segunda-feira, 2 de novembro de 2026

ANA, NO SEU LABIRINTO SUL-AMERICANO

Conheci a Ana em pequena, mas não muito bem. Fui viver para Mértola teria a Ana uns 6 ou 7 anos. Mantinha relação de amizade com João Cordovil, o pai da Ana. Uma amizade que o tempo consolidou. O João ia-me contando do percurso dela. Da Safara natal para um colégio internacional, em Itália, depois para Princeton, uma das universidades de topo americanas. Só voltámos a falar dela quando a minha filha mais nova tomou o caminho do mesmo colégio internacional (não em Itália, mas nos Estados Unidos). Fui depois sabendo do percurso da vida da Ana, da carreira fora de portas, do casamento, dos filhos.

Um mundo plácido e feliz, sacudido em julho de 2024 por um caso de polícia. O marido de Ana, de nacionalidade peruana, ausentou-se com os filhos, levando pelo caminho as poupanças da família. O que se passa a partir daí é uma pesada novela policial. De início houve algumas notícias, alguma movimentação, mas na voragem das informações de tudo e de nada e do bombardeamento mediático dos nossos dias, as coisas passam depressa.

Afinal, o pai das crianças levara-as para o seu país de origem. Ana foi no seu encalço. Processos em tribunal, o apoio da família e dos amigos, e o ter de enfrentar uma família (a do marido) poderosa e influente, numa América do Sul onde tudo é demasiado caudilihista e onde os mesmos clãs dominam, agora como sempre. A coragem deu alguns frutos, mas Borges gostaria de ter conhecido Ana e a sua história. Que decorre em círculos. Ou num labirinto que teima em não levar a lado nenhum. Como no conto “El inmortal”: “Un laberinto es una casa labrada para confundir a los hombres; su arquitectura, pródiga en simetrías, está subordinada a ese fin. En el palacio que imperfectamente exploré, la arquitectura carecía de fin. Abundaban el corredor sin salida, la alta ventana inalcanzable, la aparatosa puerta que daba a una celda o a un pozo, las increíbles escaleras inversas, con los peldaños y la balaustrada hacia abajo. Otras, adheridas aéreamente al costado de un muro monumental, morían sin llegar a ninguna parte (…)”. O tribunal peruano deu razão a Ana e a guarda dos filhos, mas não a autorização para se ausentar com eles do Peru. As autoridades portuguesas pouco fazem e escudam-se na soberania. Cinismo e cobardia são irmãos gémeos.

Ana tenta refazer a vida e sair do seu labirinto. O que se traduz em viver, em lutar, em recomeçar, a 9.135 quilómetros de Safara. Como Ana relata no seu site “sou confrontada permanentemente com a pressão e ameaças do pai dos meus filhos e da sua família, que contam com recursos materiais avultados e o recurso a redes de influência (no sistema judicial, nos meios mediáticos, etc.), num país com altos índices de corrupção e de insegurança”. As últimas notícias nos jornais portugueses saíram no “Expresso”, há uns meses. Não sei se a “A Planície” chegou a tocar na história de Ana. Admito que sim, mas não me recordo.

830 dias terão decorrido no labirinto sul-americano, no dia em que este jornal sair. Não é muito tempo numa vida. E é, ao mesmo tempo, demasiado tempo assim passado numa vida. E agora? O caminho não tem sido fácil, mas a situação é, apesar de tudo, um pouco melhor que no início de todo este processo. O tempo passa, duramente, mas sem desespero. E agora, repito? Agora é a deixa de Ariadne, como na mitologia. Desenrole-se o fio que há de levar à saída do labirinto. E à vitória do Bem.

Crónica em "A Planície"











Mosaico de Teseu e do Minotauro ( Kunsthistorisches Museum Wien)




ASCARI - 73 ANOS

Alberto Ascari (1918-1955) sagrou-se campeão de Fórmula 1 em 1953. Faleceu foi anos depois, num acidente em Monza.

