terça-feira, 16 de outubro de 2018

NO RIO


Este guache está à venda num leilão da Veritas. O preço é irrisório (em termos absolutos) e inatingível (para mim). Vale a oportunidade de poder olhar para ele. Valha-nos a net que permite a Beleza num piscar de olhos.

Obra de Jorge Barradas (1894-1971), datada de 1923. Vale a pena também o poema do grande Drummond de Andrade. Mais agora que o Rio se agita.

Ver: https://veritas.art/



TAMBÉM JÁ FUI BRASILEIRO

Eu também já fui brasileiro
moreno como vocês.
Ponteei viola, guiei forde
e aprendi na mesa dos bares
que o nacionalismo é uma virtude.
Mas há uma hora em que os bares se fecham
e todas as virtudes se negam.

Eu também já fui poeta.
Bastava olhar para mulher,
pensava logo nas estrelas
e outros substantivos celestes.
Mas eram tantas, o céu tamanho,
minha poesia perturbou-se.

Eu também já tive meu ritmo.
Fazia isso, dizia aquilo.
E meus amigos me queriam,
meus inimigos me odiavam.
Eu irônico deslizava
satisfeito de ter meu ritmo.
Mas acabei confundindo tudo.
Hoje não deslizo mais não,
não sou irônico mais não,
não tenho ritmo mais não.

Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 15 de outubro de 2018

NUNO GAMA EM ARTE ANTIGA

Uma não-passagem de modelos, tanto quanto entendi. Ou seja, os modelos estavam, não desfilavam. O ambiente glamoroso do Museu Nacional de Arte Antiga a jogar em perfeição com o trabalho de Nuno Gama. Não vejo onde o prestígio do sítio saia beliscado, nem vejo que iniciativas assim vão contra a "função" de um museu. Antes pelo contrário.

Achei uma certa graça ao ver a biblioteca do museu convertida em vestiário...

Veja-se a reportagem de João Porfírio no "Observador".


domingo, 14 de outubro de 2018

PRÉMIO VILALVA - 2017

Vai na 11ª. edição e destina-se a estimular projetos no âmbito da reabilitação do património. A apresentação de candidaturas ao PRÉMIO VILALVA decorre até final do mês de novembro.

Lista de projetos premiados até à data:

2008 – Departamento do Património Histórico e Artístico da Diocese de Beja (DPHA)
2007 – Tratamento e Divulgação da Biblioteca da Casa de Sabugosa e São Lourenço (Associação Cultural da Casa de Sabugosa e São Lourenço, Lisboa)



Ver regulamento:
https://content.gulbenkian.pt/wp-content/uploads/2013/11/28120056/REG_PremioVilalva2017.pdf

sábado, 13 de outubro de 2018

MEU CARO MIGUEL REGO...

... acabo de ler isto no facebook:

Na reunião de Câmara Municipal do passado dia 11, os vereadores da CDU apresentaram um VOTO DE PROTESTO pelo afastamento (saneamento político) do Dr. Miguel Rego das suas funções de coordenador da rede de museus do concelho. 
Reafirmaram também o seu reconhecimento público pelo trabalho que o Dr. Miguel Rego desenvolveu em Castro Verde na criação e dinamização do Museu da Ruralidade, "Núcleo da Oralidade", em Entradas, e dos seus pólos ("A Minha Escola", em Almeirim, "Aldeia Comunitária", nos Aivados" e "Núcleo da Tecelagem", no Lombador, no âmbito do conceito de “Museu do Território”.


Reproduzo em letras pequenas, porque a atitude de quem te demitiu está ao nível do tamanho das letras. Considero o Museu da Ruralidade uma das mais consequentes e bem definidas propostas culturais levadas a cabo no sul nos últimos anos. Consegui estar presente em algumas iniciativas (bem poucas, mas os mandatos autárquicos tomam-nos o tempo mais do que deveríamos deixar). E puderes constatar a qualidade do projeto, num terreno sempre difícil. Soube o Museu da Ruralidade assumir a sua originalidade e fugir aos chavões habituais. Soube construir um percurso e garantir uma programação. Soube tudo isso e muito mais. Não conseguiu foi resistir à intolerância e ao totalitarismo (aqui entre nós, que ninguém está a ouvir: os que estão sempre a clamar "abertura", "coração aberto", "um concelho para todos" são os piores de todos; são capazes de matar o pai e a mãe para irem ao baile do orfanato...).

