terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

THE LOOK

"The Look
Strephon kissed me in the spring,
Robin in the fall,
But Colin only looked at me
And never kissed at all.
Strephon’s kiss was lost in jest,
Robin’s lost in play,
But the kiss in Colin’s eyes
Haunts me night and day."
Sara Teasdale
(1884-1933)

Não conhecia esta autora, que me chegou assim, matinalmente, através do facebook de Manuela Barros Ferreira. Lembrei-me deste filme, Far from Heaven, onde só os olhares namoram.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

ASSOBIANDO À VONTADE

Uma sobrinha precisava de um conto. para uma trabalho na escola. Pediu sugestões. A Isabel lembrou-se de um, eu de outro. E não conhecia o dela. Nem ela este. Que é uma pequena jóia de concisão e elegância.

Àquela hora o trânsito complicava-se. As lojas, os escritórios, algumas oficinas, atiravam para a rua centenas de pessoas. E as ruas, as praças, as paragens dos eléctricos, que tinham sido planeadas quando não havia nas lojas, nos escritórios e nas oficinas tanta gente, ficavam repletas dum momento para o outro. Nos largos passeios das grandes praças havia encontrões. As pessoas de aprumo tinham de fechar os olhos àquele desacato e não viam remédio senão receber e dar encontrões também e praguejar algumas vezes. Os eléctricos apinhavam-se na linha à frente uns dos outros. Seguiam morosamente, carregados até aos estribos e por fora dos estri­bos, atrás, no salva-vidas, com as tais centenas de pessoas que saltavam àquela hora apressada­mente das lojas, dos escritórios, das oficinas. Além disso, nos dias bonitos como aquele, as ruas da Baixa enchiam-se de elegantes que iam dar a sua volta, às cinco horas, pelas lojas de novidades e pelas casas de chá, para matar o tempo de qual­quer maneira, ver caras conhecidas, cumprimen­tar e ser cumprimentadas, e só voltavam a casa à hora do jantar.
A multidão propunha uma confraternização à força. Era preciso pedir desculpa ao marçano que se acabava de pisar, implorar às pessoas pen­duradas no eléctrico que se apertassem um pouco mais para se poder arrumar um pé, nada mais que um pé, num cantinho do estribo, muitas vezes sorrir para gente que nunca se tinha visto antes e apetecia insultar. Os elegantes e as elegantes achavam naturalmente tudo isto muito aborre­cido. Sobretudo a necessidade absoluta de seguir naquelas plataformas repletas em que não viaja­vam só cavalheiros, mas muitos homenzinhos pouco correctos e onde esses mesmos homenzi­nhos e mulheres vulgares deitavam um cheiro insuportável. Que fazer, no entanto, senão ati­rar-se uma pessoa também para aquele mar de gente que empurrava, furava, pisava e barafus­tava até chegar ao carro? Que fazer senão em­purrar, furar, pisar e barafustar também?
O carro seguia morosamente e repleto como os outros. Felizmente, ainda havia alguns homens correctos na cidade e algumas mulherezinhas que conheciam o seu lugar. Só graças a isso as se­nhoras que tinham arriscado os seus sapatos e os seus chapéus naquela refrega e alguns cavalhei­ros respeitáveis conseguiam sentar-se.
Nos primeiros momentos de viagem, as pes­soas voltavam-se nos bancos, preocupadas, ten­tando ver se o marido, uma amiga, um filho, não teriam ficado em terra. Os que seguiam de pé ousavam dar um passo no interior do carro, a ver se teria ficado algum lugar vago por acaso. Havia logo protestos na plataforma. Depois as pessoas acomodavam-se o melhor que podiam, punham os braços no ar para livrar os embru­lhos do aperto, fechavam bem os casacos e as malas onde levavam o dinheiro, o condutor pu­xava energicamente o cordão da campainha mui­tas vezes, lotação completa, e o carro arrastava-se em silêncio.
Os senhores respeitáveis, com compreensível e muda zanga dos companheiros do lado, come­çavam a desdobrar os jornais da tarde e a ler as notícias por alto. As senhoras, visivelmente mal dispostas, compunham os chapéus e as golas dos casacos. Tiravam os espelhinhos da mala e pas­savam tudo em revista: o chapéu, os cabelos, os olhos, os lábios. Era incrível. Uma tinha ficado com o chapéu completamente de banda, outra per­dera uma luva na confusão. Depois guardavam os espelhos, acomodavam-se melhor, percorriam com os dedos os anéis duma mão e da outra, para ver se estavam no lugar, se estavam todos. Olhavam umas para as outras, muito sérias, como quem não repara em nada. Recuperavam pouco a pouco a dignidade que aquele despropósito da subida para o carro evaporara.
Nas curvas, as rodas chiavam nas calhas, de­baixo do grande peso. Silêncio enfim — embora de vez em quando cortado pela campainha, quando alguém tinha a triste ideia de querer descer, pelo desdobrar dos jornais, pela voz dos populares, encaixados na plataforma da frente.
Tudo voltara à normalidade. A marcha do carro, a cobrança dos bilhetes, a separação entre as pessoas, que rigorosamente não conseguiam separar-se umas das outras um centímetro que fosse. E, assim, morosamente, por curvas e rec­tas, por ruas e praças, aquele carro cumpria o seu destino de acarretar gente e ser insultado, numa das várias linhas que ligavam o centro da cidade aos bairros relativamente novos, onde a separa­ção entre a chamada classe média e as camadas mais baixas da população não fora ainda conve­nientemente estabelecida.
Em dada altura, porém, na plataforma de trás levantou-se burburinho. Protestos. Indignação. Cabeças voltaram-se no interior do carro. E viu--se um homenzinho a empurrar toda a gente e a dizer que havia lugares à frente, que o deixassem passar. Em vão lhe asseguravam que não havia lugar nenhum, que não podia passar, que não fosse bruto. O homem empurrava e teimava que havia lugares à frente. Tanto empurrou que fu­rou. Tanto furou que conseguiu entrar no inte­rior do eléctrico, avançou e foi sentar-se num lugar de lado que estava efectivamente vago lá à frente, ao lado duma senhora por sinal opulenta.
Foi um espanto geral e silencioso. Ninguém tinha reparado no lugar. E menos que ninguém, como é fácil de compreender, a própria senhora opulenta. Todos os atrevidos têm sorte.
O homem, que usava um chapéu coçado e um sobretudo castanho bastante lustroso nas bandas, não se sentou propriamente. Enterrou-se no lu­gar, com as mãos enfiadas pelas algibeiras den­tro. Que sujeito! Devia ser mais novo do que pa­recia por causa do cabelo grisalho e da barba por fazer. A senhora opulenta franziu a testa e remexeu-se no lugar, se assim se pode dizer, como quem procura ocupar menos espaço. Na verdade, apenas se instalou melhor. A sua intenção era fazer o homenzinho reparar na inconveniência da atitude que tomara. Mas ele não viu nada disso ou fingiu que não viu. Olhou vagamente as pessoas que tinha na frente, estendeu os lábios e começou a assobiar. A assobiar muito à vontade no inte­rior do carro!
