quarta-feira, 18 de maio de 2022

O MAR NOS TEUS OLHOS

I

É o mar, meu amor,
na febre dos teus olhos

é o manso fascínio
da onda que se inventa

É o mar, meu amor,
mestiço nos teus olhos

é o mirto, o queixume
a mansidão tão lenta

II

É o mar, meu amor,
o lastro dos sentidos
que afogas nos olhos
sem nunca te afundares

É o mar, meu amor,
que transportas nos olhos
e onde eu nado o tempo
sem nunca me encontrar

HORTA, Maria Teresa, Antologia Poética


PANTEÃO NACIONAL NO YOUTUBE

Hoje foi dia de celebrar o 18 de maio abrindo um novo canal de comunicação para o Panteão Nacional. Temos, a partir de agora, o "nosso" youtube. Abrimos com uma série de pequenos vídeos dedicados a João de Deus e concretizados em parceria com a Câmara Municipal de Silves.

Endereço: https://www.youtube.com/channel/UCsh4S7llpJkRH5wDgck4npg




segunda-feira, 16 de maio de 2022

UM JOVEM MOURENSE NO PANTEÃO

Aqui se dá nota da participação do jovem Rui Caeiro de um projeto de divulgação do monumento feito em parceria com a Videoteca da Câmara Municipal de Lisboa e com a coordenação, na área da música, de Paulo Amorim, do Conservatório Nacional.

Seis instrumentos musicais, seis intervenientes.

A flauta "coube" ao Rui. Haverá novidades, e a devida divulgação dentro de uns curtos meses.

FEIRA DE MAIO DE 2015: ENTRE A POP-ART E O CADAVRE EXQUIS

Faz hoje sete anos, precisamente. A recordação tornou-se mais forte, durante este fim de semana em Moura. Dias felizes, entre sexta e ontem à tarde, na minha terra.

Em maio de 2015 teve lugar a mias bonita exposição de abertura de que tenho memória. Não tive nela intervenção direta, apresso-me a clarificar. Mas aquele gabinete de comunicação era "uma coisa à parte".

Repito parte do texto de 16 de maio de 2015:

O grupo do gabinete de comunicação da Câmara Municipal, sob a batuta da minha amiga Paula Ventinhas, organizou a exposição de entrada da feira. Os bichos da Herdade da Contenda, vistos pela sensibilidade de artistas locais. Mais um momento festivo e de grande criatividade. Havia laivos de pop-art de pendor rural na entrada da feira.

O gabinete de comunicação fez isto e fará outras coisas melhores. Porque são capazes e porque contamos com eles. Tal como contamos com toda a equipa de trabalhadores que construiu a Feira de Maio. Este trabalho é um esforço de todos.











domingo, 15 de maio de 2022

O VENENO DOS TRÓPICOS

Este filme, a escolha da semana, já passou pelo blogue, há muitos anos. Muitos, mesmo. Retomo o texto, com alguns retoques:

Está tudo fora de tom. O filme (La habanera) passa-se, supostamente, em Porto Rico, mas foi rodado nas Ilhas Canárias, pouco antes do começo da 2ª Guerra Mundial. Todos os porto-riquenhos falam um alemão irrepreensível e a habanera (habanerrra, que é como eles dizem no filme) é originária de Cuba. Para além disso, repare-se no perfil nórdico da latina femme fatale do filme: alta, de pele branquíssima [Zarah Leander (1907-1981) tinha, na verdade, nacionalidade sueca], com mãos enormes e tranças à valquíria wagneriana.

O filme é um melodrama mas o resultado desta cena é mais divertido que outra coisa. Gosto, em especial, do ar xaroposo e apaixonadíssimo do homem mais velho...

Em português o título é O veneno dos trópicos e vi-o na Cinemateca há mais de 35 anos. O realizador, Detlef Sierck (1900-1987), emigrou, pouco tempo depois deste filme ter sido concluído, para os Estados Unidos. Americanizou o nome para Douglas Sirk, tendo-se tornado um reputado (reconhecido sobretudo após ter falecido...) director de filmes dramáticos.

quinta-feira, 12 de maio de 2022

FILOMENA BARROS: UMA HOMENAGEM

Tem lugar, a partir de amanhã, uma homenagem a Maria Filomena Lopes de Barros (1958-2021), uma querida amiga prematuramente desaparecida.

