quinta-feira, 22 de abril de 2021

CINCO ANOS JÁ?

Foi no dia 22 de abril de 2016, recorda o tal sr. facebook... Que não haja a mínima dúvida. Foi mesmo nesse dia, uma sexta-feira meio cinzenta. Um passeio simpático pelo centro de Moura. Os 45 minutos iniciais passaram a duas horas e meia, ante o desespero dos assessores e dos seguranças. Diverti-me imenso, posso garantir.

Deu direito a um pequeno livrinho, que remeti ao Presidente da República:

http://www.santiagomacias.org/AUTARQUIA/iCult/5_presidente.pdf




quarta-feira, 21 de abril de 2021

INOCÊNCIO X

Inocêncio X foi Papa entre 1644 e 1654. Por muito que a sua biografia seja brilhante, passará à História pela mão de dois pintores: Diego Velázquez (1599-1660) e Francis Bacon (1909-1992). Bacon faz citações, de Eisenstein e de Munch, e cria um alter ego do Papa. É a tela que o Joker não quer destruir, lembram-se?



terça-feira, 20 de abril de 2021

CORRIDA DE TOIROS - INVENTÁRIO NACIONAL DO PATRIMÓNIO CULTURAL IMATERIAL (DECLARAÇÃO DE APOIO)

Contactou-me esta manhã o António Tereno perguntando se estaria na disposição de apoiar esta iniciativa. Há coisas que nem têm discussão. O texto já seguiu para quem está a coordenar a iniciativa:

A defesa do Património Cultural não pode ser marcada por gestos de circunstância e ser posta em prática consoante as conveniências do momento. Não é de uma forma numa altura, e de outro modo noutra. Temos de dizer “presente!”.

A tauromaquia é, desde maio de 2012 e por proposta que subscrevi, Património Cultural de Interesse Municipal, em Moura. Estou, e estarei, na defesa deste nosso Património. Agora e para sempre.




BRUNO MONTEIRO - TERCEIRO ANÚNCIO

Aqui não é exatamente uma surpresa, mas a confirmação do nome. Que vem na sequência do trabalho de grande qualidade que o Bruno Monteiro, com a sua equipa, está a desenvolver na freguesia. Trabalhei de perto com o Bruno entre 2013 e 2017. Foi, de facto, um prazer. Ficámos amigos. Devo ao Bruno inúmeros testemunhos dessa amizade. Integrou-me bem no seu meio, coisa que não esquecerei.

Vamos a isto, Bruno!



segunda-feira, 19 de abril de 2021

AGORA VAI HAVER FERROVIA, OLÁ SE VAI!

Foi dito há pouco.

Que agora é que é. É que vai ser. Consegui ficar sério, ante tanto amor à ferrovia. Um clássico - o amor à ferrovia - ciclicamente repetido e ciclicamente adiado.

Quem usa o comboio é o Povo. Não é o Clero nem a Nobreza. A questão é essa.


DOMINGO, 28 DE JUNHO DE 2015

CAUSAS DA DECADÊNCIA DO INTERIOR DO PAÍS

Em agosto de 1984 assisti a um curioso episódio no ramal de Montemor-o-Novo. A automotora parou no meio de um descampado. O maquinista desceu e foi fechar a cancela da passagem de nível. Regressou à automotora. Avançámos mais um pouco. Nova paragem. Nova saída para abrir a cancela. O veículo retomou a sua marcha. Esta cena, quase neorealista, pertence a um passado esquecido.

A violenta redução da rede ferroviária de passageiros (v. imagem) reflete o abandono a que o interior do país foi votado. Entretanto, veio aquele papo fino europeu (programas integrados, nuts, interreg, investimento elegível, etc). Depois, o interior continuou a envelhecer e a despovoar-se. Sem retorno nem esperança. Hoje estamos como mostra o mapa. Daqui a uns anos, e a não haver investimento sério nestes territórios, estaremos pior. Nessa altura, virá, aposto!, a proposta de supressão/agregação de municípios. Para otimizar, outra palavra corrente no burocratês...