Primeiro, foi um assobio baixinho, pouco se­guro, imperceptível quase. Depois, a pouco e pouco, o sujeitinho entusiasmou-se. E o assobio aumentou de intensidade. Ouvia-se já em todo o eléctrico. Os passageiros, que tinham recupe­rado com tanto custo a sua dignidade, fingiam que não davam pelo homem nem pelo assobio. E sossegaram quando o condutor se dirigiu ao recém-vindo. Ia aconselhá-lo a calar-se, com certeza. Mas qual! Com o maço dos bilhetes na mão e de alicate espetado, limitou-se a dizer: «O senhor?» O passageiro tirou a mão da algi­beira e, sem deixar de assobiar, estendeu-a com a palma voltada para cima. Esperou que lhe levassem a moeda, recebeu o bilhete e tornou a enfiar a mão pela algibeira dentro. Toda a gente seguia a cena, interessada. Mas, quando o homem olhou as pessoas, ao acaso, voltaram todas os olhos como se ele afinal não existisse. 
O assobio, umas vezes, era baixo, mal se ouvia, outras vezes, alto, muito alto, com trinados ridí­culos e irritantes. Ninguém sabia o que ele asso­biava. E o homem também não. Qualquer coisa que lhe apetecia que fosse assim mesmo. Às vezes repetia os sons como um estribilho. Outras vezes, porém, a maior parte das vezes, passava a novas combinações, ora brandas, ora violentas, sem que­rer saber para nada das que ficavam para trás.
As pessoas começavam a olhar umas para as outras à socapa. Já se tinha visto coisa assim? Um ou outro cavalheiro levantava os olhos do jornal, franzia a testa, fitava com dureza o ho­mem do chapéu coçado e sobretudo castanho, na esperança de que ele, envergonhado, parasse com aquilo. A senhora opulenta, no auge do espanto, nem se atrevia a olhar para lado nenhum, vexadíssima porque, sem ter culpa nenhuma, se en­contrava em plena zona do escândalo. A que uma pessoa está sujeita!
E, no silêncio do carro, o assobio aumentava de volume. Talvez, no fundo, aquele gorjeio ridí­culo não fosse desagradável de todo. Simples­mente, um eléctrico não é o local mais próprio para exibições daquelas. Porque não interferiria o condutor? O condutor era a autoridade do carro. Porque não interferiria? Estava-se a ver. Era tão bom como ele. A verdade, porém, é que não se conhecia nenhum regulamento que impe­disse os passageiros de assobiar. Colados aos vidros do eléctrico, havia papéis que proibiam fumar, cuspir no carro. Era proibido abrir as janelas durante os meses de Inverno. Mas nem uma palavra a respeito de assobios.
De repente, uma criança que ia sentada junto duma janela e já se sentia enfastiada de olhar para a rua interessou-se pelo homem. Achava-lhe tanta graça, com o seu chapéu coçado, o seu sobretudo castanho, o seu assobio... Era uma criança muito pálida, de cabelos louros e encara­colados, vestida de azul. Interessou-se tanto pelo homem que começou a bater palmas. Mas uma senhora nova e bonita, que ia ao lado dela, segurou-lhe as mãos com gentileza e afastou-lhas. Devia ir calada e quietinha. Era muito feio fazer barulho no eléctrico. Uma menina bonita não fazia barulho. «Que disse eu à minha filha?» No entanto, a senhora nova e bonita não antipatizava com o homem. Olhava os embrulhos de papel vistoso que trazia nos joelhos e pensava: se não pudesse mais e começasse também a assobiar? No fundo, admirava a sem-cerimónia do homem do chapéu coçado. Não seria adorável ela própria, uma senhora casada e mãe duma garota de cinco anos, começar a assobiar num eléctrico se lhe apetecesse? Quando era da idade da filha, a se­nhora bonita ia muitas vezes ao campo vestida com coisas velhas para poder atirar-se para a relva à vontade. Tinha uma voz muito suave e muito fresca, gostava de fazer precisamente aquilo que uma menina bonita não deve fazer. Os amigos do pai pegavam-lhe ao colo, atiravam-na ao ar. E ela ria, ria, ria até ficar sufocada. A mãe dizia: «Pronto, pronto, vamos a ter juízo, não se ri assim dessa maneira.» E, quanto mais lho di­ziam, mais lhe apetecia rir, rir, rir.
De vez em quando, um passageiro saía. A pla­taforma do carro ia-se esvaziando. E, pouco a pouco, os que ficavam foram-se habituando àquele estúpido assobio. Os cavalheiros tinham esque­cido os jornais. Algumas senhoras sorriam. Já se vira um disparate assim? Principalmente a se­nhora opulenta não podia mais. Apertava os lá­bios. Sentada num banco de lado, encontrava os olhos de toda a gente. Era irresistível. E a se­nhora bonita pensava em ar livre e nos tempos da infância. Na escola aprendera a assobiar e a lançar o pião. Havia vozes que tinham ficado den­tro dela: «Uma menina a assobiar, Nini?»
Em dada altura, o homem, sem deixar de asso­biar, levantou-se e puxou o cordão da campainha. Era um homenzinho insignificante, ainda novo e já de cabelos grisalhos, chapéu coçado, sobre­tudo castanho muito lustroso nas bandas. Mas havia nele uma indiferença soberana pelo eléc­trico inteiro. Toda a gente o olhava. Com des­prezo? Com ironia? Com inveja? Abriu a porta, fechou-a e saltou com o carro ainda em anda­mento.
As pessoas voltaram-se então umas para as outras, não resistiram mais e riram mesmo. Que homenzinho patusco! Desculpavam-se, explicavam-se sem palavras. Entendiam-se. Um minuto de simplicidade e simpatia iluminou-as. A criança que batera palmas limpou com a mão o vidro em­baciado da janela à procura do estranho passa­geiro. Viu-o atravessar a rua, seguir pelo passeio agarrado às casas, desaparecer.
Só então a senhora nova e bonita, que era a mãe da criança, abriu os olhos. Ninguém hoje lhe chamava Nini. Nini era a filha. Ela agora é que dizia à filha: «Uma menina a assobiar, Nini! Uma menina bonita não faz barulho.»
Ficara nos lábios e nos olhos de todos um sorriso de bondosa ingenuidade. Depois esse sor­riso foi-se apagando. Morreu. As pessoas toma­ram consciência da sua momentânea quebra de compostura. Lembraram-se dos seus embrulhos, dos seus anéis, dos seus jornais. Que patetice! Não havia outra palavra para aquilo. Que pate­tice! Os cavalheiros recomeçaram a ler os títulos das notícias. As senhoras deram um toque nas golas dos casacos. A criança tornou a olhar para a rua.
Tudo voltou, pesadamente, a encher-se de si­lêncio e dignidade.