Foi preciso esperar 73 anos, 2 meses e 29 dias até que outro italiano, Kimi Antonelli, lograsse o mesmo feito.



LA MUERTE BELLA

Dia de muertos, em jeito mexicano. Entre a Embaixada (a fotografia de cima é um detalhe do meu outfit) e o Museu Nacional de Etnologia, onde acaba de ser uma inaugurada uma notável exposição/instalação.

Com um poema de Juan Ramón Jiménez.


LA MUERTE BELLA

 

¿Que me vas a doler, muerte?

¿Es que no duele la vida?

¿Porqué he de ser más osado

para el vivir esterior

que para el hondo morir?

 

La tierra ¿qué es que no el aire?

¿Porqué nos ha de asfixiar,

porqué nos ha de cegar,

porqué nos ha de aplastar,

porqué nos ha de callar?

 

¿Porqué morir ha de ser

lo que decimos morir,

y vivir sólo vivir,

lo que callamos vivir?

¿Porqué el morir verdadero

(lo que callamos morir)

no ha de ser dulce y suave

como el vivir verdadero

(lo que decimos vivir?)












domingo, 1 de novembro de 2026

PRAÇA CHEIA, PELA HABITAÇÃO

Não eram umas centenas, como insistiam alguns canais televisivos. Éramos bem mais de mil. Facto interessante, havia de tudo em termos etários: desde muito novos até muito idosos. Uma massa de gente bastante diversificada. Preocupação comum: a habitação. Tema comum: as críticas à desastrada gestão de Luís Neves.

O Governo não consegue avançar com uma só ideia (uma só que seja, para amostra) para resolver o problema da habitação. Para cúmulo, sairam com aquela anedota dos apoios financeiros para famílias carenciadas na compra de carros...




sábado, 31 de outubro de 2026

CINE LUTGARDITA

Não sabia da existência deste sítio fantástico e, portanto, não o visitei.

O Cine Lutgardita fica na Av. Rancho Boyeros, na estrada do Aeroporto José Martí, em Havana. Uma jóia de art-déco, com um claro pendor orientalista e centro-americano.

A fotografia, de 2023, é de José Manuel Ballester. Pode ser vista, até dia 6 (de segunda a sexta), na exposição "Neoprecolombianas", na Casa da América Latina, em Lisboa.

sexta-feira, 30 de outubro de 2026

MÁSCARA N°. 35: ALCÁCER CEGUER

Algures no início de 1999, andávamos a preparar uma exposição sobre Portugal e Marrocos. O local de montagem seria Tânger. Era preciso arranjar peças que pudessem fazer a ponte entre os dois lados do Estreito de Gibraltar. Foi assim que fomos parar ao depósito de materiais do departamento de arqueologia tingitano. Surpresa! Havia muitas peças das escavações de Charles Redman, em Alcácer Ceguer. Mas o melhor de tudo eram uma janela manuelina, provavelmente proveniente da catedral, e uma fantástica lápide funerária. Fazia parte dela esta máscara, que só me faz lembrar a de Jim Carrey... Tinham-me, há anos, que a lápide funerária, gravada num português toscamente cursivo, estava desaparecida. Não está. Acabo de saber que se encontra em exposição no Museu de Tânger.

Tânger 1999 foi uma das melhores e mais decisivas experiências da minha vida profissional.


quinta-feira, 29 de outubro de 2026

SANTA CRUZ

Sempre foi um dos meus sítios favoritos em Coimbra. Quase todos os meus amigos olhem para esta preferência de forma displicente "é mais uma daquelas manias do Santiago". Uma ida recente ao Café Santa Cruz, mesmo ao lado do mosteiro, sedimentou-me essa convicção. Havia fados de Coimbra e músicas de Adriano e um certo ambiente 1974 fora de horas.

Na próxima ida a Coimbra não falharei a ida ao Santa Cruz e ao seu ambiente neo-manuelino.