É só uma questão de tempo. E do habitual conformismo, e da habitual falta de coragem, do "arco do poder"...

sábado, 17 de abril de 2021

O RATO QUE RUGE

O  filme está hoje um pouco esquecido. Data de 1959 e foi realizado por Jack Arnold.

A ideia do filme é melhor que o seu desenvolvimento. De que se trata? Um pequeno e falido reino europeu resolve declarar guerra aos Estados Unidos. A mais que óbvia derrota traria a salvação do Grão-Ducado de Fenwick, que seria depois generosamente ajudado pela grande potência.

Uma espécie de manual político, poder-se-ia dizer.

Pontifica o genial Peter Sellers, que é, ao mesmo tempo, o estadista, o líder militar e a grã-duquesa.



sexta-feira, 16 de abril de 2021

O FUTURO DA MEMÓRIA: DIA 18, ÀS 18 HORAS

O Panteão Nacional é, pela sua vocação muito específica, um monumento guardião da memória. Aproveitemos este dia para uma discussão para matérias associadas a preservação da memória, num sentido mais lato. Não só a memória física dos monumentos e dos arquivos, das pedras e dos pergaminhos, mas abordando também os processos de manutenção da memória, nos seres humanos. Como fazemos e o que fazemos para combater o(s) apagamento(s) da memória?

É este o mote do debate que vai ter lugar no dia 18, via zoom:

https://zoom.us/j/95407903106?pwd=VkU2NVF2UEQrQmJsSVE5MlNjTGRsdz09




TIAGO BATISTA À AMARELEJA

As listas vão-se compondo, sob o signo da qualidade. Depois de André Linhas Roxas à Câmara, agora é Tiago Batista à Junta de Amareleja. Um jovem técnico com um marcado orgulho na sua terra. Em 2016 fomos os dois concorrentes ao mesmo prémio. Ganhou ele, justamente. Este ano também irá ganhar, mas noutro "jogo". É essa a minha convicção.



quinta-feira, 15 de abril de 2021

CALIMERO

Hoje é dia de recordar Calimero, um dos grandes heróis da infância de tantos de nós. O "é uma injustiça, eu sou pequenino" é, talvez, a mais célebre das suas tiradas. Lembro-me muitas vezes do Calimero. Sobretudo quando vejo adultos nesses preparos. Hoje, por exemplo, foi um desses dias. E não foi por causa de Sócrates...



quarta-feira, 14 de abril de 2021

LUZES E SOMBRAS, NA VOZ DO OPERÁRIO

Prossegue a minha peregrinação pela Freguesia de S. Vicente. Tento uma política de proximidade com as entidades locais. O Panteão é Nacional? Decerto que sim, mas é neste sítio que está e não noutro.

Parte da manhã "foi" na Voz do Operário, uma organização extraordinária e cheia de juventude. Deu direito a passagem pelo icónico salão e pelas escadas, cheias de luzes e de sombras, numa manhã fora de prazo.

Recebi um convite para uma muito significativa sessão, em maio. Lá estarei.



terça-feira, 13 de abril de 2021

BAUDELAIRE: 200 ANOS E 4 DIAS

Nasceu há 200 anos e 4 dias. Escreveu Les fleurs du mal. Um dos livros mais citados aqui no blogue. É o livro que Lord Henry Wotton (Paul Sanders) lê no filme The Picture of Dorian Gray, de Albert Lewin (1945). Já agora, o Dorian Gray novo é uma tela de Henrique Medina, então em plena glória hollywoodesca...

Baudelaire fala de um perfume exótico. Um exotismo com olhos europeus, tal como o de Gauguin.
















PARFUM EXOTIQUE


Quand, les deux yeux fermés, en un soir chaud d’automne, 
Je respire l’odeur de ton sein chaleureux, 
Je vois se dérouler des rivages heureux
Qu’éblouissent les feux d’un soleil monotone ;

Une île paresseuse où la nature donne
Des arbres singuliers et des fruits savoureux ;
Des hommes dont le corps est mince et vigoureux, 
Et des femmes dont l’œil par sa franchise étonne.


