sexta-feira, 23 de julho de 2021

AMÁLIA - 101

Início da manhã com uma visita da Fundação Amália Rodrigues. A fadista cumpriria hoje 101 anos.

A parte mais comovente é a dos anónimos que pedem para entrar só para colocar flores. Um ritual que não esmorece. E que hoje, uma vez mais, se está a repetir.


quinta-feira, 22 de julho de 2021

STARDUST MEMORIES N°. 55: O HOMEM, ESSE INVENTOR

Há muitos anos, mas muitos mesmo, que não me lembrava deste livrinho, publicado entre nós pelas Edições Salesianas. Não me lembro como foi parar lá a casa, mas sei que o li durante a minha 4ª. classe (1972/73). A edição original era de 1956 e o livro tinha alguns "arcaísmos", dos quais só me dei conta depois. E era escandalosamente parcial e italianíssimo, o que não é de estranhar sendo os seus autores daquele país: Dino S. Berretta e Roberto Costa.

Foi uma leitura estimulante e que me foi recordada agora, ao seguir os passos de um certo desenhador quinhentista, que bem merecia o título de Duarte Darmas, esse inventor...


UMA PARAGEM COM ESPERANÇA

A próxima paragem é sempre o futuro. Como neste inspirado cartaz da CARRIS. É essa, sempre, a nossa esperança.

No meio de uma semana mais tranquila dei comigo deitando contas à vida e aos 4 meses no novo local. E aos meses que virão: uma temporada de concertos a partir de outubro, uma exposição em fevereiro, outra em março, a edição de livros, a homenagem a Aristides de Sousa Mendes e mais alguns etc..

Quase a fechar o ciclo Duarte Darmas e da arquitetura do século XX está na altura de mudar de rumo. Sempre com esperança.


quarta-feira, 21 de julho de 2021

O DIREITO DOS MAIS RICOS À ESTRATOSFERA

E eis que leio isto no twitter:

Não vivemos num país livre quando não podemos pagar cuidados de saúde, habitação, cuidados infantis e temos de trabalhar até cair para o lado enquanto alguns malditos multimilionários nos pagam salários de miséria para poderem usufruir de uma viagem ao espaço financiada pelos contribuintes. Isso é uma série de coisas, mas não é liberdade.

O autor da frase não é um radical marxista. Chama-se Warren Gunnels e é um dos principais conselheiros de Bernie Sanders. Não creio que a nossa comunicação social "lhe pegue". Ou se ocupe com a opressiva condição dos trabalhadores na Amazon. Anda demasiado ocupada com as bambochatas do costume sobre Cuba...


CLÁUDIO TORRES, MAIS UM RECONHECIMENTO (E ANTES QUE HAJA A TENTAÇÃO DA REESCRITA DA HISTÓRIA)

É mais um prémio? De facto, é mais um prémio. Mas é sempre, seguramente, muito mais que isso. Fiquei muito contente ao tomar conhecimento hoje deste reconhecimento. Este galardão, atribuído pela Associação de Municípios com Centro Histórico, soma-se a muitos outros. Ainda bem.

Conheço bem o valor e a importância de Cláudio Torres. Trabalhei com ele de muito perto, ao longo de quase 15 anos. Sei bem o que ele representou para tantos e tantos ao longo de décadas.

Mértola não seria o que é sem o Cláudio. Ponto. Já por várias vezes o tens escrito e hei-de repetir isso, e poderei demonstrar o que digo, tantas vezes quantas for necessário.

Há sempre a tentativa de reescrever a(s) História(s). No que a Mértola diz respeito cá estarei/estaremos para por a verdade nos carris. Até porque o Cláudio não é uma qualquer esquina dos acontecimentos. Como esta distinção vem agora recordar. Uma vez mais.



terça-feira, 20 de julho de 2021

MOURA "FORA" DA ORDEM DO HOSPITAL...

Li a notícia no site da Rádio Planície. Li-a com surpresa e tristeza. O Município de Moura não participará numa iniciativa que envolve os outros municípios da raia que integraram a Ordem do Hospital: Aracena, Serpa e Aroche. Não se percebe como é que o principal município da região pode ficar de fora.

Em 2019, Moura participou. Nesse inverno tive o prazer de ir a Aracena dar uma conferência sobre o Castelo de Moura. Irei repeti-la, neste verão, na minha terra. Pelo menos em espírito o nosso concelho irá estar presente.




