Ao regressar ontem à noite a casa, no meio do frio e de uma bátega que se abatia sobre Lisboa, recordei-me – quase sem saber bem porquê – de um bilhete-postal de Sevilha. Não de um bilhete-postal qualquer, mas de um que se vê, em dado momento, num filme. Sevilha, o sul e o sol são, em “El sur”, de Victor Erice (1984), uma imagem distante e mítica. O local onde alguém nunca regressou.
Neste filme pouco vulgar conta-se a história de uma miúda fascinada com o passado do pai e com o sul. Ambos se misturam. O filme passa-se no norte e as paisagens meridionais surgem em bilhetes-postais, que nos dão uma visão da distância que acentua o seu onirismo. A música é de Enrique Granados e não podia haver melhor acompanhamento para aquele desfilar de postais coloridos. Que sugerem mistério, distância e nostalgia. Deveria ter sido rodada uma segunda parte, onde todo o mistério da vida do pai no sul seria desvendado. O sucesso do filme, e dificuldades financeiras, inviabilizaram a rodagem da continuação. Há males que vêm por bem e tom de mistério manteve-se. Sempre gostei de filmes onde as miragens nem sempre se concretizam e onde podemos olhar o mundo imaginado um pouco à distância. El sur é uma peça de artesanato, bela e única. Tenho pelo filme uma intensa paixão, que ainda hoje se mantém.
E ”sul” é uma palavra mágica. Como neste filme de Erice, como no conto de Jorge Luis Borges, que funciona como um túnel do tempo, como em “Viagem em Itália”, de Rosselini, onde as imagens do sul são o cenário de uma reconciliação, como no filme mal compreendido e mal avaliado Sammy going south, de Alexander Mackendrick. E que é a história de um rapazinho que corre todo o continente africano em busca do seu sul.
Cine Arcadia é o nome da sala de cinema que aparece no filme de Victor Erice. Arcadia remete-me para Reviver o passado em Brideshead e para todos os momentos de Arcadia. E para Juan Ramón Jiménez, que escreveu “Mi plata aquí en el sur, en este sur, / conciencia en plata lucidera, palpitando / en la mañana limpia, / cuando la primavera saca flor a mis entrañas!”.
Daqui a pouco, já faltou mais, chega a primavera. Haverá romarias e a Feira de Abril, em Sevilha. Haverá a feira de maio. Haverá o sul, que me falta todos os dias. Em especial nas noites como a de ontem, de chuva e frio e com uma tempestade de nome apropriadamente nórdico.