Guidé par ton odeur vers de charmants climats, 
Je vois un port rempli de voiles et de mâts
Encor tout fatigués par la vague marine, 

Pendant que le parfum des verts tamariniers, 
Qui circule dans l’air et m’enfle la narine, 
Se mêle dans mon âme au chant des mariniers.

segunda-feira, 12 de abril de 2021

A NECESSIDADE DE "LISBOA ISLÂMICA"

Saiu anteontem, no "Público", um texto sobre a projetada exposição "Lisboa Islâmica". A qual me parece, ainda mais agora, absolutamente necessária.

Li algures que a hora é de tratar dos monumentos e que as exposições ficam para depois. Uma perspetiva que merece a minha rejeição. Mal de nós se estivermos à espera de recuperar edifícios para depois promover iniciativas de estudo e de divulgação... É bom que se perceba que um e outro aspetos são indissociáveis. Às vezes pergunto "mas onde diabo estudaram?".

Segue, mais abaixo, o texto que escrevi para o "Público".












Teve lugar no passado dia 8 a apresentação pública de um curto vídeo intitulado Percorrendo a cerca moura, que está disponível nas páginas do Gabinete de Estudos Olisiponenses no Facebook e no YouTube. O perímetro da cidade medieval anterior à Reconquista está bem definido desde o estudo que o genial Augusto Vieira da Silva (1869-1951) publicou, pela primeira vez, em 1899. A muralha pode ser revisitada e reconhecida mas, do ponto de vista físico, só alguns dos seus troços sobreviveram à passagem dos séculos. Da Porta do Ferro, a mais magnificente de todas, resta o sítio — sabemos que ficava no Largo de Santo António — junto à Sé e a descrição de Al-Himyari. Sabemos que era “encimada por arcos sobrepostos que assentam em colunas de mármore, por sua vez apoiadas em embasamentos de mármore”. A muralha ao longo do rio ora se esconde, ora aparece, em sítios como a Casa dos Bicos ou o Eurostars, um hotel com museu dentro. Há mais muralha na base da Igreja de Santa Luzia ou nas traseiras da Igreja do Menino Deus.

Os 20 mil habitantes que Lisboa teria no período islâmico faziam dela uma urbe importante. Mas não ao nível de uma Córdova ou de uma Sevilha.

Este percurso em volta das muralhas, retomado com a ajuda de um drone (o que não pode ser visto do solo é percorrido a partir do ar), constituiria parte de uma exposição sobre Lisboa Islâmica, da qual assumi o comissariado e que, sob a responsabilidade da Câmara Municipal, deveria ter sido montada em 2020. A pandemia falou mais alto e o projeto foi adiado. A exposição comportaria cinco núcleos: um sobre o território de Lisboa, outro sobre a cidade em si, um terceiro referente à conquista de 1147, mais um sobre os “prolongamentos” medievais e modernos (das mourarias aos contactos com a pirataria norte-africana), fechando com um setor final onde se conjugariam as imagens do castelo / coração de al-Ushbuna que nos são devolvidas pelas artes plásticas com a presença das comunidades muçulmanas atuais.

Rever a cidade islâmica, com drone ou sem ele, é importante? Decerto que sim, como a polémica em torno das ruínas na Sé de Lisboa veio, coloridamente, demonstrar. A investigação histórica e arqueológica sobre a cidade, conduzida pelo Gabinete de Estudos Olisiponenses, pelo Centro de Arqueologia de Lisboa, pela Direção-Geral do Património Cultural ou resultado de muitas intervenções realizadas no âmbito da arqueologia empresarial, alargaram em muito o conhecimento que temos da cidade islâmica. É, sobretudo, essencial relê-la de uma forma global, em termos territoriais. Não só a fortaleza em si, mas olhando mais além, e abrangendo na explicação do sítio os campos à sua volta, a riqueza do Tejo e o poder atrativo da mineração. Quantos lisboetas saberão da existência de um ribat (um posto fortificado na costa, onde se rezava e de se preparava o combate pela fé) no Alto da Vigia, junto à Praia das Maçãs? Quantos dos que passam pela Praça da Figueira sabem que, uns metros mais abaixo ficava um bairro ribeirinho, com ruas e casas ordenadamente dispostas? Ou que no perímetro militar da Serra da Carregueira havia minas descritas pelos autores do período árabe?

