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domingo, 17 de maio de 2026

AMOR MÍO...

Amor mío é uma das canções que cantava e de que mais gosto. Uma canción por bulería cheia de sentimento e de palavras com alma.

Arriscaria dizer que era praticamente desconhecido em Portugal. Chamava-se José Domínguez Muñoz (1944 – 2026), mas era conhecido como El Cabrero. Que o era, de facto. Nasceu em Aznalcóllar, uma vila perto de Sevilha. A serra era o seu mundo. Anarquista, esquerdista, irreverente e pouco respeitador do status quo, teve problemas recorrentes com o Poder. Grande Homem!

A sua voz é, sem exagero, uma das mais importantes da cultura mediterrânica. Ele era O flamenco. Ouça-se aqui: https://www.youtube.com/watch?v=OuO-PudhAw8

sábado, 16 de maio de 2026

JOÃO ABEL MANTA

Dir-se-ia eterno. É-o, de certo modo. João Abel Manta (1928-2026) foi/é uma figura mais marcante do que a rapidez das coisas permite que se entenda. Foi o mais importante e comprometido desenhador da Revolução.

Este desenho, de 1972, está mais atual que nunca. A eternidade é isso.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

FREDERICK WISEMAN: 1930-2026

Dia de luto para o Cinema. Morreu, aos 96 anos, Frederick Wiseman. Uma carreira com (muitas) décadas. Filmes excecionais, próximos da ação, com gente de carne e osso. Um pendor vincadamente social.

Muito do que filmou seria hoje, com os ratos brancos do RGPD a ditar regras, literalmente impossível. Fica este excerto de "Welfare", de 1975:


segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

FRANCISCO SIMÕES (1946-2026)

"Já disse 37 vezes que é do Partido Comunista", comentou-me, ao ouvido, um amigo que assistia a uma palestra de Francisco Simões. Na qual ele recordava a amizade e a cumplicidade artística com um pintor, já falecido. "Exagerado... só disse isso quatro vezes", respondi-lhe.

No fim, apresentei-me a Francisco Simões. Conhecia e admirava a sua obra. Desafiei-o a passar pelo Panteão. Já não irá, com muita pena minha, embora tenhamos uma obra sua em exposição a partir de 5 de março.

Passo, com muita regularidade, pela estação de metro do Campo Pequeno. O grande protagonismo do sítio está nas obras de Francisco Simões. Vou recordar-me disso logo, ao fim da tarde.

domingo, 7 de dezembro de 2025

MARTIN PARR (1952-2025)

Martin Parr faleceu ontem. Sem disso saber, escolhi uma das suas fotografias para ilustrar um texto meu.

Volto a Parr, ao seu maravilhoso sentido da cor e ao seu olhar sardónico sobre os britânicos.

sexta-feira, 17 de outubro de 2025

ANTÓNIO BORGES COELHO (1928-2025)

Deixou-nos o António Borges Coelho.

Visitei-o, pela vez derradeira, no passado dia 25 de setembro. Fisicamente não estava bem, mas a cabeça tinha o brilhantismo de sempre. Foi uma conversa divertida, de mais de uma hora. Surpreendentemente, narrou-me dois episódios pessoais, que eu desconhecia. E riu muito, como sempre. Despediu-se de mim de punho cerrado, gesto que amiúde repetia.

A palavra saudade é hoje mais forte do que antes.


Não é exagero dizer que a leitura de "Portugal na Espanha Árabe" moldou o meu percurso. Provavelmente, não me teria tornado historiador sem o impacto causado pelas páginas luminosas que António Borges Coelho escreveu para a 1º. e o 3º. volumes da primeira edição dessa obra. Só conheci o Borges Coelho anos mais tarde, já eu era aluno da faculdade. Infelizmente, nunca fui diretamente seu aluno. Estava de sabática, na fase final do doutoramento e tive de me contentar com uma alternativa. Em todo o caso, ele foi um dos meus professores de eleição, com o muito que me ensinou fora da sala de aulas.