Meu caro Miguel, o teu percurso no Museu da Ruralidade está feito e bem feito. Para onde fores, bem farás.

Fica a tilintar uma dúvida:
* Quem vai garantir a continuidade do projeto? Em que condições? Com que dignidade?

CALIGRAFIAS QUASE

Está quase.
O que começou por ser uma "sugestão", acabou mesmo por avançar. Mas sem o Jorge Calado e sem a Paula Amendoeira, isto não teria tomado forma. Não me atreveria a fazer a exposição.
Já há (quase) catálogo, que está a ser impresso.
Já há (quase) 35 fotografias, que também estão a ser impressas.
A sala está a ser preparada. Para dia 25, às 18 horas.

SE NÃO FOSSE TRÁGICO, DAVA VONTADE DE RIR...

Assim vai o jornalismo "científico" na Lusitânia.
Virgílio Azevedo fazendo escola...

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

MUSEU DE ETNOLOGIA - UMA PERPLEXIDADE

Há uma coisa que sempre me escapou, em relação ao fantástico Museu Nacional de Etnologia. Pergunto-me sempre porque é que não há exposições temporárias com as coleções do museu "lá em baixo", em Arte Popular.

Na verdade, os clientes andam por ali... Número de visitantes do Padrão dos Descobrimentos? 244.644 em 2016, 351.512 em 2017. O MAAT recebeu 375.000 visitantes em 2017. Em 2016 tinham sido 364.000. E Arte Popular? 17.751 em 2016, 46.641 em 2017.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

CRÓNICAS OLISSIPONENSES - XVIII

IS BIG TYRE WATCHING YOU?

Na Rua Antero de Quental

terça-feira, 9 de outubro de 2018

FIRST WE TAKE MANHATTAN, THEN WE TAKE BERLIN, E A SEGUIR O JOSÉ SARAMAGO

EXTRAORDINÁRIO.
Não me ocorre dizer mais nada.
Há dois dias escrevi "qualquer dia, vão inventar e provar que, afinal, até nem foi militante do PCP. Já ouvi essa bojarda a respeito de Bento de Jesus Caraça...". Já faltou mais.

CRÓNICAS OLISSIPONENSES - XVII

"Boa sorte, amigo", clamou, jovial como sempre, o dono da tabacaria. O amigo virou-se, sem dizer palavra, e olhou-me, sem expressão. Não faz ideia de quem eu sou. Eu reconheci, de imediato, a figura de um Grande Poeta. Sem ironia. Com o ar sofrido de sempre, tão sofrido como os seus belos poemas, vinha tentar a sorte no euromilhões. "Pstt, ó amigo, ó amigo, olhe o talãozinho, amigo". Mais 180º e o Grande Poeta recolheu o talãozinho. Vão achar um acabado disparate, mas nunca tinha imaginado um poeta a atacar um prosaico euromilhões. Senti-me um pouco como Pedro Canavarro quando lhe perguntaram que gostaria de ver, se fosse o homem invisível. Mas é melhor deixar isso para depois.

Agora, quando ler um poema dele, vou ouvir sempre a voz do homem da tabacaria, ó amigo, ó amigo, depois vem mais um pouco de angústia em palatino 12, e volto a ouvir olhe o talãozinho amigo. Raismepartam...

segunda-feira, 8 de outubro de 2018

VISITA A MÉRTOLA

É hoje, às 23 horas, na RTP 2. É o programa Visita Guiada. Tem um piqueno senão: às vezes, a entrevistadora fala tanto quanto os entrevistados... Espero que não seja o caso.

