segunda-feira, 18 de outubro de 2021

EDUCADAMENTE

O importante é haver educação. E cordialidade e elevação.

No outro dia, parei o meu carro, educadamente,no Largo Dr. Bernardino António Gomes, a 100 metros no meu gabinete. A placa central não costuma ter muitos carros. Nunca estranhei muito porque, tirando o Casão Militar, não há ali "serviços". Menos estranhei pelo facto de raramente levar o carro para o serviço. Muito raramente, mesmo.

Ainda assim, saí da viatura e dirigi-me a dois polícias. A quem cumprimentei com toda a cordialidade. Verdade se diga que fui correspondido, e fui educadamente saudado. Perguntei se era possível estacionar naquele local, e apontei para a viatura. Educadamente me esclareceram que só não se podia estacionar no local indicado à segunda à tarde e à sexta à tarde, por causa da Feira da Ladra, que tem lugar nos dias seguintes. Agradeci e fui à minha vida.

Há dias, e tendo que, pela segunda vez em meses, de levar o carro para o serviço, estacionai no mesmo local. Ao final da tarde, estava um reboque da PSP no local. Estava a "tratar" de um carro. O meu seria a seguir. Intrigado perguntei "então como é?". O agente educadamente me esclareceu que aquela é uma zona pedonal e que, portanto, eu estava a cometer uma infração. Expliquei que estava ali porque tinha perguntado a um agente da PSP. A resposta, simpática e educada (foi mesmo, não estou a fazer ironia), deixou-me aturdido "essas perguntas têm de ser feitas ao pessoal do trânsito da Polícia Municipal". Ou seja, fui levado ao engano por ter feito a pergunta à polícia errada. Educadamente, não me rebocaram o carro. Limitaram-se a enviar para casa uma multa de 30 euros.

Vou pagá-la e juro, educadamente, que não soltarei nenhum palavrão. Afinal, não é todos os dias que somos fintados pela Autoridade. Educadamente e tudo.



ELEIÇÕES EM CABO VERDE

Escusado será dizer que o meu coração "pendia" para José Maria Neves. E fiquei surpreendido com dois factos: a eleição à primeira volta e a elevadíssima taxa de abstenção.

Fui acompanhando as eleições pelo site oficial https://eleicoes.cv/resultados. Uma página exemplarmente organizada e bem mais sofisticado que o site português das eleições. Quem tiver dúvidas que as tire: os resultados são apresentados mesa a mesa!

domingo, 17 de outubro de 2021

QUANDO A PALAVRA DE ORDEM É COBARDIA

Abro uma exceção para reproduzir uma declaração do líder do partido de extrema-direita. Quem ontem esteve em Santo Aleixo de Restauração pode assistir ao ambiente de intimidação (seguranças de auricular assim a fingir os Serviços Secretos, carros de vidros fumados...) que o meu concelho perfeitamente dispensa.

Quem, à noite, ouviu as notícias, constatou que o líder do partido de extrema-direita condena a violência racial. Primeiro, acirra ódios. Depois esconde-se. Primeiro incendeia opiniões e cria um ambiente de tensão. Depois vem dizer que não tem nada contra as minorias. Quando cobardia e irresponsabilidade andam de mãos dadas. Que não se esqueça que quem semeia ventos...



O POVO É SERENO

Ontem, a meio da tomada de posse, entrou na Rua da Igreja, em Santo Aleixo da Restauração, uma viatura de valores. Vinham fazer o reabastecimento da caixa multibanco na Praça da Restauração. Precisamente onde a cerimónia decorria. Alguém se esqueceu que há coisas que têm de ser verificadas.

Pensei "como é que irão resolver isto? o carro não pode passar e eles têm itinerários e horas a cumprir". Um minuto de hesitação e, depois, a solução: o funcionário da referida empresa passou pelo meio da cerimónia, e pelo meio dos que assistiam, com uma mala cheia de dinheiro (mais discreta que a da imagem, admito).

