sexta-feira, 24 de maio de 2019

SOCIEDADE DE CONSUMO

Uma imagem vale por 1000 palavras?
Neste caso, vale todo um compêndio.
É algo que gostaria de conseguir definir, mas não consigo melhor que uma desenfreada sofreguidão de coisa nenhuma.

Everest - 22.5.2019

ELEMENTOS - AR 6

AIR VIF

J’ai regardé devant moi
Dans la foule je t’ai vue
Parmi les blés je t’ai vue
Sous un arbre je t’ai vue
Au bout de tous mes voyages
Au fond de tous mes tourments
Au tournant de tous les rires
Sortant de l’eau et du feu
L’été l’hiver je t’ai vue
Dans ma maison je t’ai vue
Entre mes bras je t’ai vue
Dans mes rêves je t’ai vue
Je ne te quitterai plus.

De Paul Éluard (1905-1952), um homem que gostava do tom cadenciado das palavras e da sua repetição.

O ar e a palavra. A literatura no elemento "ar".

quinta-feira, 23 de maio de 2019

AS VELOCIDADES DA CIDADE

Quem escolhe os ritmos somos nós. Ontem, olhei para o relógio e percebi que tinha tempo de sobra antes de chegar aos antigos Armazéns Sommer. Minutos mais tarde, iria andar dentro e fora da cerca velha de Lisboa. As fotografias e as filmagens prolongaram-se por boa parte da manhã. Antes, os 1450 metros entre o Largo do Conde Barão e a esquina da Rua do Arsenal com o Terreiro do Paço seriam vencidos dentro do 25. Mais devagar e mais depressa.



quarta-feira, 22 de maio de 2019

DAS ALMÁDENAS AOS ALMUADENS

Das almádenas de seiscentas mesquitas não soa uma única voz de almuadem, e os sinos das igrejas moçárabes guardam também silêncio. Às ruas, as praças, os azoques ou mercados estão desertos. Somente o murmúrio das novecentas fontes ou banhos públicos, destinados às abluções dos crentes, ajuda o zumbido noturno da sumptuosa rival de Bagdad, recorda-nos um texto de Alexandre Herculano. É melhor dizer almádena que minarete, tal como almuadem é preferível a muezzin. Não se trata de rejeitar o galicismo, por si só.

Foi pelo som que me guiei no mais recente livrinho fotográfico, editado pela Câmara Municipal de Mértola. Mesquitas é o sexto da série, depois de
Síria (2005)
Mar do meio (2009)
Moura Bissau (2010)
Casas do Sul (2013), em colaboração com Manuel Passinhas da Palma e Miguel Rego.
Caligrafias (2018)

Agora, haverá, um destes dias, Bolama e, depois, Roma. Um com tradução em crioulo, outro com versão em latim. Depois se verá.

Argel, 2004

terça-feira, 21 de maio de 2019

MUSEU DA(S) DESCOBERTA(S)

Tenho imensa curiosidade em saber "o que vai daqui sair". O título da exposição não rima com inocência, sobretudo depois da polémica que envolveu o projetado Museu da Descoberta.

É o último ato de António Filipe Pimentel à frente do MNAA. E é um bom golpe de marketing no momento da saída.

MEMÓRIA ARQUITETÓNICA - DO POÇO DOS NEGROS A LAMEGO

Passagem matinal pelo seiscentista Palácio Mesquitela (imagem inferior). Terá sido aqui que Tertuliano de Lacerda Marques (1882-1942) se inspirou para desenhar a agência de Lamego da Caixa Geral de Depósitos? Este edifício alberga hoje a Biblioteca Municipal.

Tertuliano Marques é um hoje um arquiteto esquecido. O seu estilo, pesadamente revivalista, datou uma obra que tem pormenores interessantes. São da sua autoria o atual MUDE (antigo BNU) e o palácio contruído na Cova da Moura para o financeiro João Ulrich.

O edifício da Caixa, em Lamego, é dos que mais me agrada? Nem por isso... Mas tem hoje mais graça que à época.


segunda-feira, 20 de maio de 2019

ADEUS, MADRAGOA

Foi pouco mais de um ano. Em rigor, quase 14 meses. Nunca trabalhei num edifício tão bonito. Dificilmente, voltarei a trabalhar num sítio com o charme do Palácio do Machadinho. Nem sempre é muito prático ter gabinete num edifício setecentista. As paredes grossas foram feitas à prova de rede de telemóvel, o que me obriga a um pendurar da janela várias vezes ao dia. Nas traseiras há um jardim com azulejos e bancos de pedra, do qual terei saudades para sempre.