NOSTALGHIA

Fé e pensamento mágico. É o final do filme "Nostalghia" (1983), de Andrei Tarkovsky (1932-1986). Vi-o por essa altura, meados dos anos 80, com a estranha sensação de assistir a algo irrepetível.

Há muito tempo que a queria ter aqui colocado, mas só agora a encontrei, na sua versão total, ou seja, juntando a cena da piscina ao final do filme. É o meu plano-sequência preferido. Pergunto-me, cada vez mais, se ainda há espaço para filmes assim.



segunda-feira, 19 de julho de 2021

FOI QUASE FESTA

2020 foi um ano de paragem total, 2021 deu alguns sinais positivos. Fica a esperança de um recomeço em 2022. Não chegou a ser bem Festa, mas sentiu-se a vontade de que houvesse.

Foi pena isto assim? Foi. A começar pela Comissão de Festas, cuja capacidade e energia mereciam muito melhor sorte.

No dia 14 de julho de 2022, uma quinta-feira, tudo recomeçará. Tenhamos esperança de que tudo será melhor, na próxima Festa de Nossa Senhora do Carmo.




sábado, 17 de julho de 2021

O CARMO

Na realidade, o desenhador do século XVI escreveu "ho carmo", mas essa grafia é-nos hoje incompreensível.

Era assim o Convento de Nossa Senhora do Carmo, em Moura, por volta de 1510. Hoje, a fachada é muito diferente, claro. A igreja enquadrava-se no que hoje conhecemos como gótico alentejano. Um certo "ar de família" está presente, por exemplo, nas igrejas de Viana do Alentejo e de S. Brás (Évora), com os contrafortes cilíndricos e os coruchéus cónicos. A igreja de Moura, com três naves, e o corpo central mais alto, tinha uma certa imponência. O convento começava a prosperar.

Ontem foi dia de Nossa Senhora do Carmo, padroeira de Moura.






quinta-feira, 15 de julho de 2021

DUARTE DARMAS, COM PÉ DE CABRA, FORCEPS etc.

Um "parto" lento e difícil...

Centenas de fotografias, filmagens a partir de um drone e umas dezenas de páginas de texto e a maquetagem arrancou. Mais tarde do que gostaria, mas arrancou.

Os primeiros sítios foram Moura e Mértola, por evidente e próximo conhecimento dos locais. A comparação nem sempre foi fácil ou evidente, por razões que explicarei no livro. Numas, porque o crescimento da localidade dificulta a sua leitura (como no caso de Elvas), noutras porque Duarte Darmas mostrou o sítio do modo que lhe era "conveniente" (como no espantoso exemplo de Nisa).

Livro e exposição no outono, que "o pior" já lá vai. Fica só um excerto do que vai ser a capa - um trabalho mais que inspirado do Pedro Cabral Gonçalves -, em jeito de teaser.



quarta-feira, 14 de julho de 2021

SAN FRANCISCO ON TAGUS

Erros todos cometemos. Todos. Tenho um par deles (vários pares deles...) na minha carreira. A minha preocupação é evitar os erros disparatados, absurdos e ridículos.

Hoje, mandaram-me uma fotografia deste outdoor. Custa a crer. Custa mesmo. Ilustrar um Festival Estoril Lisboa com uma fotografia da Golden Gate? "Ó Zé, chega-me aí uma foto da Ponte sobre o Tejo? Sim, é vermelha, é!"


terça-feira, 13 de julho de 2021

ASSOCIAÇÃO PORTUGUESA DE MUSEOLOGIA: 2021/2024

Há "vida" para lá dos mandatos autárquicos? Há, claro que sim. Para quem tem vida profissional, há. Para quem não tem, passa por um processo de boyização, saltando de cargo em cargo.

Nesta fase, há desafios profissionais mais diretos (como o do monumento que dirijo), outros menos diretos. Neste último "setor" está a Associação Portuguesa de Museologia, cujos corpos sociais passei a integrar. A tomada de posse foi esta tarde, no Palácio Nacional da Ajuda.



segunda-feira, 12 de julho de 2021

AO TEMPO DE CONSTANTINO - MODA PRIMAVERA/VERÃO

Foi um dos pontos de arranque de um trabalho já com umas décadas. Os mosaicos da Villa del Casale, na Sicília, serviram de inspiração para um par de páginas. O sítio deve ser espantoso - ainda não perdi a esperança de um dia ir à Sicília... - e as publicações em torno do sítio arqueológico em Piazza Armerina pautam-se por uma elevada qualidade.

