domingo, 26 de junho de 2022

AINDA KUBRICK

 "(...) Kubrick era um observador que não gostava de pessoas, tal como o seu cinema, genialmente cruel, tornará claro." (Jorge Leitão Ramos, "Expresso" - 25.3.2022)

Precisamente.

sábado, 25 de junho de 2022

REDACÇÃO - DECLARAÇÃO DE AMOR À LÍNGUA PORTUGUESA

O texto não é de agora. Foi escrito por Teolinda Gersão há exatamente dez anos. Em dez anos, tudo isto piorou, e não foi pouco. Raros são os alunos que fazem um uso proficiente da língua. Empinam os pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais. Empinam e depois esquecem. E não aprendem a ler nem a interpretar. Muito menos gostam de português.




























Tempo de exames no secundário, os meus netos pedem-me ajuda para estudar português. Divertimo-nos imenso, confesso. E eu acabei por escrever a redacção que eles gostariam de escrever. As palavras são minhas, mas as ideias são todas deles.


Aqui ficam, e espero que vocês também se divirtam. E depois de rirmos espero que nós, adultos, façamos alguma coisa para libertar as crianças disto.


Vou chumbar a Língua Portuguesa, quase toda a turma vai chumbar, mas a gente está tão farta que já nem se importa. As aulas de português são um massacre. A professora? Coitada, até é simpática, o que a mandam ensinar é que não se aguenta. Por exemplo, isto: No ano passado, quando se dizia "ele está em casa", "em casa" era o complemento circunstancial de lugar. Agora é o predicativo do sujeito. "O Quim está na retrete": "na retrete" é o predicativo do sujeito, tal e qual como se disséssemos "ela é bonita". Bonita é uma característica dela, mas "na retrete" é característica dele? Meu Deus, a setôra também acha que não, mas passou a predicativo do sujeito, e agora o Quim que se dane, com a retrete colada ao rabo.


No ano passado havia complementos circunstanciais de tempo, modo, lugar etc., conforme se precisava. Mas agora desapareceram e só há o desgraçado de um "complemento oblíquo". Julgávamos que era o simplex a funcionar: Pronto, é tudo "complemento oblíquo", já está. Simples, não é? Mas qual, não há simplex nenhum, o que há é um complicómetro a complicar tudo de uma ponta a outra: há por exemplo verbos transitivos directos e indirectos, ou directos e indirectos ao mesmo tempo, há verbos de estado e verbos de evento, e os verbos de evento podem ser instantâneos ou prolongados, almoçar por exemplo é um verbo de evento prolongado (um bom almoço deve ter aperitivos, vários pratos e muitas sobremesas). E há verbos epistémicos, perceptivos, psicológicos e outros, há o tema e o rema, e deve haver coerência e relevância do tema com o rema; há o determinante e o modificador, o determinante possessivo pode ocorrer no modificador apositivo e as locuções coordenativas podem ocorrer em locuções contínuas correlativas. Estão a ver? E isto é só o princípio. Se eu disser: Algumas árvores secaram, "algumas" é um quantificativo existencial, e a progressão temática de um texto pode ocorrer pela conversão do rema em tema do enunciado seguinte e assim sucessivamente.


No ano passado se disséssemos "O Zé não foi ao Porto", era uma frase declarativa negativa. Agora a predicação apresenta um elemento de polaridade, e o enunciado é de polaridade negativa.


No ano passado, se disséssemos "A rapariga entrou em casa. Abriu a janela", o sujeito de "abriu a janela" era ela, subentendido. Agora o sujeito é nulo. Porquê, se sabemos que continua a ser ela? Que aconteceu à pobre da rapariga? Evaporou-se no espaço? 