Mário Dionísio
in O Dia Cinzento e Outros Contos

Ver - http://www.centromariodionisio.org/



O quadro foi pintado em 1871 e intitula-se Nocturne: blue and silver - Chelsea. Autor? Whistler. Faites la liaison...

sábado, 16 de fevereiro de 2019

VEZ ÚNICA

A Fundação Calouste Gulbenkian tem vindo a divulgar fotografias conservadas nos seus arquivos. São, quase todas, muito interessantes.

Em baixo está uma imagem do antigo Estádio José Alvalade, da autoria do Estúdio Horácio Novais. Houve alguns pormenores que me chamaram a atenção e que fazem parte da arquitetura de outros tempos, no que a equipamentos desportivos diz respeito.

Em primeiro lugar, note-se a presença do peão. Eram os bilhetes mais baratinhos e, claro está, sem número ou lugar marcado. Foi dali que vi o Portugal-Bélgica, em 11 de outubro de 1978. Foi a única vez que entrei em Alvalade. O jogo acabou empatado e só me recordo da grande exibição de Gerets. O peão daria, pouco depois, lugar a uma bancada semelhante às outras do estádio.

Outra curiosidade é a pista de ciclismo. Creio que em 1978 já tinha sido substituída pista de tartan, mas era neste velódromo que, em tempos, se fazia a apresentação das equipas que iam correr a Volta à Portugal. Em jeito de parada militar, com os ciclistas abraçados e pedalando em paralelo, uma equipa atrás da outra.

O Estádio José Alvalade foi projeto de Anselmo Fernández Rodríguez (1918-2000), arquiteto e treinador de futebol (!).

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

POEMA ÚNICO

Tenho horror a má poesia. Mais que a má pintura ou a má fotografia. Por isso me atrevo a fotografar, mas jamais serei capaz de escrever um poema. Vem isto a propósito de um suposto poema de Sophia que andou pela net. Bastava um minuto de leitura mais atenta para perceber que se tratava de um apócrifo.

Subitamente, tive um calafrio. Recordei um "poema" que escrevi - sei lá porquê - aos 18 ou 19 anos. Numa altura em que nem sequer lia poesia - Gomes Ferreira, os românticos e pouco mais... - e em que não deveria ter ousado a tal. Recordei, com toda a nitidez, a pequena folha quadriculada. E que o texto era curto. Recordo também duas estrofes que não reproduzirei. A folhinha foi metida dentro de um livro. Já lá vão quase 40 anos. Primeiro pânico: que alguém a encontre. Segundo pânico: que a folha possa estar assinada.

Enquanto o "poema" único, literalmente único, permanece sepultado num justo esquecimento, é bem melhor ler Sophia. A verdadeira.