Também gostei da Madragoa. Onde passei por várias situações peculiares com senhoras de idade muito avançada, que acham que ainda têm 40 anos e que podem carregar sacos de compras quase tão pesados como elas...

Há várias versões deste Fado Madragoa. Acho particular graça a esta, de uma não-fadista.


domingo, 19 de maio de 2019

FESTIVAL ISLÂMICO - O SOM

É difícil resistir ao apelo eletro-turegue de Bombino. Posso quase repetir o que, há seis anos, aqui escrevi. Até porque a magia se repetiu.

Bombino veio de Agadez, no Níger. Um caminho longo para conquistar o público do cais do Guadiana, que aguentou até de madrugada.

O Festival Islâmico de Mértola foi esta festa e este som. O extraordinário Bombino veio aponta os caminhos do sul. Já estamos à espera do dia 20 de maio de 2021.

O vento dança e canta

O vento dança e canta
Entre palmeiras
As vagas dançam e cantam
Entre barcos
Os pássaros dançam e cantam
Entre a terra e o mar
Meus versos dançam e cantam
Ebntre o silêncio e o caderno
Minha alma dança e canta
Nestes caminhos de areia.

Luís Filipe Maçarico in Ilha de jasmim

sábado, 18 de maio de 2019

DESCOBRE-TE

Coisas que fazem falta aos museus.
Irreverência. Criatividade. Inovação.
O MNAA a dar cartas.


MOMENTO GARRINCHA

Em julho de 2016, Portugal não existia. De tal maneira que os franceses pintaram um carro que celebrava a conquista do campeonato europeu de futebol (v. aqui).

Quando um selecionador brasileiro, antes de um jogo com a União Soviética, em 1958, explicava "vocês fazem assim, depois entram assado", Garrincha perguntou "e já combinaram isso com os russos?".

Sou adepto do Benfica, e quero que o Benfica ganhe. Mas com tanto triunfo antecipado, e agindo-se como se os açorianos fossem os russos desta história, de uma coisa tenho a certeza. Se fosse jogador do Santa Clara, logo à tarde até a relva haveria de morder.


sexta-feira, 17 de maio de 2019

UMA HISTÓRIA DE NUDISMO: TUDO PRA TRÁS!

Foi há muitos anos, em Vila Nova de Milfontes. Não fui, para grande pena minha, testemunha presencial dos factos. O episódio foi-me contado pela Elisa e pelo Zé, meus queridos tios. Havia, pela primeira vez, a prática do nudismo nas praias portuguesas. Os meus tios não praticavam a modalidade, mas não lhes passava pela cabeça mudar de praia só por esse motivo. Quem estivesse habituado ou não se incomodasse com a novidade (au contraire, por vezes...), não ligava muito.

Um belo dia, chegou à praia um casal de velhotes - trajados de preto, bem a rigor - com os netinhos e aviados com a cesta do farnel. Mal deram a volta à rocha, deram com aquilo. O senhor largou a cesta, pôs os braços na horizontal, em cruz, e bradou "alto! tudo pra trás!". Os moços, de queixo caído, a avó descompondo o grupo de estrangeiros "vejam só esta pouca vergonha... parece mentira". E abalaram. O dia continuou, com naturalidade.

O episódio faz parte das reuniões de família. O tudo pra trás! tem-me vindo hoje à memória.

Adão e Eva - obra de Masaccio

FESTIVAL ISLÂMICO - O AMBIENTE

Uma das coisas interessantes que o Festival Islâmico tem é aquela criação, fugaz e original, de uma terra nova. É outra Mértola, que nasce e se extingue, de forma rápida. Há sombras desconhecidas que se projetam nas paredes.

A poucas horas de chegar a Mértola, e de mergulhar numa sextasábadodomingo de enfiada, tenho a enorme expetativa de saber que vila vou encontrar.

Vou encontrar amigos, seguramente. Vou estar em casa. Vai haver livro. E vai haver Bombino.


quinta-feira, 16 de maio de 2019

CRÓNICAS OLISIPONENSES - XXIX

Aproximei-me da entrada do local onde iria ter a reunião. Ía formal, de gravata de padrão clássico, óculos escuros e chapéu. Perguntei pela minha interlocutora. O segurança, de ar severo, pegou no walkie-talkie e disse "Delta 4 chama Charlie 3. Escuto". Fico com vontade de rir, ante tanto estilo pseudo-militar. Depois, virou-se para mim e perguntou "e o senhor é...". Por uma fração de segundo, passou-me pela cabeça dizer BOND... JAMES BOND. Depois, resolvi ter juízo e disse MACIAS, SANTIAGO MACIAS. O senhor apontou um edifício "está a ver aquele prédio; vá ter ali, senhor Tiago Messias". A reunião correu bem. A cena pseudo-militar iria repetir-se, ao longo da manhã...