Tive a oportunidade de, ao longo dos anos, prestar homenagem ao conhecimento da Filomena. Sempre que se proporcionou, em momentos importantes, pegava no telefone e ligava-lhe "Filomena, vamos precisar da tua colaboração". Resposta sempre repetida "claro!". Foi assim que surgiram dois textos dela na "Arqueologia Medieval", em 1999 e em 2001. Uma colaboração que, infelizmente, não houve a oportunidade de repetir. Foi um prazer muito especial ter podido contar com a colaboração competentíssima da Filomena em três outros projetos em que tive responsabilidade de coordenação: "Memórias Árabo-Islâmicas em Portugal" (1997), "Portugal Islâmico" (1998) e, depois do meu longo interregno autárquico, "Guerreiros e Mártires" (2020). O próximo, para 2024, estava na calha quando ela nos deixou. "Claro que participo", foi a resposta que me deu, quando lhe expliquei o que iria ser feito. Já não escreverá, mas estará connosco quando o projeto chegar ao fim.

Prestei homenagem, repito, ao conhecimento de Filomena Barros durante a sua vida. Sinto-me compensado por isso.


















"Os Mudéjares em Portugal" in Memórias Árabo-Islâmicas em Portugal, Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses,1997, pp. 115 - 123

 

"Mouros e Mourarias" in Portugal Islâmico. Os Últimos Sinais do Mediterrâneo, Lisboa, Museu Nacional de Arqueologia, 1998, pp. 289-294

 

“Poder e poderes nas comunas muçulmanas” in Arqueologia Medieval, nº. 6, Porto, Ed. Afrontamento, 1999, pp. 73-78

 

“A comuna muçulmana de Lisboa: paradigma institucional” in Arqueologia Medieval, nº. 7, Porto, Ed. Afrontamento, 2001, pp. 243-247.

 

“Identificação de um país: a vivência muçulmana sob domínio cristão” in Guerreiros e mártires – a Cristandade e os Islão na formação de Portugal, Lisboa, Imprensa Nacional/MNAA, 2020, pp 124-131

quarta-feira, 11 de maio de 2022

EUGENIO AMPUDIA: SOS, O TEMPO E A FINITUDE

É um projeto de grande importância, o que Eugenio Ampudia irá apresentar a partir de 18 de maio, no Panteão Nacional. Teve, em Portugal, curadoria de D. André de Quiroga. Uma instalação visual que é um alerta num mundo em crise.

O projeto é assim explicado pela curadora Blanca de La Torre:

Se trata de una intervención luminosa que invade los vanos de la fachada del museo a partir de una serie de leds que emiten la señal internacional de socorro en código morse. Tres puntos, tres rayas y otros tres puntos. S.O.S.

Este mensaje de auxilio, emitido por una institución cultural – y pública- se convierte así en el signo de la contemporaneidad. Signo inestable y señal intermitente. Intermitente, como el contenido que alberga el propio museo, un contenedor de arte que de por sí se ha acostumbrado a vivir en ese estado, ese de permanente inconstancia.

El artista, como un agente intermediario de lo colectivo, lanza así una petición de ayuda hacia una cultura agonizante, en un lenguaje básico como el morse, un lenguaje universal, como el que el arte pretende ser. En realidad el arte siempre ha emitido señales, pero en situaciones de emergencia se hace necesario buscar algo mas directo, tal vez incluso teniendo que recurrir a lo literal.A la vez apela al gesto de la impotencia, a esa petición de ayuda que en realidad viene emitiéndose largo tiempo ya, y la respuesta siempre es la del barco que sabe que va a naufragar, que el faro continua apagado, que el rescate no va a producirse. Que la única respuesta posible es la del sistema, cuya contestación no se traduce más que en indiferencia y beneficio personal.

Un augurio de un final que se avecina o lo que es aun peor, un endémico canto del cisne en modo de intermitente réquiem.

Ver - http://www.eugenioampudia.net/es/portfolio/s-o-s/

De 18 a 22 de maio, no Panteão Nacional.



terça-feira, 10 de maio de 2022

A ALTÓMETÔRA, ASSIM LENTAMENTE

Defina-se a expressão "melhorar" sff.