No centro da imagem está a casa X. Tantíssimas dores de cabeça que me deu...

TEXTO MAIS LIDO NO MÊS DE SETEMBRO DE 2018: VICE-PRESIDENTE DO SPORTING É DA SALÚQUIA

Foi no dia 14 de setembro e chegou a mais de 5000 leituras.

SEXTA-FEIRA, 14 DE SETEMBRO DE 2018


VICE-PRESIDENTE DO SPORTING É DA SALÚQUIA

A Salúquia é um bairro de Moura. Para alguns de nós, é Obairro de Moura. Está, desde há dias, representado nos corpos sociais do Sporting. Através da Vice-Presidente Maria Serrano Sancho. O que pode um benfiquista convicto desejar nestas alturas? Desejar sorte à minha vizinha e amiga! Um bom e tranquilo mandato, que o desporto não é só futebol.

domingo, 7 de outubro de 2018

90

O blogue de Vítor Dias veio "corrigir-me". Estava convencido que o 90º. aniversário de António Borges Coelho teria lugar dentro de dias. É hoje. Vou encontrá-lo daqui a semanas. Num momento que é mais que justo. E que ainda causará, disso tenho a certeza!, alguns engulhos.

Um abraço de parabéns ao António Borges Coelho (hoje não me atrevo a telefonar-lhe... será só aqui e por mail). A quem tanto devo/devemos, por tantas aulas, dentro e fora da universidade.

QUANDO O SUPER-HOMEM DANÇA COM A MULHER-ARANHA

Muitas vezes os amigos me chamam a atenção para as constantes alusões aos filmes e para a importância que o Cinema tem para mim. Todo o Cinema. Mesmo o muito mau. Enviaram-me há dias esta pérola. É um excerto do filme Dariya Dil (Coração sagrado), que data de 1988 e foi realizado por K. Ravi Shankar. Quase tão bom como o inesquecível BALUPU. Como dizem os franceses, un sommet du kitsch... Viva Bollywood!

sábado, 6 de outubro de 2018

E ONDE É QUE ESTÁ A SURPRESA?

Há quem fique indignado com estas coisas.

Eu não fico. Qualquer dia, vão inventar e provar que, afinal, até nem foi militante do PCP. Já ouvi essa bojarda a respeito de Bento de Jesus Caraça...

inveja é a homenagem que a inferioridade tributa ao mérito - frase atribuída ao matemático Victor Puiseux (1820–1883). Lembro-me muitas vezes dela.

Celebremos a obra de José Saramago.

Festejemos o seu Nobel.

Sublinhemos a sua militância no PCP.

MOURARIA NIGHT SHIFT

O Jorge consegue fazer um ar solene. Eu desmancho-me...


Foi no final de uma tertúlia, onde o tópico foi a alimentação medieval. Uma conversa entre amigos. Um ambiente de convívio caloroso. Deu lotação esgotada e muita gente de fora. Fica para a próxima. Não tinha uma afluência assim, com gente de fora e tudo, desde uma sessão na Brown University, da qual guardo gratas recordações.

Na verdade, a noite foi intensa e proveitosa, neste turno da noite na Mouraria: explicação sobre alguns aspetos da alimentação medieval e sobre os métodos de recolha de dados (1), convívio com a Catarina e com o Sérgio, que passaram pelo Liberato enquanto decorria a projecção de "Raiva" (2) e um momento final com o José Leonel (3), que ganhou ali uma aura de santidade...

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sexta-feira, 5 de outubro de 2018

HOJE, EM MOURA


Falei, há pouco, com o Sérgio para lhe desejar boa sorte na estreia mourense. Gosto muito do filme. Talvez tenha a oportunidade de passar por lá. Ou não, tendo em conta o meu outro compromisso desta noite. Mas aqui fica o aviso para Moura: não percam a possibilidade de ver "Raiva".

quinta-feira, 4 de outubro de 2018

PULP FICTION À MODA DE MOURA...

