sexta-feira, 31 de agosto de 2018

NA PONTA DOS DEDOS

Sempre me habituei a ver o Luís Pavão "olhando à distância". Mesmo os retratos eram marcados pela circunspeção. Poucas pessoas usam, na minha opinião, a grande angular de modo tão inteligente. Só trabalhámos juntos uma vez, no livro "Mértola", editado em 1997. Confirmei nessa altura tudo o que pensava da genialidade do Luís.

Para além do génio, sobra-lhe um humor desconcertante. A uma amiga minha, que recolhia autógrafos dos autores de Mértola, o António Cunha escreveu "para fulana de tal, com um abraço". Na caligrafia rápida do Cunha, o Luís leu "um almoço". Escreveu por baixo, "para fulana de tal, com um jantar". Fiquei roído de inveja, com a banalidade das dedicatórias a que tive direito.

Encontrei-o no outro dia no Arquivo Fotográfico. Disse-me algo como "tens de ir ver o que está no Padrão dos Descobrimentos, é um trabalho meu". Fui, claro. Para ver outra dimensão das coisas. O que está longe, fica-nos perto. O que era pequeno, aparece enorme, e em close-up. Mesmo usando a grande angular. Pecado meu, gostava de Leopoldo de Almeida. Agora ainda gosto mais.

Na ponta dos dedos conta o processo de recuperação do monumento. A ver, até 30 de setembro.

Sites:
http://www.padraodosdescobrimentos.pt/pt/

https://www.lupa.com.pt/site/index2.php

quinta-feira, 30 de agosto de 2018

CORAGEM, SÓ NOS FALTAM AS VITÓRIAS!

Liga dos Campeões 2017/2018. Até começou bem, com o golo ao CSKA. Já o resto, foi menos bom.


Adversários até final deste ano: Bayern de Munique, Ajax e AEK.

Parafraseando Almada Negreiros: "Coragem, benfiquistas; já só nos faltam as vitórias".

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

STARDUST MEMORIES Nº 21: O CASTELO DE MOURA, HÁ 28 ANOS

A revisão de um texto sobre o período medieval,  que só refere Moura "de raspão", fez-me mergulhar em pilhas de fichas, de notas e de fotografias. Esta estava fora do sítio. Foi feita em meados de junho de 1990 (a escavação foi de 8.6 a 13.7). Ainda o José Gonçalo Valente e a Vanessa Gaspar andavam na Secundária...

Foram anos "épicos", com colaboradores como Alberto Ramos, Carlos Rico, Fernando Monteiro, Helena Pato, José Branco, Lino Pinto, Luísa Abade, Manuel Lourenço, Nuno Santinha, Paulo Félix, Pedro Estevas, Rui Teresa, Sérgio Chonita, Vírgilio Moedas, entre outro. Tenho a vaga ideia de haver qualquer coisa semelhante a uma banda rock metida pelo meio. E havia imensos comentários sobre um certo Bob Bacall. Foi uma prova duríssima para os meus 27 anos.

Foi trabalho que, ao longo dos anos, continuou e que resultou em livro (edição em dois volumes - download em http://www.santiagomacias.org/publi.php?livros)

terça-feira, 28 de agosto de 2018

CURVA

Moura, em fevereiro de 2010. E Devotion, de Robert Frost.


The heart can think of no devotion
Greater than being shore to ocean -
Holding the curve of one position,
Counting an endless repetition.

EU SOU PRIMO DO MARQUÊS DE POMBAL. TÁS A ÓVIR?


Na minha já distante adolescência, o João levava-me a uma cervejaria, em Queijas. Havia lá um tipo que, para meu grande embaraço, avançava sempre de dedo espetado e me dizia Sabes uma coisa, pá? Eu sou primo do Marquês de Pombal! Eu tinha um medo dele que me pelava...