Mas uma cidade não é um somatório de escavações — por muito importantes que elas sejam para a explicação da Lisboa islâmica —, nem isso por si só nos dá uma leitura ampla da cidade. É certo que a redescoberta da cidade tem passado por essas intervenções, e por releituras como a tese, infelizmente pouco conhecida fora do âmbito académico, de Manuel Fialho Silva. Mas é importante ir mais além. Depois da Reconquista, a voz dos almuédãos foi esmorecendo, até desaparecer de todo no final do século XV. Mas, ainda assim, ao longo de mais de 300 anos, o árabe continuou a ser língua corrente em Lisboa. A lápide funerária de al-Abbas Ahmad, datada de 1398, é apenas mais uma evidência da presença da língua árabe e da religião muçulmana na mouraria da cidade. A expulsão da minoria moura não faria desaparecer o bairro da toponímia da cidade. Tal como não desapareceria uma permanente ligação ao outro lado do sul. Os contactos tornaram-se, de forma crescente, mais agressivos. A memória dos cativos, e os pesados resgates feitos no Norte de África, tornaram a ligação entre Lisboa e o mundo islâmico um domínio de afastamentos e de tensão.

Até há pouco tempo assim foi. A imagem de Lisboa islâmica resumia-se ao episódio da Reconquista, à recordação da mouraria e a algumas generalidades sobre “os árabes”. Por esse motivo, a exposição terminaria (terminará?) com um excerto do filme Lisboetas, de Sérgio Tréfaut. Numa improvisada mesquita, algures às portas da Mouraria, o imam recorda o passado da cidade e que, naquele mesmo sítio, há 500 anos, também se orava a Alá e que a realidade de Lisboa era outra. A prédica do imam, no meio de muçulmanos recém-chegados à cidade, leva-nos a um eterno retorno e quase ao ponto de partida. Imagens dessas comunidades ainda recentes no panorama de Lisboa dariam expressão física a uma realidade que se constrói em permanência.

Talvez valha a pena recordar que o príncipe Sigurd, ao passar por Lisboa no início do século XII, descrevia a cidade como meio cristã, meio pagã (no sentido de muçulmana, claro está). Nove séculos passaram. A diversidade faz parte da matriz de Lisboa. Está na hora de retomar e de clarificar esse discurso. Por esse motivo, mas não apenas por ele, é necessário que se retome o projeto de exposição sobre Lisboa islâmica.

domingo, 11 de abril de 2021

TEMPO DIFUSO

O dia vai claro e limpo, lá fora. Mértola está amena, como sempre. Não há onde ir, nem se deve sair assim à toa. Dias cada vez mais estranhos, e isto ameaça eternizar-se. A preocupação cresce.

Olha-se para fora e daqui a pouco é hora do regresso. Amanhã, sem visitantes, é o dia de maior sossego (ainda maior) no Panteão.

Estamos todos nestes dias um pouco como neste poema de Pessoa:

Começa a ir ser dia

Começa a ir ser dia, 
O céu negro começa, 
Numa menor negrura 
Da sua noite escura, 
A Ter uma cor fria 
Onde a negrura cessa. 

Um negro azul-cinzento 
Emerge vagamente 
De onde o oriente dorme 
Seu tardo sono informe, 
E há um frio sem vento 
Que se ouve e mal se sente. 

Mas eu, o mal-dormido, 
Não sinto noite ou frio, 
Nem sinto vir o dia 
Da solidão vazia. 
Só sinto o indefinido 
Do coração vazio. 