 

segunda-feira, 26 de outubro de 2026

PALÁCIO DOS CONDES DA CALHETA

É um dos mais espetaculares palácio da zona ocidental de Lisboa. E é uma espécie de princesa no esquife, à espera de ser acordada. Fidelíssimos à nossa tradição de adiar / adiar / adiar, ali vamos tendo um espantoso potencial, que vai sendo aproveitado pontualmente.

Só aqueles (estes) fantásticos painéis à entrada... São excecionais em qualquer parte do mundo.

sábado, 24 de outubro de 2026

CASTELO DE SÃO JORGE

Andei, há uns anos, a trabalhar num projeto que a falta de vontade política acabou por atirar para um limbo onde ainda se encontra. Recolhi uma série de imagens do Castelo de S. Jorge, peça central do projeto. Não conhecia esta, que vi há semanas no Museu Municipal Santos Rocha, na Figueira da Foz. Uma peça notável, datada (num duplo sentido) do início da década de 70.

Pode ser que um dia...

João Reis (1889-1982)

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

TODAS AS CORES DO MUNDO

É um sítio assombroso e, segundo me parede (oxalá esteja errado!) não tão conhecido como devia. Regressei lá há semanas, para escolher materiais e para recolher informações para uma exposição. Aturdido fiquei quando me disseram que há 7.000 (sete mil) cores para serem escolhidas durante a execução de uma tapeçaria.

O "Arrufo", de Júlio Pomar, lá seguiu caminho, em direção ao Panteão Nacional.

Bendita Manufactura de Tapeçarias de Portalegre.

https://www.mtportalegre.pt/pt/







domingo, 18 de outubro de 2026

PANTEÃO AO CUBO - FINALMENTE

Finalmente, há cubo!
Há uns anos, decidi avançar para uma proposta de edição de seis (depois, o número passou a cinco) excelentes teses de mestrado sobre o Panteão Nacional e área envolvente.

Os livros podem ser obtidos através da leitura de um código QR colado num cubo de cortiça ou descarregados através do site do monumento:


Os livros ficaram magníficos. E assim publicámos meia dezena de livros, sem gastar papel...
Como se chegou até aqui?
Graças ao trabalho da equipa do Panteão e à generosidade de muita gente.

Patrocinadores?
Caixa Geral de Depósitos
Câmara Municipal de Coruche
Câmara Municipal de Lisboa
El Corte Inglés
Servilusa

Autores?
Adriana Monteiro
Carla Alferes Pinto
Frederico Martins
Helena Mantas
Luísa Jacquinet

Designers envolvidos?
Ana Filipa Leite
Equipa da Direção de Comunicação e Marca da Caixa Geral de Depósitos
Pedro Gonçalves
Sónia Teixeira Pinto, que também foi a autora do desenho do cubo.

Ad augusta per angusta? É isso mesmo.


quinta-feira, 15 de outubro de 2026

NEO

O Consulado de Portugal em Sevilha, o Pavilhão Carlos Lopes e a ampliação do Museu Nacional de Arte Antiga têm a mesma assinatura: Rebelo de Andrade. Um neo-barroco muito ao gosto da época. O estilo / enquadramento é o mesmo. E não me queiram convencer do contrário, que me irrito.




segunda-feira, 12 de outubro de 2026

GAZA: PATRIMÓNIO EM RISCO

Foi ontem à tarde. Partilhei espaço com o meu camarada e amigo Carlos José Almeida. Foi na Casa do Comum, na Rua da Rosa (Bairro Alto). O tema foi Gaza e todo o horror que se vive em Gaza. Da destruição de vidas, num continuado genocídio, à deliberada e programada demolição do Património. Ante o silêncio dos governos europeus (com raras e honrosas exceções, onde Portugal não está).