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

CRÓNICAS OLISIPONENSES - XV

8:39 - esquina da Rua de São Bento com a Rua do Poço dos Negros. A bicha de carros vai Rua de São Bento acima. Buzinadelas e palavrões. Gritos. Insultos. Bateram e há pancadaria, pensei. Nada disso. Um carro está mal estacionado, com a traseira impedindo a passagem do "28". O elétrico está vazio. Cruzo-me, no passeio, com o condutor. Olha-me, com um ar vazio, e diz-me "isto é assim". Está a ligar à polícia. Quando retomo a marcha está a chegar um carro da PSP, com grande alarido. Se o barulho resultasse, o infrator (que continua sem dar sinais de vida) teria implodido de vergonha.

Ah, já agora: o carro é um Jaguar, de último modelo. E de matrícula britânica. Ao menos isso.


AQUELA MÚSICA ANTIGA DA PROVENÇA E DA TOSCÂNIA

Ao ver ontem uma fotografia de David Monge da Silva veio-me à memória um episódio ocorrido há muitos anos (vinte, talvez). Dei boleia, até ao Rosal de La Frontera, a um casal americano: Maan Madina e Marilyn Jenkins. A dado momento, entre Aldeia Nova e Ficalho, Maan olhou atentamente a paisagem em volta e pediu-me para parar o carro. Andou um pouco pela berma da estrada, para depois me dizer "isto é tal e qual o meu Líbano; faz-me lembrar as paisagens da minha infância". Tive vergonha de lhe perguntar há quanto tempo não ía à terra, mas fiquei com a sensação que seria há muitos anos...

A fotografia sugere-me a Toscânia, tal como paisagens sírias, italianas e jordanas me lembraram a minha margem esquerda natal. Tive, em Madaba, a ilusão de andar pelas terras em volta do Sobral da Adiça.


Balada do Poema que não Há

Quero escrever um poema 
Um poema não sei de quê 
Que venha todo vermelho 
Que venha todo de negro 
Às de copas às de espadas 
Quero escrever um poema 
Como de sortes cruzadas 

Quero escrever um poema 
Como quem escreve o momento 
Cheiro de terra molhada 
Abril com chuva por dentro 
E este ramo de alfazema 
Por sobre a tua almofada 
Quero escrever um poema 
Que seja de tudo ou nada 

Um poema não sei de quê 
Que traga a notícia louca 
Da história que ninguém crê 
Ou esta afta na boca 
Esta noite sem sentido 
Coisa pouca coisa pouca 
Tão aquém do pressentido 
Que me dói não sei porquê 

Quero um poema ao contrário 
Deste estado que padeço 
Meu cavalo solitário 
A cavalgar no avesso 
De um verso que não conheço 

Que venha de capa e espada 
Ou de chicote na mão 
Sobre esta noite acordada 
Quero um poema noitada 
Um poema até mais não 

Quero um poema que diga 
Que nada há que dizer 
Senão que a noite castiga 
Quem procura uma cantiga 
Que não é de adormecer 

Poema de amor e morte 
No reino da Dinamarca 
Ser ou não ser eis a sorte 
O resto é silêncio e dor 
Poema que traga a marca 
Do Castelo de Elsenor 

Quero o poema que me dê 
Aquela música antiga 
Da Provença e da Toscânia 
Vinho velho de Chianti 
Com Ezra Pound em Rapallo 
E versos de Cavalcanti 
Ou Guilherme de Aquitânia 
Dormindo sobre um cavalo 

E com ele então dizer 
O meu poema está feito 
Não sei de quê nem sobre quê 

Dormindo sobre um cavalo 

Quero o poema perfeito 
Que ninguém há-de escrever 
Que ele traga a estrela negra 
Do canto e da solidão 
Ou aquela toutinegra 
De Camões quando escrevia 
Sôbolos rios que vão 

Que venha como um destino 
Às de copas às de espadas 
Que venha para viver 
Que venha para morrer 
Se tiver que ser será 
E não há cartas marcadas 
Só assim poderá ser 
O poema que não há 

Manuel Alegre - "Babilónia"

domingo, 26 de agosto de 2018

"A MAIS PORCA E MISERÁVEL PORNOGRAFIA"