E recordem-se todas as promessas feitas em torno das ferrovias alentejanas. E mais as horríveis banalidades com que somos brindados em cada Ovibeja:

Oh, sim, o interior;

Oh, claro, o cante alentejano;

Oh, sem dúvida, o Património;

Oh, pois evidentemente, o queijo e os enchidos e mais o vinho.

Oh, sim, é tão lindo a Alentejo...




O TVG, ASSIM RAPIDAMENTE

Conclusão nº 1: antes da reforma, se lá chegar..., não ando de TGV (a troca no título tem a ver com uma amiga minha que se enganava e dizia sempre ao contrário 😊) em Portugal. Primeiros troços em 2028? Até Soure? OK.

Conclusão nº 2: achei alguma graça (não muita, só alguma) ao ler que o TGV é útil ao interior. Não se explica como mas, como diria a Teresa Guilherme "isso agora não interessa".




segunda-feira, 9 de maio de 2022

TURANDOT E O POLITICAMENTE CORRETO

Ao ler o programa de Turandot, no passado sábado, não pude deixar de me rir um bocadinho. It shouldn’t be surprising then that many audience members of Chinese descent find it difficult to watch as their own heritage is co-opted, fetishized, or painted as savage, bloodthirsty, or backward? OK, muito bem, está feita a contextualização. E agora o quê? Vão proibir a ópera? Ou é só para nos explicarem que Puccini era preconceituoso e insensível e tal? OK, já percebemos. E depois, repito?










Read the program note for Turandot, which includes a discussion of the opera’s cultural insensitivities.

We must also consider the criticisms that Turandot—and Puccini’s appropriation, reconfiguration, and reharmonization of Chinese music—has received in recent years. As Ping-hui Liao, a professor of literary and critical studies at the University of California, San Diego, argues, despite the composer’s attempts at authenticity, “when the material is drawn from another culture, as in the case of Madama Butterfly or Turandot, it is integrated and ordered so that it becomes intelligible, controlled, and agreeable ... the melodies are so well integrated that they lose their own autonomy and become part of a larger whole. In distinguishing between East and West, [Puccini] makes the former subservient to the latter.” Or, as Carner wryly suggests, while the Chinese characters don “national musical costume throughout ... this costume may bear the trademark ‘Made in Italy.’” It shouldn’t be surprising then that many audience members of Chinese descent find it difficult to watch as their own heritage is co-opted, fetishized, or painted as savage, bloodthirsty, or backward.

The question then becomes how to appreciate Turandot—which features some of Puccini’s most ravishing melodies, scenes of truly remarkable musical and theatrical grandeur, and opportunities for the kind of show-stopping vocal displays that lie at the core of the art form’s appeal—in a way that both celebrates its achievements and acknowledges the problems inherent in it. As we raise our collective consciousness of its faults, it is essential that, rather than shying away from the less-savory aspects of the opera, with each subsequent revival, audiences recognize and grapple with their implications. For only through awareness and conversation, which must increasingly expand to include a wider array of voices and points of view, can the world truly understand Turandot as the thrilling yet problematic masterpiece that it is.

domingo, 8 de maio de 2022

DANÇANDO NA ÁGUA

Esta cena de "Um americano em Paris" foi aqui lembrada há mais de 10 anos. É um grande momento de um filme que se arrisca a ser eterno. Gene Kelly e Leslie Caron dançam numa fonte. Isto acontece quando a água se converte em Arte.




sábado, 7 de maio de 2022

MÉRTOLA / MESQUITA / DUARTE DARMAS

Segunda apresentação do senhor Duarte Darmas, agora mais "específica" e em torno de um monumento de Mértola. Mantenho, a título pessoal, a tradição de participar em todos os festivais islâmicos. Desde a primeira edição. Em 2022, e para minha surpresa, em dose dupla.

Dia 20, às 20 horas.

Programa - https://www.festivalislamicodemertola.com





NO MULTIPLICAR É QUE ESTÁ O GANHO

Não conheço - espero poder ter, como cidadão, informações sobre isto - os detalhes do acordo feito com Portugal e que implica o pagamento de 11 milhões por ano à organização da Web Summit. Haverá uma cláusula obrigando a exclusividade? "Lisboa mantém evento na Europa". Aguardemos.

sexta-feira, 6 de maio de 2022

CONHECER O PANTEÃO - III

Vai ter lugar, no próximo dia 10, a terceira conferência do ciclo "Conhecer o Panteão". Será convidada a Dra. Helena Mantas (S.C.M.L.), que intervirá sobre "Uma vitória moral para a Nação: Santa Engrácia, de igreja inacabada a Panteão Nacional".