FESTIVAL ISLÂMICO - O JORNAL DOS PEQUENOS

Há também um Notícias de Mértola para os mais novos. Quando ontem, na Câmara de Lisboa, me perguntavam a quem se compravam os serviços (decoração, montagem, animação cultural etc.) do Festival, houve um silêncio de surpresa quando respondi "desde a primeira edição que é tudo feito em Mértola; pelas pessoas de lá". Rematei dizendo "é essa a grande diferença, e é por isso que Mértola é o que é". Boletins como este(s) fazem parte desse princípio e dessa forma de trabalhar.



FESTIVAL ISLÂMICO - O JORNAL DOS GRANDES

Começa o Festival Islâmico. Nas bancas vai estar o Notícias de Mértola, edição da Biblioteca Municipal. Uma presença já habitual, dando mais cor ao evento.


quarta-feira, 15 de maio de 2019

NO TERRITÓRIO DA GAIVOTA

O início das gravações para a exposição Lisboa Islâmica contou com intervenientes esperados. As gaivotas não gostam de intrusos no seu território. Quando o drone se afastava em direção ao Martim Moniz ou à Graça, as gaivotas recolhiam ao castelejo. Mal o drone se aproximava do castelo, havia duas gaivotas que, em jeito Messerschmitt, picavam sobre o aparelho. A evocação de Hitchcock, e de um dos mais inteligentes e premonitórios filmes da História do Cinema, andou por ali. A manhã terminou com uma bela recolha de imagens. E sem danos.

À ATENÇÃO DO PAN: SECÇÃO TRANSPORTE DE GADO

Há um problema básico. Quem toma decisões, só anda em transportes públicos na altura das campanhas eleitorais.

Tenho inúmeros episódios vistos e vividos, ao longo de décadas de uso convicto dos transportes. Os mais interessantes têm lugar carreiras como o 50, o 54, o 99, no fundo de todos aquelas que vão para os bairros da periferia.

terça-feira, 14 de maio de 2019

PASSAGEM POR METROPOLIS

Uma recolha de imagens no interior da Casa dos Bicos levou-me a um filme de Fritz Lang, rodado em 1927 (!). As colunas de luz evocaram-me Metropolis. Foi certamente a memória do modernismo que estava presente no espírito de Manuel Vicente (1934-2013) e de José Daniel Santa-Rita (1929-2001), autores da reabilitação do edifício.

De Metropolis só não gosto do final, com o compromisso entre trabalho e capital. Uma ideia de Thea Von Harbou, uma nazi badernista. O final dos filmes com compromisso ideológico sempre deu barraca, mas isso são cá coisas minhas...




1400

Se os nove senhores e senhoras da fotografia não vivessem em simultâneo (como felizmente sucede) e fosse colocados em fila indiana cronológica, teriam começado em 1400 e chegariam até hoje. Uma história longa e ramificada.

1400 foi o ano em nasceu Luca Della Robbia e em que se fez a paz com Castela.


segunda-feira, 13 de maio de 2019

DORIS DAY (1922-2019)

Mais uma heterodoxia, de entre muitas: gostar de Doris Day. Gosto da voz de Doris Day, elegante e cheia de swing. Gostava menos do programa musical dela, que "dava" às quintas-feiras, entre as 13.30 e as 14.00. Em 1973/74, andava eu no Ciclo e achava-a uma chata. Depois, passei a gostar. Primeiro, mais ou menos. Depois, muito.

Doris Day partiu hoje, aos 97 anos. Gosto muito do Fly me to the moon.

BIZÂNCIO NA BURACA

Não é que seja uma originalidade. Bem longe disso. Mas achei uma certa graça ao jeito de, no Snack-Bar Restaurante O Manel, na Buraca, atarem os cortinados. Quando os vejo arrumados deste jeito, de modo a deixar entrar a luz, lembro-me sempre do Palácio de Teodorico, em Ravena.

E assim, de manhã cedo, a História se me cruzou no caminho.



domingo, 12 de maio de 2019

REN

Foi no Alentejo, há uns anos. O senhor que me recebia mostrava-me as marcas bem evidentes do seu sucesso. Às tantas, exibiu um pequena tira de terreno, que fazia as vezes de local de aterragem para ultra-leves. Intrigado, e tendo em conta onde estávamos, perguntei "isto aqui não é REN (reserva ecológica nacional)?", ao que ele respondeu, com ar de triunfo, "não, isto aqui é meu".

