terça-feira, 3 de julho de 2012

NICOLAU TOLENTINO

Chaves na mão, melena desgrenhada

Chaves na mão, melena desgrenhada,
Batendo o pé na casa, a mãe ordena
Que o furtado colchão, fofo e de pena,
A filha o ponha ali ou a criada.

A filha, moça esbelta e aperaltada,
Lhe diz co'a doce voz que o ar serena:
– «Sumiu-se-lhe um colchão? É forte pena;
Olhe não fique a casa arruinada...»

– «Tu respondes assim? Tu zombas disto?
Tu cuidas que, por ter pai embarcado,
Já a mãe não tem mãos?» E, dizendo isto,

Arremete-lhe à cara e ao penteado.
Eis senão quando (caso nunca visto!)
Sai-lhe o colchão de dentro do toucado!...



Nicolau Tolentino (1740-1811)




Post que vai, em especial, para os colegas do Liceu de Queluz (1977/78) e da Faculdade de Letras de Lisboa (1981/85)

O episódio passou-se em finais de 1977. Tinha acabado de chegar da Escola Gama Barros. Depois de uma breve incursão de dois meses pelo Cacém regressava ao Liceu Nacional de Queluz. A turma do 9º ano que me calhou em sorte tinha alguns colegas conhecidos. Uma delas avisou-me que o professor de História era "uma fera". Tinha dado 13 valores à Lúcia Novais. Ninguém se recordava de a Lúcia ter notas abaixo de 17. Um 13 nela era igual a uma negativa, o que fazia prever uma razia a História. A colega que me passou a informação acrescentou: "em todo o caso, hoje é a última aula dele, porque vai para leitor de português em Dacar". O professor tinha um ar extravagante e um discurso que me pareceu estratosférico. A meio dessa última aula resolveu despedir-se de nós lendo poemas. Recordo-me de um, que me fez rir, e que transcrevi mais acima.

Quatro anos mais tarde, na Faculdade de Letras de Lisboa, os meus colegas do 1º ano de História comentavam o sentimento de pânico que lhes causava o Dr. Hamilton Costa, jovem assistente de Teoria das Fontes e Problemática do Saber Histórico (um lindo e portuguesíssimo nome para uma cadeira). Cujo discurso tinham dificuldade em seguir. Quando o vi no bar, percebi que o professor de uma aula só do meus dias de liceu e o terrorífico assistente eram uma e a mesma pessoa. Vim a descobrir depois uma pessoa muito pouco terrorífica, de grande cultura e com imenso sentido de humor.

2 comentários:

Paulo Ramos disse...

Eu tive a sorte de ter o Hamilton Costa (o penteado era uma maravilha de ventania) a História da Cultura e das Mentalidades. Só quem tinha pedalada para ele o conseguia acompanhar... e eu e o meu grupo fomos capazes de o acompanhar. Um excelente professor.

Félix Ramos disse...

Também foi meu professor na Faculdade de Letras. Uma personalidade invulgar. Não sabia que tinha passado pelo Liceu Nacional de Queluz, por onde também passei. Acredito que a sua fina ironia e a sua peculiar forma de leccionar tenham sido incompreendidas por esses jovens estudantes!