futebol)

Três destas intervenções foram candidatadas, através dos clubes, ao Programa de Reabilitação de Instalações Desportivas / 2017.O investimento total era de 140.300,24 €. Estava prevista uma comparticipação camarária num montante global de 90.160,11 €.

Momentos destes fazem, claro, parte de uma memória recente. Uma coisa tenho com certa. O Campo das Cancelinhas ocupa um lugar importante na minha carreira autárquica (desde o dia 4 de janeiro de 2006, quando o Pós-de-Mina me disse senhor vereador, temos de arranjar um projeto para reabilitar este campo). E torna mais firme uma velha convicção em torno da importância da renovação das infraestuturas. Tema para textos futuros.




segunda-feira, 8 de janeiro de 2018

ARQUEOLOGIA AMARELEJENSE


Obras em curso na Torre do Relógio, em Amareleja. Uma imagem que me dá imenso prazer. Vemos duas sondagens, no ponto onde, imagino, se localiza a implantação do anteparo em frente à entrada. Não conheço a escavação, mas o que conheço do projeto é mais que suficiente para uma avaliação, mesmo à distância.

A chamada torre do relógio foi, temporariamente, utilizada como cemitério. As inumações coincidem com o ponto de implantação das sapatas. Um facto banalíssimo em empreitadas como esta. Sem que tenha grande prática destas circunstâncias, já tive situações do mesmo género na basílica paleocristã de Mértola, na igreja do Espírito Santo e no posto de turismo do Castelo de Moura. E, nesta última, a situação só não foi mais onerosa porque um oportuno auxílio do Campo Arqueológico de Mértola levou a que não tivéssemos de gastar dinheiro com a componente de antropologia física. Sempre a Câmara de Moura poupou uns milhares de euros...

Estas situações são pacíficas? Nem sempre. O caso da Torre do Relógio "nem conta". Recordo sempre o que aconteceu em Toledo, onde se teve de fazer uma intervenção em 40 (quarenta) hectares, o que levou a anular o projetado investimento de um hipermercado (ler aqui e aqui).

No caso da Amareleja é tudo mais fácil, até porque os pontos de escavação são poucos, e globalmente irrelevantes.

Problemas em obra? São o pão nosso de cada dia. Têm de ser ultrapassados com pragmatismo, conhecimento e um certo estilo flamboyant (no sentido que, na língua inglesa, se dá à palavra). Viver a vida sem problemas? Só nos contos de fadas.

Voltemos a Alberto Caeiro que, não dando respostas, explica as coisas.


A espantosa realidade das coisas


A espantosa realidade das coisas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta.

Basta existir para se ser completo.

Tenho escrito bastantes poemas.
Hei-de escrever muitos mais, naturalmente.

Cada poema meu diz isto,
E todos os meus poemas são diferentes,
Porque cada coisa que há é uma maneira de dizer isto.

Às vezes ponho-me a olhar para uma pedra.
Não me ponho a pensar se ela sente.
Não me perco a chamar-lhe minha irmã.
Mas gosto dela por ela ser uma pedra,
Gosto dela porque ela não sente nada,
Gosto dela porque ela não tem parentesco nenhum comigo.

Outras vezes oiço passar o vento,
E acho que só para ouvir passar o vento vale a pena ter nascido.

Eu não sei o que é que os outros pensarão lendo isto;
Mas acho que isto deve estar bem porque o penso sem esforço,
Nem ideia de outras pessoas a ouvir-me pensar;
Porque o penso sem pensamentos,
Porque o digo como as minhas palavras o dizem.

Uma vez chamaram-me poeta materialista,
E eu admirei-me, porque não julgava
Que se me pudesse chamar qualquer coisa.
Eu nem sequer sou poeta: vejo.
Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o tenho:
O valor está ali, nos meus versos.
Tudo isso é absolutamente independente da minha vontade.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

MEMÓRIA AMARELEJENSE

Regresso quente à Amareleja. Dois dias de regresso, com passagem pela Feira do Vinho e com muitos reencontros. Dias felizes e descontraídos.