A professora também anda aflita. Pelos vistos no ano passado ensinou coisas erradas, mas não foi culpa dela se agora mudaram tudo, embora a autora da gramática deste ano seja a mesma que fez a gramática do ano passado. Mas quem faz as gramáticas pode dizer ou desdizer o que quiser, quem chumba nos exames somos nós. É uma chatice. Ainda só estou no sétimo ano, sou bom aluno em tudo excepto em português, que odeio, vou ser cientista e astronauta, e tenho de gramar até ao 12.º estas coisas que me recuso a aprender, porque as acho demasiado parvas. Por exemplo, o que acham de adjectivalização deverbal e deadjectival, pronomes com valor anafórico, catafórico ou deítico, classes e subclasses do modificador, signo linguístico, hiperonímia, hiponímia, holonímia, meronímia, modalidade epistémica, apreciativa e deôntica, discurso e interdiscurso, texto, cotexto, intertexto, hipotexto, metatatexto, prototexto, macroestruturas e microestruturas textuais, implicação e implicaturas conversacionais? Pois vou ter de decorar um dicionário inteirinho de palavrões assim. Palavrões por palavrões, eu sei dos bons, dos que ajudam a cuspir a raiva. Mas estes palavrões só são para esquecer. Dão um trabalhão e depois não servem para nada, é sempre a mesma tralha, para não dizer outra palavra (a começar por t, com 6 letras e a acabar em "ampa", isso mesmo, claro.)


Mas eu estou farto. Farto até de dar erros, porque me põem na frente frases cheias deles, excepto uma, para eu escolher a que está certa. Mesmo sem querer, às vezes memorizo com os olhos o que está errado, por exemplo: haviam duas flores no jardim. Ou: a gente vamos à rua. Puseram-me erros desses na frente tantas vezes que já quase me parecem certos. Deve ser por isso que os ministros também os dizem na televisão. E também já não suporto respostas de cruzinhas, parece o totoloto. Embora às vezes até se acerte ao calhas. Livros não se lê nenhum, só nos dão notícias de jornais e reportagens, ou pedaços de novelas. Estou careca de saber o que é o lead, parem de nos chatear. Nascemos curiosos e inteligentes, mas conseguem pôr-nos a detestar ler, detestar livros, detestar tudo. As redacções também são sempre sobre temas chatos, com um certo formato e um número certo de palavras. Só agora é que estou a escrever o que me apetece, porque já sei que de qualquer maneira vou ter zero.


E pronto, que se lixe, acabei a redacção - agora parece que se escreve redação. O meu pai diz que é um disparate, e que o Brasil não tem culpa nenhuma, não nos quer impôr a sua norma nem tem sentimentos de superioridade em relação a nós, só porque é grande e nós somos pequenos. A culpa é toda nossa, diz o meu pai, somos muito burros e julgamos que se escrevermos ação e redação nos tornamos logo do tamanho do Brasil, como se nos puséssemos em cima de sapatos altos. Mas, como os sapatos não são nossos nem nos servem, andamos por aí aos trambolhões, a entortar os pés e a manquejar. E é bem feita, para não sermos burros.


E agora é mesmo o fim. Vou deitar a gramática na retrete, e quando a setôra me perguntar: Ó João, onde está a tua gramática? Respondo: Está nula e subentendida na retrete, setôra, enfiei-a no predicativo do sujeito.


João Abelhudo, 8.º ano, turma C (c de c...r...o, setôra, sem ofensa para si, que até é simpática).

MAPUTO QUE NÃO É MAPUTO...

Ao escrever-se em título que este crime aconteceu em Maputo (não em Moçambique, não na região de Maputo, mas em Maputo, que é a capital do País) está a orientar-se, à partida, a leitura que a notícia vai ter.

"Vejam bem, se isto é em Maputo, como será longe da capital?", dirá qualquer leitor menos avisado. E há tantos...

Para aumentar a confusão, coloca-se uma fotografia da Catedral de Santo António da Polana, que fica numa das zonas mais elitistas de Maputo.


sexta-feira, 24 de junho de 2022

PERFIL: ENTREVISTA AO "DIÁRIO DO ALENTEJO"

Sai hoje no "Diário do Alentejo" este perfil. A longa conversa foi resumida de forma excelente, pela Júlia Serrão. Só não falámos do "cruzeiro" a Alcoutim, em setembro de 1983...

Sinto-me fielmente retratado neste trabalho.

https://diariodoalentejo.pt/pt/Default.aspx




TORRE DE MENAGEM: 2012 / 2022

Uma das experiências mais invulgares da minha carreira foi o do projeto da musealização da torre de menagem do Castelo de Moura. Iniciado em 1989 (o projeto foi-me entregue no dia 11.6.1989, em circunstâncias que me ficaram gravadas) foi metido na gaveta pela vereação socialista em 1990.