O interesse de António Borges Coelho pelo Islão nunca esmoreceu, sendo depois caldeado pelas investigações sobre os Descobrimentos e, sobretudo, sobre a Inquisição, tema da sua tese de doutoramento. Isso mesmo fica claro com as sucessivas reedições de “Portugal na Espanha Árabe” e com a participação ativa nos projetos “Portugal Islâmico” (1998), “Marrocos-Portugal” (1999) e Museu Islâmico, em Mértola (2001). Uma participação solidária, empenhada e militante.

Em 1998, António Borges Coelho prefaciou “O legado islâmico em Portugal”, livro de que, em conjunto com Cláudio Tores, fui autor. Isso deu-me “pretexto” para, anos mais tarde, lhe fazer uma longa entrevista biográfica, publicada, com outros ensaios, no livro “Historiador em discurso directo” (2003), editado pela Câmara Municipal de Mértola.

Poderia repetir aqui tudo o que escrevi no parecer que a Universidade do Algarve me pediu, em 2009, no âmbito da atribuição do grau de “doutor honoris causa” a António Borges Coelho. Em especial no reconhecimento que todos lhe devemos, nos campos cívico, académico e humano.

(texto escrito no dia 7.10.2024)



quarta-feira, 15 de outubro de 2025

NA MORTE DE JOSÉ AFONSO FURTADO

Terminava o ano de 1987 e a assinatura do protocolo de renovação da Biblioteca Municipal de Moura tinha sido marcada para as 21 horas (de dia 29 de dezembro?, é o que me dita a memória, mas não posso jurar).

Não é uma hora habitual para fechar documentos, mas o Dr. José Afonso Furtado, então presidente do Instituto Português do Livro e da Leitura, cumpria uma maratona de assinatura de protocolos em várias câmaras do sul de Portugal. Estava em marcha aquela que foi, muito provavelmente, a maior revolução cultural do pós-25 de abril. Punha-se de pé a rede de leitura pública.

Recordo-me, nitidamente, de o ver subir com algum esforço as escadas para a presidência da câmara (o equivalente a um terceiro andar) e de comentar, à chegada, "este gabinete bem que podia estar no rés-do-chão...".

José Afonso Furtado foi um brilhante servidor público. E muito mais do que "o pioneiro da era digital do livro", como um jornal hoje o etiquetava. Foi levado à demissão por Santana Lopes (pois evidentemente) e dirigiu depois, durante duas décadas, a Biblioteca de Arte da Fundação Gulbenkian.

Em jeito de rodapé: o projeto da Biblioteca de Moura nunca foi concluído. A mais recente versão, de 2017, foi eliminada por analfabetas vereações .


domingo, 17 de agosto de 2025

AUGUSTO ALVES DA SILVA

Nunca tinha publicado uma fotografia de Augusto Alves da Silva, agora desaparecido.

E tinha ideia de o fazer, depois de ver vários trabalhos seus, em especial este, do início do século. Há aqui um toque kubrickiano, a remeter para as cores de The shining. Está em exposição no MACAM (Museu de Arte Contemporânea Armando Martins). Foi lá que o vi, há algumas semanas.

Na calha está a compra do livro de AAS sobre o Instituto Superior Técnico.

sábado, 12 de julho de 2025

MIGUEL BENTO (1963-2025)

Pois é... Agora foi o Miguel...

E estas palavras, que há uns tempos sabia que tinha de escrever, são das mais amargas em 17 anos de blogue.

Conhecemo-nos em 1983 e ficámos amigos desde então. O Miguel estava nos tempos "tempos livres" e vinha todos os dias de Alcaria Ruiva, numa Casal. Encostava a motoreta à vedação do campo arqueológico e começava o dia. O Cláudio destinou-nos a mesma quadrícula. Falávamos sei lá do quê todo o santo dia. Mas recordo claramente da aprendizagem que aqueles dias foram para mim, com um moço da mesma idade e cujo curso de vida pouco tinha a ver com o meu. O sempre arguto e inteligente Cláudio ensinava-nos coisas da vida, sem a formalidade das aulas. 

Fomos depois colegas na Câmara de Mértola. Viria ele mais tarde, no virar do século a ser vereador da autarquia. Inteligente e persistente, Miguel Bento doutorou-se em 2016 e continuou a sua carreira docente no Politécnico de Beja.

Se há vida de combate e de luta, em todos os sentidos, foi a do Miguel. Pontuou sempre esse combate com uma característica bonomia e com uma calma que nunca lhe vi perder. 