Y qué? No pasa nada. O povo é sereno.




sábado, 16 de outubro de 2021

A CÂMARA DE MOURA CONTRA O "ESTADO" OU "TAL NÃO É O POEIREDO QUE A GENTE VAI FAZENDO" (AGORA EM VERSÃO MONUMENTO NACIONAL)

Fui assistir, hoje de manhã, à instalação da Assembleia Municipal e da Câmara Municipal de Moura, em Santo Aleixo da Restauração. Para estar com gente amiga, para voltar a entrar no Pinpim e no Tijolo. Para cruzar terra firme, no meu concelho.

O dia decorreria com normalidade, não fosse o extraordinário discurso do presidente da câmara. No meio das habituais jonglerias e banalidades sai-se com esta "quando o Estado não trata das coisas, tratamos nós; como vamos fazer com as igrejas de Moura e de Santo Aleixo". Dou de barato a costumeira confusão entre Estado e Poder Central. O Estado abrange o Poder Central, mas o Poder Central não é o Estado. A parte mais divertida é dizer nós vamos fazer. Na verdade, a autarquia vai pagar 1% (um por cento) do total das obras. O resto é pago pelo tal Estado... O seja, como a formiga em cima do elefante "tal não é o poeiredo que a gente vai fazendo!"

Voltarei ao tema, de forma mais alargada, para denunciar o embuste. Para já, a atitude anti-Estado só me fez lembrar uma cena do filme "Recordações da Casa Amarela", quando há um que quer marchar sobre S. Bento.


PS COM APOIO DO CHEGA EM SAFARA E SANTO ALEIXO (MOURA)

Há coisas assim na vida. O PS elegeu 4 representantes (ganhando a união de freguesias), a CDU 4, o Chega 1. Curiosamente, na eleição para o presidente da Assembleia de Freguesia, o PS (que teria sempre a eleição assegurada, porque a CDU nunca votaria contra...) viu a sua proposta apoiada pelo representante do Chega. Começo a ter o feeling que este mandato vai, no concelho de Moura, ser tudo menos "normal".













"Bust and skull" - Robert Mapplethorpe

quinta-feira, 14 de outubro de 2021

SETEMBRO, 1970

Ainda os Forcados de Moura não existiam. Foi em setembro de 1970. Era dia de Feira e o meu pai pegou-me na mão e levou-me à Praça de Touros de Moura. Era assim, era feira e a gente ía aos touros. Nesses dias 8 de setembro não se cabia na praça. Foi a primeira de muitas vezes. Foi lá que vi os duelos entre Luís Miguel da Veiga e José Mestre Batista, e que assisti a uma lide temerária, num domingo de Festa, de José Maldonado Cortes. E também a outras tardes, com Gustavo Zenkl e com José João Zoio. Ah, sim, e Mário Coelho e Ricardo Chibanga.

O gesto do João Macias de levar um miúdo de 7 anos a uma corrida de touros foi, naquele meio em que vivíamos, algo normal. Aquilo fazia/faz parte das nossas vidas. Do que gostamos e do que nos é familiar. Tal como me divertiria, anos mais tarde, com as largadas.

Tal como depois, anarquicamente, à medida do que me foi apetecendo, fui vendo corridas aqui e além. Conhecer a Arte de Morante, de Castella, de Tomás, de El Juli, de Ferrera, de Perera, de Ponce, foram/são troços importantes da minha vida.

Agora, decide-se que só a partir dos 16 anos se pode ir aos touros. Parece que antes dessa idade só com um adulto responsável. Uma vestal vegana (sempre desconfiarei dos proselistismos, sejam eles quais forem...) diz que o "Conselho de Minsitros aprovou o decreto que protege os menores de 16 anos da violência da tauromaquia". Passei muito bem, na minha remota juventude, sem tais proteções. E sem que, por decreto, decidissem o que posso ou não posso ver, do que posso ou não posso gostar. Agradecerei sempre ao meu pai por, naquele dia 8 de setembro de 1970, me ter pegado na mão e me ter dito "vamos à tourada!".