Vemos, ouvimos e lemos / Não podemos ignorar.


domingo, 11 de outubro de 2026

BIBLIOTECA NACIONAL DE PORTUGAL

  • 1996-1998 – Francisco Bethencourt
  • 1998-2002 – Carlos Reis
  • 2002-2005 – Diogo Pires Aurélio
  • 2005-2011 – Jorge Couto
  • 2011-2012 – Pedro Dias
  • 2012-2024 – Maria Inês Cordeiro
  • 2024-2026 – Diogo Ramada Curto†

Nos últimos 30 anos foram estes os diretores da Biblioteca Nacional de Portugal. São, sem exceção, figuras de grande prestígio intelectual. O Prof. Diogo Ramada Curto faleceu há seis meses. O Governo da Pátria ainda não o substituiu. Causa-me a maior perplexidade que não se considere necessário escolher uma figura respeitada no meio (consenso dificilmente haverá, mas é assim a vida...) para ocupar um lugar que é da maior importância. Agir neste domínio, e tomar decisões, é um ato de Cidadania e de valorização da Cultura. Será assim tão difícil perceber isso?

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

O MISTÉRIO DA LOTAÇÃO DOS ELEVADORES

Há um "mistério" que se agrava. Cada dia que passa se tornam mais estranhos os avisos de lotação nos elevadores. Este, algures na zona oriental de Lisboa, garante que cabem lá 21 pessoas. Medi o sítio: tem 2 metros por 2 metros. Ou seja, 4 m2. Isso dá 0,190 m2 por pessoa. Faz lembrar aquela anedota: "como é que cabem quatro elefantes num mini? resposta: dois à frente, dois atrás".


segunda-feira, 5 de outubro de 2026

TAPEÇARIAS

É uma oficina extraordinária. São mais de 7.000 cores para fazer as tapeçarias. É todo um processo criativo complexo e muito bonito. Devia ser obrigatória a compra de peças desta fábrica por todas as entidades do Estado.

Fiquei com essa convicção depois de uma recente visita. O Panteão Nacional ficou a ganhar com a exposição temporária de uma das suas peças.


SÃO BENEDITO E UM BOLERO

São Benedito, o mouro, viveu na Sicília entre 1526 e 1589. Foi canonizado em 1807. É celebrado no Brasil no dia 5 de outubro (hoje mesmo).

Esta escultura, que está no Museu Santos Rocha, na Figueira da Foz, "desmente" um pouco a letra de um célebre bolero, imortalizado por António Machín.















Pintor nacido en mi tierra
Con el pincel extranjero
Pintor que sigues el rumbo
De tantos pintores viejos

Aunque la virgen sea blanca
Píntame angelitos negros
Que también se van al cielo
Todos los negritos buenos

Pintor, si pintas con amor
Por que, desprecias su color
Si sabes que en el cielo
También los quiere Dios

Pintor de santos y alcobas
Si tienes alma en el cuerpo
Porque al pintar esos cuadros
Te olvidaste de los negros

Siempre que pintas iglesias
Pintas angelitos bellos
Pero nunca te acordaste
De pintar un ángel negro

Pintor de santos y alcobas
Si tienes alma en el cuerpo
Porque al pintar esos cuadros
Te olvidaste de los negros

Siempre que pintas iglesias
Pintas angelitos bellos
Pero nunca te acordaste
De pintar un ángel negro

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

HORA DI BAI

Hora di bai? Sim, “hora da partida”, em caboverdiano. (Re) verifiquei, quase com espanto, há semanas, que me faltam, em termos oficiais, menos de três anos para o final da minha carreira profissional. Dela não tenho razão de queixa, que os ziguezagues feitos foram por opção própria. Por vezes, por escolhas demasiado solitárias.

Quando terminei a licenciatura, em julho de 1985, tinha colegas que apostavam que faria carreira universitária. Um deles comentava o meu estilo de condução - prudente e não muito veloz - dizendo “tens condução de professor da faculdade”. Uma frase divertida e absurda. A Academia, naquela altura, não me seduzia nem um pouco. Mas também não a rejeitava. O mestrado, na Nova, e o doutoramento, em França, fizeram parte desse caminho. Depois houve a carreira autárquica (12 anos, zero de arrependimento), depois a direção do Panteão (já lá vão cinco anos e meio) e agora há a clepsidra, que avança sem cessar. Regresso, como sempre, a “Memórias de Adriano”: “dizer que os meus dias estão contados não significa nada; sempre assim foi; é assim para todos nós”. E, como sempre, retomo o trabalho.