Em vão o dia chega 
Quem não dorme, a quem 
Não tem que ter razão 
Dentro do coração, 
Que quando vive nega 
E quando ama não tem. 

Em vão, em vão, e o céu 
Azula-se de verde 
Acinzentadamente. 
Que é isto que a minha alma sente? 
Nem isto, não, nem eu, 
Na noite que se perde.

Os dias, entre o difuso e o claro, fizeram-me também lembrar esta tela de Luís Noronha da Costa (1942-2020):



sábado, 10 de abril de 2021

XLVI - CRÓNICAS OLISIPONENSES

A imagem é de um comboio suburbano em Lagos, na Nigéria. Mas podia bem ser da Linha de Sintra. Tenho constatado isto, com muita regularidade, ao longo de meses. É mais evidente nas últimas semanas. O rácio população branca / população negra nos comboios está longe de refletir a realidade demográfica da sociedade portuguesa. Porquê? Não me parece que seja necessário um elaborado e complexo estudo para constatar, ao vivo, que os imigrantes africanos ou os portugueses de ascendência africana estão na base da escala remuneratória no nosso País.

Não tiro conclusões. Apenas constato factos.



BEIJOLAR OU NÃO BEIJOLAR, EIS A QUESTÃO...

A conversa já devia ter começado há uns bons minutos. Na verdade, era mais um monólogo que um diálogo. Quando me sentei no metro - estranhamente vazio às 8:15 - não reparei que a mulher estava agarrada ao telemóvel, com um tom de voz alterado. As acusações ao seu ex (ou quase ex) eram torrenciais. Algumas irrepetíveis. Mergulhei no jornal e desliguei. Fui "acordado" na estação dos Restauradores por um grito "Tu queres é ser beijolado! Mas eu não sou mulher para beijolar ninguém!"

Deve ser assim que a língua evolui. Imagino eu, que não sou linguista...




Lips - Andy Warhol (c. 1975)

sexta-feira, 9 de abril de 2021

QUALQUER DIA AINDA INAUGURAM A TORRE DE MENAGEM...

A homenagem aos combatentes ocorreu no dia 24.4.2013. Não foi hoje.

A inauguração das obras dos Quartéis teve lugar no dia 14.6.2014. Não foi hoje.

A cedência de um espaço no edifício dos Quartéis à Liga dos Combatentes foi no dia 28.11.2016. Não foi hoje.

Perguntaram-me se, tendo em conta as responsabilidades que tive, tinha ficado aborrecido com o ato que há pouco teve lugar, no qual se apagou a anterior lápide e se substituiu por outra idêntica, mudando-se a data. Uma apropriação daquilo que outros fizeram. Não fiquei, nem um pouco. O cargo que atualmente ocupo dá-me a perfeita noção da importância da memória coletiva e da pouca importância da vaidade dos homens.

Fico orgulhoso do trabalho realizado (nos Quartéis entre 1997 e 2014). E vejo na incapacidade atual em imaginar e em inovar o estado a que chegámos. Quando não se é capaz de fazer melhor que mudar lápides como forma de marcar terreno está (quase) tudo dito.

A inveja é a homenagem que a inferioridade tributa ao mérito, como dizia Victor Puiseux? Seguramente.

Fotografias de um passado recente (2012-2017):








quinta-feira, 8 de abril de 2021

PECORRENDO A CERCA MOURA: O VÍDEO

Vídeo pertencente ao setor 2 da exposição "Lisboa Islâmica". A vereadora do Pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa, Catarina Vaz Pinto, teve a simpatia de estar presente e de fazer a abertura desta sessão.

Tracei o guião, enriquecido com o contributo de colegas como Jorge Ramos de Carvalho, Manuela Leitão, Manuel Fialho Silva e Miguel Gomes Martins. No essencial, trabalhámos sobre aquilo que Augusto Vieira da Silva delineou.

O essencial é que, a partir de uma filmagem (um trabalho de enorme qualidade de Miguel Pité) e da visão aérea da cidade se perceba "onde está" a cerca moura.