O que aconteceu hoje? Uma decisão unilateral. E pouco culta.


quarta-feira, 13 de outubro de 2021

A VÍRGULA, SENHORES, A VÍRGULA!

Quem assina o convite (a presidente da assembleia) não o escreveu. Disso estou certo.

Quem escreveu o convite foi algum assessor iletrado. Especialista em erros ortográficos e de sintaxe. Vá lá, toca a escrever 100 (cem) vezes:

Não se colocam vírgulas entre o sujeito e o predicado.



terça-feira, 12 de outubro de 2021

PUBLICIDADE DE CHINELO NO PÉ

Isto não é bem publicidade. Está mais na onda das súcias de segunda-feira de Páscoa. Dos copos à mesa da taberna. Pobre Leonardo...

Já agora, escreve-se "contra a dor de cabeça e A enxaqueca". Raizospártom!

(visto hoje às 17:44 na esquina da Av. Barbosa du Bocage com a Av. Defensores de Chaves)

ARCO-ÍRIS MATISSIANO: LARANJA

Esta "bailarina acrobática" já vai em 72 anos. O elogio da laranjeira também se poderia adaptar ao tema de Matisse.

Éloge de l'oranger

Jean de La Fontaine (1621-1695)

Sommes-nous, dit-il, en Provence ?
Quel amas d'arbres toujours verts
Triomphe ici de l'inclémence
Des aquilons et des hivers ?

Jasmins dont un air doux s'exhale,
Fleurs que les vents n'ont pu ternir,
Aminte en blancheur vous égale,
Et vous m'en faites souvenir.

Orangers, arbres que j'adore,
Que vos parfums me semblent doux !
Est-il dans l'empire de Flore
Rien d'agréable comme vous ?

Vos fruits aux écorces solides
Sont un véritable trésor ;
Et le jardin des Hespérides
N'avait point d'autres pommes d'or.

Lorsque votre automne s'avance,
On voit encor votre printemps ;
L'espoir avec la jouissance
Logent chez vous en même temps.

Vos fleurs ont embaumé tout l'air que je respire :
Toujours un aimable zéphyre
Autour de vous se va jouant.
Vous êtes nains ; mais tel arbre géant,
Qui déclare au soleil la guerre,
Ne vous vaut pas,
Bien qu'il couvre un arpent de terre
Avec ses bras.

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

ALENTEJANO, HISTORIADOR, 58 ANOS DE IDADE

Começo por clarificar que não conheço pessoalmente Raquel Varela. Nunca trocámos um mail, nunca a vi "ao vivo". Digamos que com o seu estilo peculiar se colocou um tanto "a jeito". Mas esta chacina de que tem sido alvo é abjeta. Ao ler tanta coisa que se tem escrito não deixo de pensar "tanta meretriz fina...".

É certo que a progressão na carreira académica tem normas estritas e que há coisas que não devem acontecer e há atitudes que não se devem tomar. Mas não quero tomar o papel de juiz e muito haveria a dizer sobre muitas carreiras.

O tema não é novo. Recordo um texto com mais de 50 anos e que, temo, ande um pouco esquecido. Vale a pena reler “A situação da Faculdade de Letras (Alguns aspectos)” publicado na revista "Ocidente" em 1970. Eram seus autores Oliveira Marques, António José Saraiva e Vitorino Magalhães Godinho.

A forma como se fazem muitas carreiras é mais que dúbia (estou, formalmente, "fora da carreira" pelo que não falo em causa própria). Agora, muitas das críticas que leio dão vontade de rir... Sobretudo, consigo colocar-me no papel de quem está a ser esquartejado.

