quinta-feira, 13 de maio de 2021

CDU À CÂMARA DE MOURA

Gosto muito desta lista.

Gosto muito de todos eles, do ponto de vista pessoal.

As palavras confiança e esperança ganham(-me) a cada diz que passa mais sentido.

Fico feliz com a capacidade de renovação, com gente nova e qualificada que marca aqui presença, com a liderança que aqui está patente e que vai, sem demagogia, sem "protocolos" e sem promessas ocas, dar outro rumo ao concelho. Um rumo bom, como todos merecemos.

Estou convosco! Seguirei convosco!

VIVA A CANDIDATURA DA CDU!



terça-feira, 11 de maio de 2021

SPACIOSA & CRISMATIS & JULIANUS

Ao rever há dias, pela enésima vez, os materiais em vista para um próximo projeto não pude deixar de pensar no enquadramento que vai ser necessário para lápides como a do bispo Julianus. Que era bispo no Algarve na segunda metade do século X. É extraordinária a semelhança com tantas outras lápides provenientes de Córdova, feitas na mesma altura. Nunca o uso da palavra oficina fez tanto sentido.

Para ver mais sobre o assunto, aconselho um trabalho do genial Rafael Azuar. É procurar no google: rafael azuar mozárabes.









segunda-feira, 10 de maio de 2021

VERTIGEM

Real e física. Já não vinha a este sítio desde 1983 ou 1984. Não tenho ideia de sensação que tive nessa altura. E altura é coisa que aqui não falta...

Colaboração com a PSP em marcha.

E o início do poema El vértigo, de Gaspar Núñez de Arce (1834–1903), que não conhecia e que encontrei na vertigem da vertigem...

Guarneciendo de una ría
la entrada incierta y angosta,
sobre un peñón de la costa
que bate el mar noche y día,
se alza gigante y sombría
ancha torre secular
que un rey mandó edificar
a manera de atalaya,
para defender la playa
contra los riesgos del mar.











DE OLIVENZA / OLIVENÇA A NOUDAR: ultima puntata

De 4 de julho de 2020 a 8 de maio de 2021 quase um ano se passou. Os meses "sem luz" (outono/inverno) não contam. Depois houve mais pandemia e um projeto que avançou a custo e com esforço.

O registo de Duarte Darmas via-drone ficou concluído no Castelo de Noudar (depois de passagens por Olivença e por Elvas), no passado sábado, às 17 horas em ponto.

Foram 20 sítios, uns mais fáceis que outros. A simplicidade de Juromenha ou de Mértola não tem nada a ver com a complexidade de Elvas.

A recolha está feita. A maquetagem do livro começa amanhã.



domingo, 9 de maio de 2021

ANTÓNIO ZINGA REVISITADO - um momento borgellesiano

Há quase nove anos (29.5.2012) falei num pintor angolano, António Zinga. Fazia quadros que os soldados compravam e traziam depois para a Metrópole, como recordação e, provavelmente, como exemplo de Arte Africana.

António Zinga esteve ativo, que eu saiba, entre os anos 60 e a primeira metade da década de 70. Quando sobre ele escrevi, recebi vários contactos de pessoas que também tinham quadros seus e que queriam saber mais. Não pude ajudar, porque não tinha mais informação.

Lá em casa havia um quadro. Em tons de fogo. Que foi pendurado numa parede azul ferrete, uma cor muito ao gosto da época e que foi premonitória.

Não sei o que aconteceu ao quadro. Mas hoje fui dar com uma obra de António Zinga, que esteve à venda numa leiloeiro do Rio de Janeiro, em 2020. Não foi vendida.

O estranho é que o quadro (abaixo reproduzido) parece mesmo, mesmo o que estava em Queluz. Provavelmente, haveria uma produção em série. Ou não...



sábado, 8 de maio de 2021

OLHA, O DR. ANTÓNIO BARRETO A CHEGAR...

A última vez que li uma coisa do Dr. António Barreto foi num folheto de vinhos no super-mercado.

Agora li esta manchete.

Não haverá próxima leitura.