O regresso à vida civil foi compensado com um conjunto de trabalhos - uns programados, outros completamente inesperados -, que me ocupam o tempo. E, que, curiosamente, me têm dado outro tempo para viver Moura de outro modo. Menos presente, menos intenso, mas não com menos prazer. Pelo meio, ficam referências da atual equipa autárquica, quase obsessivas, ao meu trabalho e ao meu estilo de atuação enquanto vereador e enquanto presidente da câmara. Na ata da Assembleia Municipal de junho leio coisas divertidas. A saber:

Do Presidente da Câmara, sr. Álvaro Azedo:

"em fevereiro de 2015, bati à porta do senhor Santiago Macias [sic] e tive que lhe dizer, senhor Presidente nós não aguentamos, porque vocês não nos estão a pagar, se os senhores não nos conseguirem pagar, nós vamos ter que declinar os acordos que temos assinados com a Câmara Municipal de Moura, porque não podemos estar a meter dinheiro da junta de freguesia para pagar despesas com a atividade que nos é delegada. O que é certo é que depois se fez um plano de pagamento e o doutor Santiago Macias lá começou a pagar [sic]".

Do Chefe de Gabinete do Presidente da Câmara, sr. Rui Apolinário:

"era necessário recordar que se veio de um mandato em que o Presidente da Câmara [o autor deste blogue] dividiu o mundo entre preparados e impreparados, em que vigorava a sua opinião e que ao arrepio da legalidade fez a Câmara Municipal de Moura cumprir decisões ilegais [sic]".

Pergunto-me se já terão feito a participação ao Ministério Público. Ou se estará no mesmo caixote da célebre auditoria, anunciada com estrondo há quase uma ano?

Dizia o Dr. Sá Carneiro que as "desculpas" com antecessores só têm seis meses de validade. Parece que há quem faça disso modo de vida.

Fico um pouco assim, como o Travolta, mas podem continuar.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

MAPPLETHORPE, SEGUNDO MIGUEL SOUSA TAVARES

"(...) não vejo ali arte, nem fotografia mas apenas as taras exibicionistas e sado-maso de um homossexual doentio (...)" - crónica de MST, no "Expresso" do sábado passado.

Será? Por mais que me esforce não consigo ver taras exibicionistas, sado-masoquismo e homossexualidade doentia ao olhar estas fotografias...




terça-feira, 2 de outubro de 2018

UM MECENAS, UMA BOLSA LITERÁRIA E UM JACKPOT EM SILVES, NO SÉCULO XI

Relatado pelo poeta Ibn Habus, segundo a obra de al-Marrakushi:

Cheguei um dia a Silves, depois de ter estado três dias sem comer. Perguntei a quem me poderia dirigir naquele local e um habitante indicou-me Ibn al-Milh. Fui então à oficina de um encadernador que, a meu pedido, me deu uma pele muito fina e um tinteiro, e escrevi versos em louvor daquele de quem me tinham dito o nome; fui depois a sua casa. Encontrei-o no vestíbulo e ele respondeu de forma muito graciosa à minha saudação, acolhendo-me da forma mais amável: "suponho, disse-me, que és estrangeiro". Assim é, respondi. "E a que classe de homens pertences?". Sou, respondi, um literato, um poeta, quero dizer, e pus-me a recitar os versos que tinha acabado de escrever. Ouviu-os muito bem, convidou-me a entrar e, fazendo que me servissem de que comer, conversou comigo com uma amabilidade que nunca tinha visto. Quando pedi licença para me ir embora, saiu e voltou a entrar, seguido por dois criados que traziam um cofre, que fez pousar à minha frente. Abriu-o e tirou de dentro 700 dinares almorávidas, que me deu. "Toma o que é teu", disse-me, entregando-me mais uma bolsa contendo 40 meticais, "isto é mais uma prenda minha". Surpreendido com as suas palavras, que eram para mim um verdadeiro enigma, perguntei de onde vinha "o que era meu". "Fica a saber, respondeu, que pus de parte uma das minhas propriedades, cuja receita anual é de 100 dinares, que destino a poetas. Acontece que nenhum me procurou, nos últimos sete anos, devido aos problemas que assolam o território, e foi assim que se acumulou a soma que te é entregue. Quanto aos 40 meticais, são dos meus rendimentos pessoais". Foi assim que entrei em casa dele esfomeado e pobre e saí saciado e rico.