A nossa relação com as normas não é fácil. Uma fotografia posta a circular nas redes sociais mostra um edifício plantado em cima de uma igreja. Gera-se um enorme clamor. Há uma torrente de piadas fustigando a autarquia. Nunca tinha visto as imagens antes. A única coisa que me surpreendeu é que só agora o assunto tenha vindo a lume. A construção que está, literalmente, em cima da igreja data dos anos 60 ou 70 do século XX...

Coisas destas acontecem? Sim, no Mediterrâneo até acontecem com frequência.


Agia Dynami (Atenas)

sábado, 11 de maio de 2019

MESQUITAS, EM BREVE

O lançamento do livrinho "Mesquitas" será no dia 18, às 17 horas. De hoje a uma semana, no âmbito do Festival Islâmico. Textos em português e em árabe. Prefácio de Rosinda Pimenta, vereadora da Cultra da Câmara Municipal de Mértola, entidade que patrocinou a edição. Design da TVM, tradução de Badr Hassanein.

São 20 imagens, de 9 países: Alepo, Argel, Cairo, Córdova, Damasco, Djenné, Gibraltar, Kairouan, Lisboa, Mértola, Mopti, Moura, Rabat, Sidi Bou Said e Tlemcen.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

MÉRTOLA ON MY MIND

Não estou por lá, mas vou estando. Tanto no filme, em que apareço vestido à Hulot, como no livro sobre Cláudio Torres, para o qual contribuí com um pequeno texto. Que foi escrito em abril de 2013 e que só há minutos reli, depois de o descobrir nas catacumbas do meu gmail. Pela Georgia passei uma vez. Mértola, essa, está-me sempre no pensamento.



QUINTA COLUNA Nº. 3: CIDADE DAS ROSAS

Em 2011, o Presidente da Câmara de Serpa, João Rocha, pediu-me um parecer quanto à viabilidade de se proceder à escavação e valorização de um sítio arqueológico, no concelho de Serpa. Não se procurava um local à toa, mas sim O sítio. Ponderados vários fatores – acessos, potencial científico, interesse paisagístico -, indiquei a Cidade das Rosas como sendo o local de maior interesse. E o mais fácil de abordar, num horizonte temporal curto.

O que é a Cidade das Rosas e onde fica? O nome é bonito e esse é o primeiro dado que joga em seu favor. Tem o código nacional de sítio 24 e começou a ser escavada por José Olívio Caeiro (1949-2009). As campanhas foram-se, ao longo de décadas, sem que um projeto de raíz tenha sido construído. José Caeiro publicou, sobre o sítio, breves notas: em 1978, em 1987 e em 1995, nas atas de um congresso e em publicações periódicas. Maria da Conceição Lopes integraria, mais tarde, esta estação, e as que lhe estão associadas em dois estudos que continuam a ser as obras de referência para este território: Arqueologia do Concelho de Serpa (1997) e A Cidade Romana de Beja. Percursos e debates acerca da "civitas" de Pax Ivlia (2003). Em 2006, José Norton, João Luís Cardoso e A. Barros e Carvalhosa publicaram ânforas provenientes do local. A Cidade das Rosas é uma villa romana (habitação de uma grande propriedade), que teve ocupação continuada até ao período califal. Não se pode falar em modelo ou em padrão, mas é uma realidade que constatamos noutros sítios arqueológicos do sul. Ou seja, muitas grandes propriedades não foram abandonadas na Alta Idade Média. Já bem dentro do período islâmico, sítios como Milreu, Cerro da Vila, Alto do Cidreira, Cidade das Rosas etc. continuam a ser habitados.

Alguns materiais islâmicos desta última foram publicados por Manuel Retuerce no Congresso de Cerâmica de Toledo, em 1981. As deambulações feitas por uma peça cerâmica e por um cabo de faca em osso dariam pano para mangas. Não é, contudo, esse o tema do presente texto.

A Cidade das Rosas fica bem perto de Serpa, à distância de uma légua e à vista de que passa na estrada. Mesmo em frente está o Lagar da Herdade Maria da Guarda. Em março de 2012, manifestei a João Rocha o interesse em, em conjunto com Maria da Conceição Lopes, iniciar um projeto de investigação sobre a Cidade das Rosas. A intenção foi recebida com agrado tanto pelo autarca com por João Cortez de Lobão, proprietário do local. O mandato autárquico 2013/2017 interrompeu este processo.