"AH, ISSO É TUDO INVENÇÃO DOS COMUNISTAS"

A cassette...

Dizem sempre a mesma coisa...

etc. muitas vezes etc.

Afinal, não. Subitamente, "olha, afinal há clandestinos e há exploração de seres humanos... quem diria..."

Desde 2012 que os alertas se sucedem. O problema é que o PCP se preocupa com estas questões e não com assuntos "disruptivos" e com temas "fraturantes".




sexta-feira, 7 de maio de 2021

HELENA COSTA PAIS À ASSEMBLEIA MUNICIPAL

Prossegue a construção do caminho que é necessário cumprir. Avançam as listas, sob o signo da inovação e da qualidade.

A cabeça de lista à Assembleia Municipal é mais uma feliz escolha. Os dias passam e  os nomes vão surgindo. A ideia da esperança vai-se tornando certeza. Esperança e certeza para todos nós. Seguimos em frente, no mesmo combate e com a mesma convicção.


quinta-feira, 6 de maio de 2021

EM VISEU, COM CARLOS OLDEMIRO CHAVES COSTA

Carlos Oldemiro Chaves Costa (1922-1990) foi um arquiteto discreto. O nome é hoje praticamente desconhecido, embora quem saia de Lisboa pela subida de Monsanto não possa deixar de reparar numa obra sua, o injustamente mal-tratado Panorâmico de Monsanto.

Mas não foi esse edifício emblemático a marcar o meu fim de tarde. Viseu foi o ponto final de um percurso iniciado há quase três anos. O edifício desenhado por Carlos Costa já não está como ele o concebeu nos anos 60. Mas a inspiração do "estilo internacional" ainda se pressente bem nos alçados laterais. Um projeto interessante. De A (Abrantes) a V (Viseu) se fez o caminho. Passando por 173 sítios.

Fim de trajeto na escrita. O livro sairá lá para outubro (cálculo meu).

Aguarela de João Turvo:

quarta-feira, 5 de maio de 2021

VASARELY SACAVENENSE

A coleção é privada, mas o acesso é público. Uma coleção mais que notável. No meio de tantas coisas excelentes, dou comigo a olhar para este painel de azulejos da Fábrica de Loiça de Sacavém (data: 1920-1940).

Um toque vasarelyano na tarde. E mais o poético hipnotismo de Melo e Castro.












terça-feira, 4 de maio de 2021

CDU: TRÊS EM UM

E assim fica terminada a ronda das freguesias.

Com o Jorge em Moura e em Santo Amador; com a Ana Caeiro e o José Manuel Godinho em Safara e em Santo Aleixo; com o Miguel Caleça na Póvoa e na Estrela.

É com eles que vou estar. Politicamente, emocionalmente, presencialmente. Acredito neles porque os conheço, porque conheço o meu concelho, porque é lá o meu sítio. Bom, lá e em Mértola, tenho de admitir.

Acredito neles e tenho ESPERANÇA. E é a eles, e a todos nós, que dedico o poema ESPERANÇA, do grande Mário Quintana:

ESPERANÇA

Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso vôo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...






segunda-feira, 3 de maio de 2021

JOUR DE SILENCE AU PANTHÉON

É o dia do silêncio total. Não há visitantes e é dia de folga. Quando silêncio equivale a um pouco mais de trabalho.













Lâmpada deserta,

Lâmpada deserta,

No átrio sossegado.

Há sombra desperta

Onde se ergue o estrado.

No estrado está posto

Um caixão floral.

No átrio está exposto

O corpo fatal.

Não dizem quem era

No sonho que teve.

E a sombra que o espera

É a vida em que esteve.

UMA HISTÓRIA SABIDA, MAS POUCO CONHECIDA...

 "1918. 19 de Abril: Salazar obtém a nomeação de professor ordinário da Faculdade de Direito de Coimbra, com dispensa de prestação de provas. Depois, por concessão graciosa do conselho escolar, obtém o grau de "Doutor em Direito", sem ter feito o concurso de doutoramento. Invoca-se a lei nº 616 de 19 de Junho de 1916. E passa à frente de colegas mais antigos, como Fezas Vital e Magalhães Colaço. A lei é de autoria dos afonsistas... São os chamados professores decretinos." Da autoria do Prof. José Adelino Maltez.