De volta a Mértola, reparei que nunca publiquei, aqui no blogue, o texto que escrevi para o álbum fotográfico do José Manuel Rodrigues. É altura de o fazer.

No dia da apresentação, em setembro passado, disse que o meu texto era uma declaração de amor a um sítio. Mantenho essa ideia.







AMARELEJA

A terra é quente, as pedras escaldam. O calor molda o espírito e ajuda a afeiçoar o vinho. É assim o verão na Amareleja. Quando chegar o outono, o calor será um pouco menos. Haverá vindimas e depois virá o frio e depois haverá vinho novo. Por agora, o céu é quase sempre azul. Entre o céu e a terra se fez a Amareleja. Entre o céu e a terra se faz o vinho da Amareleja.
O céu é imenso e dele cai, a pique, o sol. Sol e terra ajudaram a refazer, em tempos não muito remotos, a Amareleja. Do sol veio a ligação a um mundo tecnológico. Fotovoltaico, renováveis, megawatts. Palavras estranhas e de som estrangeiro tornaram-se familiares. À saída da aldeia, uma floresta de tecnologia lançou o nome da Amareleja pelos quatro cantos do mundo. O olival de ferro tornou-se imagem de marca. Central e Amareleja fundem-se num só espaço. Como outrora quase se disse, primeiro estranha-se, depois entranha-se. Do sol vêm o calor e a energia. Do sol e da terra vem o vinho. O sol e o vinho são as imagens fortes da aldeia.
A aldeia é um sítio e muito mais do que um sítio. A Amareleja espraia-se em linhas longas e contínuas, Ferrarias abaixo, Alto de Bombel acima. Não há declives fortes ou cortes abruptos. A Amareleja estende-se num suave ondular, numa geografia toda feita de recortes e de imprecisões. Como suave é o andar das mulheres com quem nos cruzamos. O poder ordenador das leis e do urbanismo chegou tarde às terras mais escondidas. As amarelejas do interior habituaram-se a tomar conta de si. O ziguezaguear das ruas e a improvisação dos limites são a marca de sítios assim.
Há hoje mais casas que não são habitadas e menos gente a viver aqui. Os 6500 habitantes de 1950 são hoje pouco mais de 2500. A Amareleja tem hoje extensões na Amadora, na Cova da Piedade, no Barreiro e converteu-se num sítio mítico para os que lá estão. Os que partiram um dia, os seus filhos e netos, regressam no verão ao ponto de origem. Por esses dias cumprem-se roteiros sentimentais pelas ruas da vila, “ali viveram os teus avós”, “naquela casa nasci eu e na rua ao lado a tua mãe”. Essa memória feita palavra será um dia esquecida.
Na Festa da Santa Maria, em pleno verão, tudo é mais intenso. Tudo se vive com calor. É tanto o culminar de um ano de trabalho como um ponto de encontro entre os amarelejenses de todas as partes do mundo, tanto uma manifestação sagrada como a expressão do mais belo paganismo. A animação é, sobretudo, noturna, as celebrações religiosas têm lugar durante o dia. O paganismo casa com a lua, a crença fá-lo com o sol. O sol é uma das imagens de marca da Amareleja. O vinho é outra. Acrescentemos agora a lua da Amareleja, que é também clara e luminosa e diferente das demais.
A austeridade impera. No centro há alguns palacetes, das famílias mais ricas da Amareleja. As casas são simples. Um pouco menos simples e um pouco menos austeras, nos dias de hoje. Mas antes eram quase todas iguais. Fachada com porta e uma ou duas janelas, num primeiro jogo de simetria. Corredor, quartos de um lado e do outro, cozinha, quintal ao fundo. Taipa e caniço, telha mourisca. Cal por toda a parte. Nas casas de mais posses, faziam-se abóbadas. Um luxo de frescura ou de calor, consoante a estação do ano. A geometria das abóbadas é feita de um fio e de um prego. Uma matemática do quotidiano que desafia fórmulas e cálculos. Há conhecimentos assim, sem registo nem compêndios. São coisas assim que explicam a alma dos sítios.