Quando vier o outono de 2029 - é essa a “hora di bai”, se entretanto não for alterada e partindo do princípio que lá chegarei - a bússola apontará para um sítio entre 120° e 130° do local onde me encontro. “Nha sonho” está 215° a sudoeste.

Toda a nossa vida é uma geografia. De terras, de pessoas, da família, dos amigos. E dos outros, também. A passagem pelos sítios e os contactos com as pessoas são um lento cerzir de histórias. Misturam-se cores e padrões, como num tapete berbere. E, às vezes, muitas vezes, dá vontade de voltar às origens. E de nunca mais delas sair. Viajei pouco, ao longo destes 63 anos. Somam-se alguns sítios, num percurso sentimental curto. De que tenho sempre saudades? De Roma, de Tunis, de Damasco, de Argel, do Cairo, de Tadmur, de Hydra, de Atenas, de Granada. E, claro, do Tarrafal. Moura e Mértola serão sempre casos à parte.

O Panteão Nacional tem-me deixado pouco tempo “pessoal”. Coisa sem solução, ainda menos nesta idade, mergulho sempre demasiado no que faço. Em 2027 haverá mais uns quantos livros - quatro, se as contas não falharem, entre compromissos académicos e outros. O tempo é agora de acalmia. Não é ainda o momento, outra vez Yourcenar, de ver a linha da costa por entre uma névoa luminosa. Mas aproxima-se o momento do balanço, a hora de pensar no que será a vida depois da vida que tenho há 40 anos. Ainda não é hora de parar, o que só acontecerá quando não houver força para mais. Mas começa a ser o momento de planear a “hora di bai”. Que vai incluir uma família mais alargada, e esse é outro fator decisivo na equação sentimental. Voltarei a todos estes temas na crónica de 1 de outubro de 2029.

Crónica em "A Planície"


segunda-feira, 28 de setembro de 2026

MÁSCARA N°. 34: CONIMBRIGA

Uma cara escavada num muro com mais de 1500 anos. Uma cara com História, portanto.


domingo, 27 de setembro de 2026

TEREMOS SEMPRE SEVILHA

Eram 20:55 em Sevilha quando Pablo Aguado saiu em ombros e foi levado, Paseo de Cristóbal Colón fora. A multidão gritava "Pablo Aguado torero de Sevilla". A tarde de ontem foi memorável: cinco troféus para touros Jandilla de qualidade.

Há cidades assim, vibrantes e enérgicas. Alegres e onde dá vontade ficar e viver. A Maestranza continua a ser um templo. Um lugar mágico e de grande beleza.

Teremos sempre Sevilha, a fazer lembrar o tal filme.

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

40

Número redondo.
Faz hoje 40 anos que comecei a trabalhar na Administração Pública. Era uma quinta-feira, o dia 25 de setembro de 1986. A expetativa é que a carreira se prolongue por mais quatro ou cinco.

 

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

FESTA DO AVANTE! 50 ANOS

Faz hoje 50 anos que teve lugar a primeira Festa do Avante!
Foi na Feira Internacional de Lisboa.
Aqui fica a minha homenagem a todos os que, ao longo de 50 anos, fizeram desta festa aquilo que ela é: um momento de indiscutível importância política e cultural.
O resto é conversa (da treta)...



 

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

CONTOS DA LOUCURA NORMAL: CONIMBRIGA

Ouvido ontem, na cafetaria das ruínas de Conímbriga:

Pessoa 1 - Não vamos ver as ruínas de Conímbriga?

Pessoa 2 - Onde é que isso fica?

Pessoa 1 - Em Conímbriga.

Pessoa 2 - Vamos lá num dia mais fresco, que hoje está muito calor.

Cai o pano.

A cafetaria está virada para as ruínas, que distam do local da "ação" 150 metros.