Ri com gosto, ao ler há pouco o "Público". Numa reportagem sobre o Museu Municipal Amadeo de Souza-Cardozo, relata o diretor da instituição a forma como o catedrático de Coimbra Torquato de Souza Soares se referiu a uma obra da escultora Clara Menéres (1943-2018): "a mais porca e miserável pornografia, que só seria admissível num bordel muito reles". No princípio dos anos 70, obras como A menina Amélia que vive na Rua do Almada não geravam simpatia a professores beatos e autores de textos razoavelmente maçadores. E que sabiam, pelo menos, tipificar bordéis.

escultura só voltou a ser exposta depois de 25 de abril de 1974. Dá vontade de dizer "e não viu o senhor professor o Relicário, da mesma autora"...

sábado, 25 de agosto de 2018

QUANDO VIER A PRIMAVERA

Quando vier a Primavera,

Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.
Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.
Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.
7-11-1915


Fernando Pessoa e a luz de Lisboa, ao fim da tarde. Dois dias de pausa, para trabalhar noutras coisas.

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

DECÁLOGO MEDITERRÂNICO: ESTEVA

Poucos odores são, no nosso Mediterrâneo, tão marcantes como o da esteva. De poucas plantas me lembro sempre tanto como das estevas. É pena que as suas extraordinárias flores não sirvam para decoração. São de uma efémera, mas autêntica, beleza.


Desenho de William Curtis, de final do século XVIII. E que canta La Niña de la Puebla (En los montes llenos de jarales) tem a ver com tudo isto. 

TLEMCEN, À HORA DO ALMOÇO

Talvez não se fale desta fotografia, logo mais. Da mesquita de Tlemcen, seguramente que sim. Vai ser necessário escolher umas 30 imagens, para uma exposição em torno do Mediterrâneo. Metaforica e fisicamente em torno do Mediterrâneo. Não tenho muito a certeza por onde irá o caminho, mas o Jorge tem, decerto. É ele que vai escolher as fotografias. "Isto" foi anunciado em maio de 2017 e devia ter lugar no próximo mês de setembro. Afinal, vai ser no final de outubro, em Évora. Na Direção Regional de Cultura.

Pátio da aljama de Tlemcen (fevereiro de 2012)

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

EM SAMORA CORREIA, COM OS SILVA HERCULANO

A conversa tinha umas semanas.  E tinha ficado acertado que nos encontraríamos em Samora Correia, na noite de dia 20. Silva Herculano é o nome da ganadaria e tem base na Amareleja. Henrique Herculano é o seu jovem proprietário. Num meio difícil tem vindo a construir um percurso firme. A noite da passada segunda-feira foi disso prova cabal. Touros bons para os cavaleiros e para os forcados. Com a exceção do terceiro, que se fechou em tábuas. Mas que não dificultou em demasia a pega. Antes do último da noite, o ganadeiro teve direito a uma merecida volta de honra.

Uma noite bem passada, com um grupo de bons amigos. Um abraço para si, Henrique!


terça-feira, 21 de agosto de 2018

DAQUI A UM MÊS, EM ALMODÔVAR

Sítios arqueológicos em risco - escavações, investigações e museus. É sobre isto que irei falar, daqui a um mês. No programa anuncia-se  "nomes como os de Luís Raposo, Tiago Pereira, Santiago Macias, Joaquim Caetano ou Miguel Serra estão já confirmados". Há uns anos ninguém diria, a meu respeito ou do Joaquim, "nomes como". O caminho para a velhice é esse, certo?

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

CONTOS DA BARBEARIA

De José Craveirinha (1922-2003), o poema BARBEARIA:

Na barbearia às escuras
Júlio Chaúque foi barbeado
quando voltava da machamba de milho.

Os que viram
dizem que Júlio foi escanhoado
até às carótidas do colarinho
em requintes de gilete
dos facões de mato.

Os barbeiros do Chaúque
deixaram em toalhas de folhas secas
congruentes nódoas roxas.