GESTÃO DA MUDANÇA E LIDERANÇA

E segunda-feira teremos, ao final da tarde, um convidado no seminário de Gestão e proteção do património arqueológico. Um gestor a falar de arqueologia? Não necessariamente. Mas é importante que se percebam o que são os processos de gestão e de decisão e a importância de palavras como liderança e mudança.

Literalmente, uma aula fora da caixa.

ENTÃO, VAMOS A MAIO

Durante o mês de maio é este o planeamento do Panteão Nacional. Programar / estudar / divulgar / publicar / expor. E aumentar o número de visitantes, o que tem sido conseguido. O caminho é esse. E, até ao final do ano, está já traçado.

 

INCIATIVA

DATA

 Exposição “Pantheon & Panteão”

(até 14.7.2022)

continua 

Exposição “Evocação de Sidónio Pais”

(até

22.5.2022)

continua

Homenagem a Sidónio Pais

1.5

12 h.

𝑬𝒍𝒆𝒈𝒊𝒂 – Atelier de Artes Performativas, pela Escola Artística de Música do Conservatório Nacional, com a participação de alunos do Afghanistan National Institute of Music.

7.5

16 h.

Gravação de seis vídeos

9 e 10.5

Conferência – Helena Mantas (S.C.M.L.)

10.5

18 h.

Lançamento do canal YouTube do Panteão Nacional

18.5

(a confirmar)

Instalação visual – SOS (Eugenio Ampudia)

19 a 22.5

(depois das 21 h.)

Concerto – música irlandesa para flauta e harpa (Joana Amorim e Rebeca Csalog)

22.5

18 h.

Exposição “Casa Museu Manuel de Arriaga – 10 anos”

24.5

10 h.

(até 28.8)

Concerto Orquestra Geração

29.5

18 h

Panteão Nacional – modos de ver: exposição de uma obra de Nikias Skapinakis

31.5

10 h.

 




quinta-feira, 5 de maio de 2022

OS CÁLAMOS DO MANUEL

Teve hoje início, com a apresentação de "Duarte Darmas - do cálamo ao drone", em Évora, a fase final deste projeto. Em breve estará terminada a exposição, a montar na sede da CCDRA, entidade fundamental para a concretização de tudo isto.

Houve um momento extraordinário. O meu amigo e colega Manuel Branco presenteou-me com três cálamos, o que me permitiu mostrar à sala como eram esses elementos de escrita.

O livro está terminado. O site está on. O resto começa a ser concluído amanhã às 10 horas.

quarta-feira, 4 de maio de 2022

AS MÁSCARAS, AS VACINAS E O CONTROLE DAS MENTES

Ao passar, há pouco, por um dos raros locais onde é obrigatório o uso de máscara não pude deixar de constatar o sucesso que foi a campanha de vacinação e todo o conjunto de procedimentos em torno do COVID. Já uma vez escrevi aqui sobre isso, em dezembro de 2020, quando o candidato liberal à Presidência da República Tiago Mayan acusou a Ministra da Saúde de ser responsável por 10.000 mortes. Uma afirmação inaceitável que não teve consequências. Fosse ele do PCP...

Para trás ficaram os negacionistas de vária índole, os terraplanistas da medicina e toda a casta de palermas que achava (ainda achará?) que as medidas restritivas se destinavam a controlar os cidadãos e que tudo isto era um "big brother" em forma de seringa.

Usei máscara sempre que tal foi indicado. Tomei as vacinas quando as autoridades de saúde o disseram. Restringi a vida social da forma que fui aconselhado. Às vezes não fui 100% disciplinado, admito-o. Nem sempre fiz tudo certo. Às vezes aceitei de má catadura. No meu círculo próximo, vi muita gente atuar do mesmo modo. Cumprindo e acatando. O pior já lá vai. Sem Big Brother. 



terça-feira, 3 de maio de 2022

MÁSCARA Nº. 5: SIDI BOU SAÏD

Passei várias vezes por Sidi Bou Saïd e não consigo agora ter a certeza da data desta fotografia. Talvez 2004 ou 2007...