Aos 58 anos, e temendo falar em demasia na primeira pessoa, reservo-me pequenos luxos:

* Vou muito pouco a congressos, porque não tenho pachorra para liturgias (abro exceções para Mértola, para as iniciativas da Nova e para os colóquios que a Isabel Cristina Fernandes organiza);

* Escrevo o que me apetece, como me apetece e quando me apetece;

* Os últimos livros foram o "929", com o Fernando Branco Correia, para a Tinta da China, porque ninguém nos disse como tínhamos de escrever, e mais o "Movra Medievalis", com o José Gonçalo e o José Finha, porque foi uma coisa artesanal e nossa;

* Publico em pequenas edições, furiosamente independentes, como quero e com quem quero;

* Recuso, quase sempre, os "peer reviews", porque não sei o que é o cânone, nem quero saber do cânone para nada;

* O próximo livro não é feito a partir do zero; vou reutilizar materiais já publicados (já vejo o clarão da fogueira a acender-se...), mas será, no essencial, uma abordagem inédita.

* O que digo aos mais novos? Leiam, façam fichas de leitura, voltem a ler, discutam ideias com os colegas, procurem abordagens fora dos esquemas habituais e façam da investigação trabalho, prazer e diversão. É possível? Claro que é possível. Como no slogan da NIKE "just do it".

domingo, 10 de outubro de 2021

TERRA DA FRATERNIDADE

Não foi só uma questão de festejar a vitória na Freguesia do Sobral da Adiça, bem entendido. Foi sobretudo o momento de nos juntarmos e de, confiadamente, prepararmos o futuro. O almoço, com 150 participantes, reuniu candidatos aos órgãos autárquicos e muitos amigos, de todas as freguesias do concelho.

Um momento de união, hoje no Sobral. As intervenções de Daniel Barreto, Bruno Monteiro, Helena Costa, André Linhas Roxas e de João Pauzinho deram o mote ao futuro.



sábado, 9 de outubro de 2021

DOUTOR ABÍLIO FERNANDES - UMA JUSTA HOMENAGEM

Este texto foi escrito em março de 2020. A pandemia atrasou a cerimónia 19 meses. O texto mantém-se atual. A homenagem a um homem como Abílio Fernandes ganha, a cada dia, maior justificação.
A Universidade de Évora (UÉ) atribuiu o grau de Doutor Honoris Causa ao antigo presidente do município Abílio Fernandes. A cerimónia está marcada para dia 25 de março de 2020, na Sala dos Atos do Colégio do Espírito Santo.
Abílio Fernandes foi presindente da autarquia eborense durante 25 anos (1976-2001), sempre eleito pelo PCP.
Após deixar a autarquia, Abílio Fernandes , foi deputado na Assembleia da República entre 2005 e 2007, tendo renunciado e o seu lugar sido ocupado por João Oliveira.
Atualmente reformado, Abílio Miguel Joaquim Dias Fernandes, natural de Moçambique, economista de profissão, é licenciado em Finanças pelo Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras de Lisboa.

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

CONFERÊNCIAS ARISTIDES DE SOUSA MENDES - SESSÃO I: IRENE FLUNSER PIMENTEL

O Panteão Nacional vai promover um conjunto de conferências dedicadas a Aristides de Sousa Mendes e que integram o programa Nunca Esquecer. A primeira conferência será proferida pela Doutora Irene Flunser Pimentel (Instituto de História Contemporânea - Universidade Nova de Lisboa), no dia 13 às 18 horas. A iniciativa enquadra-se na homenagem de que está a ser alvo o diplomata português, a qual terá o seu ponto alto no próximo dia 19 de outubro, altura em que terá lugar uma sessão solene e em que será descerrada uma placa de homenagem.

As conferências seguintes terão lugar nos meses de novembro, dezembro e janeiro. A coordenação científica desta ciclo é da responsabilidade de Inês Fialho Brandão.



MAIS INFORMO QUE...

Que a Câmara Municipal de Moura não mostra, desde outubro de 2017, interesse ou respeito pelo Património é mais que visível. (Antes que venham com historietas, valeria a pena recordar que as "obras de Santa Engrácia" das igrejas de S. João e de Santo Aleixo" só custam à autarquia 1% do total de investimento, por serem edifícios do Estado).

Que se façam praias para jogos com amigos junto a um monumento classificado, já é mau.