No início de 2018, foi anunciado, pela Câmara de Serpa, o iminente arranque de um projeto para a Cidade das Rosas. Foi uma boa notícia. O sítio tem uma belíssima localização e o proprietário é uma pessoa que tem sensibilidade para estes temas. O potencial é enorme e um dia terá de ser concretizado. Não só através da continuação dos trabalhos iniciados, há já 40 anos!, por José Caeiro, como pelo alargamento da escavação a outros sítios, que potenciem uma explicação global da Cidade das Rosas. É coisa para uns bons 20 anos.

Aguardo, aguardamos todos, com interesse, expetativa e entusiasmo, o arranque das escavações, uma vez que em 2018 nada aconteceu. Provavelmente será em 2019 que se vai dar o primeiro passo. Virão, depois, o evoluir dos trabalhos, as publicações e o programa de divulgação do sítio.

Crónica publicada hoje, no "Diário do Alentejo"

quinta-feira, 9 de maio de 2019

RACISMO SUBURBANO

Estação de Oeiras - cerca das 15 horas de ontem.

Um homem está sentado ao a meio da carruagem, junto à janela. Entra uma senhora negra, na casa dos 40. Era uma mulher bonita. Não espampanante, nem vistosa. Só bonita e de ar discreto. Senta-se ao lado do homem. O qual parece acordar do torpor que o fazia, há minutos, olhar para a chuva lá fora. Levanta-se, como se tivesse sido empurrado por uma mola, com um ar incomodado. Cruza a carruagem na minha direção. Sai em direção à carruagem seguinte. A mulher segue-o com o olhar. Deu-se conta da "motivação". Daí a minutos, o mesmo indivíduo volta. Volta a percorrer a carruagem sem se sentar. A mulher volta a olhá-lo, mantendo a mesma expressão, a meio caminho entre a tristeza e o desprezo. Nenhum deles se dá conta que me apercebi do que se passou.

Não aconteceu na África do Sul do apartheid. Foi ontem, a meio da tarde. Quando cheguei ao local de trabalho, comentaram "ai, o Santiago hoje está muito sério...". Pois, devia estar.

África do Sul, em 1990. A imposição de autocarros separados terminara semanas antes.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

VOX POP

Heduíno Gomes, ou Vilar, veio dar um ar da sua graça e contar, de novo, o que já se sabe. Mais do que a sua militância no PSD, facto bem conhecido, o que chama a atenção são as suas posições políticas, próximas da extrema-direita. É certo que o órgão informativo que acolhia as diatribes de Heduíno Gomes era o Campanário do Vale do Roxo. É curioso ler as coisas que escrevia. Como esta:

https://avenidadasaluquia34.blogspot.com/2012/04/fascismo-sempre-25-de-abril-nunca-mais.html

Leia-se também o DN de hoje e fique-se com a certeza que a jornalista não distingue marxista-leninista de maoista:

https://www.dn.pt/1864/interior/lembra-se-dos-onda-choc-historia-do-jovem-marxista-leninista-que-criou-o-fenomeno-10849801.html

terça-feira, 7 de maio de 2019

ENTRE 13°16'38.64" e 38°43'0.01" NORTE / -9°07'59.99" W e 37°09'60.00" E

Djenné, a sul, e Lisboa, a norte, são os pontos extremos do livrinho "Mesquitas".
Tal como o são Lisboa, a ocidente, e Alepo, a oriente. É um triângulo com 11.670 quilómetros.

A imagem deve ser da mesquita de Djenné. Um sítio ascético, de beleza espartana. Um dos mais extraordinários sítios por onde passei, seguramente.

Oh lugar sagrado de Córdoba, existes por Ishq (Dios)
Ishq eso es completamente eterno, que no viene y se va.
Tus cimientos son duraderos, tus columnas innumerables
Como un grupo de palmeras en el desierto de Siria
Tu belleza, tu majestad me dice que fuiste creado por un hombre guiado por Dios
Eres hermoso y majestuoso, Él también, es hermoso y majestuoso
Excerto do poema Masjid-e-Qartaba, do paquistanês Muhammad Iqbal (1877 -1938).

segunda-feira, 6 de maio de 2019

LISBOA NO CENTRO DO GHARB

Não no centro geográfico, bem entendido. Mas como cidade de maior destaque (não faz sentido falar em "capital"). Por isso a LISBOA ISLÂMICA se estenderá a outros territórios, dos quais se estão a selecionar algumas peças icónicas. Tenho especial predileção por estas tábuas para ensino do Alcorão, de cronologia moderna. E que (me) darão uma excelente abertura para o derradeiro setor da exposição. Nunca as tinha visto (são quatro, de diferentes tamanhos) assim de tão perto, muito menos as tinha tido na mão. Foi isso que aconteceu na passada sexta-feira. Medidas e sopesadas.