Mais uma cara, na esquina de um beco.


segunda-feira, 2 de maio de 2022

PANTEÃO NACIONAL & PODER LOCAL

O Panteão Nacional assinalou, ontem, o 150º. aniversário do nascimento de Sidónio Pais. De entre de todas as entidades que foram convidadas, puderam estar presentes, para além da família, o Dr. Miguel Alves (Presidente da Câmara Municipal de Caminha) e o Doutor José Manuel Silva (Presidente da Câmara Municipal de Coimbra). Achei particularmente significativas estas presenças, até pelo facto de Sidónio Pais ter sido, ainda que transitoriamente, Presidente da Câmara de Coimbra. 

Se nunca é demais sublinhar a importância do Poder Local, a presença de dois autarcas na cerimónia vinca bem a importância das autarquias na preservação da nossa memória coletiva.

domingo, 1 de maio de 2022

ARTUR PASTOR: 100 ANOS

Faz hoje 100 anos que nasceu Artur Pastor, um fotógrafo extraordinário e que tem vindo, nos últimos anos, a ser revalorizado.

Vale a pena faz uma pesquisa na net e ver o que nos devolve o nome deste alentejano de Alter do Chão. Tenho a convicção que a história do século XX português não poderá ser feita sem a ajuda de metódico arquivo de imagens que Artur Pastor nos deixou.

Esta mulher com bioco, de Olhão, terá sido fotografada entre 1943 e 1945. Artur Pastor teria entre 21 e 23 anos. Notável, no mínimo.


AUTARQUIAS RIGOROSAMENTE DOMESTICADAS

As autarquias têm sido, e começam a ser cada vez menos, uma das mais belas criações do 25 de abril. Há dias, conversava com um amigo, que me contrapunha as vantagens dos sistemas italiano e espanhol, em detrimento da nossa muita compartimentada organização municipal. Contra-argumentei com factos simples: 1) A Coroa de Aragão só foi formalmente extinta no início do século XVIII (e o problema de fundo permanece por resolver) e 2) Itália é uma criação oitocentista. Espanha baseia-se em regiões/reinos antigos, Itália viveu a partir de verdadeiras cidades-estado, poderosas e independentes. Portugal teve Lisboa, muita paisagem e um poder local sempre incipiente, apesar da tradição municipalista.

         As autarquias, renascidas a partir de 1976, foram um verdadeiro e generoso achado do 25 de abril. Recolocava-se em cada local a decisão do seu destino, dotando os concelhos de meios para trabalhar. As Leis de Finanças Locais têm, contudo, o insólito recorde de nunca terem sido cumpridas. Nunca. Nem uma só.

         É verdade que as autarquias foram ganhando peso, que se fizeram, em todo o País, coisas extraordinárias e inovadoras. Que o País deve muito às autarquias é algo que não merece grande discussão. Mas não é menos verdade que foi esquecida uma lei fundamental: o poder não se partilha, conquista-se. E assim, lentamente, pouco a pouco, o Poder Central foi empurrando para as autarquias as tarefas mais rotineiras e menos interessantes. Orçamentos maiores, mas amarrados a mais despesas correntes. As mais recentes “transferências de competências” (do agrado de muitos autarcas, que assim passam a dispor de um verdadeiro poder de redistribuidores de pequenas benesses) são uma verdadeira armadilha, que ameaça fazer implodir muitas Câmaras Municipais. Leio frases extraordinárias e deprimentes, como a de um presidente de câmara que afirmou "o Município de [...] irá garantir um milhão em vencimentos". Recebe-se dali, paga-se aqui. Ou seja, a assunção da menoridade de um cargo em todo o seu esplendor.

Carlos Moedas, presidente da Câmara de Lisboa, veio dizer há dias que "não podemos ser tarefeiros do Governo”. Sem dúvida. Tem toda a razão. Vale a pena recordar que há autarcas que foram governantes e há governantes que foram autarcas. Vale a pena recordar isso. Porque, sei-o por experiência pessoal, o País precisa de um Poder Local forte, autónomo, independente e transparente. E não de autarcas-funcionários com a missão de assinar cheques.