Os Amigos

Voltar ali onde 
A verde rebentação da vaga 
A espuma o nevoeiro o horizonte a praia 
Guardam intacta a impetuosa 
Juventude antiga - 
Mas como sem os amigos 
Sem a partilha o abraço a comunhão 
Respirar o cheiro a alga da maresia 
E colher a estrela do mar em minha mão

De um sítio que tem a ver com Amizade

A CDU NO PARLAMENTO EUROPEU

Os deputados da CDU em Estrasburgo são os mais assíduos e os mais trabalhadores?
A sério? Ai, mas que surpresa tão grande...
É claro que isso é omitido nos canais televisivos. É claro que os telejornais vivem de frases de grande efeito e não de seriedade e de trabalho.
Valorizar o trabalho, o empenho e a competência fazem parte de orientações que, na vida, procuro seguir. E já não devo mudar de opinião.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

ALVITO, DEPOIS DE AMANHÃ

Depois de Évora, o Alvito. Segundo passo da itinerância da exposição. Haverá mais dois, pelo menos. No Alvito, a montagem está terminada. Sábado será dia de passar por lá, antes de rumar mais a sul.


                

NOS SUBTERRÂNEOS DA NOTÁVEL VILA

Uma recente fotografia de Mário Romero Machado no facebook levantou uma série de questões. Todas interessantes, ainda que nem sempre com o devido enquadramento histórico. A fotografia, tirada a partir do Museu Gordillo, mostrava a Escola Conde Ferreira. Surgiram depois questões relacionadas com um subterrâneo existente no local. Entre outras hipóteses, falava-se em "termas romanas".

Vamos aos factos que conheço sobre o sítio. Outros haverá, seguramente.

Em 1970, obras realizadas nas oficinas da Auto Geral de Moura (entre as Ruas do Sequeiro e da Estalagem) puseram a descoberto um conjunto de sepulturas. Defendemos, o Artur Goulart de Melo Borges e eu, que se tratava de parte do cemitério islâmico de Moura. Os dados são topográficos, de orientação das inumações e de descrição do rito funerário.

Em 1987, obras de construção da garagem da APPACDM deixaram à vista uma entrada no subsolo que dava passagem para um túnel. Tornou-se depois claro que era uma estrutura perfeitamente definida, escavada no calcário da nossa terra. Tinha uma caleira perfeitamente definida e ia terminar na esquina da Rua da Estalagem com a Praça, tendo um monte de entulho, proveniente de uma habitação, no seu término. Participaram nessa breve sondagem, e peço desculpa por qualquer lapso, Isabel Martins, António Cunha, José Estevas, Carlos Rico, Susana Correia e Cláudio Torres.

Olhando um pouco de volta, e tendo em conta a cota dos terrenos e a localização da muralha seiscentista (meio torta e sem cumprir os cânones...), e tendo também em conta o aparelho da própria caleira, não foi difícil concluir:

1. Que a canalização é posterior à muralha, tendo sido feita já depois do abandono da fortaleza, ocorrido inícios do século XIX;
2. De facto, não seria possível a abertura de minas numa zona como aquela, que corresponde ao fosso da fortificação. Uma canalização inviabilizaria a presença da chamada "estrada coberta", que se sabe ali ter existido;
3. Provavelmente, a canalização foi construída para algum lagar que existiu nas imediações. Em que época? Arriscaria dizer que em meados do século XIX. O uso deve ter sido curto.

Nunca ali houve quaisquer termas, romanas, ou de qualquer outra época. O sítio ficou esquecido, até 1987.

O arranque das obras da APPACDM e a falta de meios técnicos, à altura, para se registar, levou a que se optasse pelo encerramento do túnel. Que não foi destruído e continua a ter acesso.

Do ponto de vista histórico, é um pequeno apontamento, que não adianta nada de substancial à história local.
Do ponto de vista turístico, o potencial parece-me ainda menor.


Verde - localização aproximada dos vestígios do cemitério islâmico
Vermelho - traçado aproximado da canalização
Azul - traçado aproximado da muralha do séc. XVII

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

A CAMINHO DE ARACENA

Há já uns anos que não vou a Aracena. A última vez, recordo-o com toda a clareza, foi para ver uma corrida de touros. Desta vez, o âmbito será bem diferente.

Li, há dias, que os municípios de Aracena, Aroche, Moura e Serpa têm em marcha um projeto intitulado “Território Hospitalário: história medieval da raia”. Recebi, há poucas horas, um simpático convite do meu colega Eduardo Romero, de Aracena, para me juntar a este projeto, com uma conferência que irá ter lugar na vila serrana, na próxima primavera. Disse-lhe que sim, claro. Será a oportunidade para um resumo destes 30 anos de trabalho em volta da História e do Património do período islâmico. Moura, Serpa e mais além...

Curiosamente, os estudos históricos que reputo de mais interessantes sobre este território de "transição" não são de nenhum historiador ou arqueólogo. Refiro-me aos trabalhos do geógrafo João Carlos Garcia, que "leu" o sudoeste medieval como poucos o têm feito.

ARQUITETURA SUBLIMINAR - um post em forma de quizz

No meio da recolha de dados para um trabalho sobre a arquitetura do século XX, dou com este desenho. É a fachada da agência da Caixa Geral de Depósitos, em Mourão. Pensei "que raio, não é possível...". Há ali uma mensagem subliminar. Ou, em boa verdade, mais explícita que subliminar. Não há acasos. E o desenho parece-me evidente. Ou andarei a "ver coisas"?