Ibn al-Milh viveu no século XI. Este episódio está narrado na obra Histoire des Almohades, de Abd al-Wahid al-Marrakushi, escrita em 1227 d.C.. Usei a versão de E. Fagnan, publicada em Argel, em 1893.



Poema de Ibn al-Milh, na tradução de António Borges Coelho
(vol. IV de Portugal na Espanha Árabe)

O jardim brinca com o zéfiro
e parece convidado-lo para te atrair
da alba à báquica tertúlia.

Está ébrio do jugo dos seus ternos ramos.
E quando comovedores o cantam os seus pássaros
repete a canção.

Aí não faltam as flores que com seus olhos
parecem erguidas em lugares propícios
para expiarem os amantes.

As flores ressaltam sobre as folhas verdes
como a luz se revela mais brilhante
num fundo de trevas.

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

COMEÇA OUTUBRO

Quando comprámos a serigrafia, há uns 30 anos, não sabia o porquê do estranho "desenquadramento", plástico e físico, do veleiro. A explicação era simples. Disse-me, há dias, o próprio Pedro Chorão que se tratou de uma encomenda do Clube Militar Naval para um 25 de abril...

Começa outubro, um mês de reenquadramentos. Uma exposição para terminar, um livro para começar, um projeto para entregar e uma conversa entre amigos, no dia 5. Só me falta enquadrar o tempo. Há um ano era capaz de jurar que o tempo me sobraria.



October


O hushed October morning mild,
Thy leaves have ripened to the fall;
Tomorrow’s wind, if it be wild,
Should waste them all.
The crows above the forest call;
Tomorrow they may form and go.
O hushed October morning mild,
Begin the hours of this day slow.
Make the day seem to us less brief.
Hearts not averse to being beguiled,
Beguile us in the way you know.
Release one leaf at break of day;
At noon release another leaf;
One from our trees, one far away.
Retard the sun with gentle mist;
Enchant the land with amethyst.
Slow, slow!
For the grapes’ sake, if they were all,
Whose leaves already are burnt with frost,
Whose clustered fruit must else be lost—
For the grapes’ sake along the wall.

Robert Frost

domingo, 30 de setembro de 2018

OS ANOS 70 NUNCA DEVIAM TER EXISTIDO - RAZÃO Nº 3: O INTERIOR DAS CASAS

O interior das casas era uma trip e as decorações seguiam o padrão Haight-Ashbury... Paredes brancas? Mas que grande aborrecimento! Cor e mais cor. E bom gosto em excesso. Em Queluz, em 1975 entrámos num delírio colorido. A entrada e a cozinha estavam pintadas em tom escarlate, a sala era azul ferrete, o quarto dos meus pais num adocicado verde água. Em meados da década de oitenta, o bom senso desceu à Terra e voltou a ser tudo branco.

sábado, 29 de setembro de 2018

MAPPLETHORPE - άλφα


Os bilhetes custam 10 euros. Com tanta publicidade (há dias, trabalhadores pediam esclarecimentos sobre a situação que se vive na instituição, seja lá isso da "situação que se vive" o que for...), a exposição de Robert Mapplethorpe vai ser dinheiro em caixa. Aguardemos os números finais.

Já agora, gostam das fotografias?