É um facto que Oliveira Salazar nunca se submeteu a provas públicas. Não é uma questão de desvalorizar as suas capacidades técnicas. É um facto que chegou a catedrático sem nunca ter defendido a tese. Não há nada como truques simpáticos para singrar. Depois, no Poder, conseguiu arrumar, despedir e exilar académicos insignes. Ele e mais uns quantos do estilo dele. Toda uma escola de manhosice lusitana.

Não me venham falar depois da retidão da criatura. Em bom português, não me lixem...













domingo, 2 de maio de 2021

AH, OS ARTIGOS, OS CONGRESSOS, OS PRAZOS...

Gostava de pensar num barreirista assim como Omar Mc Leod ou como Dayron Robles. Mas não... A entrega de dois textos (39 h 47 min. depois do prazo limite, mas como é fim de semana não há azar) para as atas de um encontro foi mais como a imagem que aqui vos deixo...

Aqui entre nós, divirto-me a pensar na (relativa) balbúrdia que um deles vai causar no meio medievistíco-islâmico-arqueológico. Intitula-se TOPONÍMIA, FONTES ESCRITAS E ARQUEOLOGIA: BREVE NOTA SOBRE A IDENTIFICAÇÃO DE LAQANT, DE HALQ AZ-ZAWYIA E DE KANISAT AL-GURAB. Depois da breve nota virá um texto mais desenvolvido. 



DIREITOS HUMANOS

Não conheço a complexidade da situação, desconheço os detalhes da requisição decretada pelo governo, não sou jurista, não sei se a decisão foi discutida com os proprietários e ignoro também que tipo de ocupação está prevista, em que moldes e com que acompanhamento. E é muito fácil ter opinião quando pouco se sabe...

Há, contudo, três questões que gostaria de ver respondidas:

* Como é que esses trabalhadores vieram, em que condições salariais, de alojamento e de segurança no trabalho?
* Quais as responsabilidades dos patrões, designadamente em situações como esta?
* O sr. bastonário Menezes Leitão só agora descobriu que há Direitos Humanos em causa? Haja Deus!




sábado, 1 de maio de 2021

ORGULHO MOURENSE

Encerrou, há dias, a exposição internacional “Guerreiros e Mártires”, que esteve patente ao público, de forma intermitente, desde 19 de novembro de 2020, no Museu Nacional de Arte Antiga.

Fica para as minhas memórias pessoais a pequena história detalhada desta exposição. Foi um processo começado, com outros contornos, no dia 1 de junho de 2018; o projeto primitivo, apresentado a uma entidade privada, “naufragou”, poucos meses depois. Renasceu a meio do outono desse ano, com a pergunta do Joaquim Caetano (meses depois diretor do MNAA) “porque não fazes antes a exposição sobre os mártires de Marrocos, em vez de usares só a obra de Francisco Henriques como ponto de partida?”. Um desafio e um ovo de Colombo. Sim, seria possível fazer a exposição assim, mas teria de ser um comissariado a dois (Arte e Arqueologia). Retoma-se o projeto, em novos moldes. Não havia dinheiro e era preciso apoio mecenático. Uma primeira entidade avançou com 70.000 euros, muito abaixo do que fazia falta. Começámos a recolha de informação (que peças? que autores? que guião?) e assim se passou todo o bendito ano de 2019, numa permanente angústia. Finalmente, consegue-se apoio financeiro e haverá exposição. A Imprensa Nacional assegura o catálogo, mas os prazos são curtos.