É um trabalho de reabilitação, de final dos anos 80 do século passado. Tal como nos pedreiros medievais, que gravavam para a posteridade as suas marcas, também aqui ficou, para os vindouros, uma mensagem.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

TODA A POESIA DA CANTINA DO ISEG

Somos um País de Poetas! Ante várias hipóteses desinteressantes na cantina emergia, suavemente, a carne de vaca à rio tinto. Fiquei embalado pelas recordações da faixa piritosa ibérica e pelas memórias do longínquo Andévalo. Como somos um país de poetas, mas eu não sou, deixei-me levar pelo pragmatismo e inquiri o que era a carne à tio tinto. A simpática brasileira que nos atende repondeu, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo (e era) "é carne com tomatji, claro". Pois evidentemente. Assim se me acabou a poesia, eram 12:25...


domingo, 10 de fevereiro de 2019

O ENVER HOXHA DA LAPA

E eu a pensar que estas votações só aconteciam nos partidos totalitários etc e tal. Santana Lopes foi eleito com 95,5% dos votos (0 votos contra). À atenção da TVI...

Mais divertido foi o Diário de Notícias classificar as patacoadas de mesa de café de PSL como um discurso "marcadamente ideológico". São estas coisas que iluminam domingos com pouco sol.

ELEMENTOS - AR 1

O japonês Issey Miyake (n. 1938) costuma produzir, ou esculpir, perfumes. Um dos seus trabalhos é esta impalpável escultura. O ar tomando forma. Dá-se aqui início à última série sobre os elementos na Arte. Eis que chega o Ar.



sábado, 9 de fevereiro de 2019

SEXTA-FEIRA NA MESQUITA

O desenvolvimento do projeto "Lisboa Islâmica" leva-me a sucessivas deslocações a diferentes pontos da cidade. As idas à mesquita central têm sido marcadas por um ambiente de fraternidade pouco usual nos dias que correm. Ontem, tive a oportunidade de percorrer todos os espaços, mesmo aqueles menos comuns para um visitante. A surpresa maior foi a existência de um bem apetrechado polidesportivo. Que é usado, em todos os dias da semana, por atletas do Sporting.

Assisti à prédica do sheik David Munir e à oração do dhur. Magicamente, o azul do céu estava quase do tom turquesa da cúpula.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

A NOSTALGIA JÁ NÃO É O QUE ERA...

A exposição sobre as fotografias de Helena Corrêa de Barros (1910-2000) são um magnífico fresco sobre uma época que já não existe e sobre uma classe social que já não voltará. Sendo claro, os trabalhos de Helena de Barros são muito bons. E o toque nostálgico poderá ser o dos dias de hoje, não a forma lúdica como, decerto, ela os viveu. O mundo era então visto a partir de uma cota superior, de cima e não de frente.

Esta forma docente de ver o mundo está patente ao público no Arquivo Fotográfico de Lisboa.

Voltarei a Helena Corrêa de Barros, por causa das natureza mortas.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

MUITO MAIS QUE UM SIMPLES MOMENTO TIRIRICA

Fala-se em promotores do partido, mas ainda não consegui perceber, e pela leitura da imprensa, exatamente quem são.

Não é divertido e não dá vontade de rir. A votação que teve, nas presidenciais, e o que aí vem (com Tino de Rans e André Ventura no lote) não augura nada de bom. A desconfiança de muitos eleitores face aos políticos ditos tradicionais tem levado a isto. Claro que o resultado é, sempre!, pior que o dos políticos tradicionais. Mas depois de lá estarem, que interessa isso. Tino de Rans é útil. Veremos depois a quem e a quê.

DAS REPÚBLICAS DAS BANANAS ÀS DO CRUDE

Os Estados Unidos controlaram a zona das Caraíbas, através da United Fruits, com a ajuda da CIA  e com a conivência de militares amigos, como o General Cortés Vargas. Em dezembro de 1928 teve lugar a célebre Matanza de las bananeras. Centenas de trabalhadores morreram. A embaixada americana em Bogotá mandava telegramas para Washington garantindo "government would give adequate protection to American interests involved".

Mudam os tempos, a atitude norte-americana é a mesma. Sempre em nome da dimócraci e dos iumanrráites. Dos quais a Guatemala e as Honduras, por exemplo, são esplêndidos modelos.

Aposto que já muito poucos, mesmo entre a minha geração, se recordarão do nome de Maurice Bishop. E de como a dimócraci deu, em Grenada, lugar a um dos mais acabados exemplos do direito do mais forte à liberdade.

As crises venezuelanas são cíclicas. Fez agora pouco mais de 60 anos que muitos dos esbirros de Pérez Jiménez tiveram de prestar contas das tropelias feitas. E nem sempre as prestaram da forma mais pacífica...

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

CRÓNICAS OLISIPONENSES - XXV

Quase, quase a terminar o guião da Lisboa Islâmica não me foi difícil localizar, na net, uma cópia da célebre imagem de 1575, assinada por Simon de Miranda, e hoje guardada no Archivio di Stato di Torino.

Como a investigação tem sempre uma componente lúdica, fui dar, pelo meio, com o anúncio de um curso (História Concisa do Porto). O qual, conciso assim, estava, garbosamente, ilustrado com uma planta das muralhas medievais lisboetas.

Deve ter sido culpa do informático. Ou foi um vírus. Or something, como diz uma jovem amiga minha.


terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

VOLTANDO A OZ

Ontem falou-se neste filme. Uma obra octogenária e que tem lugar fixo no meu panteão privado. Uma velha e querida amiga ofereceu-se para me costurar uma roupa, baseada neste filme, para o próximo carnaval. Aceitei, com uma reserva. De Dorothy não vou. Não é por preconceito. É que sou incapaz de andar de saltos altos...

Uma curiosidade:
Os sapatos eram vermelhos para se tirar partido do technicolor.

Um facto:
A filmagem foi caótica, com constantes substituições de realizadores. A maior parte do trabalho foi creditada ao controverso Victor Fleming (1889-1949), um funcionário da MGM tido como pró-nazi...