As cenas com animais são interessantes? São, mas o mais engraçado são as mulheres em algo semelhante a um biquini, estávamos ainda muito longe das bombas e da providencial inspiração que isso deu a Louis Réard (1896-1984).

Estas senhoras - as do mosaico - parecem saídas de um catálogo de moda primavera-verão, algures nos inícios do século IV.

Sobre a Villa del Casale ver: https://www.villaromanadelcasale.it/


NA MORTE DE UM HUMORISTA

Quando a morte de um humorista cria uma peça de humor... Vi, por várias vezes, a referência a "desenhador de Moura". Fiquei mais que intrigado. Vasco (1935-2021) conhecido e mais que talentoso desenhador, era transmontano e não tinha qualquer dado que o ligasse à minha terra.

Desenhador de Moura? Não! Desenhador de humor. O DN põe isto (e ainda não corrigiu) na página de cultura. Não me parece nada mal.









domingo, 11 de julho de 2021

CDU - MOURA 2021

Das 16:35 às 03:00. Saída e chegada. Menos de 11 horas entre Amadora, Sobral e Amadora. Com passagem pela Casa do Benfica, em Moura. Valeu a pena? Se valeu! A apresentação dos candidatos da CDU no Sobral foi mais um passo numa caminhada que me parece cada vez mais importante.

O meu compromisso é com estes meus camaradas e amigos (com o André Linhas Roxas, com a Helena Costa, com o Bruno Monteiro e com todos os outros!). Estarei presente ao longo deste verão, e depois do verão. Tudo farei para contribuir nesta renovada esperança.

Tal como me é cada vez mais claro que este sítio (este meu concelho de Moura) é, cada vez mais, o meu território. Para sempre.





FOI HÁ 5 ANOS

Fez ontem cinco anos. Gosto quase tanto daquela imagem do autocarro da empáfia, da sobranceria e da arrogância (Campeões da Europa 2016 / Orgulhosos de ser azuis), antes do jogo, como do pontapé de Eder.

Na noite da vitória portuguesa, a Torre Eiffel iluminou-se com as cores de França. Parece que havia um regulamento. Adoro regulamentos.



sábado, 10 de julho de 2021

DESENHADORES NO PANTEÃO

Começou às 10 e vai até às 13. Os Urban Sketchers estão, hoje de manhã, de "assalto" ao Panteão, numa iniciativa que deu muito prazer em organizar, em conjunto com a USKP, à nossa micro-equipa. Um grupo simpático de desenhadores (ou sketchers, se preferirem), ao qual foi dado acesso a sítio menos habituais: o coro baixo e o zimbório. Haverá partilha de desenhos e uma publicação.

Sou quase imune à inveja. Duas exceções: pessoas que sabem desenhar e tocar um instrumento musical.



sexta-feira, 9 de julho de 2021

MADAME LA MARQUISE

Agora que tanto se fala em marquises, eis uma, num edifício público, na Rua do Jardim do Tabaco. Almoço, com regularidade, na esplanada em frente, perguntando-me "como é que é possível?". É possível porque, como diz uma velha amiga de Reguengos, há coisas que não têm explicação.



EM VILA FRANCA DE XIRA, MAS SÓ EM ESPÍRITO

A inauguração é amanhã à tarde, mas a essa hora estarei a caminho de Moura.

"Estou" na exposição, mas não para já, tanto quanto percebi pela conversa com Jorge Calado, alma da iniciativa. Na impossibilidade de mostrar tudo de uma só vez, haverá rotação de fotografias, daqui por uns meses.

A coleção reúne 375 fotografias de mais de 175 artistas de 25 nacionalidades, que fotografaram em 60 países dos 5 continentes. Um dos 175 é um amador mourense, autor deste blogue.