sábado, 4 de maio de 2019

DA PÓVOA PARA A CUBA, PASSANDO POR BEJA

A tarde não teve um padrão, mas há muito que as coisas deixaram de ter padrão. Decidi passar por Beja, a caminho da abertura da exposição fotográfica em Cuba. Ou na Cuba, como nós dizemos. Não cheguei a ver o fim do jogo, mas o Grupo Desportivo Povoense levou a taça para casa. Isso é o que conta. A passagem rápida deu para rever amigos, que são aqueles que contam.


PORTUGAL, SEGUNDO O "OBSERVADOR"

Quem estiver na Patagónia a ler o "Observador", convence-se que em Portugal aconteceu isto:


sexta-feira, 3 de maio de 2019

VENEZUELA E O LADO CERTO DA HISTÓRIA

Ver o Ocidente de gatas ante os americanos tornou-se banal. Até a França, sempre disposta a respingar (outros tempos...), segue o padrão. A política é hoje feita não por ideologias mas por agências de comunicação.

É certo que Nicolás Maduro é um sucedâneo de pouca qualidade. O próximo passo, depois de todos os embargos e de todos os constrangimentos, será a entrada de mercenários. A história vai acabar mal.

Com que lado da História me identifico, na América Latina? Com o de Evo Morales, de Rafael Correa, de Velasco Alvarado, de Hugo Chávez, de Salvador Allende, de Fidel Castro, de Juan José Torres, de João Goulart... Com os que estiveram ao lado do Povo e contribuíram para que a América Latina pudesse, ao menos um pouco, deixar de ser a quinta das traseiras de Washington, um bordel barato e com matérias-primas à discrição.  Com quem nunca estarei? Com René Barrientos, com Hugo Banzer, com Jorge Videla, com Costa e Silva, com Fulgencio Batista, com García Meza, com Díaz Ordaz, com Pérez Jiménez. Talvez alguns se lembrem o tratamento dado pelos venezuelanos aos agentes da polícia política deste último.

Em muita coisa mudei ao longo da vida. Nas convicções mais fundas, não.

quinta-feira, 2 de maio de 2019

OUTRA VEZ A DÍVIDA DA ÁGUA…

Há quase seis meses que não escrevia um texto sobre política local. Não tinha a mínima intenção de o voltar a fazer, nos próximos tempos. Depois da série de perfeitos disparates que me levaram a escrever um texto sobre as “fake news” na Câmara de Moura pensava ter algum sossego. Qual quê…

Volta, não volta, lá vem a conversa fiada da dívida da Câmara. E, de forma obsessiva, a dívida da água. O que revela má-fé e falta de capacidade para se enfrentarem os
problemas, que fazem parte do quotidiano de uma Câmara.

Frase dita e repetida: “os executivos da CDU não pagaram as faturas de fornecimento da água”, afirma o atual executivo, liderado por Álvaro Azedo. Esta afirmação é uma mentira grosseira. E uma mentira várias vezes repetida pode ser aceite como verdade por algumas pessoas, menos atentas. Vou ter, assim, de voltar a dizer o que já escrevi. O acordo de pagamento da dívida da água com a ÁGUAS PÚBLICAS DO ALENTEJO foi aprovado pela Câmara Municipal e pela Assembleia Municipal em 2014. O PS votou a favor desse acordo. O qual foi posto em prática de imediato. E foi cumprido. Verbas pagas, tanto do acordo, como da faturação corrente? 1.139.000 euros em 2015, 1.251.000 euros em 2016, 1 188.000 euros em 2017. Essa é a realidade do nosso mandato. Valores da dívida à AGDA? Esse valor era de 1.163.000 euros no momento em que deixámos funções. Sublinho que esses números se reportam aos valores em atraso mais à faturação corrente. Começou o mandato do Sr. Presidente Álvaro Azedo. Qual a evolução da dívida? Subiu para 1.708.000 euros em 31 de dezembro de 2018. Mais 545.000 de dívida em pouco mais de um ano. Uma Câmara de torneiras abertas.

Repito ainda: o novo executivo fez, em final de 2017, um novo acordo de pagamento. Do qual pagou, até final de 2018, ZERO. Se a dívida se acumulou, a responsabilidade é do Sr. Presidente Álvaro Azedo. Que devia assumir essa responsabilidade, e não atirá-la para cima de executivos anteriores. Fica a curiosidade em saber qual será o montante da dívida da água no final deste mandato. Saberá o executivo responder?