Duas teses num só momento:

A realidade é sempre melhor que a ficção.

O melhor humor é sempre involuntário.


domingo, 20 de setembro de 2026

ARTE A SUL

João Reis (1899-1982) pintou a barra do Cuanza em meados da década de 60. As suas magníficas obras podem ser vistas no Museu Santos Rocha, na Figueira da Foz. África foi-lhe decisiva, numa fase tardia da vida. Nunca é tarde. Há muitas imagens do Magrebe, por onde também andou.

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

EQUUS - JÚLIO POMAR NO PANTEÃO NACIONAL

A inauguração foi ontem. A exposição ficará patente ao público até final de dezembro. Para 2027 já há programação.

Equus? Sim.

Reproduzo o texto que a Isabel Inácio e eu escrevemos para a entrada da exposição:

Equus ferus caballus é o nome científico do cavalo domesticado, mas no Panteão Nacional, a palavra Equus soará também a eco. Neste monumento, onde o som reverbera por 16 segundos, os cavalos de Júlio Pomar (1926-2018) encontram o seu refúgio numa exposição que celebra o centenário do nascimento do pintor. 

Imagens de cavalos ocupam a sala de exposições temporárias do monumento, representando diferentes fases da obra de Júlio Pomar: de um D. Quixote, de 1959, ao tríptico Tropel, de 1989, incluindo algumas Tauromaquias da década de 60. Do passado ao presente, da discrição cromática dos primeiros anos para os tons feéricos de Tropel, os cavalos de Júlio Pomar são terrenos e reais (mesmo os de D. Quixote). Nem Pégasos nem Hipogrifos. Nem Sleipnir, o cavalo de oito patas. Ainda assim, ao olharmos estas obras são as palavras de Natália Correia que (nos) são evocadas: “Teus poros exalam o fumo / Do lar dos deuses de onde vieste / Rompante de espuma e de lume / És sol quadrúpede um mar equestre?”. Esta exposição é uma homenagem a um dos maiores pintores portugueses, fruto de uma parceria entre a Culturgest e o Panteão Nacional.

quinta-feira, 17 de setembro de 2026

LXXV - CRÓNICAS OLISIPONENSES: TU

"Mas tens trabalho fixo?". "Qual é o teu contacto?". "Vais fazer transferências para o estrangeiro, é isso?". Ouvido por mim, numa entidade privada, em Lisboa, há dias. O inquiridor era branco e funcionário da instituição. O inquirido era um homem negro, perto dos 30 anos. Tinha o colete de uma conhecida empresa de obras. A conversa decorria em voz alta. Do outro lado da sala, enquanto aguardava atendimento, eu ouvia tudo com nitidez. O inquiridor tratava o cliente por tu. Percebia-se que não tinham conhecimento prévio. O cliente, manifestamente desconfortável e intimidado, respondia com monossílabos.

Há dois tratamentos por tu: igualdade e superioridade. A questão é que eu não estou a ver o funcionário tratar por tu um jovem yuppie branco com quem nunca se tenha cruzado...

Ai esta terra ainda...


segunda-feira, 14 de setembro de 2026

MODERNISMO EM ASSOMADA

Uma conversa recente "levou-me de volta" a Assomada. Lembro de ter passado lá, em julho de 1989, a caminho para o Tarrafal. A estrada "antiga" era bem mais bonita que a atual, muito mais rápida e prática.

Passava-se no centro de Assomada (hoje é uma rua pedonal). A imagem que me ficou gravada foi a desta fachada modernista. Quem a terá desenhado? é a pergunta que várias vezes me fiz. O cinema foi recuperado há alguns anos e está ao serviço da Cultura.