Estabilizamos a escolha final em 210 peças (faltam, por diversas razões, as Cantigas de Santa Maria, o “Bayad-wa-Riyad” – uma história de amor oriental -, o pendão das Navas de Tolosa, mas o que temos é de grande qualidade). No meio está Moura. Foi com orgulho, e sem ponta de bairrismo parolo, que esteve Moura. A nossa terra tem peças de inquestionável categoria, referentes a este período. Escolhi cinco, que puderam ser vistas no principal museu português, ao longo de cinco meses. Quais? Uma réplica da lápide comemorativa da construção do minarete da mesquita de Moura (meados do século XI); um osso de boi com a invocação a Alá, numa peça usada para o ensino da escrita (inícios do século XIII); um painel de uma pequena arca revestida a osso (inícios do século XIII); dois pratos importados do sul de Espanha, de meados do século XIV.

Moura tem? Sim, temos porque procurámos. São materiais da nossa terra e do nosso património, que resultaram dos trabalhos arqueológicos realizados no castelo e no bairro da Mouraria. Moura tem potencial? Tem, mas é preciso fazer por isso. Tem, também, por motivos que se prendem com razões excecionais de localização e pela presença de minas de prata a curta distância. São questões explicadas em livros como “Castelo de Moura – escavações arqueológicas” e no mais recente “Moura Medievalis”.

É o nosso património motivo de orgulho mourense. Sem favor esteve Moura na exposição “Guerreiros e Mártires”. Um facto que aqui queremos deixar registado. Tal como queremos referir a total ausência de referências, por parte da Câmara Municipal de Moura, às suas peças numa grande mostra internacional. É esse silêncio oficial um facto que, sem ironia, também me envaidece.

Crónica em "A Planície"











sexta-feira, 30 de abril de 2021

PALÁCIO SINEL DE CORDES

Lisboa é uma cidade cheia de palácios secretos, longe dos olhares do mundo. Foi uma imagem que fui formando ao longo dos anos, sem ter a certeza se assim é, ou se sou eu que assim quero que seja.

Neste arrabalde oriental de Lisboa, há alguns desses palácios, aqui mesmo ao lado. Ontem, passei pelo Sinel de Cordes, que da família já há muito só tem o nome. Um dos seus membros foi o antecessor de Oliveira Salazar na pasta das Finanças, diga-se de passagem.

Foi uma visita solitária, numa exposição um pouco desigual. E que tiram imenso partido daquele ar délabré do palácio. Para a semana reincido.










Estar só é estar no íntimo do mundo

Por vezes cada objecto se ilumina 
do que no passar é pausa íntima 
entre sons minuciosos que inclinam 
a atenção para uma cavidade mínima 
E estar assim tão breve e tão profundo 
como no silêncio de uma planta 
é estar no fundo do tempo ou no seu ápice 
ou na alvura de um sono que nos dá 
a cintilante substância do sítio 
O mundo inteiro assim cabe num limbo 
e é como um eco límpido e uma folha de sombra 
que no vagar ondeia entre minúsculas luzes 
E é astro imediato de um lúcido sono 
fluvial e um núbil eclipse 
em que estar só é estar no íntimo do mundo 

António Ramos Rosa - "Poemas Inéditos" 

quinta-feira, 29 de abril de 2021

THULAMAT

الظلمات



O título do projeto deverá vir a ser este. A escuridão, como no final do conto "A viagem" de Sophia de Mello Breyner Andresen. A luz que desaparece, num permanente crepúsculo. Será em Mértola, claro. Com palavras escritas e ditas, sítios e a escuridão que avança.

Já me fazia falta inventar qualquer coisinha... Agora, que as nuvens parecem dissipar-se, está na altura de voltar à escrita. E de experimentar novos caminhos.

quarta-feira, 28 de abril de 2021

MOMENTO "YELLOW SUBMARINE" NA BIBLIOTECA NACIONAL

De luva azul, já que não tenho sangue azul 😊, na Biblioteca Nacional.

Mas sem intuitos destruidores. E sob o signo de Frost.

Fragmentary Blue

Why make so much of fragmentary blue
In here and there a bird, or butterfly,
Or flower, or wearing-stone, or open eye,
When heaven presents in sheets the solid hue?
 