Eis o resultado:


PERCORRENDO A CERCA MOURA: HOJE, ÀS 17 HORAS

Este vídeo deveria ser parte de uma exposição sobre "Lisboa Islâmica". A filmagem e a montagem são um trabalho irrepreensível da Videoteca Municipal.

Com a ajuda de um drone percorre-se o limite exterior da muralha medieval a cidade anterior à Reconquista. A explicação tem lugar hoje à tarde, numa sessão promovida pelo Gabinete de Estudos Olisiponenses. É às 17, a cores e ao vivo.

Continuo, claro, com fé que um dia haja "Lisboa Islâmica".

Link:

https://youtu.be/L_1SYq5K5XY




quarta-feira, 7 de abril de 2021

MOURA ROMANA - MAIS UM PASSO

Saiu hoje, no Ficheiro Epigráfico, um trabalho sobre uma importante inscrição romana de Moura. Tem havido um razoável conjunto de publicações sobre temas arqueológicos dados à estampa nos últimos anos.

Na inscrição lê-se

IN HONOREM DOMV[S] [DIVINAE] [...]

Em honra da Casa Divina...

"A expressão In honorem Domus Divinae costuma encimar monumentos públicos mandados fazer por magistrados locais, que, para sensibilizarem, de certo modo, o poder central,decidem mandar gravá-la a anteceder o texto em que especificam o monumento erigido e as circunstâncias em que o foi".

Texto completo em:

https://www.academia.edu/45787115/Ep%C3%ADgrafe_Monumental_de_Moura?fbclid=IwAR1QW6usEgO8Vdo66RxP4LMPT4mirq0v3x3pn4f54nPpA2K08HalYdylYUo




terça-feira, 6 de abril de 2021

PIERRE GUICHARD (1939-2021)

Chegou-me, há pouco, a triste notícia do falecimento de Pierre Guichard, nome indispensável da História e da Arqueologia do al-Andalus. Ouvi falar dele, pela primeira vez, em 1982, quando Cláudio Torres considerava obrigatória a leitura de Al-Andalus: estructura antropológica de una sociedad islámica en Occidente. Curiosamente, o que Guichard defendia era, em essência, o oposto do que Cláudio Torres sustentava. O que estava ali em causa eram os mecanismos e os processos de islamização. Um pequeno ensaio sobre o castelo de Perpunchent foi, para mim, exemplo da argúcia e da capacidade de leitura, análise e explicação de uma sociedade a partir de uns muros e de umas torres.

Só o conheci pessoalmente em 1992, num célebre colóquio da Castrum, onde estiveram presentes muitos que já nos faltam, e que farão sempre falta: Manuel Acién, Riccardo Francovich, Miquel Barceló... A apresentação que mais me impressionou, pelas suas implicações histórico-antropológicas foi uma da inefável dupla belga Matthys - De Meulemeester (ambos também já desaparecidos) sobre Cabezo de Cobertera. O cruzamento entre arqueologia e etnografia tornava-se claro e a função do "agadir" passava ser uma evidência. O que Guichard apontava era cada vez mais visível. Não me atrevi, claro, a dirigir-lhe a palavra. O Cláudio convidou-o a ir a Mértola. E ele "claro que sim", sem perceber muito bem a razão do convite, nem se dando conta do estatuto que tinha nem do respeito que o seu nome suscitava em Portugal. Cá esteve, em 1993, participando num colóquio no salão na Junta de Freguesia de Mértola.

Entre outubro de 1996 e junho de 2005 fui-me cruzando com o Prof. Pierre Guichard inúmeras vezes, enquanto a minha tese ia, desordenadamente, ganhando forma. Ao longo desses anos fui consolidando uma imagem. A do investigador íntegro e sério, de uma timidez que se tornava divertida, de tão radical, a do professor tolerante e amigo dos seus orientandos. "Vous-êtes où, dans votre thèse, Santiagô?", até me fazer prometer (o que cumpri), que entregaria tudo num prazo de dois meses... A tese nunca teria chegado ao fim sem os seus comentários, as suas críticas e a sua postura ética e científica, aceitando muitas perspectivas bem distantes das suas. Tinha um mal disfarçado orgulho nos seus melhores discípulos, como Yassir Benhima, Tariq Madani ou Jean-Pierre Van-Staëvel.