Guardo desse episódio memórias vivas, em particular pela desqualificação que o projeto (subscrito por Mariano Piçarra e por mim) foi alvo. A História vive-se no tempo longo. O processo foi retomado em 1999, nele se incluindo um projeto de luminotecnia de Vitor Vajão. Dificuldades de vária ordem, e mais alguns escolhos que foram sendo criados, não pararam o processo, ainda que o tenham demorado um pouco mais. A Torre de Menagem abriu ao público em 24 de junho de 2012. Tinham passado 23 anos desde a apresentação dos primeiros desenhos à Câmara de Moura.

Visitei a torre há semanas. Continua magnífica.


quinta-feira, 23 de junho de 2022

FRANCIA MÁRQUEZ

Quem é esta mulher bonita e de ar simpático?

Francia Márquez.

Quem???

A nova vice-presidente da Colômbia. Numa país de brancas oligarquias, esta eleição é um momento histórico e simbólico.

Notícias na comunicação social portuguesa? Não dei por nada.

Ah, a nossa fraternidade. Ah, a nossa abertura ao mundo. Ah, o doce "perfume" da discriminação...


A MINHA FESTA

E já há programa para a Festa de Nossa Senhora do Carmo, em Moura. Toda a minha admiração para a Associação que promove este momento. É o grande momento do calendário anual. Este ano, pessoalmente, ainda por mais motivos.
E que apareça uma comissão para 2023 é o meu desejo.

O MEU MASTRO

Hoje iria a este mastro. Mas não vou, muito contra minha vontade. Fica o desejo que corra tudo bem, durante estes dias. E que isto seja o arranque para novas conquistas.




quarta-feira, 22 de junho de 2022

CONHECER O PANTEÃO - MAIS UM PASSO

Aproxima-se do fim o ciclo de conferências "Conhecer o Panteão". Amanhã, dia 23, às 18h 30, tem lugar a 5ª. sessão. Será difundida na página do facebook do monumento.

Quase a encerrar o ciclo "Pantheon & Panteão" está na hora de preparar a edição de seis teses universitárias que ajudam a entender o Panteão e a área envolvente.

Transmissão em https://www.facebook.com/panteaonacional

terça-feira, 21 de junho de 2022

INDEPENDÊNCIA NACIONAL

Bruxelas cede slots em Lisboa.

Primeiro vão os anéis, depois os dedos.

D. Afonso Henriques deve dar voltas no túmulo, em Coimbra.


segunda-feira, 20 de junho de 2022

I LOVE THE SMELL OF NAPALM IN THE MORNING

Se há coisa que gosto é ver jornais de direita a comentar vitórias da esquerda. Sentados no sofá fofo da upper class, lá vão vendo ir ao ar as teorias do Fukucoiso... A História acabou? Hummmm, parece que não.

Chávez...

Ex-guerrilheiro...

Progressista com aspas...

É Gustavo Petro, o novo presidente colombiano.

Como no filme: I love the smell of napalm in the morning. (...) The smell, you know that gasoline smell, the whole hill. Smelled like... victory.



AS CORES DE SASSEN

Viviane Sassen já por aqui passou, em abril de 2012. A fotógrafa holandesa, nascida em 1972, passou parte da sua infância no Quénia. Parte do seu trabalho (a parte mais interessante, digo eu) tem a ver com África.

A fotografia de cima é de moda, com a modelo sudanesa Grace Bol. Com tanto azul, será Chefchaouen? A de baixo é divertida.

Ver: https://www.vivianesassen.com



domingo, 19 de junho de 2022

PANTHEON & PANTEÃO

Depois de amanhã, dia 21, às 18:30, apresentação do catálogo da exposição preparada pelos dois monumentos, o parisiense e o lisboeta. A exposição faz parte da Temporada Cruzada Portugal-França.

É uma edição da DGPC e do Panteão Nacional, que contou com o generoso apoio de uma empresa, a URIOS.