Crónica em "A Planície"


sábado, 30 de abril de 2022

RECORDANDO T.S. ELIOT

Este poema passou por aqui há exatamente 11 anos. Não há coincidências (tenho grande dificuldade em acreditar em coincidências, por mais que me digam que elas existem). Chega ao fim abril, recordando T.S. Eliot (1888-1965). E um excerto de The waste land.













Abril é o mais cruel dos meses, gerando
Lilases na terra morta, misturando
A memória e o desejo, atiçando
Raízes inertes com a chuva da primavera.
O inverno manteve-nos quentes, cobrindo
A terra com a neve do esquecimento, alimentando
Um pouco de vida com tubérculos secos.


April is the cruellest month, breeding
Lilacs out of the dead land, mixing
Memory and desire, stirring
Dull roots with spring rain.
Winter kept us warm, covering
Earth in forgetful snow, feeding
A little life with dried tubers.

sexta-feira, 29 de abril de 2022

DUARTE DARMAS - APRESENTAÇÃO PÚBLICA NO DIA 5 DE MAIO (em ÉVORA)

O projeto "Duarte Darmas - do cálamo ao drone" vai ser apresentado ao público no próximo dia 5 de maio, às 18 horas, em Évora.

Será lançado o livro e apresentada a exposição itinerante, que tomará forma em breve, e o documentário que fechará o projeto, e que está em fase de produção.

Ao longo de quatro anos foi sendo desenvolvido um plano de trabalho. O que foi feito?

* Uma comparação entre o que Duarte Darmas viu e o que hoje pode ser visto. Como? Usando um drone, e uma vez que as perspetiva apresentadas pelo desenhador são uma artificiosa criação;
* Uma leitura gráfica usando o desenho do século XVI e fotografias aéreas atuais;
* Um ficha explicativa por cada sítio, com detalhe para os espaços registados com maior pormenor.

Nos próximos meses, o projeto de Duarte Darmas estará, em definitivo, encerrado. Já não era sem tempo.


quinta-feira, 28 de abril de 2022

"PESSOAS COM FOME NÃO TÊM VONTADE DE CULTURA"

Isto foi dito ontem, numa Assembleia Municipal, algures no Alentejo. Deixo o desafio de se dizer onde e qual o partido da vereadora que o disse.

É improvável que uma pessoa cheia de fome tenha como primeira preocupação ler Camões. Mas aquela afirmação é das piores que já tenho lido. Porque coisifica o Ser Humano e o transforma num conjunto de necessidades básicas. De acordo com este brilhante raciocínio, os países pobres e mais carenciados nunca poderiam produzir Cultura.

Satisfaçam-se necessidades básicas, a todos os níveis. Cito o célebre Decreto-Lei n.° 27 279, de 1936: «O ensino primário elementar trairia a sua missão se continuasse a sobrepor um estéril enciclopedismo racionalista, fatal para a saúde moral e física da criança, ao ideal prático e cristão de ensinar bem a ler, escrever e contar e a exercer as virtudes morais e um vivo amor a Portugal". Era ministro da Educação Carneiro Pacheco. Era presidente do conselho Oliveira Salazar. É preciso dizer mais?

Leia-se:

http://analisesocial.ics.ul.pt/documentos/1223915576N2uIW7kz6Wc55GA7.pdf

Do fotógrafo lituano Balys Buračas (1897 - 1972):

MOURA: PS E CHEGA CHUMBAM MOÇÃO SOBRE O 25 DE ABRIL e o 1º DE MAIO

O texto foi-me remetido há pouco. Ante alguma polémica, a CDU propôs-se retirar os pontos 6 e 7 da moção. Qual quê... PS e CHEGA uniram esforços para votar contra, na Assembleia Municipal de ontem. O CHEGA ainda percebo... Já o que PS de Moura defende é uma lógica sem lógica, sem princípios nem valores. Uma navegação à vista, feita ao acaso e com "casamentos" como este. Em momentos assim, tenho pena do meu concelho.





quarta-feira, 27 de abril de 2022

MUDÉJAR A SUL - OUTRAS GEOMETRIAS

No mudejarismo do sul, a madeira cedeu lugar ao tijolo. À sofisticação das laçarias na madeira respondem as abóbadas em tijolo e as paredes brancas e quase sem aberturas ao exterior do chamado “gótico alentejano”. A expressão mudéjar alentejana reflete-se na chamada grelha do passadiço do Paço dos Infantes, obra em tijoleira de finais do século XV e que fazia a ligação entre o paço dos duques de Beja e o mosteiro de Nossa Senhora da Conceição. Uma peça extraordinária.