Since earth is earth, perhaps, not heaven (as yet)—
Though some savants make earth include the sky;
And blue so far above us comes so high,
It only gives our wish for blue a whet.





terça-feira, 27 de abril de 2021

PROCESSO DE LICENCIAMENTO

A expressão "processo de licenciamento" é familiar a quem anda/andou pelas autarquias. Os licenciamentos levantam (quase) sempre problemas. Porque se aprova, porque não se aprova, porque o enquadramento, porque o plano de salvaguarda, porque os arquitetos fazem o que querem...

E depois, como diz uma amiga minha de longa data, "há coisas sem explicação". Como este edifício. Que não deve ser um clandestino. E que existe mesmo. Quando andei no meu périplo fotográfico no último verão, passei ao lado "disto" e pensei: "caramba, estou mesmo cansado". Afinal, não...

Fica no distrito de Santarém.



segunda-feira, 26 de abril de 2021

MÉRTOLA, UMA REALIDADE. E O SENHOR FERNANDO TAMBÉM!

Depois de alguma hesitação - o Miguel Rego sabe bem porquê - decidi-me a publicar este texto que ele escreveu, de homenagem a Fernando Rosa, que foi presidente da Câmara de Mértola entre 1982 e 1993. Onze anos, caramba. Uma entrega total, e que hoje não me parece assim tão reconhecida. Tive o prazer de trabalhar com o Sr. Fernando (era assim que a gente o tratava), nos meus tempos de início em Mértola. E o texto do Miguel é um bonito reconhecimento. E uma viagem aos tempos de Arcádia.



Quando, em Setembro de 1981, me iniciei na arqueologia com o Professor Cláudio Torres, não imaginava que seria o início de um percurso que me traria para o Alentejo. Então, os fornos de cerâmica de formas de açúcar, de pesos de pesca e de formas do biscoito para as “descobertas” resgatadas das escavações da Mata da Machada, ali pertinho de Vale de Zebro, no concelho do Barreiro, foram o primeiro contexto arqueológico que contactei numa escavação onde conheci aquele investigador chegado do exílio meia dúzia de anos antes a Portugal e que era então Professor da Faculdade de Letras de Lisboa.

Apesar de eu não ser aluno de Cláudio Torres, nem sequer aluno da Universidade (ou aluno de escola alguma, diga-se), e apesar da minha vida então se dividir entre servente da construção civil e aprendiz ocasional de “técnico de restauro” no Palácio da Rosa, em Lisboa, a experiência dessas quase três semanas resultaria numa enorme amizade que nos faria reencontrar de novo em escavações, comigo enquanto voluntário em Noudar, em Mértola e de novo na Mata da Machada, até que, a seu convite, rumei a Sul, de forma definitiva, em 1986.


Pelo meio, entre um curso de Arqueologia no Centro de Arqueologia de Almada e a ida até à Gruta do Caldeirão, em Tomar, para escavar com João Zilhão, tive experiências ricas com outros arqueólogos, nomeadamente, com João Luís Cardoso, na Outurela I e II. Mas tive, sobretudo, um contacto aprofundado com o trabalho de Cláudio Torres, em Mértola.


Faço esta introdução do meu percurso de carácter muito pessoal, para justificar toda a restante crónica que aqui trago. Até porque num momento em que muito se fala em Património Cultural, gestão e desenvolvimento, vale a pena deixar aqui duas ideias que me parecem importantes para “entender” a abordagem a esses conceitos, tendo como referência a génese do projecto de Mértola e procurando esclarecer alguma falácia de determinados discursos “fabricados”, desprovidos de contextualização histórica e vestindo uma espécie de saiote anacrónico onde os olhares vestem os discursos de hoje e não as realidades de ontem.