Entrada livre.

sábado, 18 de junho de 2022

SEVILLA II - O ESPÍRITO DO LUGAR

Eu, que nem ligo nada a roupa, tenho duas ou três coisas de que gosto mesmo. Vai daí, estava na Bodega António Romero tomando um copo quando um casal, BCBG, se encostou à barra. Ele tinha uma impecável guayabera. Depois de alguma hesitação, interpelei-o. Visivelmente bem disposto, perguntou-me "quieres intercambian la camiseta? te doy la mia, me das la tuya"  (ficaria ele a perder no negócio...) para depois me informar que as havia no El Corte Inglés. Aí e noutros sítios. Já há encomendas planeadas.

Horas mais tarde, numa refeição tardia noutro bar, olhei duas vezes para uma mesa ao lado. À segunda vez, outro sevilhano exuberante esclareceu "es ensaladilla con gambas blancas de Huelva; te la recomiendo". Estava deliciosa.

É a isto que os romanos chamavam o genius loci, o espíritio do lugar. Algo que se transmite de geração em geração e que dá uma alma própria a cada sítio. Bendito génio, aquele que passou por Sevilha e que deixou toda aquela animação.

sexta-feira, 17 de junho de 2022

SEVILLA I - DESMESURADA E OPERÁTICA

Ser a cabeça de um império não é uma coisa qualquer. Talvez por isso, e numa cidade que não é assim tão extensa, tudo tenda a ter uma dimensão "fora de escala".

Esta obra anónima de 1662 retrata, em cenário de ópera, as festas da consagração do sacrário da catedral. Está em exposição na própria catedral, ela mesma de argentífera ostentação.


LISBOA-RIO: 1922

Faz hoje cem anos que dois portugueses (Gago Coutinho e Sacadura Cabral) chegaram ao Rio de Janeiro depois de uma travessia que parece hoje quase um milagre.

Alguém deu por isso na imprensa portuguesa?


quinta-feira, 16 de junho de 2022

O BRANCO E O VERMELHO

Hoje lembrei-me do vanguardista soviético El Lissitzky, na verdade Lazar Markovich Lissitzky (1890-1941). Este desenho era de um poster de propaganda de 1920, intitulado "Bate os brancos com a cunha vermelha". Ora nem mais.




quarta-feira, 15 de junho de 2022

CINE ARCADIA

É o nome do cinema que aparece no filme "El sur", de Victor Erice. Arcadia remete-me para Reviver o passado em Brideshead e para todos os momentos de Arcadia.

Sul é a palavra mágica. Como no filme de Erice, como no conto de Borges (que não é o poema), como no mal compreendido Sammy going south, de Mackendrick.

No filme de Victor Erice, o sul é uma miragem de velhos bilhetes postais. Viver/estar no sul é o meu/nosso pequeno luxo.

El sur

Desde uno de tus patios haber mirado 
las antiguas estrellas, 
desde el banco de 
la sombra haber mirado 
esas luces dispersas 
que mi ignorancia no ha aprendido a nombrar 
ni a ordenar en constelaciones, 
haber sentido el círculo del agua 
en el secreto aljibe, 
el olor del jazmín y la madreselva, 
el silencio del pájaro dormido, 
el arco del zaguán, la humedad 
- esas cosas, acaso, son el poema.




terça-feira, 14 de junho de 2022

DUARTE DARMAS X 2.500

O livro "Duarte Darmas - do cálamo ao drone" acaba de ultrapassar os 2.500 downloads no site onde se encontra disponível:

www.duartedarmas.com


Um motivo de satisfação num projeto que ainda não está completo. A exposição e o filme estão a ser ultimados e serão anunciados em breve.

AINDA A FUNÇÃO PÚBLICA - II

Adoro títulos capciosos. O texto tem muito pouco a ver com o título e os licenciados do Estado não têm direito a nenhum prémio salarial.



AINDA A FUNÇÃO PÚBLICA - I

Sou funcionário público há quase 36 anos. Estou fartinho de ouvir piadas a propósito do Estado e do "peso" do Estado. O Estado pesou sempre nos que não são donos do Estado...

É interessante ver esta lista de países e da importância que os funcionários públicos têm em cada um deles. Há mais funcionários públicos em países manifestamente subdesenvolvidos como a Suécia, a Dinamarca e a Finlândia.


segunda-feira, 13 de junho de 2022

MARCHAS POPULARES 2022

Desfila-se esta noite, mas as marchas já mostraram o que valem há uns dias. Torço pela de S. Vicente, da freguesia onde trabalho. Este ano estamos em grande destaque.



domingo, 12 de junho de 2022

IRÓNICO E ICONOCLASTA: ISAAC WEST

Isaac West é um artista um pouco fora das normas, colorido e provocador. Achei graça a esta sua última "incursão", que vem na linha de outras anteriores. Verlaine gostaria de o ter conhecido, tenho a certeza...