domingo, 13 de setembro de 2026

O ÚLTIMO CARNAVAL DA COREIA

A exposição, da autoria de Bruno Figueroa, Embaixador do México em Portugal, é um notável documento sobre o último carnaval ocorrido em Seul. No dia seguinte ao registo de imagens ocorreu uma tragédia e o carnaval não voltou a ser o mesmo. São essas magníficas imagens (e o elucidativo texto que as acompanha) que podem ser vistas, até dia 1 de novembro:

https://fundacaodomluis.pt/o-ultimo-carnaval-da-coreia/




quinta-feira, 10 de setembro de 2026

EQUUS - DENTRO DE UMA SEMANA

Aposta do Panteão Nacional para o outono, e no centenário do nascimento de Júlio Pomar. A partir da obra TROPEL escolhemos cerca de dezena e meia de outras peças. Não foi fácil desenvolver este projeto, a partir da baias tão estreitas. Depois, tivemos a ajuda de dois colecionadores particulares. Um golpe de sorte, que permitiu localizar cerca de uma dezena de desenhos/estudos inéditos que estiveram na base do TROPEL.

O compromisso não foi fácil, nem isento de dúvidas. O tema acabou por ser EQUUS. De cavalos e de ecos (16 segundos de reverberação na nave central do Panteão), numa quase homofonia.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

AZULEJOS

O Museu Nacional do Azulejo está fechado para obras. Mas há uma exposição que pode, e deve, ser vista no Palácio dos Condes da Calheta.No site da Museus e Monumentos de Portugal:

O Palácio dos Condes da Calheta, em Lisboa, acolhe a partir de dia 15 de agosto o projeto Open Azulejo, organizado pelo Museu Nacional do Azulejo no âmbito de uma parceria entre a Museus e Monumentos de Portugal e a Universidade de Lisboa. 

O Museu Nacional do Azulejo, atualmente encerrado para obras de requalificação, propõe uma nova forma de fruição do património azulejar, convidando o público a descobrir conjuntos conservados in situ. 

A iniciativa pretende criar uma rede de locais com património azulejar representativo, proporcionando ao público a oportunidade de conhecer e apreciar o azulejo em espaços que habitualmente se encontram encerrados ou têm acesso condicionado. 

Informações úteis:

Palácio da Calheta, Lisboa | Rua General João de Almeida | Jardim Botânico Tropical
A partir de 15 de agosto até final do ano | 10:00–17:00
Terça a domingo

 

domingo, 6 de setembro de 2026

FESTA DO AVANTE! 1981

A fotografia tem exatamente 45 anos. Foi tirada no domingo, 6.9.1981. Nesse ano ficámos no acampamento da juventude. Foi no Alto da Ajuda, onde está agora o campus da Universidade de Lisboa. Quem são os do "retrato"? Um grupo de Moura, um litro de leite para cada um em jeito de pequeno-almoço. Da esquerda para a direita: o autor do blogue, Fernando Pinto, António Raposo e José Francisco Moita. O fotógrafo deve ser o Rafael Rodrigues. Só eu não era da JCP. Hoje, é (quase) tudo às avessas.

1981 foi o ano dos Dexys Midnight Runners na Festa do Avante! Mais de quem mais gostei foi dos Dimensión Costeña, um grupo da Nicarágua.

1981 foi também o ano em que estivemos assim todos juntos. Algum tempo depois parte do grupo tomou o caminho da emigração. E as coisas nunca mais foram como antes.


quinta-feira, 3 de setembro de 2026

NO BRITÂNICO

Entre 1980 e 1983, o Instituto Britânico fez parte da minha vida. Duas vezes por semana tinha aulas lá. Os professores eram excelentes (em sucessivos anos letivos: Joseph Tierney, um australiano, e John Ladhams e Margaret Kelting, dois ingleses). Lembro-me do sotaque pausado e muito sofisticado de Miss Kelting. Não aprendi isso com nenhum deles e continuei a falar inglês com sotaque alentejano. Uma vez, no Novo México, disseram-me mesmo, para enorme gáudio da Luísa, "you have a very funny accent, man; where are you from?".

As primeiras aulas foram num convento, nos Inglesinhos, no outro lado do Bairro Alto. Acho que agora é um hotel. Tinha de cruzar aquela zona (era um bairro de portugueses, nesse tempo), passando por bares de má nota e depois pelo Cunhal das Bolas. Passei depois para o Palacete na Rua de São Marçal, outrora propriedade do magnate e mecenas Luís Fernandes e onde também viveu Alves dos Reis.