Em 2006 convidei-o para a apresentação da edição da tese em pleno Castelo de S. Jorge. Encontrei-o depois disso num colóquio patrocinado pelo Fondation Schlumberger (numa herdade na Provença tão grande que tinhamos de andar de carro entre os chalés e o edifício principal, o que fez com que o distraidíssimo Prof. Guichard enfiasse o seu Twingo numa valeta, a altas horas da noite; ante as piadas dos colegas, habituados a tais "proezas", desculpava-se encolhendo os ombros "je ne sais mas qu'est-ce qui c'est passé..."). Vi-o pela última vez, num encontro na Nova, há 5 anos. Estava siderado com o facto de eu ser presidente de câmara.

Em 2010, intitulei uma exposição organizada em Silves "Do Gharb ao Algarve - uma sociedade islâmica no ocidente". Foi uma forma quase explícita de homenagear um homem a quem a História do al-Andalus tanto deve. E a quem tantos de nós tanto devemos pelo que nos ensinou como forma de estar na vida científica.









A fotografia data de 14.2.2006 e nela vemos, durante a sessão no Castelo de S. Jorge, da esquerda para a direita:
* Pierre Guichard, então professor da Universidade de Lyon 2 e diretor da UMR 5648
* Jorge Pulido Valente, então presidente da Câmara Municipal de Mértola
* José Amaral Lopes, vereador do pelouro da Cultura da Câmara Municipal de Lisboa
* Cláudio Torres, diretor do Campo Arqueológico de Mértola
* o autor do bloguem então vereador da Câmara Municipal de Moura

segunda-feira, 5 de abril de 2021

MAIS 20 DIAS DE "GUERREIROS E MÁRTIRES"

Podia ter corrido melhor? Sem dúvida que sim, ao nível do número de visitantes. Mas, a partir de meados de 2020, ficou claro que haver exposição já seria um milagre. No dia 19 de novembro não pude deixar de pensar "missão cumprida". Havia exposição e catálogo. Houve, depois disso, um trabalho fora do comum do serviço educativo do museu. Os vídeos que andam pelo youtube comprovam esse empenho e essa qualidade.

Daqui a menos de três semanas fecha-se este capítulo. Deixa-me um punhado de recordações, quase todas muito boas. "Isto" arrancou em 2017, foi tomando forma e meteu um discurso do Joaquim Caetano no final de uma procissão, em Travassô, numa noite chuvosa de janeiro de 2019.

Este capítulo vai ficar fechado.

E agora? Bom, agora é altura para tentar concretizar um projeto com 15 anos. E que nesta altura ainda ganha mais sentido.



domingo, 4 de abril de 2021

STARDUST MEMORIES Nº. 50: JOSÉ RODRIGUES PERFEITO, O HOMEM DA ESCRITA IDEOGRÁFICA

Nasceu em 7 de janeiro de 1887 e morreu em 2 de agosto de 1975, aos 88 anos. Chamou-se José Rodrigues Perfeito e era o meu bisavô. Lembro-me muito bem dele, sentado na sua cadeira de braços, na cozinha da Avenida da Salúquia, nº. 34. Quase sempre sorridente, quase sempre silencioso.

Na sua cédula está identificada a profissão: jornaleiro. Foi trabalhador rural até poder trabalhar, numa idade já avançada. Um homem digno. A história da sua reforma é das mais humilhantes recordações de infância que conservo. Fica para um dia, mais tarde.

