No Mundo graves tormentos;
E pera mais me espantar,
Os maus vi sempre nadar
Em mar de contentamentos.
Cuidando alcançar assim
O bem tão mal ordenado,
Fui mau, mas fui castigado.
Assim que, só pera mim,
Anda o Mundo concertado.
Nos campos de Mértola II
Sobre a luz branca das estevas
corre o silêncio quebrado
pelo voo das aves
e o sopro do pulsar da terra.
Flores brancas roxas amarelas
cobrem as raízes dos chaparros
enfeitavam
os lenços
das camponesas
teciam os mantos
das santas e das deusas.
De colina em colina
de brejo em brejo
aspirando o aroma das estevas
procuras o quê?
aloendros vermelhos?
De repente os olhos caem
na fenda do rio.
Está lá baixo
quieto vivo
um retângulo de água
num tabuleiro de pedra.
Esquálidas de sede
amendoeiras descem a encosta
mas as raízes ficam presas no xisto.
As casas os muros as torres
estremecem na água
À noite chegam as vozes dos astros
no silencio dos mortos e dos vivos.
Foi este o poema que António Borges Coelho me dedicou, no livro editado em agosto deste ano. Seria o derradeiro.
A dedicatória é, para mim, uma pequena-grande condecoração.
.
Por entre as colunas de pedra, um borboleta
negra com vermelho nas asas voava. Entre uma coluna
e outra procura a entrada para o centro onde
se arrancaram corações de cativos e de virgens. Talvez
quisesse que o seu vermelho a tingisse com o sangue
das vítimas; talvez quisesse roubar-lhes, dos lábios,
o último sopro, ou o último grito. Pensei
que a poderia seguir por entre as colunas; mas
o cão que parecia dormir, na perpendicular
de vénus, levantou a cabeça e olhou-me, como
se fosse o jaguar devorador de corações. Tudo tem
a sua lógica quando procuramos dar um sentido
ao acaso. E olhei para o alto da pirâmide
como se lá estivesses, à minha espera, com os teus olhos
presos nas asas da borboleta e a chamar por mim,
como se nao tivesses já o meu coração
sem teres precisado de o arrancar na câmara
dos sacrifícios (ao que dizem, fechada
por motivos de segurança).
Passaram-me, discretamente este poema de Nuno Júdice, ontem, a meio de uma sessão de leitura de poesia. Fiquei com dúvidas que fosse para o ler em público. Pensei que não era. Afinal era, disseram no fim. Fiquei quase feliz por nao ter percebido. Mas só mesmo quase.
Participação sonora numa iniciativa da CDU, em Moura.
Escolhi a primeira parte do Llanto por Ignacio Sánchez Mejías, do grande Federico Garcia Lorca (1898-1936).
Ignacio Sánchez Mejías morreu em Madrid, no dia 13 de agosto de 1934, dois dias depois de ter sido colhido em Manzanares.

LA PAZ
Eso quiero yo.
Eso quiero yo.
Foi ontem, às 14:40:05. Um raio de sol varreu a rua e deu luz às margaridas mesmo por baixo da janela.
Foi sol de pouca dura, mas deu para dar a esperança que estes dias chatos estão mesmo a acabar.
De Alberto Caeiro:
Quando tornar a vir a Primavera
Talvez já não me encontre no mundo.
Gostava agora de poder julgar que a Primavera é gente
Para poder supor que ela choraria,
Vendo que perdera o seu único amigo.
Mas a Primavera nem sequer é uma coisa:
É uma maneira de dizer.
Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas verdes.
Há novas flores, novas folhas verdes.
Há outros dias suaves.
Nada torna, nada se repete, porque tudo é real.
Regresso, quase 10 anos volvidos, à Carrasqueira. Achei, talvez equivocadamente, que algumas coisas mudaram. Notei, estarei enganado?, que havia uma certa "privatização" de alguns passadiços. Pareceu-me, estarei a ser atraiçoado pela memória?, que havia mais barraquinhas de apoio à pesca. Como a da fotografia, com tanto amor palafítico. Um sítio extraordinário, em qualquer caso.
Repito o poema aqui publicado num já distante 15.3.2015:
Manhã no Sado
Brancas, as velas
eram sonhos que o rio sonhava alto....
Meninas debruçadas em janelas,
viam-se, à flor azul das águas, as gaivotas.
E a Manhã quieta (sorrindo, linda, vinha vindo a Primavera…)
punha os pés melindrosos entre as conchas.
Derivavam jardins imponderáveis
dos seus passos de ninfa
e tremiam as conchas
de súbitas carícias.
Longe era tudo: o medo dos naufrágios,
as angústias dos homens, o desgosto,
os esgares das tragédias e comédias
de cada um, os lutos, as derrotas.
Longe a paz verdadeira das crianças
e a teimosia heróica dos que esperam.
Ali, à beira-rio,
de olhos só para o rio, de ouvidos surdos
ao que não é a música das águas,
um sossego alegórico persiste.
Nem o arfar das velas o perturba.
Nem o rumor dos seios capitosos
da Manhã, que nas águas desabrocham
e flutuam, doentes de perfume.
Nem a presença humana do Poeta
- sombra que a pouco e pouco se ilumina
e se dilui, anónima, na aragem…
Sebastião da Gama
Centenário do nascimento. Hoje.
Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,
a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!
*
Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há "papo-de-anjo" que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para ó meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!
O pandeiro bate
é dentro do peito
mas ninguém percebe.
Estou lívido, gago.
Eternas namoradas
riem para mim
demonstrando os corpos,
os dentes.
Impossível perdoá-las,
sequer esquecê-las.
Deus me abandonou
no meio do rio.