Às voltas pelo instagram,  dei com um conjunto de interessantes trabalhos de Isaac West. Num deles, está um cabeleireiro. Arriscava dizer que Isaac West está a citar uma conhecida tela orientalista de Léon Bonnat (1833–1922). Le barbier nègre à Suez foi pintado em 1876.

domingo, 19 de agosto de 2018

LUZ SOBRALENSE, AO JEITO DE RUÃO

O barulho era mais que muito e não valia a pena tentar conversar... As luzes projetadas nas paredes do lado oposto iam dando uns efeitos engraçados. Fui usando o telemóvel, enquanto não chegou a beleza do silêncio.

A mudança rápida das cores nas paredes evocou-me a série de telas que Claude Monet dedicou à Catedral de Ruão. A manipulação da luz fazia-se ao vivo, sem photoshop, apreendendo as reverberações da cor.

De Ruão ao Sobral da Adiça são 1434 quilómetros. Tão distante como o que separa a genialidade de Monet e a banalidade de uma brincadeira feita num recinto de festa.








Ronda de los colores (Gabriela Mistral)

Azul loco y verde loco 
del lino en rama y en flor. 
Mareando de oleadas 
baila el lindo azuleador.
 
Cuando el azul se deshoja, 
sigue el verde danzador: 
verde—trébol, verde—oliva 
y el gayo verde—limón.
 
  ¡Vaya hermosura! 
  ¡Vaya el Color!
 
Rojo manso y rojo bravo 
—rosa y clavel reventón—. 
Cuando los verdes se rinden, 
él salta como un campeón.
 
Bailan uno tras el otro, 
no se sabe cuál mejor, 
y los rojos bailan tanto 
que se queman en su ardor.
 
  ¡Vaya locura! 
  ¡Vaya el Color!
 
El amarillo se viene 
grande y lleno de fervor 
y le abren paso todos 
como viendo a Agamenón.
 
A lo humano y lo divino 
baila el santo resplandor: 
aromas gajos dorados 
y el azafrán volador.
 
  ¡Vaya delirio! 
  ¡Vaya el Color!
 
Y por fin se van siguiendo 
al pavo—real del sol, 
que los recoge y los lleva 
como un padre o un ladrón.
 
Mano a mano con nosotros 
todos eran, ya no son: 
¡El cuento del mundo muere 
al morir el Contador!

sábado, 18 de agosto de 2018

UNIPLACES

Detesto o filme Forrest Gump!
Detesto a UNIPLACES!
Destesto a chulice neocapitalista!
Desapareçam-me sff da frente com este tipo de "ofertas"!

já enviei mail a exigir que não me mandem mais lixo

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

ESCÂNDALO EM ALVALADE

Dois homens, um destino. Não são Butch Cassidy e Sundance Kid. Temos o já desaparecido Peter Finch e Vítor Espadinha, que não tendo desaparecido veio aqui fazer prova de vida. 

I'm mad as hell and I'm not going to take this anymore...

De Network (Escândalo na TV) a Alvalade.




JANELAS DAS PERSIANAS AZUIS

E vai o mês a meio. A "nova vida" permite a escrita. Nada mal, para desenferrujar e retomar o ritmo. São, ainda, longos meses de acumulação. Depois da exposição fotográfica, com catálogo, no outono, regresso aos livros. Um está terminado, outro anda pelos 80%, outro ainda está no início. Serão editados lá mais para a frente.

Com o mês a meio, aturde-me a luz do dia. Regresso a Henrique Pousão, pintor amado e tão cedo desaparecido. Estas janelas são em Capri, Eram assim, em 1882.


A something in a summer's Day

A something in a summer's Day
As slow her flambeaux burn away
Which solemnizes me.

A something in a summer's noon—
A depth—an Azure—a perfume—
Transcending ecstasy.

And still within a summer's night
A something so transporting bright
I clap my hands to see—

Then veil my too inspecting face
Lest such a subtle—shimmering grace
Flutter too far for me—

The wizard fingers never rest—
The purple brook within the breast
Still chafes its narrow bed—

Still rears the East her amber Flag—
Guides still the sun along the Crag
His Caravan of Red—

So looking on—the night—the morn
Conclude the wonder gay—
And I meet, coming thro' the dews
Another summer's Day!