Ver: https://www.isaacwest1.com


Baiser ! rose trémière au jardin des caresses!
Vif accompagnement sur le clavier des dents
Des doux refrains qu'Amour chante en les cœurs ardents,
Avec sa voix d'archange aux langueurs charmeresses!

Sonore et gracieux Baiser, divin Baiser!
Volupté non pareille, ivresse inénarrable!
Salut ! L'homme, penché sur ta coupe adorable,
S'y grise d'un bonheur qu'il ne sait épuiser.

Comme le vin du Rhin et comme la musique,
Tu consoles et tu berces, et le chagrin
Expire avec la moue en ton pli purpurin...
Qu'un plus grand, Gœthe ou Will, te dresse un vers classique.

Moi, je ne puis, chétif trouvère de Paris,
T'offrir que ce bouquet de strophes enfantines :
Sois bénin et, pour prix, sur les lèvres mutines
D'Une que je connais, Baiser, descends, et ris.

Paul Verlaine


sexta-feira, 10 de junho de 2022

COMO ULTRAPASSAR DIFICULDADES - CAPÍTULO 147

Acontece a todos ao longo da vida. Por muito que tentemos, há sempre momentos em que as coisas correm menos bem.

Tentámos, ao longo de meses, realizar conferências presenciais, no Panteão Nacional. O resultado deu assim um "match nulo". Umas tinham público em número razoável, outras nem por isso, a despeito do inegável interesse das intervenções. Ao mesmo tempo, iam crescendo os pedidos para que as conferências se realizassem online. Fui resistindo até poder. Na passada quarta-feira, dia 8, cedi e teve lugar a primeira experiência à distância. Sucesso total. Não só esteve mais gente presente, como a conferência continua a ser vista, uma vez que foi gravada e está disponível no facebook do monumento.

OK! Vença o pragmatismo e adote-se o novo modelo.

quinta-feira, 9 de junho de 2022

MORANGOS SILVESTRES, EM SANTA APOLÓNIA

Ao passar, há dias, pela entrada da estação reparei no relógio sem ponteiros. "O que é que isto me faz lembrar?", e não havia maneira de chegar a resposta óbvia. Bergman! e a cena inicial de "Morangos silvestres".

Deixou de existir o tempo, em Santa Apolónia. Um toque bergmaniano, ao final de uma tarde luminosa.

quarta-feira, 8 de junho de 2022

PAULA REGO (1935-2022)

Quatro textos do blogue em que Paula Rego tem um papel principal.
Partiu hoje. Comece-se a escrever. A lenda já teve início.


SÁBADO, 22 DE JUNHO DE 2013

DAME WITH THE GOAT'S FOOT AND OTHER STORIES


The last feed é uma obra recente de Paula Rego. A imagem começou a circular pela blogosfera há pouco mais de uma semana. Um palhaço a mamar nos seios de uma mulher? Um palhaço a mamar nos seios de uma mulher enquanto se coça despudoradamente? O universo de Paula Rego não é muito dado a subtilezas. Conheço uma pessoa que o classifica de "boçal". Embora a palavra boçalidade cubra um lote de equívocas designações.

Até aí, vá que não vá. Mas então não é que o palhaço que mama nos seios e se coça se parece com o... Parece, não parece? É mesmo a cara do...

Uma pintora zangada e com um ácido sentido de humor é uma coisa terrível...


DOMINGO, 14 DE ABRIL DE 2013

ESQUIZOFRENIA


António José Seguro, a mais preocupante nulidade da política nacional, ganha as primárias do seu partido com 95%.

Miguel Relvas é louvado, sabe Deus porquê, pelo conselho nacional do seu partido.

Paula Rego, nome cimeiro da pintura mundial, exige a devolução das suas obras, porque a fundação que dava sentido ao projeto da Casa das Histórias foi extinta.