A fotografia é de Jorge Maio.


terça-feira, 26 de abril de 2022

TARRAFAL

O autor da fotografia é Mário Murteira (1933-2013) um economista com percurso muito importante nas áreas da Cooperação e do Desenvolvimento. Fui autorizado a publicá-la pelo seu filho, e meu amigo, Jorge.

Passou por mim uma onda de boa disposição, ao ver o elaborado nome deste barco, pousado na praia do Tarrafal. A praia tinha barcos, a última vez que lá fui. Espero que ainda tenha. O nome do barco é uma verdade absoluta. Espero que no Tarrafal se mantenha este espírito sardónico. Que tanta falta faz.


segunda-feira, 25 de abril de 2022

AS PORTAS QUE ABRIL ABRIU

Quem ninguém mais as cerre é missão nossa. Nada está garantido.



domingo, 24 de abril de 2022

REGRESSAR

Uma das mais belas sensações é a da pertença a um sítio. Afortunadamente, raro privilégio, tenho dois: Mértola e Moura.

Hoje, sem previsão nem programa, fui parar ao Trail de Moura, uma organização da Casa do Benfica local. Horas felizes, revendo amigos e conversando aqui e ali.

Este regresso, que já ontem tinha tido um "prefácio", ontem na Estrela, vincou-me uma certeza. Este(s) serão o local do regresso mais firme, daqui por algum tempo.

Claro está que o trabalho de investigação arqueológica sobre o sítio-Moura não irá parar. Ponto.


sábado, 23 de abril de 2022

HAVERÁ ALGUMA EXPLICAÇÃO?

Em 2017 reabilitou-se este monumento e editou-se um CD, homenageando o maestro José Coelho. Cinco anos volvidos, o monumento está neste estado. Pergunta: haverá alguma explicação?


sexta-feira, 22 de abril de 2022

MÁSCARA N°. 4: FUNCHAL

Mais uma "cara", esta no átrio de entrada do fantástico Museu de Arte Sacra Funchal. Hoje, ao início da tarde.

Na procura da face humana dos sítios.


 

CÉU GEOMÉTRICO

Em 2020, não pude rever o teto mudéjar da Sé do Funchal. Havia de recuperação e um véu branco cobria o céu dentro da igreja. Terminadas as obras, a cobertura é visível, em todo o seu esplendor. E que esplendor! Um trabalho tardio onde, no detalhe, vemos as influências do Renascimento.

O geometrismo está agora mais claro e mais colorido? Sim. Este mudéjar é uma arte do sul mediterrânico? Nem tanto... Não esqueçamos o teto da matriz de Caminha, obra de "biscainhos". No Alentejo há este mudéjar? Não, no Alentejo há tijolo e há cal. Temos o gótico alentejano... E a espantosa grelha do Museu de Beja.







quinta-feira, 21 de abril de 2022

CHÁ, CAFÉ OU LARANJADA?

É uma frase emblemática mas, na verdade, nunca a ouvi. Também nunca viajei tanto assim.
Lembrei-me dela ao receber uma SMS, depois de fazer o check-in para uma viagem logo à noite. Agora é tudo pago... E é para quem quer.
O "glamour"? Ora, ora, onde isso já vai...



quarta-feira, 20 de abril de 2022

ANTES E DEPOIS

Há sempre um antes e um depois. Em vários trabalhos me tenho ocupado desse verdadeiro jogo de espelhos que consiste em contrastar realidades. Como era e o que aconteceu. Não deixa de ser uma certa atenção arqueológica à realidade, mas a verdade é que dois trabalhos recentes "andaram" muito por aí.

Há dias, reparei nesta imagem antiga do 28. A fotografia foi feita no Cais do Sodré. Ao fundo, à direita, vê-se o edifício que alberga a Inspeção-Geral das Atividades em Saúde. A de baixo é em Santa Apolónia.

O 28 agora é 728 e vai até à Portela. Apanho-o com regularidade para ir até perto do Palácio Nacional da Ajuda. Nunca há apertos e a rede wifi funciona bem.