Que se coloquem "lindíssimas e moderníssimas" placas na fachada de monumentos classificados ultrapassa qualquer cúmulo de incultura e de falta de respeito.

Mais informo que fiz participação escrita às entidades da tutela para saber se isto foi autorizado.


quinta-feira, 7 de outubro de 2021

PAN DAIJING

Do site da BoCA – Biennial of Contemporary Arts:

Site specific – Performance musical
“Half a Name”

Pan Daijing, nascida em Guiyang, China, e residente em Berlim, é uma conceituada artista, compositora e performer. Pan Daijing é uma contadora de histórias que concebe através de criações artísticas com recurso a várias disciplinas e formas, como a performance, a música, a dança e a instalação. 

As suas performances são envolventes experiências sensoriais que redefinem a noção fide som, extrapolando sobre o seu significado, levando-o muito além de uma categoria puramente sonora. Assinando criações site-specific e em grande escala, as suas composições dialogam fificom conceitos de filosofia e de afeto psicológico. Comovente e feroz, a sua prática constrói e narra a interioridade; provocando as fronteiras entre arte e música ao vivo, e acolhendo o público dentro das criações. 

Citada como uma das figuras mais magnetizantes da atual vanguarda, Pan Daijing apresentou o seu trabalho em museus como Palais de Tokyo e Rockbound Shanghai, teatros como Volksbuhne Berlin e HAU, clubes underground como Berghain, e também em festivais internacionais como CTM, Sonar, Unsound e London Contemporary Music Festival. 

“Half a Name” é uma performance musical site-specific para o Panteão Nacional, em que Pan Daijing assume a expansiva documentação sonora e visual das suas performances de grande escala, desenvolvidas nos últimos anos. Desconstruindo momentos de memórias, a peça explora as possibilidades do arquivo performativo, assim como a sua prática na narrativa experimental. Uma produção certamente poética e misteriosa, que assinala a primeira vez da artista em Portugal.

Sobre a bienal ver: https://bocabienal.org

E TUDO ISTO VOS DAREI...

Tornaram-se célebres, em 1975, as fotomontagens do Jornal Novo. O vespertino, lançado em abril de 1975, foi um poderoso elemento de combate a Vasco Gonçalves. Era seu diretor um jornalista de grande talento, Artur Portela Filho (1937-2020), então no auge da carreira. As fotomontagens eram um exercício diário de rigor gráfico, inteligência e humor, um pouco mais tolerantes com o PS e com Mário Soares, absolutamente devastadoras para com o PSD, com o CDS, com o PCP e com as diversas "extremas-esquerdas" que então faziam prova de vida.

Recordo uma, que satirizava o discurso de "justiça social" e de promessas de prosperidade num sistema capitalista, feitas pelo também já desaparecido Freitas do Amaral (1941-2019). Via-se na fotografia, em fundo, uma mansão inglesa. No primeiro plano estava um Rolls-Royce. Um homem de fraque, de braços exuberantemente abertos, estava sentado no capot do carro. A cara tinha sido habilmente substituída pela do sorridente líder do CDS. Em baixo, a legenda: E TUDO ISTO VOS DAREI.

Esta justiça social já está em marcha. Quando motoristas compram (e acho muito bem que comprem!) casas por 1.150.000 euros, já atingimos o patamar da justiça plena e da igualdade. Quem é que precisa do socialismo quando já lá chegámos pela via da prosperidade?



quarta-feira, 6 de outubro de 2021

MULHERES MECENAS - PROGRAMA DO COLÓQUIO

Programa do colóquio fechado. Ou quase. Faltam uma ou duas confirmações para a mesa-redonda final.

Participantes? Vitor Serrão, Maria João Neto, Manuela Santos Silva, Paulo Drumond Braga, Nuno Simões Rodrigues, Antónia Fialho Conde, Margarida Ramalho, José Alberto Ribeiro e muitos mais. Dois dias cheios.