A Câmara tem pago outras dívidas? Sim, no seguimento da prática que vinha de trás. A Câmara pode pagar neste momento mais dívida? Sim, porque os investimentos feitos são perfeitamente ridículos. Com exceção dos contratos que deixámos assinados – obras da Torre do Relógio e do Bairro do Carmo –, só agora foi começada a obra da piscina. Nas freguesias, zero. Muita parra e pouca uva. É por isso que as despesas de investimento passaram de 4.945.000 em 2015 e 4.446.000 em 2017 para 2.916.000 em 2018. Muitas caminhadas, muitas festas, muitas visitas, muitas apresentações de projetos, quase nada de investimento. Pouquíssima obra e quase nada de inovação (não de inovação no papel, mas da que se concretiza e da que faz a diferença).

Continuo tranquilamente o meu trabalho, que também inclui Moura (incluirá sempre!). Continuo na expectativa. E aguardo, bem entendido, a auditoria que a Inspeção-Geral de Finanças iria fazer ao nosso mandato. Já foi pedida?


Crónica publicada hoje, em "A Planície".

quarta-feira, 1 de maio de 2019

BD EM BEJA

Sou um moderado apreciador de BD. Mas há duas coisas que me levam a dar aqui notícia deste festival, promovido pela Câmara de Beja:

1. A persistência da iniciativa, que vai numa proveitosa 15ª. edição, e que conta com o conhecimento e a experiência do Paulo Monteiro;
2. A beleza do cartaz, concebido por Susa Monteiro.

Arranca no final deste mês. Pareceu-me bem começar maio desta maneira.

terça-feira, 30 de abril de 2019

ONTEM, NA AMARELEJA

Ontem, houve assembleia municipal na Amareleja. Sei que fui profusamente citado. Agradeço a atenção. Houve, a meu respeito (raio de fixação, 555 dias depois de eu ter deixado funções!) uma nutrida quantidade de asneiras. Não é altura para abordar o tema. Ficará para depois.

No meio de tanta coisa, fico assim um bocadinho vaidoso com esta preocupação com a minha pessoa. Talvez tenham razão para se preocuparem... De resto, vou bem, muito obrigado.

Se tudo o que há é mentira,

Se tudo o que há é mentira,
É mentira tudo o que há.
De nada nada se tira,
A nada nada se dá.
Se tanto faz que eu suponha
Uma coisa ou não com fé,
Suponho-a se ela é risonha,
Se não é, suponho que é.
Que o grande jeito da vida
É pôr a vida com jeito.
Fana a rosa não colhida
Como a rosa posta ao peito.
Mais vale é o mais valer,
Que o resto ortigas o cobrem
E só se cumpra o dever
Para que as palavras sobrem.
Torre do Relógio (antes das obras)

ELEMENTOS - AR 4

Tenho-me lembrado muito desta ária. Gosto especialmente de Giuseppe di Stefano, um tenor dotado. Muitas vezes o seu CD das canções napolitanas me tem acompanhado. Nessun dorma? Claro que não.

Dilegua, o notte!
Tramontate, stelle!
Tramontate, stelle!
All'alba vincerò!
Vincerò! Vincerò!

Não há música sem ar e não há, seguramente ópera, sem respiração.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

MUNDO ARCAICO

Numa recente conversa com Manuela Barros Ferreira, disse-me "tens de ler o meu texto sobre rezas, que está no facebook". Li quase de seguida, pensando "tenho de aqui voltar". Transcrevo dois excertos:

Cada vez mais esquecidas andam as rezas que fora da Igreja se recitavam, acompanhando gestos de bênção ou de exorcismo. Até certo ponto, elas contrastam com as orações que na catequese, ou mesmo antes, se aprendem.


Julgo que as rezas populares estão em vias de desaparecimento. Já não há transmissão de crenças e saberes, não há camponesas tradicionais nem ranchos de filhos que tinham de ir buscar fortuna fora da escassez do povoado, mas a quem era incutida a esperança de encontrar no caminho um Ente excepcional que os ajudaria. As raras crianças que nascem no interior continuam a ir embora, mesmo sem isso. Outros tempos.

O regresso a este belo texto foi marcado pelas recordações infância. "Este rapaz está olhado", decidia a tia Ana. E ela e a avó Perpétua armavam-se com um pequeno coto com um pavio, a que puxavam fogo, mais um pires e água e azeite. A reza parecia-me infindável, eu cabeceando com sono, no meio de um palavreado indecifrável. Isto repetiu-se muitas vezes, justamente no nº. 34 da Avenida da Salúquia.