"A família humana" vai estar patente em Vila Franca de Xira até maio do próximo ano.

quinta-feira, 8 de julho de 2021

GUERRA FRIA E DETERGENTES QUENTES

Juro que isto é verdade!
Em 1975 ou 1976 houve um debate no 1º canal (nome da RTP 1, nessa altura). Era um programa de defesa do consumidor, moderado por Pitacas Antunes. Havia três modelos em confronto: o das multinacionais (representado pelo detergente SKIP), o das multinacionais com incorporação de tecnologia portuguesa (representado pelo detergente RENAMATIC) e das empresas maioritariamente nacionais (e aqui entrava o detergente XAU). Não me lembro o que se passou, mas sei que a discussão foi dura. Lá em casa, aquilo deu direito a claques esquerda/direita e tudo.

Lembrei-me disso hoje, ao encontrar este espantoso anúncio (do qual me recordo) no facebook. Data de maio de 1976, segundo a informação que me avançaram. EUA vs URSS através da exibição de filmes? Sim, na altura tudo era possível.


MONTE NEBO

Andando aqui às voltas com papéis fui dar com esta fotografia, feita no final de 2006, na Jordânia. Foi o sítio onde Moisés morreu, sem ter chegado à Terra Prometida. Do Monte Nebo via-se o que ele nunca atingiu. Poder-se-ia ter perguntado, como Vinicius de Moraes no poema, se tinha chegado ao fim de todos os caminhos. Curiosamente, na porta da igreja faltam o alfa e o ómega, que marcam o início e o fim das coisas...

A finitude das coisas é-me mais evidente no local onde trabalho. O que se tona, afinal, mais um motivo para celebrar a beleza de todos os dias.

FIM
Será que cheguei ao fim de todos os caminhos
E só resta a possibilidade de permanecer?
Será a Verdade apenas um incentivo à caminhada
Ou será ela a própria caminhada?
Terão mentido os que surgiram da treva e gritaram — Espírito!
E gritaram — Coragem!
Rasgarei as mãos nas pedras da enorme muralha
Que fecha tudo à libertação?
Lançarei meu corpo à vala comum dos falidos
Ou cairei lutando contra o impossível que antolha-me os passos
Apenas pela glória de tombar lutando?

Será que eu cheguei ao fim de todos os caminhos...
Ao fim de todos os caminhos?

quarta-feira, 7 de julho de 2021

QUIZZ FACHO MAN

Um partido de extrema-direita, rasteiro e homofóbico, terminou uma recente convenção ao som dos Village People. YMCA, nem mais... Nunca pensei que me fizessem rir, mas fizeram.

Lembram-se de Jörg Haider?...

terça-feira, 6 de julho de 2021

STARDUST MEMORIES N°. 54: RAFFAELLA CARRÀ

Partiu Raffaella Carrà (1943-2021). Era uma das estrelas da canção italiana. Marcava presença, com regularidade, em Espanha. Lembro-me de estar, há uns 42 ou 43 anos, na praia de La Antiga e de os altifalantes anunciarem, com regularidade, que Raffaella Carrà iria atuar no Club Raúl, em Lepe. Era um sítio inatingível para mim. Verdade se diga que, na altura, a minha onda era muito mais o ska e o reggae.

O tempo passa e há coisas a que passamos a achar graça. E que vemos, agora, com outros olhos.

Aqui fica este vídeo de Hay que venir al sur. Uma música censurada em muitos sítios, pelo seu explícito atrevimento. O melhor é a coreografia, ao melhor estilo mal de s. vito. Um perfeito desatino.

EM TRIPOLI, OLHANDO O FUTURO

Desaconselharam-me o uso daquele rolo, mas não fiz caso. Um Ilford Pan F Plus 50 ASA. Sem margem para falhas e onde qualquer meio ponto de desvio dava asneira. Interessava-me experimentar contrastes extremos. Meti-me na medina de Tripoli, munido da máquina e só com esse rolo.

Não me recordo exatamente onde a fotografia foi feita, talvez na zona de Suq al-Turk... Os miúdos andavam por ali, fazendo-me caretas e querendo ser fotografados. No último instante, um escondeu-se.

A luz ficou assim, dura como eu queria. O que será feito deles, 13 anos que são passados?

La lluvia lenta

Esta agua medrosa y triste,
como un niño que padece,
antes de tocar la tierra
desfallece.

Quieto el árbol, quieto el viento,
¡y en el silencio estupendo,
este fino llanto amargo
cayendo!

El cielo es como un inmenso
corazón que se abre, amargo.
No llueve: es un sangrar lento
y largo.