O poema data de 1859 e é de Emily Dickinson.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

ASSÉDIO SEXUAL

Ele é gay.
Ela é lésbica.
Ele acusa-a de assédio sexual. Pela multiplicidade de exemplos e situações, ele parece (sublinho parece) ter-se deixado assediar. A histórica tem coisas difíceis de entender. Inocência parece haver pouca. Siga-se o link do NYT:

https://www.nytimes.com/2018/08/13/nyregion/sexual-harassment-nyu-female-professor.html

Facto não inocente: a imprensa israelita apresenta-a como "professora judia". Não há nada como criar mártires...

LOULÉ - 2/5

Redundância viária e toponímica.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

CRÓNICAS OLISIPONENSES - XIV

Eram 8:44 (a fotografia foi feita ontem, na esquina da Rua de O Século). A Calçada do Combro estava deserta. Dois ou três turistas e nada mais. Foi das mudanças mais sensíveis que notei em relação aos já longínquos tempos de estudantes. A cidade acordava muito mais cedo. E havia um torpor de gente que percorria o centro de Lisboa. As repartições abriam às nove. As lojas também.

Isso acabou. Agora há cada vez mais horários desfasados e alargados. E há uma cidade que é mais vespertina que matutina. E com muito mais turistas. Oitocentos metros mais à frente, na Travessa do Pasteleiro, lá encalhei com mais um par de tróleis.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

ESQUIFE À BEIRA TEJO

Havia bichas em toda a parte: no Mosteiro dos Jerónimos, no Museu Nacional de Arqueologia, no Padrão dos Descobrimentos, no Museu de Marinha, nos Pastéis de Belém... Da Torre de Belém vinha uma chusma de turistas.

No meio está, abandonado, o Museu de Arte Popular. Tem três exposições: uma de M.C. Escher, outra sobre a agricultura lusitana, outra ainda sobre os projetos a concurso para o Museu da Resistência, a instalar no Forte de Peniche. Não é aqui o sítio para as comentar. A primeira tinha alguns visitantes, as outras estavam desertas. O público passa ao lado e nem se dá conta que o sítio existe. Existe pouco, entalado entre contentores de lixo, carros estacionados aos magotes, ervas no passeio e um ar triste e de descuido. A arquitetura em si não é muito estimulante, um edifício no mais puro "português suave", da autoria de António Reis Camelo e João Simões, dois dos expoentes do género. Hoje, contudo, o "português suave" nem é o problema, na sua naïveté fora de época... Falta o resto, faltam uma lógica e uma programação para aquele espaço, bem amplo e com todas as condições para ser um sítio vivo.

O Museu de Arte Popular ficou congelado e morto. Um esquife, sem príncipe encantado.

segunda-feira, 13 de agosto de 2018

QUANDO ESCHER PASSOU POR MOURA

Esta oliveira retorcida está, M.C. Escher assim o garante, no sul de Itália. Bem se parece com outra, que em tempos esteve na Estrada dos Machados e que hoje está à entrada do Jardim das Oliveiras, em Moura.

Escher não teria feito o percurso que concretizou sem aquela passagem pela costa amalfitana. Escadas e cúpulas serviram de mote, até ao fim.

Há anos, em novembro de 1987, veio a Moura uma delegação do Ajax. O MAC jogava, para a Taça de Portugal, com o Porto e houve lugar à "espionagem" da praxe. Os holandeses, adversários do FCP na Supertaça Europeia, estavam deveras impressionados com as montanhas (a Serra de Portel, que não é exatamente o Evereste...). Imagino que Escher, apesar do seu cosmopolitismo, deva ter pensado o mesmo nas deambulações pela Calábria.

A exposição sobre a obra de Escher é boa, sem ser excecional (as traduções, valha-me nossassenhoradocarmo...) e põe a nu a decadência do Museu de Arte Popular. E a nula estratégia que existe para aquele local.



NELSON ÉVORA - THEN WE TAKE BERLIN...