Até porque o que fui encontrar em Mértola foi para mim uma escola que se reproduzia num trabalho desenvolvido em diálogo permanente com a autarquia sem haver o mínimo de intrometimento da estrutura de poder do Município na vida do projecto arqueológico;


Até porque vivíamos o que restava de um período de festa cívica, cultural e política, que o 25 de Abril nos trouxe, onde o descomprometimento com a projecção pessoal era total e o mais importante era o contacto sempre constante entre os fazedores de memória e o repositório dessa memória, em que cada um de nós desempenhava um e outro papel;


Até porque o início do financiamento de projectos de natureza científica permitiam conciliar esse trabalho com uma sempre permanente “agitprop”, expressão utilizada por um certo meio científico a quem o trabalho que se realizava em Mértola causava suores frios e invocava horrores em noites mal dormidas;


Até porque a preocupação permanente de quem estava no projecto era poder, através do Património Cultural, mudar, transformar, reinventar uma nova realidade cultural e social de forma natural, sem quaisquer imposições ideológicas ou de cartilha pré-concebida;


Até porque aquele projecto era a arqueologia e a “longa duração” antropológica, social, geográfica, histórica, humana, em toda a sua dimensão, e não uma outra coisa qualquer;


Até porque aquele projecto estava a ser pensado como quem tem que resolver o dia-a-dia da sua própria sobrevivência na incerteza de ter ou não ter ordenados a horas, de regalias sociais, de férias e fins-de-semana alargados;


Até porque o colocar aquele projecto no terreno era muito mais do que fazer uma simples escavação para dar uma resposta científica (sim, a Arqueologia é uma Ciência) à “abominável” e sempre incómoda presença islâmica em Portugal.


Mértola é um modelo de gestão, com várias nuances, que não é repetível à luz dos dias de hoje. O acaso da passagem por Mértola de alguns actores que, ao lado de Cláudio Torres, em determinados momentos, foram cruciais para que o projecto do Campo Arqueológico desse o salto que o Mestre queria que desse nos anos oitenta, marcou em momentos cirúrgicos todo o seu evoluir. Os nomes de Luís Silva e, sobretudo, de Santiago Macias, são incontornáveis, mas não menos alguns outros silenciosos como o de Manuel Passinhas, o Chola ou o Joaquim Boiça e a Mifas, sem esquecer a estrutura da Associação de Defesa do Património onde a Arqueologia esteve alocada até 1987, cada um com o seu espaço naturalmente definido, fizeram com que este projecto fosse, sobretudo entre 1987 e finais dos anos 90 (a partir daí não conheço o suficiente para falar dele), a génese de um trabalho singular. Um trabalho em que se criou uma rede de museus local de dimensão e dignidade. Em que o nome de Cláudio Torres se impõe nacional e internacionalmente, e de que o Prémio Pessoa é bem o reflexo disso…


Mas, num contexto em que os financiamentos vindos da Europa foram indispensáveis para que o projecto tivesse o êxito que “teve” e que o reconhecimento internacional de Cláudio Torres fosse, não apenas pelo seu papel em colocar a investigação da ocupação islâmica em Portugal na ordem do dia, mas também no desenvolver de um projecto que alterou estruturalmente a perspectiva e estratégia económica para o concelho, é importante não deixar de valorizar um nome que, sistematicamente, teve um papel preponderante em todo este processo. Um nome esquecido, apagado, escamoteado deste momento que aqui trazemos (1987, ano da “fundação” oficial do Campo Arqueológico e os anos 90) que marcará, indubitavelmente, o projecto de Mértola: Fernando Ribeiro Rosa, presidente da Câmara Municipal de Mértola entre 1982 e 1993. O Senhor Fernando.


Este ponderado e responsável autarca foi capaz de perceber que a autonomia do projecto de Mértola e o apoio infra-estrutural ao labor de Cláudio Torres eram fundamentais para que este vingasse; Que a adaptação de alguns projectos de natureza urbana ao desenvolvimento do projecto arqueológico, como por exemplo de toda a intervenção efectuada no Rossio do Carmo, eram estruturantes tanto para a vila “museu” como para a continuidade do projecto de Mértola; Que a sua atitude cívica de entender quais são as fronteiras entre os territórios de um “poder” autárquico e um projecto científico e cultural lhe traria menos visibilidade, mas não menos eficácia; Que a assunção de uma atitude de cooperação e não de intromissão eram obrigatórias; Que o saber que o desenvolvimento sério e real não se faz com a colocação de placas evocativas, mas com a disponibilização de meios para que este se possa concretizar, faz de Fernando Ribeiro Rosa um protagonista silencioso, mas imprescindível, para que o projecto de Mértola pudesse, na época, impor-se.