Para aceder ao programa ver aqui:

https://coloquiomulheresmecenas.dgpc.pt/?page_id=2




VERDE QUE TE QUIERO VERDE

Vegetais e geografia e clima e Tejo e Lisboa e tudo. A antropóloga Daniela Araújo comissariou uma das grandes exposições dos últimos anos. Sensorial e científica, emotiva e vanguardista (Ângela Ferreira anda por ali) e cheia de boas ideias.

Ora aqui está uma coisa que os alunos do básico deviam ver, em vez de terem de gramar, pela enésima vez, uma ida ao zoomarine ou ao badocapark. Uma coisa é certa. Trazer miúdos a uma exposição assim implica trabalho. Antes e depois. Mas que vale a pena, não tenhamos dúvidas.

Álvaro de Campos está lá, García Lorca não está, mas é como se estivesse.




























ROMANCE SONÁMBULO 

A Gloria Giner y a Fernando de los Ríos

Verde que te quiero verde.
Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar
y el caballo en la montaña.
Con la sombra en la cintura 
ella sueña en su baranda,
verde carne, pelo verde,
con ojos de fría plata.
Verde que te quiero verde.
Bajo la luna gitana, 
las cosas la están mirando 
y ella no puede mirarlas.


               * 

Verde que te quiero verde.
Grandes estrellas de escarcha,
vienen con el pez de sombra
que abre el camino del alba.
La higuera frota su viento 
con la lija de sus ramas,
y el monte, gato garduño,
eriza sus pitas agrias.
¿Pero quién vendrá? ¿Y por dónde...?
Ella sigue en su baranda,
verde carne, pelo verde,
soñando en la mar amarga.


               * 

— Compadre, quiero cambiar
mi caballo por su casa,
mi montura por su espejo,
mi cuchillo por su manta.
Compadre, vengo sangrando,
desde los montes de Cabra.
— Si yo pudiera, mocito,
ese trato se cerraba.
Pero yo ya no soy yo,
ni mi casa es ya mi casa.
— Compadre, quiero morir
decentemente en mi cama.
De acero, si puede ser,
con las sábanas de holanda.
¿No ves la herida que tengo
desde el pecho a la garganta?
— Trescientas rosas morenas 
lleva tu pechera blanca. 
Tu sangre rezuma y huele 
alrededor de tu faja. 
Pero yo ya no soy yo, 
ni mi casa es ya mi casa.
— Dejadme subir al menos 
hasta las altas barandas, 
dejadme subir, dejadme,
hasta las verdes barandas.
Barandales de la luna 
por donde retumba el agua.

               * 

Ya suben los dos compadres 
hacia las altas barandas.
Dejando un rastro de sangre. 
Dejando un rastro de lágrimas. 
Temblaban en los tejados
farolillos de hojalata. 
Mil panderos de cristal, 
herían la madrugada.


               * 

Verde que te quiero verde,
verde viento, verdes ramas. 
Los dos compadres subieron.
El largo viento, dejaba 
en la boca un raro gusto
de hiel, de menta y de albahaca. 
— ¡Compadre! ¿Dónde está, dime? 
¿Dónde está tu niña amarga? 
— ¡Cuántas veces te esperó! 
¡Cuántas veces te esperara, 
cara fresca, negro pelo,
en esta verde baranda!

               * 

Sobre el rostro del aljibe 
se mecía la gitana.
Verde carne, pelo verde, 
con ojos de fría plata. 
Un carámbano de luna 
la sostiene sobre el agua.
La noche su puso íntima 
como una pequeña plaza.
Guardias civiles borrachos,
en la puerta golpeaban.
Verde que te quiero verde.
Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar.
Y el caballo en la montaña.

2 de agosto de 1924


Domingo irei para as hortas na pessoa dos outros,

Domingo irei para as hortas na pessoa dos outros, 

Contente da minha anonimidade. 

Domingo serei feliz — eles, eles... 

Domingo... 

Hoje é quinta-feira da semana que não tem domingo... 

Nenhum domingo. — 

Nunca domingo. — 

Mas sempre haverá alguém nas hortas no domingo que vem. 