Na cédula diz, também, "não sabe assinar". Na Herdade da Defesa, onde trabalhava, mandavam-no a Moura fazer compras. Não podendo reter tudo de memória, e não sabendo escrever, "criou" uma escrita ideográfica em que determinadas símbolos identificavam produtos e outros as quantidades. Nunca soube como. Isto foi-me contado pelo meu pai, já o "avô Zé" tinha falecido há muito.



sábado, 3 de abril de 2021

MISSÃO IMPOSSÍVEL EM ISTAMBUL

Foi há muitos anos, num hotel na zona de Beyazit, em Istambul. O sítio era tranquilo e estava perto de tudo o que importava visitar. O preço era moderado e recordo que tinha uns soberbos pequenos-almoços. Servidos, infelizmente, num sala interior.

Mas a grande atração durante aquela semana e pouco em que por lá andámos foi a clientela russa, que tomou o hotel "de assalto". Sendo gentil, diria que não tinham assim muito bom ar. Pontificavam uns moços de casacos de cabedal compridos e de óculos escuros. A grande atração era uma flausina loirinha e espirra-canivetes, que de passeava pelo hotel, de ar dengoso, fazendo trejeitos e boquinhas. Devia ser a namorada de algum capo. Andava sempre a acompanhá-la, atrás ou ao lado dela, um gorila semelhante ao da fotografia. Ele de fato escuro, gravata preta e ar de pouquíssimos amigos.

À noite, no bar, viamos passar o grupo, com a loirinha (e o respetivo gorila) a pontificar, em direção à discoteca. Aí começava o barulho. Música que fazia tremer as paredes, até altas horas. A farra terminava às 4 da manhã, com o tema da Missão Impossível. Que, quase sempre, era servido em dose dupla. Ainda hoje me pergunto me pergunto "quem diabo seriam?".

Aqui fica o tema de Lalo Schifrin, em homenagem ao próprio e a uma jovem amiga, a quem há dias contei isto.






sexta-feira, 2 de abril de 2021

PAIXÃO POPULAR

Do Evangelho segundo São Marcos (15):

16Os soldados levaram-no para dentro do pátio, isto é, para o pretório, e convocaram toda a coorte. 17Revestiram-no de púrpura, puseram-lhe uma coroa de espinhos que tinham entrelaçado 18e começaram a saudá-lo: «Salve, ó rei dos judeus!». 19Batiam-lhe na cabeça com uma cana, cuspiam-lhe e, pondo-se de joelhos, prostravam-se diante dele. 20Depois de terem escarnecido dele, despiram-lhe a púrpura e vestiram-lhe as suas vestes. E levaram-no para fora, para o crucificarem.

De todas as representações que vi a que mais me surpreendeu foi esta, em Nisa. Por adotar modelos clássicos da pintura, juntando-lhes uma expressão plástica mais que informal. E isto é um understatement.


Dia 30 de Março, às 13:12:



quinta-feira, 1 de abril de 2021

O ESTUÁRIO

A pé / combóio / metro / subir até Santa Clara. Com pequenas variações vai ser este o percurso. Desde 2005, quando tomei posse na Câmara de Moura, que não passava por uma tão radical mudança de vida profissional.

Visitei o Panteão, pela primeira vez, no verão de 1974. Com um amigo da família (José Bento) que me levou a passear por Lisboa. Estava muito longe de imaginar que, um dia, a minha vida profissional passaria por aquele local.

O que é o dia 1 num sítio assim, ainda quase sem funcionários, que a atividade a sério só arranca no dia 6? Tomar conhecimento dos dossiês, ler documentação, tirar apontamentos, rascunhar e voltar a rascunhar. Fazer telefonemas, um, dois, três, muitos. Marcar reuniões e falar com os interlocutores em volta.

Ao longe está o estuário. Os ventos que sopram sobre o Tejo limpam as poeiras. Ao longe, a 30 kms., está o Castelo de Palmela, que se vê com toda a nitidez. Um cenário incomum. Penso nos cruzados flamengos, em 1147, embevecidos ante a paisagem e a sua riqueza.

A meio da tarde, olhando em volta, vem-me à memória uma short story de Roald Dahl (1916-1990).

O dia das mentiras começa sob o signo da realidade. Às 6 da tarde desço a Calçada do Cascão e retomo o caminho de casa.