Fomos, ao longo da vida, mantendo contacto permanente e assíduo. Fiz questão de ir visitá-lo no último festival islâmico, para lhe oferecer o meu último livrinho. Saí da lá com um mau pressentimento. Ainda falámos ao telefone um par de vezes: como sempre Mértola, a política, os amigos e outros temas pessoais que não vêm ao caso. Ontem recebi o telefonema que esperava. Hoje vou acompanhá-lo pela vez derradeira. Deixo de ter o convívio de um dos meus melhores. Há quatro ou cinco dos que já partiram que a memória me evoca com regularidade. Junta-se-lhes agora o Miguel Bento.

quinta-feira, 5 de junho de 2025

EDUARDO GAGEIRO (1935-2025)

Não é a melhor, nem a mais celebrada fotografia de Eduardo Gageiro. Mas é aquela que mais me toca. Vem ao blogue pela terceira (e última vez).

Era, seguramente, uma das mais belas curvas do mundo. Tenho disso a mais completa certeza. Ficava em Mértola e era assim, tal como Eduardo Gageiro a fotografou, em 1985. Aquela curva fez-me companhia intermitente, entre o verão de 1983 e a primavera de 1987. A brancura da curva desapareceu, em meados da década de 90. Uma obra disparatada. Uma pena, sem retorno nem remissão. Felizmente temos esta imagem.

sábado, 31 de maio de 2025

FERNANDO VENÂNCIO (1944-2025)

Foi em 2001, num colóquio no CCB. Um toque no ombro e a pergunta "tu é que és o Santiago Macias?". Aquela cara, de ar simpático e descontraído, lembrava-me alguém, mas não consegui situar-me. Respondi, lembro-me das palavras exatas "sou pois! e tu quem és?". Estendeu-me a mão "Fernando Venâncio, sou de Mértola". Aí sim, o nome era-me familiar da crítica literária e, pois claro!, ele era parecedíssimo com o sr. André Venâncio, um senhor muito cordial com quem me cruzei inúmeras vezes nas ruas da vila.

Achei curioso que tivesse querido voltar à terra natal, depois de uma longa ausência na Holanda, onde fez vida e carreira. Falei com ele muitas vezes ao longo de vinte anos. Ainda tive oportunidade de o felicitar pelo seu extraordinário ensaio "Assim nasceu uma língua". Pessoas como o Fernando fazem tanta falta, caramba!

Hoje de manhã, melancolicamente, apaguei o número do Fernando da minha lista. Um hábito antigo, quando um amigo desparece.


sábado, 3 de maio de 2025

MINUTO DE SILÊNCIO

O recente apagão trouxe-me à memória um episódio ocorrido há uns bons 25 anos, numa sessão da Assembleia Municipal. Faltara a luz em todo o sul, e havia uma sessão nessa noite, na Casa do Povo da Amareleja. Cheguei ao local com poucas esperanças de que houvesse sessão. "Como é que isto vai ser?", perguntei-me. A dúvida durou pouco, quando vi um decidido José Maria Pós-de-Mina carregar um caixote com velas. A sessão da Assembleia ia ser à luz da vela! Uma solução pouco habitual, mas assim seria.

Tinha falecido por aqueles dias um conhecido político, pelo que foi proposto um minuto de silêncio no início da sessão começar. Toda a gente se levantou, enquanto eu, como presidente do órgão, controlava o tempo.

Mal me sentei, recebi uma SMS do presidente da câmara, que dizia algo como: "isto foi um bocado caricato; quem entrasse e nos visse de pé, em silêncio, numa sala iluminada por velas, pensaria que estava a decorrer algum tipo de ritual esotérico".

Memórias da vida autárquica...


sábado, 5 de abril de 2025

IN MEMORIAM - AMADOU BAGAYOKO

Agora que Amadou Bagayoko (1954-2025) partiu, recordo-o com este texto, que resultou de uma já distante viagem ao Mali.