Ontem, Nelson Évora bem pode trautear Leonard Cohen... O campeonato da Europa era o título que lhe faltava. Isso aconteceu aos 34 anos. Nelson Évora tinha poucos meses quando Carlos Lopes ajudou Portugal a sair do nacional-coitadinhismo... Foi no dia 12 de agosto de 1984. Lopes não era o super-favorito, Évora também não. Isso ainda torna as vitórias mais deliciosas.

domingo, 12 de agosto de 2018

CASAS - UMA COM 4000 ANOS, OUTRA COM 800 ANOS

A tabuinha de cima representa a planta de uma casa em Ur, na Mesopotâmia (c. 2000 a.C.). Tem pátio central, certamente descoberto. E tem uma entrada que protege a intimidade da casa. Quem passa na rua não vê o pátio. Nos desenhos da escavação, de finais dos anos 20 do século passado, nota-se também que não há portas de casas em frente umas das outras. O princípio do at-tankib, que Ibn Sahnun legislaria muito mais tarde, está já ali presente. Eis o urbanismo mediterrânico, muito antes de ser teorizado.

Em baixo, temos dois desenhos do bairro islâmico de Mértola. Um deles é da mesopotâmica casa X. Foi construída há pouco mais de oito séculos. Foi destruída em meados do século XIII. Foi escavada há cerca de duas décadas.


sábado, 11 de agosto de 2018

ELEMENTOS - FOGO 3

Não é exatamente arquitetura de fogo. Mas sem fogo esta arquitetura não existiria. Foi o vulcão dos Capelinhos que levou, muitos anos depois das suas ruidosas e bem visíveis manifestações, à construção deste centro de interpretação. Na série elementos do blogue tem lugar mais que justificado esta bela peça da autoria de Nuno Ribeiro Lopes.


sexta-feira, 10 de agosto de 2018

ANIMISMO - CAP. I


Série de objetos com alma e vida própria. Começando por Oliveira do Hospital e pelo Santuário da Senhora das Preces.

LEMBRAM-SE DO PETGÓLEO VEGDE?

Sim, os eucaliptos. Eram a salvação. Assim o garantia o ministro Miga Amagal.

Viu-se...

UM COMUNISTA TAMBÉM SE EMOCIONA???

Compra um cidadão o folhoso pra isto. Para saber que um comunista também se emociona. Ó valhamedeus... O Público em onda facebook.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

A EXTINÇÃO DO IICT - UM ATO CRIMINOSO

Ainda esta manhã falei do assunto com um responsável de um departamento governamental, agora que passaram três anos sobre esta data triste. Duas coisas são claras:
* A extinção do IICT foi um ato criminoso e sem perdão.
* Se houvesse, e não há, a coragem necessária o IICT já teria sido refundado.
É uma instituição essencial na vida cultural do nosso País. E com uma decisiva importância estratégica, numa ótica de política externa.
O último presidente do IICT foi Jorge Braga de Macedo. Um inútil, doutamente analfabeto...

LIVROS VOANDO SOBRE AS PISCINAS


Iniciativa com pés e cabeça, que se repete, ano após ano. As bibliotecas em democracia direta. No nosso distrito aderiram, em 2018, três concelhos: Aljustrel, Almodôvar e Mértola. Acho bem e acho pouco. O nosso distrito merece mais.

AS CONTAS DO MUNÍCIPIO DE MOURA E A LÓGICA DE MERCEARIA

Continuam os eleitos pelo Partido Socialista fascinados com a minha humilde pessoa. Semana sim, semana não, lá vem mais um ataque ou mais uma crítica ao que fiz ou deixei de fazer. Nove meses depois de terem começado um mandato autárquico já era altura de se preocuparem com outros temas. Até porque os balanços e as comparações virão mais tarde.

Desta vez (“A Planície” de dia 15 de julho) foi António Gomes (ex-vereador) a tomar conta das hostilidades. A minha resposta será curta e direta, para não maçar os leitores.
Fala António Gomes na necessidade de ser sério. Claro que sim, temos de ser sérios em política. António Gomes, que já foi candidato pela APU, pelo PRD, pelo PSD e que estacionou agora no PS terá de fazer o favor de explicar a expressão “ser sério”.