A avó Perpétua e a tia Ana já cá não estão. Já não há camponeses na família. Nunca soube que diziam. Que reza era aquela. Que palavras mágicas pronunciavam e me guareciam. As palavras perderam-se. Ficaram, para sempre, noutro tempo.

domingo, 28 de abril de 2019

O QUINTO CAVALEIRO DO APOCALIPSE

Fome
Guerra
Peste
Morte

e o Afonso, coleção primavera-verão.

A ANDALUZIA, LOGO À NOITE

É a primeira região que procuro nas noites das eleições espanholas. E sigo estas com mais atenção que quaisquer outras, fora de portas. A Andaluzia é a terra de origem da minha família. Com extensões mais a sul, mas essa é outra história...

É um Portugal um pouco mais pequeno, com 87.200 km2 e 8.400.000 habitantes. A crise tem batido forte na Andaluzia. Li, há dias, uma reportagem que deva conta do desalento que tomou conta dos andaluzes. Na região de Cádis, o desemprego disparou. E só o turismo não chega. Leio e vejo um filme conhecido. Vejo, sobretudo, a nossa realidade ao espelho.

Em 2015, foi esta a distribuição de lugares para o Congreso de Diputados:
PSOE - 22
PP - 21
PODEMOS . 10
CIUDADANOS - 8

Não é preciso ser Nuno Rogeiro para perceber que o VOX vai ter um grande resultado. Poderá surgir como a terceira força política, em termos gerais. Veremos como é na Andaluzia.

O folclórico Podemos, agora com o que resta da Izquierda Unida à mistura, vai baixar. É uma esquerda patusca, que rima com os gregos do Syriza (lembram-se que eram esses o futuro e a rotura blablabla que proclamava o Cardeal Louçã?) e com os nossos do Bloco de Esquerda. Ser treinador de bancada é fácil. Estar no terreno é outra conversa.

sábado, 27 de abril de 2019

PARA UMA VISÃO FERROVIÁRIA DA LINHA DO HORIZONTE

De 2017 para 2018.
De 2018 para 2019.
De 2019 para 2020. Ou 2021. And so on.

O mais engraçado - engraçado mesmo - nesta sequência de balelas são as visitas convictas à OVIBEJA:

Oh, sim, o interior;
Oh, claro, o cante alentejano;
Oh, sem dúvida, o Património;
Oh, pois evidentemente, o queijo e os enchidos e mais o vinho.

O candidato terá vindo de altometôra?

sexta-feira, 26 de abril de 2019

ÁGUA CASTELLO - PORTO, 1965

Água Castello a norte. A referência que me surge no bendito facebook é Autocarro AEC Regent nº 65, da STCP (Porto). Ano? 1965. A Água Castello, símbolo de Moura, chegou, e chega, aos quatro cantos do mundo. É certo que a empresa já não tem a visibilidade local de outrora. Mas continua a ser marca de Moura.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

A FESTA DO FÁBIO, PÁ

Estive ontem em Moura, para assistir ao festival de curtas-metragens organizado pela Câmara Municipal. O tema central era "A ditadura em Portugal". Respeito a decisão do júri, que premiou um filme com boa imagem e boa montagem. Com um registo que era mais etnográfico que sobre a ditadura em si.

O filme que me pareceu mais original foi o do Fábio Moreira. Era mais um clip que um filme. Uma colagem de várias filmagens. Tinha um registo algo mecanicista, é certo. Mas a imagem de África subjacente à ideia da Liberdade é interessante. Tal como era interessante - ainda que um tanto óbvia - a imagem da normalização. Filmes como este tendem ao solipcismo, mas esse é o risco em que os autores sempre incorrem.

A festa, pá... é um pouco a visão de Simeão Estilita, o anacoreta, mas essa é uma opção a que se tem direito.


quarta-feira, 24 de abril de 2019

NAÏVETÉ EDITORIAL

Ao pedir, há dias, um orçamento para um livro decidi que a edição seria em papel reciclado. Avisa-me a empresa com que costumo trabalhar "olhe que vai ficar mais caro; tem de pagar o papel e a certificação". Fico sem perceber nada, até me explicarem que tenho de pagar uma certificação extra. A qual custa umas centenas de euros. Ou seja, as boas intenções saem-me caras.

O que acabo de relatar tem lógica? Eventualmente, até tem. Não estou a ver é qual...