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

MARCAS DE PODER

No âmbito da preparação da Lisboa Islâmica, passei rapidamente por Moura. Nunca (!) tinha fotografado em condições a lápide da fonte. Que tem uma terra a ver com outra? Muito pouco. Mas há detalhe importante que une os dois sítios. Ambos apresentam marcas de um poder central que estava então entre Córdova e Sevilha. No caso de Lisboa, temos a lápide assinalando obras importantes na fortificação, em Moura está escrito que se mandou fazer o minarete da mesquita local. Uma e outra são peças de afirmação do poder.



domingo, 3 de fevereiro de 2019

CRÓNICAS OLISIPONENSES - XXIV

Duas vezes o 28. À ida para uma reunião no Castelo de S. Jorge reparei, no cimo da Calçada de S. Francisco, num letreiro dizendo PARAGEM. Uma memória de tempos idos. As paragens agora são assinadas de outra forma. E usando o respetivo número na aplicação do telemóvel sabemos o tempo de espera até ao próximo. Bom, mais ou menos, que a aplicação às vezes tem uns falhanços consideráveis...

VAI
E
VEM

À vinda, ficou tudo apeado no Camões. Havia uma bicha de "28", imobilizados por causa de uma colcha que viera voando e se foi enrolar no cabo elétrico. Uma colorida bagunça estendia-se pela Calçada do Combro e pela Rua do Poço dos Negros.

O final de tarde estava bonito, depois da chuva. Mais de três décadas volvidas, velhos ritmos foram retomados. Muita coisa mudou. O 28 está na mesma. Ainda bem que está na mesma.

QUANDO A CANETA FOGE PARA O CHINELO

João Miguel Tavares escreve bem e tem talento de cronista. E é também um pouco "desformatado", o que também dá jeito. Inevitavelmente, a desformatação de vez em quando desaparece e lá vem o mais puro dos reacionarismos. Veja-se este exemplo, de há uns dias:


Houve muita tortura a seguir ao 25 de abril? A sério??? E nomes dos torturados há? E relatos das torturas, também há?

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

TORRE DO RELÓGIO DA AMARELEJA – pro memoria


Escrevi, no dia 1 de julho de 2016 (o tempo passa rápido), um texto neste jornal, sobre este assunto. É importante retomar agora o tema. Relembrar o que se passou. Porque foi um processo que esteve longe de ser pacífico.
As obras de recuperação de edifícios antigos têm uma sina. No fundo, há sempre quem queira, em simultâneo, que um determinado edifício seja reabilitado, seja modernizado, mas ficando na mesma. Uma coisa que, evidentemente, não é possível. Voltarei a este tema, mais adiante.
Recordo aqui a cronologia do que se passou:
Junho de 2014 - envio de proposta de protocolo à Comissão Fabriqueira e ao Bispo de Beja.
Abril de 2015 - assinatura de protocolo com a Comissão Fabriqueira de Amareleja.
Julho de 2016 - conclusão do projeto.
Setembro de 2016 - apresentação da candidatura para financiamento.
Fevereiro de 2017 - aprovação do financiamento.
Abril de 2017 - lançamento da empreitada.
Setembro de 2017 - assinatura do contrato da empreitada, um dos últimos que realizei antes das eleições autárquicas.
Qual o montante da candidatura? 496.028,76 euros.
Qual o montante de financiamento comunitário? 421.624,45 euros.
Qual o montante da responsabilidade da Câmara de Moura? 74.404,31 euros.
Escrevi, em julho de 2016 que o objetivo era “dotar a chamada Torre do Relógio de uma cobertura, a qual será parcialmente amovível, para permitir que se possa tirar partido das noites de verão; dotar o espaço de condições que permitam diferentes utilizações: religiosa, cultural (exposições, feira do livro etc.) e musicais”. Foi nessa direção que se caminhou.
A evolução da obra foi marcado por uma pequena polémica. A cobertura foi classificada como mamarracho. Onde é que se já se viu? Um teto metálico, num sítio daqueles… E aqui regresso às modernizações. Por vezes, há quem queira que fiquem as coisas como estavam. Algo que não é possível. Melhor que eu, o arq. Tiago Mota Saraiva poderá dar detalhes sobre esta questão. Em todo o caso, é claro que para o edifício ter novas funções e uma utilização permanente (e poder manter abertura no teto, para as noites de calor) não era possível deixa tudo como estava. Do ponto de vista arquitetónico, a solução é arrojada, moderna e adequada. Foi, e é, uma solução pensada para o futuro.
Do ponto de vista prático, o que se previa – e há um protocolo assinado e aprovado – era que a Câmara gerisse o espaço. Isso deveria ser feito em estreita articulação com os amarelejenses. Em quatro momentos do ano (Páscoa, Santa Maria, Nossa Senhora da Conceição e Natal), a Torre do Relógio seria destinado, em exclusivo, a iniciativas da Igreja. É esse, nesta data, o ponto em que as coisas estão.

A obra aproxima-se do fim. Constato-o com manifesta satisfação. Como repetidamente tenho escrito. Defendo o trabalho que realizámos, entre 2014 e 2017. E que criou condições para que a obra se realizasse. É possível fazer outras obras na Amareleja? Há outros projetos? Ótimo. Venham eles. A Amareleja merece.

Texto publicado hoje, em "A Planície"

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

JOSÉ MARTÍ E SIMÓN BOLÍVAR E SIMONE DE BEAUVOIR

E a sempre divertida Judite de Sousa. Nuno Ramos de Almeida escreve, na sua página no facebook: "José Marti, o herói da independência", jornalista da TVI (Judite de Sousa) numa peça sobre a Venezuela.