JUDEUS EM MOURA

Pormenor do fol. 388 v. do manuscrito da Bodleian Library (segundo estudo de Tiago Moita)

Que Moura tinha uma comuna de judeus é facto há muito conhecido. Até à data, contudo, não se conseguiu localizar, de forma inequívoca, o sítio da judiaria. Ou seja, do bairro onde morava a comunidade. Não temos, sequer, prova de que viveriam num sítio apartado, como os mouros. Os documentos que consultei, em tempos, na Torre do Tombo apontavam para uma “concentração” de comerciantes judeus no quarteirão onde mais tarde se instalou a Misericórdia. Não é de estranhar que assim fosse. Tratava-se de um grupo bem instalado na vila, com meios financeiros acima da média e com instrução e hábitos culturais que os destacava dos restantes moradores.

Dos judeus de Moura nada ficou. A razia que se seguiu à expulsão, em finais do século XV, foi quase total. Não temos uma única lápide funerária, um só indício quanto à localização da sinagoga ou qualquer evidência da presença da comunidade judaica na nossa terra. Não fossem os textos na Torre do Tombo e poderíamos dizer que nunca teriam existido.

Mas há mais e melhor que os pergaminhos das Chancelarias Régias. Fui, há tempos, contactado por um teólogo ribatejano, Tiago Moita. Veio, simpaticamente, dar-me conhecimento da existência de uma Bíblia Hebraica, feita em Moura. Data de 1470 e está hoje na Bodleian Library, em Oxford. Tem a cota MS Canon. Or. 42. Tiago Moita fez a sua investigação neste domínio, tendo-se doutorado com uma tese intitulada “O livro hebraico português na Idade Média: do Sefer He-Aruk de Seia (1284-85) aos manuscritos iluminados tardo-medievais da Escola de Lisboa e os primeiros incunábulos”. Coligiu cerca de 60 manuscritos hebraicos, produzidos entre os séculos XIII e XV. Ainda que Lisboa lidere, em termos de quantidade de documentação produzida, há manuscritos de localidades como Faro, Torres Vedras, Elvas, Évora, Guarda, Leiria, Loulé, Moura, Porto, Santiago do Cacém, Seia e Setúbal. Como se lê no resumo da tese “depois da expulsão dos judeus de Portugal em 1496/97, o principal destino destes livros foi a Península Itálica, além do Norte de África e do Império Otomano, como é patente na informação interna deixada pelos sucessivos proprietários dos volumes”. O que foi, para nós, uma terrível perda cultural tornou-se, para outros, motivo de enriquecimento. A produção de uma bíblia hebraica, ricamente decorada, na nossa terra é um dado a raiar o insólito. No texto “A Bíblia hebraica de Moura: um testemunho de arte mudéjar no Alentejo”, Tiago Moita explica o contexto preciso em que tal sucedeu. Foi copiada por Samuel ben Abraham Altires para Isaac Gabay, um rico mercador lisboeta, no ano de 1470.


Que as seis dezenas de manuscritos deste período estejam hoje, sem exceção, em bibliotecas estrangeiras (Estados Unidos, Rússia, Suiça, Reino Unido etc.) é uma perda para todos nós. E é motivo de vergonha. Que um deles, de rara beleza, tenha sido produzido por um conterrâneo nosso, desconhecido mas talentoso, deve orgulhar qualquer mourense.

Crónica em "A Planície"

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

TERTÚLIA NA MOURARIA

Mais uma iniciativa dos meus amigos Alice Reis e Jorge Liberato. Só prometi que não vou dar seca nos convivas. Vai ser uma conversa entre amigos. À volta da comida e da bebida na Idade Média. Um tema sempre atual, até porque nos permite constatar o que mudou em vários séculos de evolução humana.

Uma estreia: é a primeira vez que alguém de Moura me convida para uma iniciativa destas. As anteriores intervenções extra-política foram sempre resultado de convites de pessoas "de fora".

Gosto destes regressos, enquanto vou trauteando "Moura, das fontes a murmurar, quando a tarde vem descendo...".