Hoje, por aquilo que vamos vendo, dificilmente aquele projecto teria ganho tão amplas asas. Mais do que asas, ser corpo renascido, canção! Ali ou em qualquer outro sítio!

150 a dividir por 46

A notícia tinha sido pré-anunciada numa reunião, há semanas. Tomou, na quinta-feira, contornos um pouco, mas não muito, mais claros. Haverá intervenções em 46 museus, palácios e monumentos. O valor global será de 150 milhões de euros. Não há dados que sejam do nosso conhecimento sobre as intervenções concretas, nem sobre os seus montantes.
Ao fim de 25 dias no Panteão Nacional tenho já uma ideia razoavelmente definida do que é necessário fazer. Sei também que o monumento não passa pela situação dramática que se vive noutros sítios. Mas há intervenções que são necessárias, sob pena de entrarmos num impasse ou num bloqueio.
Até 31 de maio terei de entregar um plano para 2021/2024. É o que farei, depois de ponderados todos os fatores e depois de conhecer em detalhe o "150 a dividir por 46".







domingo, 25 de abril de 2021

FINAL DE SÉRIE

Fechou, há momentos, a exposição "Guerreiros e Mártires", no Museu Nacional de Arte Antiga.

Um processo começado, com outros contornos, no dia 1 de junho de 2018; o projeto primitivo naufragou, poucos meses depois. Em novembro desse ano, retomei-o, em novos moldes, com o Joaquim Caetano. Levámos todo o bendito ano de 2019 recolhendo materiais e numa permanente angústia. Estava para ser em início de 2020, depois deslizou e voltou a deslizar. Dois anos depois do arranque, em 19.11.2020, teve lugar a inauguração. A pandemia "criou" um programa de visitas aos soluços.

A exposição devia ter fechado no final de fevereiro. Foi prolongada por dois meses.

Por razões às quais não adianta voltar, várias peças que tenhamos pensado "falharam". Como esta, do Palácio Nacional de Mafra.

Final de série dizia-se, em tempos, nos bailes.

O programa segue dentro de momentos. Dois projetos para terminar em 2021 (sem a dimensão deste), um talvez para 2024 (com a dimensão deste).



SÓ UM MUSEU NÃO CHEGA??

Quando, no outro dia, referi a um amigo, pouco dado a estas coisas do 25, que estava em curso a instalação de um museu em Peniche, exclamou "outro?? não chega o Aljube??". Não, não chega o Aljube. O Aljube foi uma realidade, Peniche foi outra. O que há, por parte de alguns, dificuldade em perceber é o que esta data quer dizer. De alguns ou de muitos. Os que um dia quererão fazer da data qualquer outra coisa - a colagem de Cotrim de Figueiredo é um primeiro gesto -, os que tentarão apagar o Partido Comunista Português da história da história da resistência - também isso fará, um dia, o seu caminho... -, os que quererão fazer da Liberdade qualquer outra coisa.

Não, um só museu não chega. Também não queremos a Liberdade e o Antifascismo dentro de um museu. É preciso muito mais que isso.

Como escreveu António Borges Coelho:

“Nomeai um a um todos os nomes.
Lutaram e resistiram.
A liberdade guarda a sua memória nas muralhas desta fortaleza.”




sábado, 24 de abril de 2021

STARDUST MEMORIES Nº. 51: SINTRA ATLÂNTICO

Primeiro dia de saída (sempre só a dois, sempre de máscara, sempre longe de "interações", mas é o que pode ser...). Um regresso à região saloia. Na estrada de Mafra para a Praia das Maçãs, quase parecemos estar a dezenas de quilómetros de Lisboa. Poucos carros e a paisagem do Atlântico a "dar-nos" um mundo diferente. Frescura, canaviais e mar alteroso. Ao longo da estrada para Sintra, ao passar por Colares, recordo o calafrio das manhãs de sábado de há quase 50 anos, quando tínhamos "de ir à praia" e me enregelava no areal, mesmo ao lado do Alto da Vigia.