Lembrei-me do sketch de Alexander Payne no filme "Paris, je t'aime" (minuto 2:50):


J'ai vu la tombe de Jean-Paul Sartre et Simón Bolívar. Mon livre dit qu'ils étaient deux fameux écrivains français et qu'ils s'aimaient beaucoup et c'est pourquoi ils sont enterrés ensemble.


Está tudo explicado, não está? Ufff, não é preciso complicar...


MOURA - HOJE NO "DIÁRIO DE NOTÍCIAS"

Traz o "Diário de Notícias" de hoje uma importante reportagem sobre Moura. É um trabalho ponderado (tirando aquela de terem "batizado" o mercado municipal com um nome que não tem), claro e bem feito. Não faço comentários sobre o conteúdo e sobre as coisas que aí se dizem. Mas que são muito interessantes e relevantes, lá isso são. E tanta coisa que explicam... 


terça-feira, 29 de janeiro de 2019

QUANDO JÁ SÓ FALTA O QUASE...

Em 29 de janeiro de 1969, ainda eu não estava na escola primária, estava quase. Hoje continua quase. Só falta mesmo resolver esse quase.

Na minha longínqua carreira de vendedor de livros da CREDIVERBO (1981 ou 1982) fui à empresa ANA. Tenho a ideia que era para os lados de Entrecampos. Lá estava, em plena entrada, uma maqueta do Aeroporto de Rio Frio. Ficaria, o projetado aeroporto, no ponto que assinalo em rosa.

Os anos sucederam-se. As ideias e as intenções também. Está quase. 50 anos depois.



segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

DE BAMACO A BROOKLYN - KEYTA, SIDIBÉ, DELCY...

Porque misturo aqui três fotógrafos tão distantes no espaço e no tempo como Seydou Keita (1921—2001), Malick Sidibé (19352016) e Lougè Delcy (Dapper Lou), um americano de origem haitiana? Porque este último, com toda a sua sofisticação e com todo o refinamento da suas criações (moda, fotografia...) deve muito, quase tudo, ao jogo de geometrias e de trompe-l'oeil dos geniais malianos.

Não conhecia Dapper Lou, o nome pelo qual o fotógrafo é mais conhecido. Foi no instagram que vi os seus trabalhos. As redes sociais não servem só para difundir estupidez.



domingo, 27 de janeiro de 2019

QUANDO O KKK ESTÁ DE REGRESSO...


As provocações e ameaças de que Mamadou Ba foi alvo representam bem "o estado das coisas". Que um órgão de informação tenha dito que ele foi "confrontado" (quando, na verdade, foi intimidado e ameaçado) é pior ainda. Mamadou Ba deveria ter usado outros termos para se referir à polícia? Sim, uma vez que não me parece nada inteligente que um responsável do SOS RACISMO classifique as forças de segurança como "bosta de bófia".

Depois disso, as "redes sociais" foram tomadas pelo ódio, pelo racismo e pela xenofobia. Tenho lido as coisas mais primárias e abjetas.

Mamadou Ba deve ter, se necessário, proteção policial? Na minha opinião, sim. Era o que faltava que uma afirmação disparatada tivesse como "punição" uma qualquer forma de "justiça popular". Estamos bem arranjados, se formos por essa via. Todos nós, e não só Mamadou Ba.

A fotografia de W. Eugene Smith dá um ar pouco sério, quase de baile de máscaras, ao KKK. Temo que os tempos pela frente sejam, contudo, pouco divertidos.

sábado, 26 de janeiro de 2019

UM MINARETE NO CASTELO DE MOURA

Dei-me conta, no meio de infindáveis leituras para um daqueles trabalhos linha-do-horizonte (quanto mais nos aproximamos do fim, mais o fim se afaste), que nunca aludi, em mais de uma década de blogue, a esta inscrição, existente no Castelo de Moura.

De que se trata? Da lápide que comemora a construção do minarete da mesquita de Moura. Como já defendi algures, não se trata de uma simples celebração de uma obra pública. Esta lápide, mandada fazer, em meados do século XI, pelo poderoso al-Mutadide, senhor de Sevilha e de todo o ocidente, fez parte de um processo de afirmação política. Foi, em ultima análise, uma declaração de posse sobre as importantes minas de prata que havia em torno da Serra da Adiça.

O primeiro a publicá-la de forma conveniente foi Alois Richard Nykl (1885-1958), grande arabista de origem checa. Deu-a a conhecer no vol. V da revista "Al-Andalus", em 1940. Citando de memória, com os riscos que isso comporta..., creio que foram Ana Labarta e Carmen Barceló quem, em 1987, esclareceram que a palavra "torre" que se lê na lápide não é uma qualquer estrutura, mas sim uma torre concreta. Ou seja, um minarete.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

SOROLLA Y RODRIGUES

Um velho amigo dizia-me, em tempos "é que enquanto o Sorolla pintava os meninos de rabinho ao léu na praia, Picasso estava a terminar as Demoiselles d'Avignon...". Admito que sim, mas Joquín Sorolla não pintava mal. Tem facetas absolutamente conservadoras e recorre, muitas vezes, a um tipicismo reacionário que antecipa o pior academismo ibérico franquista e salazarista.

Uma coisa é certa: a exposição patente no Museu Nacional de Arte Antiga está a ser um colossal sucesso de público. Constatei-o hoje de manhã, antes de uma reunião com um dos conservadores da casa.