Tenho visto governantes em centros comerciais. Nunca vi nenhum numa exposição, num concerto, numa biblioteca ou numa livraria. O que se passa com Paula Rego tem a ver com o resto.




SEXTA-FEIRA, 18 DE SETEMBRO DE 2009

PAULA REGO

Quando era miúdo tinha medo de ver os documentários televisivos sobre museus. Tinha medo daquelas salas sempre vazias - e na altura não percebia porque é as salas estavam tão lugubremente vazias - e do movimento da câmara de filmar em lento travelling. Na altura não sabia o que era um travelling mas ficava sempre à espera que o homem do saco saísse detrás de uma das vitrines. A sensação de medo era acentuada pela iluminação das peças e pela sua dramatização. Efeito esse que se acentuava especialmente quando se tratava das máscaras africanas. Guardo memória de um programa intitulado Universidade na TV. Teve mais influência no meu percurso de vida do que na altura poderia remotamente imaginar.
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A sensação de estranheza ante o vazio, tornar-se-ia, mais tarde em fixação, em particular na obra de De Chirico. E, anos depois, na de Paula Rego (n. 1935). Do ponto de vista formal, nunca me pareceu uma pintora muito portuguesa (e porque ou como o haveria de ser?, depois de tão prolongada estadia no Reino Unido e de uma tão profunda imersão na cultura britânica). Algumas das paisagens que cria têm a mesma sugestão do vazio e do desconhecido que, desde sempre, me perseguem. Os seus quadros suscitam-me, tal como os documentários da infância, uma sensação de estranheza e de desconforto. E neles transparecem o realismo mágico, uma sexualidade que, não raro, roça a perversão, os contos de infância e os sonhos de infância tornados em pesadelo, a ambiguidade.
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Paula Rego é um nome maior da pintura mundial. O seu museu - projecto de arquitectura de Eduardo Souto Moura (n. 1952) e sob a direcção científica da historiadora de arte Dalila Rodrigues -, a sua Casa das Histórias, é inaugurada hoje à tarde, em Cascais. Fica aberta todos os dias, das 10 às 22. A entrada é gratuita. Não há desculpas.

De consulta obrigatória: http://www.casadashistoriaspaularego.com/





TERÇA-FEIRA, 20 DE FEVEREIRO DE 2018

JORGE SAMPAIO, POR PAULA REGO

Interessantíssima, a entrevista de Paula Rego ao The Guardian, hoje. Achei divertida esta passagem, a propósito do retrato que fez ao Presidente Jorge Sampaio: "Painting the portrait of the president of Portugal, Jorge Sampaio, nearly killed me. We started working in the studio of the last king of Portugal: he’d been a very good painter and had a studio in what is now the president’s official residence. It was quite impossible – people kept coming in and saying, “That arm isn’t quite right”, or, “His nose isn’t like that.” In the end I said: “Maybe we should go somewhere else.” We went to a room full of glass cupboards and I worked very hard". Benditos assessores, que tanto sabem de pintura...

Texto integral aqui:
https://www.theguardian.com/artanddesign/2018/feb/20/paula-rego-painting-all-too-human-tate-britain-germaine-greer

DE REGRESSO A MOURA

O meu próximo artigo para o jornal A Planície vai ser sobre Moura na Idade Media. Tenho feito alguns pequenos estudos sobre a minha terra e, em particular, sobre Moura medieval. Um deles foi editado em livro, em 2021. Outro ainda está nas páginas da revista "Arqueologia Medieval" e foi publicado nos meus verdes anos. Uma parte foi reciclada no livro sobre as escavações arqueológicas no Castelo de Moura, editado em dois volumes (2012 e 2016).

Volto sempre às palavras do meu amigo Antonio Malpica Cuello, que conheci como jovem professor e que hoje é catedrático jubilado em Granada “a lo largo del tiempo, y cuando empezamos a envejecer, pensamos en volver a los sítios de donde hemos salido”.

Regresso a Moura. Não em exclusivo. Vou retomar um projeto sobre o mundo do Gharb com 25 anos (já nem o nomeio...) e vou arranjar tempo para a monografia sobre Moura Medieval. Que tem largas páginas escritas e umas centenas de documentos triados. Haverá livro, tal como houve todos os outros. Regresso, cada vez mais, à minha paisagem original.