BAMACO


DIMANCHE À BAMAKO

É assim que se chama o disco, Dimanche à Bamako. E nós ficamos a imaginar como será o dimanche à Bamako. Haverá acácias e belas mulheres à sua sombra, nos domingos de Bamako? As águas do Níger trarão frescura aos domingos de Bamako? Correrá um pouco do harmattan, o terrível vento do deserto, nas ruas dos domingos de Bamako? Soprará esse vento sobre as águas do Níger, por entre as acácias e as belas mulheres? Que oásis haverá?

Há poucos oásis em Bamako. A planta da cidade vista só em planta é um enredo de ruas direitas e há até guias que falam nas árvores dos bairros de Sogoniko ou de Badalabougou. Foi talvez assim um dia, e agora temos pena de não termos conhecido esses dias e esses domingos de Bamako. Agora os dias são de caos, há fumo, meu Deus, há fumo e mais fumo. A cidade vive envolta em fumo. Dos carros com carburadores asmáticos, do lixo a arder ao lado dos hotéis e dos campos de golfe, do lume dos restaurantes, digamos que são restaurantes, que aparecem por toda a parte. Afinal o vento não sopra em Bamako e por isso o fumo não viaja, ficando a pairar sobre a cidade. A cidade colonial é uma miragem curta nesta parte do Sudão e as glórias passadas fenecem por entre destroços.

Nos dias que não são dimanche há mais trânsito e nota-se muito mais o fumo. Há mais carros, mais motoretas e maquinetas. Nesses dias um milhão de pessoas cruza o gigantesco bairro da lata que Bamako é, e nós ficamos sem perceber nada. De que vivem todas aquelas pessoas? De que vivem os vendedores se não há ninguém para comprar ou, pelo menos, ninguém parece comprar coisa alguma? Quando é dimanche à Bamako respira-se um pouco melhor, sem o travo do gasóleo a arder nas narinas e na garganta. Quando é dimanche podemos fugir mais ao fumo.

Aos domingos podemos esgueirar-nos um pouco mais à vontade, por entre as latas das barracas, por entre os montes de lixo semeados à toa. Para quem gosta dos mercados, há o novo mercado, nos guias lê-se que é novo mas parece já ter nascido com muitos anos. Mais longe, na margem do Níger, uma sugestão de jardim dá um pouco de placidez aos domingos de Bamako.

Há uns séculos atrás ninguém passeava ao longo do Níger nas tardes de domingo porque a cidade ainda não existia. Nesses dias havia pirogas que passavam por entre as ilhotas onde agora os poucos pássaros vão pousar. Mas as pirogas partiram e o rio é agora um deserto de água. Nesses dias lá longe os caminhos do Níger levavam para Tombouctu e para Gao. É para aí que iremos um dia, porque lá onde estão não há fumo, de certeza que não, nem um milhão de pessoas amontoadas, como nesta aldeia de homens e mulheres gentis.

Agora é Inverno em Bamako, aceitemos que 35º possam ser Inverno, e por isso o tempo é muito seco. O calor ainda vem longe e mais longe ainda está a chuva. Tenho dificuldade em imaginar como serão esses domingos de Verão, com a chuva que não pára, o calor terrível, o fumo dos carburadores asmáticos e a maior parte das ruas a serem pasto da lama e dos mosquitos.

Na próxima vez vou chegar a um domingo. Vai ser num dos beaux dimanches cantados por Amadou e Mariam. Nesse domingo haverá, decerto, menos fumo e menos gente perdida a deambular pelas ruas. Haverá, decerto, belas mulheres cujas pulseiras rivalizam, por entre as acácias, com a curva da corrente do Níger.

quinta-feira, 20 de março de 2025

DIOGO MARGARIDO (1932-2025)

Faleceu há dias, aos 93 anos. O facto passou ao lado da comunicação social, tanto quanto me dei conta. É pena, porque Diogo Margarido foi um notável fotógrafo alentejano. Com uma carreira de décadas, e com um belo registo de muitos sítios da região sul.

A Moura deu alguma atenção e essas imagens são, verdadeiramente, únicas e exemplares.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

AMÉRICO GOMES (1974-2025)

Américo Gomes, ontem desaparecido, ficará sempre como memória inapagável de uma menos que provável viagem a Bolama, em 2012. A música que se ouvia na ponte do navio era sua. Um tema intitulado Katel Kadjinal, que era então um grande sucesso na Guiné-Bissau.