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

HELENA ALMEIDA (1934/2018)

Tenho verdadeira admiração pela obra de Helena Almeida. Foi tema de dois textos, em 2010 e em 2015. Portugal ficou ontem um pouco mais pequeno. Discreta e silenciosa, a sua partida é coisa de pouco notoriedade. O tempo lhe dará o destaque. Não é para já, será daqui a uns anos.

quarta-feira, 26 de setembro de 2018

O ÍCARO DE TANCOS

O texto de Valentina Marcelino, no DN, explica o caráter meio criptado do nome da operação que parece começar a desenlear a meada de Tancos. Cito:

"Orgulho ou autoconfiança excessiva: arrogância; insolência" é o significado. Para os gregos, húbris era uma conduta desmedida considerada um desafio aos deuses e que acarreta a ruína de quem assim age. O DN questionou a PJ e a Procuradoria-Geral da República (PGR) sobre o porquê da escolha. "Foi o que se passou", é a tese da PJ e do Ministério Público, justificada por fonte diretamente envolvida na investigação. Tudo atribuído à PJ Militar.

É uma explicação envergonhada. Escolhem-se títulos assim porque isto é um raio de um País de Poetas. Nessa tradição (oxalá ainda esteja entre nós o Capitão Quesada) temos operações como "Natal Sobre Rodas" ou "Páscoa Feliz". Hubris é um nome mais sofisticado e remete para uma atitude de desmedida arrogância, antes da queda fatal. Aconteceu a Ícaro e, aparentemente, ao Ícaro de Tancos.


Para estar de acordo com o ambiente poético aqui fica o célebre poema de William Carlos Williams (1883-1963):

Landscape with the Fall of Icarus

According to Brueghel
when Icarus fell
it was spring

a farmer was ploughing
his field
the whole pageantry

of the year was
awake tingling
with itself

sweating in the sun
that melted
the wings' wax

unsignificantly
off the coast
there was

a splash quite unnoticed
this was
Icarus drowning

terça-feira, 25 de setembro de 2018

BOMBAS NAS ASPIRINAS

Não vem a propósito de nada em particular, mas vale a pena recordar uma das páginas mais sórdidas do direito do mais forte à liberdade. Há 20 anos, e no meio do mais completo desvario, os Estados Unidos bombardearam uma fábrica de armas químicas. Verdadeiro? Falso. A fábrica sudanesa que foi destruída até aos alicerces dedicava-se a produzir aspirinas. As armas de destruição maciça andavam na ordem do dia. O inefável Paulo Portas garantiu ter visto provas da sua existência. Há aquelas pessoas que garantem ter visto recentemente Elvis Presley numa rua de Nova Iorque. Cada um vê o que quer ver, ou o que lhe interessa ver...

Ler:
https://www.theguardian.com/world/2001/oct/02/afghanistan.terrorism3

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

ELEMENTOS - FOGO 4

Quando a música é fogo. George Frederick Handel (1685-1759) compôs esta peça em 1749. Foi a forma encontrada pela coroa britânica para celebrar o fim da Guerra da Sucessão, na Áustria, e a assinatura do Tratado de Aix-la-Chapelle, que tivera lugar em 1748. Música de pompa, para celebrar grandes acontecimentos.

domingo, 23 de setembro de 2018

STARDUST MEMORIES Nº 22: UMA DECISÃO IRREVERSÍVEL

A cena passou-se há muitos anos, algures no distrito de Beja. Discutia-se a chegada da luz elétrica a uma determinada localidade. E o que era necessário fazer para ultrapassar problemas ainda por resolver. Numa reunião com os habitantes da pequena localidade, o técnico da autarquia alongava-se em explicações técnicas. A linguagem que usava era pouco menos que cifrada. A dada altura disse, enfático, "é que a decisão é irreversível!". Uma senhora levantou-se no público e proclamou "pois eu não estou acordo; eu vou-me decidir por um Philips, que a minha filha já me disse são muito bons!".

Histórias de um País que já não é este.

