Houve, claro. Em rigor, houve duas.
Primeiro uma, dentro do castelo, depois, outra, na Mouraria. O que sabemos de
qualquer uma delas é muito pouco. Não temos a certeza das localizações.
Hipóteses temos, mas certezas não há. Não temos vestígios das construções,
embora tenhamos, quanto à do castelo, “suspeitas”.
Fiquemos, por agora, pela mesquita do
castelo. O que dela se sabe remonta ao século XVIII. E chegou-nos pela mão de
James Murphy, “architect”. Que por aqui andou por vilta de 1789/1790 e depois
publicou, em 1795, o livro “Travels in Portugal”. Refere uma inscrição que está
junto à fonte do castelo do seguinte modo: “a cópia da inscrição B (imagem VII)
foi-me dada pelo Padre [João] de Souza. A original, segundo ele me disse, está
sobre a antiga fonte, junto ao castelo de Moura”. Uma informação bastante
precisa e correta. A inscrição foi lida, nos anos 40 do século XX, por um
célebre arabista checo, Alois Nykl (1885-1958). Mas Nykl, ao traduzir o original
árabe, referiu apenas que a inscrição assinalava a construção de uma torre. Foi
precisar esperar mais 40 anos até que Ana Labarta (n. 1950) e Carmen Barceló
(1949-2024) explicassem, num novo estudo, que a torre a que a inscrição se
referia não era uma torre qualquer, mas sim uma almenara. Ou seja, a
estrutura utilizada nas mesquitas para o chamamento à oração.
Como se costuma dizer, aí o caso mudou de
figura. É que o promotor da construção foi al-Mutadide Billahi, que governou no
sudoeste peninsular entre 1042 e 1069. Pergunta básica: porque é que o homem
mais poderoso do ocidente se preocupou em mandar construir uma almenara numa
fortificação de menor importância, como era o caso de Moura na época? É preciso
recuar um século, para se perceber que a região entre Moura e Aroche era
particularmente rebelde e avessa a submissões ao “poder central”. Ar-Razi, no
“Akhbar muluk”, diz que os habitantes desta região exploravam a prata “em
segredo”. E Ibn Hayyan, no “Muqtabis V”, refere as alianças regionais e o poder
de uma família local, os Banu Tutalliqi (que tiraram o nome da zona da
Toutalga, naturalmente…), no combate a Córdova. Ou seja, e essa é uma ideia que
defendo há muito, a construção da almenara foi um gesto de apropriação política
do território (e da sua prata) e não uma mera campanha de obras públicas.
Mas, afinal, onde se situaria a mesquita?
Com toda a probabilidade – diria que com 90% de certeza – no local onde mais
tarde se construiu a igreja de Santiago. Cujas ruínas estão junto ao posto de
turismo. Com que argumentos?
Foi
comum a sobreposição de igrejas de Santiago (em especial junto às alcáçovas,
como é o caso) ao espaço de antigas mesquitas. Havia que limpar o “pecado”…
A
igreja de Santiago ocupou o espaço de uma construção anterior. Num dos extremos
é visível a esquina do edifício mais antigo, que não só não está alinhado com
os muros da igreja, como limita uma rua do período islâmico. Para mais, essa
esquina apresentava um “spolium” (aproveitamento de uma pedra funerária romana),
forma de valorizar o edifício que integrava.
No
outro lado da rua islâmica, as escavações de 2012 puseram à vista o muro de uma
construção, que poderá ser a base da almenara.
Resumindo, houve mesquita, certamente
desativada em meados do século XIII. E estava no local que as escavações
arqueológicas permitiram identificar. Mais tarde se construiria outra, fora de
portas, na Mouraria. Coisas da Arqueologia e da História da nossa terra.
Crónica em "A Planície".
A imagem é do livro de Murphy.