A decoração das casas é simples e austera, também. A memória das famílias espalha-se pelas paredes e pelos móveis. Há fotografias de casais jovens. Sentados à camilha e com o peso do tempo, são agora menos jovens os que vemos nas paredes. No corredor de entrada, sobre os móveis, há sempre fotografias. Todos nós temos fotografias dessas em casa, do tempo em que se faziam fotografias no estúdio, todos quietos e aprumados, penteados e vestidos para uma grande ocasião. Agora já ninguém vai ao fotógrafo, porque esse ritual desapareceu e assim já ninguém retrata a alegria de tempos idos. Os retratos de família das casas da Amareleja, assim congelados no tempo, são o retrato de todos nós. Daquilo que fomos e daquilo que mais tarde seremos. Os retratos das meninas de sorriso tímido e rodeadas de irmãos mais novos ou mais velhos, rindo descaradamente para o fotógrafo, passará um dia para sobrinhos e para sobrinhos-netos. Até que estes, esquecidos de quem são aqueles grupos de ar feliz, os metam, sem pena e levando consigo a felicidade de tempos idos, na caixa do esquecimento.
A aldeia é terra de sentimentos fortes: amor, paixão, amizade, ódio, vingança. É a paixão dos fortes feita rua e gente. Dos árabes ficou a al-kunya. A alcunha. E um certo sentido tribal. Há sítios onde o tempo parece ter parado. Há lojas que armazenam as memórias da aldeia.
A Amareleja é a terra do que nunca foi e do que já deixou de ser. A torre do relógio não foi concluída, a esplanada mercedes, sítio de tantas vidas e de tantas recordações, é um cenário de ópera, sem músicos nem cantores nem público. E, contudo, a música está presente em toda a aldeia. É uma das suas marcas mais fortes. A banda é centenária, as vozes são milenares. Os grupos corais, improvisados ou de aparato, passam de geração em geração. Os músicos da filarmónica sucedem-se, em registo semelhante.
O solo é duro e cizento, duro e ingrato. A generosidade do sol fertiliza a terra e fertiliza o vinho. O processo dura meses e há-de ser consumado nas tabernas. As tabernas são a arquitetura viva do vinho. As leis, os bons costumes, a decência pequeno-burguesa acabaram com as tabernas de outrora. Restam, em memória, algumas adegas com talhas opulentas e com um contraluz de sombras chinesas. Resta o silêncio musical das tabernas, com o som dos copos nos tampos de mármore e o sussuro das vozes. Resta o traço dos que passaram pela Amareleja. Johannes Vermmer parece ter estado no Vela e desenhado o chão, um dia, há muito tempo. No Vela estão Vermeer e o vinho dos amantes de Baudelaire.
A Amareleja é filha do cantar dos poetas andaluzes, da sua paixão pelo vinho e pelas mulheres. Há requebros mediterrânicos nas romarias, nos cavalos, nos passeios ao campo, nos touros que são corridos. A carroça de flores de papel em muitas cores que, à força de mula, vi um dia dar voltas e mais voltas à esquina da rua Umar al-Mukhtar, em Tripoli, podia estar na Amareleja, na nossa primavera. Quase com os mesmos rapazes e com as mesmas raparigas. A aldeia podia estar mais a sul ou mais a norte. O espírito seria o mesmo, decerto.
A aridez também seria a mesma, porque o clima é seco, e também ele ajuda a temperar o caráter. Quase nunca chove na Amareleja. Mas quando chove, a água cobre tudo. A água, que quase não corre nesta terra de sol, de vinho e de belas mulheres, quase tudo cobre nesses dias. Os barranquinhos, o regato, vão buscar o nome a essa água rara e súbita.

Entre o céu e a terra se fez a Amareleja. Entre o céu e a terra se faz o vinho da Amareleja, que neste livro tantas vezes encontramos. E que tão presente está na imagem da aldeia. Partamos com o vinho em direção a um céu feérico. Não esqueçamos nunca o poder mágico da terra e do céu feérico sobre nós.