O comandante Américo Pinto deixava-me deambular por ali. Fotografei e, depois, filmei as marcas da forte ventania que se fazia sentir. Em fundo está Katel Kadjinal.

Américo Gomes era, sem dúvida, um grande músico. E é uma pena que nos tenha deixado tão cedo.





quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

DAVID LYNCH (1946-2025)

Hollywood não gostava dele.

Tanto pior para Hollywood.

David Lynch foi um dos mais inovadores e estranhos cineastas do século XX. Há quase 20 aos que não rodava um filme de fundo, depois da viagem que "Inland empire" é. O meu preferido? Blue Velvet, seguido de Lost Highway. Tenho a sensação de que Lynch será (re)descoberto algures no futuro.

domingo, 15 de dezembro de 2024

O SR. ETC. ETC.

Esta inscrição funerária está num museu da cidade de Havana. Chamou-se Pierre-Claude e foi Marquis Duquesne. Era um homem tão importante, mas tão importante, que o desfiar de títulos não chegava. Ele foi isto e mais aquilo e mais aqueloutro. E o resto do seu currículo foram quatro ETC. porque não devia caber tudo na lápide.

 

Na verdade, com tanta honraria, terminou tão horizontalmente como todos os outros.



domingo, 6 de outubro de 2024

AMÁLIA, POR THURSTON HOPKINS

Thurston Hopkins (1913-2014) percebeu muito bem todo o dramatismo de Amália. Como lindamente se vê nesta fotografia de 1958, hoje na coleção da Caixa Geral de Depósitos.

Faz hoje 25 anos que Amália Rodrigues deixou o mundo dos vivos.

terça-feira, 13 de agosto de 2024

GUILLEM ROSSELLÓ-BORDOY (1932-2024)

Acaba de me chegar a triste notícia do desaparecimento de Guillem Rosselló-Bordoy. Já são poucos os que ficam desta geração verdadeiramente extraordinária, depois de nos terem deixado Manuel Acién, Juan Zozaya, Pierre Guichard, Miquel Barceló, Graziella Berti, Gabrielle Démians d'Archimbaud, Riccardo Frankovich, Christophe Picard...

O Guillem, com quem me cruzei pela última vez há quatro anos, num encontro em Palmela - "y tú, que coño haces? por qué demonios hás dejado Mértola?", foram as perguntas iniciais, disparadas no seu inconfundível sotaque mallorquinho - era um caso à parte e um homem verdadeiramente de outra galáxia... Qualquer coisa que se pedisse de ajuda tinha sempre resposta. Na época das cartas, escrevi-lhe por causa de umas plaquinhas em osso do Castelo de Moura. Recebi a resposta, semanas volvidas, com detalhas instruções e a absoluta necessidade de consultar as obras de Ferrandis e o indispensável tratado de Blythe Cott, que eu não conhecia e de que não há exemplares em Portugal.

Licenciou-se em Filologia Semítica - lia e falava árabe fluentemente -, com uma tese sobre as Ilhas Baleares no período islâmico. Entrou, entretanto, ao serviço do Museu de Malhorca, onde trabalhou (e de que foi diretor) durante 40 anos. Doutorou-se em História Antiga em 1972 com a tese "La Cultura Talayótica en Mallorca. Bases para el estudio de sus fases iniciales”. O seu sempre presente interesse pela arqueologia islâmica teria como pedra de toque a obra Ensayo de sistematización de la cerámica árabe en Mallorca, publicada em 1978.

Regressaria ao tema puro e duro da filologia árabe ao doutorar-se, pela segunda vez!, aos 70 anos com uma tese que seria publicada com o título Mallorca musulmana.

Obrigado, Guillem!

Ver: https://www.academiadelpartal.org/files/n9_011_031.pdf

domingo, 21 de julho de 2024

TOUMANI DIABATÉ (1965-2024)

Elyne Road, de Toumani Diabaté, foi a faixa que escolhi para encerrar um documentário que montei, há já muitos anos. Por razões autorais, essa versão permanece inédita. Mas a kora de Toumani Diabaté, que agora desapareceu, era o fecho ideial para um filme muito abaixo da música...

Toumani Diabaté faleceu, anteontem, na sua Bamaco natal. Uma perda sem reparação possível.