Estou me afogando
peixes sulfúreos
ondas de éter
curvas curvas curvas
bandeiras de préstitos
pneus silenciosos
grandes abraços largos espaços
eternamente.
O hino terá cerca de 3.500 anos. É a celebração de um rio que foi fonte de vida. Lembrei-me dele depois de perguntar a uma amiga "de que pintor gostas?" e de ter ouvido, um pouco surpreso, como resposta, "Paul Klee!".
Paul Klee esteve no Egito um ano antes de morrer, e pintou assim o Nilo. Só os maiores conseguem fazer da complexidade coisas tremendamente simples.
A montra da Florista O Jardim, na Rua Cândido dos Reis, em Sines, tem poemas. De Al Berto, de Luiza Neto Jorge, de Matilde Rosa Araújo... Isto de sermos um país de poetas evoca-me sempre uma cena (a ideia era boa, a cena é fraquinha, como todo o enredo) de um filme português do início da década de 70, onde vemos poemas nas papeleiras.
Aqui, na florist, é bem melhor. Se a loja estivesse aberta, tinha comprado flores. Juro.
Não desesperes de chegar a califa
Pois Ibn Amr foi nomeado inpsetor das alfândegas.
Desgraçada época em que se fazem coisas como esta
Colocar altos cargos nas mãos de um limpador de esgotos...
Este texto abre o setor de poesia do 4º. volume do "Portugal na Espnha Árabe". O livro saiu em 1975, mas estava previsto que tivesse saído antes do 25 de abril. A minha irresolúvel dúvida é: a Censura teria deixado passar?...
Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de
frio;
Sem causa, juntamente choro e rio,
O mundo todo abarco, e nada aperto.
É tudo quanto sinto um desconcerto:
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio;
Agora desvario, agora acerto.
Estando em terra, chego ao céu voando;
Num' hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar um' hora.
Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.
Dois épicos pela manhã. Luís de Camões (1524-1580) e Robert Mapplethorpe (1942-1989). Uns têm, outros não. Por mais que queiram. E por mais que tentem.
Três dias - estes últimos - quase submerso e trabalhando na "engenharia" de um projeto que vai ser interessante, mas de difícil montagem. O mar é o tema e os protagonistas serão dois personagens importantes da História de Portugal.
O mar sem fim começa aqui. E projeta-se, por agora, no Centro de Artes de Sines.
The people along the sand
All turn and look one way.
They turn their back on the land.
They look at the sea all day.
As long as it takes to pass
A ship keeps raising its hull;
The wetter ground like glass
Reflects a standing gull.
The land may vary more;
But wherever the truth may be
The water comes ashore,
And the people look at the sea.
They cannot look out far.
They cannot look in deep.
But when was that ever a bar
To any watch they keep?
Façamos o caminho, com as palavras de Robert Frost e com Der Mönch am Meer, de Caspar David Friedrich. O quadro está na Alte Nationalgalerie, em Berlim.
Há praias inspiradoras, outras que nem tanto. Tenho três praias de que não me esqueço: a da Balaia, em 1974; a do Tarrafal, em 1989; a de Salines, em 1994. Claro que há outras melhores, com prémios e tudo, mas nunca fui de ir atrás de modas.
Aqui na orla da praia, mudo e contente do mar,
Sem nada já que me atraia, nem nada que desejar,
Farei um sonho, terei meu dia, fecharei a vida,
E nunca terei agonia, pois dormirei de seguida.
A vida é como uma sombra que passa por sobre um rio
Ou como um passo na alfombra de um quarto que jaz vazio;
O amor é um sono que chega para o pouco ser que se é;
A glória concede e nega; não tem verdades a fé.
Por isso na orla morena da praia calada e só,
Tenho a alma feita pequena, livre de mágoa e de dó;
Sonho sem quase já ser, perco sem nunca ter tido,
E comecei a morrer muito antes de ter vivido.
Dêem-me, onde aqui jazo, só uma brisa que passe,
Não quero nada do acaso, senão a brisa na face;
Dêem-me um vago amor de quanto nunca terei,
Não quero gozo nem dor, não quero vida nem lei.
Só, no silêncio cercado pelo som brusco do mar,
Quero dormir sossegado, sem nada que desejar,
Quero dormir na distância de um ser que nunca foi seu,
Tocado do ar sem fragrância da brisa de qualquer céu.
BARBA NON FACIT PHILOSOPHUM, nem uma Leica M6 o fotógrafo. Mas este troço de via, que vai de Emerita Augusta a Caesar Augusta no interior do Museo Nacional de Arte Romano, é uma obsessão antiga.
A "relação" com esta fotografia tem uma pequena "história". Vi-a à venda, no Instituto do Mundo Árabe, em Paris, em 1992. O poster era relativamente grande, o transporte ia ser chato e optei por deixar para depois. Não houve depois. Não voltei a ver o poster. A edição original está à venda no eBay: 125 euros! Um exagero. Mesmo tratando-se de uma das mais belas fotografias do mundo. É uma imagem do deserto argelino, perto de Kerzaz. Data de 1957 e é seu autor um nome maior da fotografia mundial: George Rodger (1908-1995).
Argel fica 910 quilómetros a nordeste.
Moura fica 1115 quilómetros a noroeste.
Kerzaz é daqueles sítios de que não me esqueço. Como Ghadames, Agadez ou Ghardaia. Talvez um dia...
Início do poema Le désert de Louise Colet (1810-1876):
Le désert ! le désert dans son immensité,
Avec sa grande voix, sa sauvage beauté ;
Ses pics touchant les deux, ses savanes, ses ondes,
Cataractes roulant sous des forêts profondes ;
Ses mille bruits, ses cris, ses sourds rugissements,
Gigantesque concert de tous les éléments !