O Britànico tinha uma magnífica biblioteca - a leitura do Spectator e do Observer faziam parte dos meus rituais de então - e um auditório onde havia ciclos de cinema. As aulas tinham um código rígido: no sex, religion or politics. Mas aprendi imenso. Curiosamente o que mais me marcou foi o espírito analítico na abordagem aos textos, as perspetivas do for and against e a forma de construir um breve ensaio (numa resposta num teste ou num exame, por exemplo). Foram ensinamentos de grande utilidade para o jovem estudante universitário.

Sinais dos tempos: o palacete acaba de ser vendido a uma imobiliária. Haverá menos alunos, imagino, agora é tudo online e digital, e razões de ordem prática levaram o British Council a alienar o imóvel. É assim. Mas é pena.

terça-feira, 1 de setembro de 2026

NAS FRONTEIRAS DE UM PAÍS À MESA

De entre as tarefas que recordo com mais estranheza da minha carreira autárquica está, sem qualquer dúvida, a da missão de confirmar a correta localização dos malhões que delimitam Portugal e Espanha. Isso cabia ao Município, tanto quanto recordo, nos terrenos da Herdade da Contenda (o conhecido e sempre citado 1008 é o da fotografia). Era feita depois uma ata, que se remetia ao Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Com poucas exceções, a nossa fronteira está mais que fixada há muitos séculos. Quais são as exceções? Olivença (cuja área continua sem linha de fonteira marcada nas cartas militares), situações como a do Castelo de Piconha (que só passou para o território de Espanha pelo Tratado de Lisboa de 1864, um curioso documento que vale a pena ser lido) ou da região de Rio de Onor, onde um comunitarismo quase poético resistiu até ao século XX. De resto, as fronteiras estão fixadas e são conhecidas desde há muito. Até por isso se torna difícil perceber todas as subtilezas, e todos os conflitos que persistem por esse mundo fora. Aí se incluem as tensões das línguas, das minorias, dos territórios que mudam várias vezes de soberania – como a Crimeia, desde há séculos foco de sangrentas batalhas –, dos enclaves em território “hostil”.

Portugal é um exemplo incomum de estabilidade territorial. Não tivemos a unificação de várias coroas, como a Espanha do final do século XV. Não passámos por um processo de “criação” de línguas nacionais, como sucedeu em França ou em Itália. Não temos minorias étnicas (os ciganos são, a esse nível, uma situação particular e geograficamente transversal). Estamos pacificamente instalados.

Sempre acreditei que foi essa estabilidade que nos permitiu virar para dentro e dar asas à criatividade culinária. Depois de algumas incursões por outros países (pouco mais de 25, em todo o caso…) vincou-se-me esta ideia: os nossos “conflitos” são à mesa. De norte a sul, passando pelas ilhas, a variedade, a diversidade e a criatividade são absolutamente extraordinárias. Com pratos específicos de cada sítio e que é impossível encontrar fora de uma fronteira cultural e gastronómica específica. O xerém do Algarve, as açordas do Alentejo, os maranhos da Beira Baixa, a chanfana mais a norte, as minhotas papas de sarrabulho, a terrível alheira do Nordeste, fazem parte daquilo que nós somos. E que se prolonga no prazer de estar com outros. E de convidar à nossa mesa. Tentem lá receber um convite na Escandinávia…

Que as coisas assim se mantenham e nos livrem dos horrores gastronómicos – para que conste, nunca pus os pés num KFC e há uns bons 10 anos que não entro num McDonald’s – que, esses sim, ameaçam a nossa civilização. Conservemos a paz. Que em guerra não há tempo para cozinhar. A nossa paz trouxe-nos a paz à mesa. Assim nos mantenhamos.


Imagem no blogue http://acstcmm.blogspot.com/

Crónica em "A Planície"