Assim passa a vida, 

Subtil para quem sente, 

Mais ou menos para quem pensa: 

Haverá sempre alguém nas hortas ao domingo, 

Não no nosso domingo, 

Não no meu domingo,

Não no domingo... 

Mas sempre haverá outros nas hortas e ao domingo!


9 de agosto de 1934

terça-feira, 5 de outubro de 2021

ARCO-ÍRIS MATISSIANO: VERMELHO

Quando era estudante de História da Arte não tinha o menor interesse pelo fauvismo e Matisse não me entusiasmava por aí além. Se uma coisa tenho como certa é que o passar dos anos nos altera as perspetivas. Gostamos de coisas que desdenhávamos, tornamo-nos um pouco mais tolerantes (no meu caso, admito que só relativamente), muda de forma radical a perceção do tempo. Chega, por vezes, le "pli de l'amertume". Dificilmente me acontecerá este último, porque as minhas expetativas em relação ao mundo sempre foram moderadas...

E dei comigo apaixonado pelas cores de Matisse. Que quase esgotou os pantones disponíveis no mercado.

La chambre rouge, de 1908, está no Ermitage.

segunda-feira, 4 de outubro de 2021

FUNÇÃO PÚBLICA

Uma das clássicas embirrações de uma certa direita, e da maioria da comunicação social, foca-se nos funcionários públicos. Que são muitos. Que não produzem blablabla. Em boa verdade, a Direita não é contra o Estado. É contra o Estado que não domina nem controla. Aí é que bate o ponto.

Vou a caminho das quatro décadas como funcionário e quando me dizem que na privada é que é, respondo "ai sim? venham de lá eles". Sendo claro que não vejo superioridades globais, mas sim atitudes e diferenças pontuais.

Deixo estes dados. Percentualmente, estamos no fim da tabela. No topo, estão os países nórdicos. Os tais que fazem as coisas bem feitas e de forma eficiente etc. e tal. Dá que pensar, não é?




sábado, 2 de outubro de 2021

EUGENIO AMPUDIA

Chama-se Eugenio Ampudia (n. 1958) e é um artista espanhol. Uma das suas mais recentes intervenções foi o Concierto para el Bioceno, no Liceu de Barcelona. Uma peça de Puccini executada para 2292 plantas. Desconcertante? Sim. Divertido? Também.

O SENHOR CABEÇA - HISTÓRIA DE UMA MÁ FORTUNA

Era um jovem na casa dos quarenta, bem falante e convincente. Foi parar à presidência sem saber ler nem escrever. Vinha cheio de ideias, claro. E de muitas acusações ao antecessor. Que aquilo estava falido, que iam ser necessários muitos anos para pagar a dívida. Que era preciso muito trabalho e era imprescindível arejar tudo. Portas abertas à inovação, que era preciso dinamismo e fechar o passado.

A presidência deu balbúrdia. Promessas por cumprir, muita conversa e poucos resultados. Quando aquilo começou a correr mal, fez de calimero, a culpa era dos outros, que eram todos uns maus e não entendiam a sua estratégia. Quando saiu, empurrado pelos maus resultados, a dívida crescera 40%. Continuou bem falante e petulante.

Alfonso Cabeza, o senhor Cabeça desta história, acabou a carreira animando conferências-espetáculo nos cabarets de Marbella. O Atlético de Madrid, do qual foi presidente, só voltou a ser campeão 15 anos depois dele ter saído. Uma presidência trágica. Como adepto do clube, nunca lhe perdoei.



sexta-feira, 1 de outubro de 2021

ARISTIDES DE SOUSA MENDES - O EXÍLIO PELA VIDA

Este ano, o Dia da República é celebrado, no Panteão Nacional, com uma exposição sobre Aristides de Sousa Mendes, que será, muito em breve, homenageado pelo Estado Português. Uma forma especial de assinalar o 5 de outubro.