O valor da dívida e o seu significado
Falar em números de milhões, no caso 9 milhões (o valor indicado está errado: eram 7.781.000 €), significa para a esmagadora maioria das pessoas um valor elevado quando comparado com o seu orçamento familiar. 

Ora as dívidas não se medem em valor absoluto (monetário), mas sim em valor relativo. 
A dívida municipal é medida em relação à média da receita corrente, considerando-se saudável a dívida dos municípios que no seu total não ultrapasse os 100% e em que a dívida não financeira (a que não resulta de empréstimos) não ultrapasse os 75%. E, dadas as necessidades considera-se que não existe desequilíbrio conjuntural (curto prazo) se for inferior a 150% e não existe desequilíbrio estrutural se situar abaixo dos 225%. Em 30 de setembro de 2017 a dívida total do município de Moura era de 61,6 % da média da receita corrente e a dívida não financeira era de 14%. Ou seja, 14% para um limiar de 75%. E desde 2012 os valores da dívida total em relação à média da receita corrente foram sucessivamente de 93%; 98%; 100%; 97%; 68% e 61,6%. Ou seja, quando o novo executivo tomou posse, tinha o valor mais baixo dos últimos anos. Os números são claros e falam por si. A dívida baixou. Esquece António Gomes que o PS chumbou um pedido de empréstimo (não foram dois, foi o mesmo apresentado duas vezes, seja lá sério) e aprovou outro (o do cemitério), no valor de 1.500.000 euros.

Investimento e seu financiamento
Durante o período de 2009 a 2017 a gestão CDU realizou investimentos (ditos não prioritários tais como rede de águas, parque escolar, reabilitação de património,reequipamento do parque de máquinas...) no montante de 31 milhões de euros.Desses 22% foram garantidos pelo recurso a fundos comunitários e à venda das ações da Central Fotovoltaica (o tal projeto que o PS não queria, lembra-se António Gomes?).Ora, garantir que mais de 1/5 do investimento fosse financiado por estas duas fontes de financiamento exige trabalho e competência. Prestarei oportunamente contas sobre o que foi feito e como foi feito.


Custos Fixos de 65%?
Duas notas
O desenvolvimento do País por intervenção do Poder Local reflete-se no investimento que tem sido realizado ao longo dos mandatos (e por isso o fizémos e o classificamos como prioritário), sendo certo que daí tem resultado um crescimento nos custos de manutenção em detrimento dos meios libertos para investimento. É por esta razão que a Lei de Finanças Locais sofreu uma profunda alteração em 2014. O que estava disponível para investimento, no caso de Moura passou de 3,6 milhões de euros em 2011 para 908 mil em 2017. As dificuldades começam aí e não na nossa suposta má gestão.

O segundo equívoco é mais complexo, e mais difícil de entender a argumentação de António Gomes. Para o resultado líquido de 5 milhões de euros negativos a componente educação tem um contributo de 17% (844 mil euros), dos quais 114 mil euros provenientes de amortizações do parque escolar em resultado dos tais investimentos ”não prioritários”.
Ossetores da água, saneamento e resíduos, que são serviços essenciais, tem um contributo de 70% (3,5 milhões de euros) no total do resultado negativo. Para atingir o nível de equilíbrio, pretendido pelo Governo, seria necessário agravar as tarifas da água, saneamento e resíduos em mais de 200%. Será este o caminho que António Gomes pretende para garantir o tão falado desequilíbrio operacional, ou será que acabará por reconhecer que a gestão consciente da CDU ao não seguir esse caminho, tomou opções fundamentais para garantir qualidade de vida aos seus munícipes, suportando nas contas do município défices operacionais de 5 milhões ao ano?

Caro António Gomes, não me faça perder tempo… Tenho trabalhos e projetos em redação. Trate/tratem de fazer algo que se veja, em termos de investimento. E não se perca o balanço na área da regeneração urbana, que tão bons frutos deu. Estão em execução ou previstos projetos que iniciámos e cujo financiamento garantimos: Torre do Relógio, Bairro do Carmo, Terminal Rodoviário, Muralhas… Parece-me bem. É só avançar. E criar outros. Façam lá isso.

Crónica publicada hoje, em "A Planície"