PÓVOA E ESTRELA, VEZES DOIS

Não era exatamente o que queria ter feito... Há desequilíbrios de contraste, as fotografias foram feitas com diferentes aparelhos etc. E, bem entendido, tive de recorrer ao "arquivo" pessoal. A 200 quilómetros era difícil ter feito de outro modo. Mas gostei deste regresso. Dentro de dias, o regresso será real.

Participei em trabalhos fotográficos sobre três terras do meu concelho: Amareleja (2017), Moura (2001) e Santo Aleixo (2010). Pode ser que, um dia, a saga tenha continuidade... Prosseguir com a Póvoa e com a Estrela, isso é que era.




HOJE, NA PÓVOA DE S. MIGUEL

Não estou hoje, na abertura.
Mas verei a exposição, em breve. A despeito da minha crónica dificuldade de fotografar em grupo, gosto de marcar presença. Em especial em sítios como a Póvoa e a Estrela.

sábado, 22 de setembro de 2018

CACE

Em 2/3 do País isto é uma concha. No terço restante (o Alentejo) é um cace. Ainda ontem, ao almoço, ouvi dizer isso "um cozido de grão e nem um cace trouxeram...". O uso da palavra fora da nossa Pátria é motivo de gáudio. Tenho bem presente a hilaridade que provocava nos meus tempos de estudante que dizia cace e não concha. Palavra que, neste contexto, não uso. Em caso algum.

Tentem lá encontrar o étimo da palavra. Cace não existe, tal como não existe acarro. Em árabe cálice (no sentido de copo) é kas (v. grafia mais abaixo), soando exatamente como nós dizemos. Creio ser essa a origem da palavra que nós usamos. A menos que haja outra explicação devidamente "certificada", que desconheço.

Incluo aqui uma imagem do conhecido "Qissat Bayad wa Riyad", uma história de amor de finais do século XII/inícios do século XIII. A cena sugere vagamente uma qualquer vernissage, mas é na realidade uma situação habitual na vida da corte: um grupo ouvindo música, de kas na mão. O manuscrito está na Biblioteca do Vaticano.


quinta-feira, 20 de setembro de 2018

ENSINO INFERIOR

Virei a esquina da Av. D. Carlos I para a Rua dos Industriais. Dali até ao Palácio do Machadinho são menos de 300 metros. De dentro do ISEG vinham uivos. Pelo passeio espalhavam-se, de litrona na mão, os veteranos. Estavam a praxar. Ou, melhor dizendo, estavam a cretinizar. Tenho ódio profundo às praxes. Nos últimos dias, tem sido um fartote. As cenas são as habituais e não vale a pena perder tempo com descrições. Quando virei para a Rua do Quelhas, os guinchos prosseguiam. Os cretinizadores, de capa escura a fingir Academia, continuavam por ali. Acabou? Não acabou nada... À tarde, na estação de metro do Rato, um grupo de tontos - que no próximo ano também cretinizarão - subia as escadas ladrando, vigiado por um mais um par de veteranos.

A cretinização é a palavra de ordem em Lisboa, nas próximas semanas.

OS ANOS 70 NUNCA DEVIAM TER EXISTIDO - RAZÃO Nº 2: O CALÇADO MASCULINO

A meio da década, não havia macho latino que se prezasse que não andasse de cabelo comprido, casaco comprido, sapatos de tacão alto e mariconera...

quarta-feira, 19 de setembro de 2018

MAPPLETHORPE NO PORTO

Conheci a obra de Robert Mapplethorpe através do Black book. Polémicas à parte, é um livro extraordinário. Os nus masculinos são peças de referência na fotografia do século XX, tal como o são muitas outras obras dele, as de inspiração clássica, as naturezas-mortas, os retratos...

De amanhã até janeiro, já com visita marcada.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

UM FRANCO QUALQUER...

Aconteceu ontem.
Hoje a RTP veio pedir desculpa. É o mínimo.
A confusão dos nomes é lamentável. Já a imagem do Vale dos Caídos ultrapassa tudo o que se pudesse imaginar.
Amadorismo e ignorância de alto custo.