No verão de 1974 fiz o percurso de elétrico entre Sintra e a Praia das Maçãs. Foi a única vez, ante o desespero do meu pai ("passamos a manhã nisto...") e o gáudio da minha avó Luzia, divertida com o enervamento do seu João. Eram os elétricos da empresa Sintra Atlântico, a mesma dos autocarros azuis e prata que todas as manhãs, de segunda a sexta, me levavam dos Quatro Caminhos ao palacete oitocentista onde existia a Escola Preparatória Conde de Sabugosa.








































O Alto da Vigia, um surpreendente ribat islâmico às portas de Lisboa. Este está identificado e em vias de estudo aprofundado. Falta o sítio do Monte Suímo, referido pelas fontes escritas. Será coisa para mais tarde, se um dia os militares deixarem a Serra da Carregueira.

ANGOCHE: 50 ANOS

Faz hoje 50 anos que o navio "Angoche" foi encontrado a arder, à deriva, ao largo de Moçambique. É o mais denso e persistente mistério na nossa história recente. O caso nunca foi explicado, persistindo as pontas soltas e as questões por explicar. Um ponto de situação é-nos dado em recente trabalho da "Visão":

https://visao.sapo.pt/atualidade/sociedade/2021-04-21-continua-por-resolver-o-ultimo-e-tragico-enigma-do-imperio-colonial-portugues/




sexta-feira, 23 de abril de 2021

FELLINI-ON-TAGUS

Durante todo o bendito dia (das 9 até depois das 18) tive este som como companhia:

https://youtu.be/RBUtBrk7yzo

Havia vento em Lisboa, o que quer dizer que no meu gabinete, virado a sul e sem obstáculos pela frente, tinha a sensação de estar num filme de Fellini (o cineasta que mais usou o som do vento).

Não vi o vento, mas Munch viu-o, há cerca de um século, por entre árvores de fruto.



 

quinta-feira, 22 de abril de 2021

CINCO ANOS JÁ?

Foi no dia 22 de abril de 2016, recorda o tal sr. facebook... Que não haja a mínima dúvida. Foi mesmo nesse dia, uma sexta-feira meio cinzenta. Um passeio simpático pelo centro de Moura. Os 45 minutos iniciais passaram a duas horas e meia, ante o desespero dos assessores e dos seguranças. Diverti-me imenso, posso garantir.

Deu direito a um pequeno livrinho, que remeti ao Presidente da República:

http://www.santiagomacias.org/AUTARQUIA/iCult/5_presidente.pdf




quarta-feira, 21 de abril de 2021

INOCÊNCIO X

Inocêncio X foi Papa entre 1644 e 1654. Por muito que a sua biografia seja brilhante, passará à História pela mão de dois pintores: Diego Velázquez (1599-1660) e Francis Bacon (1909-1992). Bacon faz citações, de Eisenstein e de Munch, e cria um alter ego do Papa. É a tela que o Joker não quer destruir, lembram-se?



terça-feira, 20 de abril de 2021

CORRIDA DE TOIROS - INVENTÁRIO NACIONAL DO PATRIMÓNIO CULTURAL IMATERIAL (DECLARAÇÃO DE APOIO)

Contactou-me esta manhã o António Tereno perguntando se estaria na disposição de apoiar esta iniciativa. Há coisas que nem têm discussão. O texto já seguiu para quem está a coordenar a iniciativa:

A defesa do Património Cultural não pode ser marcada por gestos de circunstância e ser posta em prática consoante as conveniências do momento. Não é de uma forma numa altura, e de outro modo noutra. Temos de dizer “presente!”.

A tauromaquia é, desde maio de 2012 e por proposta que subscrevi, Património Cultural de Interesse Municipal, em Moura. Estou, e estarei, na defesa deste nosso Património. Agora e para sempre.