A montagem da exposição só foi possível graças a um conjunto de boas vontades, entre as quais cabe destacar a Câmara Municipal de Lisboa, o Museu Nacional da Resistência e Liberdade e do Programa Nacional Nunca Esquecer - em torno da Memória do Holocausto.

Em outubro teremos esta exposição, ainda no decurso do mês arrancam as "Conferências Aristides de Sousa Mendes", em novembro será montado o "Candelabro", vídeo-instalação da autoria de Sebastian de Sousa Mendes e de Werner Klotz.


VERDADES INCONVENIENTES

         Na tarde de domingo, dia 26, recebi um telefonema de um órgão de comunicação nacional. Queriam saber se estava disponível para comentar os resultados das eleições em Moura. A minha interlocutora era uma senhora que estivera presente num almoço para onde eu tinha sido convidado. Foi há uns dois anos, no Estoril. Uma coisa um pouco Graham Greene. Ou RTP2, como diz um amigo meu. Pressenti no telefonema a curiosidade na tentação fascista que supostamente pairava por Moura... Disse que sim, que me ligassem depois das 22. Ligaram, mas ainda não havia resultados. Voltaram mais tarde, às 23:39, quando os números eram evidentes. Haveria uma entrevista em direto e, imaginava eu, texto publicado.

         A primeira pergunta foi sobre o Chega. Respondi que não comentava isso, preferindo sublinhar o avanço da CDU e o crescimento em votos e em percentagem. Não foi suficiente? Não foi, mas ficou claro que temos André. O bom.

         A partir daí, resolvi dizer o que me ia na alma:

Que em Portugal não há interior; há apenas zonas afastadas do litoral (em Moura estamos a duas horas de carro da capital do País);

Que não é com tangas como a devolução da taxa variável do IRS que fixamos população (quem diabo se muda de Setúbal para Serpa para ganhar mais 300 euros por ano?...);

Que precisamos do Poder Central em matérias decisivas e que o investimento nas zonas de baixa densidade (adoro o tecocratês...) não se compadece com iniciativas piedosas e inúteis como a Unidade de Missão para a Valorização do Interior;

Que não vale encher isto de internet, fibra ótica e wifi e depois fechar escolas, postos da GNR, correios e serviços de saúde. Não há taxa variável do IRS que compense isto;

Que não precisamos de descentralizações de competências que não interessam a ninguém, fingindo o Governo que está a dar “poder” às autarquias (para quem possa estar distraído, recordaria que o Poder se ganha, não se partilha assim);

Que é um discurso perigoso afirmar-se que é vantajoso para as autarquias estarem perto de quem governa (um atestado de menoridade passado aos autarcas e o tapete estendido à bajulação do Terreiro do Paço, uma longa tradição na História de Portugal);

Que a votação em partidos extremistas e fascizantes não representa a adoção de nenhum programa político, mas sim a reação de Howard Beale no filme “Network”: “I'm as mad as hell, and I'm not going to take this anymore!” (“estou chateado como o caraças e não aguento mais isto”, em tradução livre). As pessoas estão cansadas e muitos políticos tradicionais afastaram-se das bases. A demagogia fascista assenta como uma luva nesta fúria;

Que discursos alternativos, como o do Partido Comunista, são afastados pela comunicação social, chegando-se ao ponto de ser o único partido a não ser entrevistado em matérias de interesse nacional e de não haver um único militante do PCP a comentar política nas televisões;

Que é preciso coragem e proximidade por parte do Governo em relação aos territórios mais desfavorecidos;

Que o resultado do PCP nas autárquicas tem, em geral, a ver com o desaparecimento do proletariado tradicional. Com a certeza de que nos saberemos reinventar e que em Moura há uma alternativa a uma gestão que, desde 2017, tem sido uma perfeita nulidade. É por esse caminho, o de uma renovada qualidade, que iremos.

Sem surpresa minha, passei em direto, mas não há transcrição das declarações ou uma simples citação nesse conhecido órgão de comunicação. Para a próxima, falo da Monica Bellucci. Devo ter mais sorte.

Crónica em "A Planície"