Numa rápida passagem pelo “Terra Adentro – A Espanha de Joaquín Sorolla” reparei em duas ou três obras, que me vão obrigar a nova deslocação. Comentava alguém, sardónico e conhecedor de pintura "ele, quando pintava menos, pintava melhor". Uma das velas levou-me direitinho a uma fotografia que José Manuel Rodrigues fez em Moura, há quase 20 anos.


quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

A CAMINHO DO JARDIM DAS HESPÉRIDES

Para já, são só esquemas e riscos e esquiços. Costumo trabalhar assim, sobre plantas rudimentares. Segue-se o desenho das vitrines, a escolha de materiais gráficos, a redação de textos etc. A exposição sobre metais, a montar no Sobral da Adiça, vai tomando forma. O território foi um sítio importante de mineração e de metalurgia.

Hesíodo escrevia, no século VIII a.C. que "as Hespérides que vigiam além do ínclito Oceano belas maçãs de ouro e as árvores frutiferantes". A fama da Ibéria chegava à Grécia. O ocidente peninsular era rico em metais preciosos. Foram séculos a fio de exploração. No século X d.C. o autor árabe ar-Razi referia as minas de muito boa prata e muito branca, que existiam na zona de Totalica (ou seja, perto da ribeira de Toutalga). É essa memória que se vai resgatar e mostrar. O brilho dos metais será visto, em 2020, no Sobral da Adiça.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

HAVERÁ TEMPO...

And indeed there will be time
For the yellow smoke that slides along the street,
Rubbing its back upon the window-panes;
There will be time, there will be time
To prepare a face to meet the faces that you meet;
There will be time to murder and create,
And time for all the works and days of hands
That lift and drop a question on your plate;
Time for you and time for me,
And time yet for a hundred indecisions,
And for a hundred visions and revisions,
Before the taking of a toast and tea.


Um excerto de um poema que não conhecia, The Love Song of J. Alfred Prufrock, de T. S. Eliot. Haverá tempo ou chegará o tempo. Foi isso que me levou à fotografia da entrada do Mausoléu de Sidi Boumedienne, no limite oriental da cidade argelina de Tlemcen.

Não sei se haverá tempo de lá regressar. Mas gostaria de retornar a Tlemcen. A cidade fará parte de um livrinho em preparação.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

PROCISSÕES, MÁRTIRES E SFUMATO EM TRAVASSÔ

No final da procissão, o Padre Júlio Grangeia fez questão de nos apresentar aos seus paroquianos. A festa em honra dos Santos Mártires de Marrocos, tema de um trabalho em andamento, tem lugar nesta altura do mês de janeiro. Fazer um projeto sem conhecer a única celebração que ainda tem lugar no nosso País era impensável.

São duas procissões, no sábado à noite e no domingo de manhã. As relíquias dos mártires cumprem um longo percurso entre a igreja e uma capela, já no campo. A procissão de regresso, no domingo, tem uma representação ao vivo dos mártires e dos seus algozes. Que vão à frente do respetivo andor.

Facto à margem que me impressionou sobremaneira? A procissão tinha duas bandas, uma com 55, outra com 45 músicos...


segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

ELEMENTOS - FOGO 7

Termina o ciclo do fogo. Que é elemento presente em muitos filmes. Lembrei-me deste final de final, destruidor e definitivo, dos tempos em que frequentava o Quarteto. E na altura em que achava Marco Ferreri (1928-1997) um grande cineasta. O Quarteto fechou há muito. A obra de Marco Ferreri está mais que datada e conheceu o desgaste do tempo. Este filme teve o Grande Prémio do Júri, em Cannes. Francesices...

domingo, 20 de janeiro de 2019

TODA A POESIA DE UM ABRIGO DE CONTENTORES EM ÁGUEDA

De Stijl lusitano? Um Vantongerloo em Barrô? Não, mas a espontaneidade tem destas coisas.



sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

STARDUST MEMORIES Nº 24: ALCÁCER CEGUER

Faz por estes dias 20 anos que fui a caminho de Tânger. A missão não era impossível, mas adivinhava-se difícil. Tratava-se de montar, em oito meses, a exposição que iria acompanhar a Cimeira Luso-Marroquina. O primeiro-ministro António Guterres designara-nos (ao Cláudio e a mim) responsáveis pelo projeto.

Foi um percurso empolgante, no qual foram parceiros de jornada Conceição Amaral, José Alberto Alegria, Francisco Mota Veiga, Pedro Moreira, Jorge Murteira, Luís Campos, João Gabriel Isidoro, Maria da Conceição Lopes, João Soeiro de Carvalho, Ana Maria Rodrigues, Pedro Moreira, Rui Patarrana, Joaquim Romero de Magalhães, entre outros, e falando só na parte lusitana.

Em pano de fundo esteve Alcácer Ceguer. Um sítio inalcançável, para mim. Vários vezes o visitei, sempre com a vaga sensação que o caminho não passaria por ali. É o meu falcão da malta privado.

Na exposição, inaugurada com grande pompa em setembro de 1999, marcaram presença duas peças da antiga catedral da cidade, provenientes das escavações arqueológicas de Charles Redman. Se a janela tem o impacto das coisas que são exóticas por estarem fora de contexto, a lápide funerária é uma peça extraordinária, na qual alguém copiou, sem saber que escrevia, um texto em cursivo. Disseram-me, há dias, que está em paradeiro desconhecido...

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

O QUE SERÁ UM DOCE MOURISCO?

Querendo promover o azeite, uma autarquia alentejana anuncia o CONCURSO DOCE REGIONAL MOURISCO.
Explicando...
A tradição "mourisca" / mediterrânica da doçaria comporta outros ingredientes (sésamo, amêndoa, cereais, muito mel, pistácios, gorduras como a manteiga, perfumes como água de flor de laranjeira, a menta, muito açúcar...), mas relativamente pouco azeite...
Será que se querem criar novos mitos, como o dos tapetes voadores?