Dentro del hogar, los hombres
no sienten esta amargura,
este envío de agua triste
de la altura.

Este largo y fatigante
descender de aguas vencidas,
hacia la Tierra yacente
y transida.

Llueve... y como un chacal trágico
la noche acecha en la sierra.
¿Qué va a surgir, en la sombra,
de la Tierra?

¿Dormiréis, mientras afuera
cae, sufriendo, esta agua inerte,
esta agua letal, hermana
de la Muerte?

Gabriela Mistral



 

segunda-feira, 5 de julho de 2021

HENRIQUE POUSÃO EM ROMA

Uma vida brevíssima, a deste alentejano de Vila Viçosa. Morreu aos 25 anos e o pouco que produziu revela todo o potencial que tinha. Andou por Itália - são célebres os seus trabalhos em Capri - e deixou-nos esta paisagem romana. Sobre ela escreveu Raquel Henriques da Silva:

O conjunto de pequenos formatos de Pousão (...) foram realizados em Itália, durante os derradeiros anos da sua vida, em 1882 – 83.
Registe-se, em primeiro lugar, uma vista ao longe, Castelo de Santo Ângelo – construída numa situação de mobilidade manchista do movimento urbano.

É a terceira ou quarta referência a Henrique Pousão em 13 anos de blogue. Reincidirei em breve.

domingo, 4 de julho de 2021

HENRIQUE RUIVO (1935-2020)

Depois de ter comprado uma edição do "Portugal na Espanha Árabe" telefonei ao António Borges Coelho, prometendo uma visita, a ter lugar um destes dias. Às tantas perguntei "quem é o autor daquelas bonitas capas?". A reposta foi imediata: "o Henrique Ruivo". Um pintor e ilustrador alentejano, falecido há pouco mais de um ano. Na busca de algo que ilustrasse o sue trabalho encontrei várias pinturas, algumas delas fazendo parte do espólio da Fundação Calouste Gulbenkian. Mas o que mais me agradou foi este cartaz, de meados dos anos 70, produzido em pleno PREC. Grafismo de grande qualidade, com cores a anteciparem o pósmodernismo...

Abaixo a reação? Sempre!




IMPÉRIO - FANTASMAS E VISÕES

Temos, continuamos a ter, um império por descobrir, por estudar e por exorcizar. O Padrão dos Descobrimentos tem uma magnífica exposição sobre o império colonial e sobre as suas múltiplas visões.  Esteve em exibição um importante documentário de Ariel de Bigault sobre os nossos fantasmas. Neste último, gostei em especial da entrevista a Faria de Almeida (n. 1934) e a história do seu dramático Catembe (1964). 

Apresentam-se fotografias extraordinárias - olhando para elas pensei muitas vezes no que ainda falta fazer, nesse domínio -, sempre vistas a partir de cá. É a nossa visão sobre a realidade deles. Uma das imagens mais expressivas é a da visita do Ministro das Colónias à Guiné, em meados dos anos 30. De ar triunfal, rodeado de corpos seminus (com uma separação masculino/feminino que talvez resulte da encenação), o governante acena à "espontaneidade". A essa, de Elmano Cunha e Costa, junto outra, de início do século XX, com uma multidão alinhada debaixo de dois poilões.



sábado, 3 de julho de 2021

MEDIEVALISTA - Nº 30

Epílogo de uma pequena "saga" iniciada em 2018 (estas coisas demoram tempo, caramba...). A Isabel Cristina Fernandes convidou-nos (ao Joaquim e a mim) para fazer uma resenha da exposição do MNAA. Não é bem um texto científico (em boa verdade, não é tal, ponto), mas fica para memória futura. Acaba de sair na "Medievalista":

https://medievalista.iem.fcsh.unl.pt/index.php/medievalista/article/view/448

sexta-feira, 2 de julho de 2021

A COR DO CAVALO BRANCO DE D. JOSÉ

É um dos sítios mais invulgares da cidade de Lisboa. E, também, um dos menos conhecidos. Pertence ao Museu Militar e fica em instalações do Exército, a menos de 200 metros do núcleo central daquele museu.

Visitei-o há dias, para poder ver a imponência do molde da estátua de D. José, justamente a que podemos ver, em todo o seu esplendor, no Terreiro do Paço. Temos de subir à mezzanine, para melhor apreciar a obra. Ao seu lado, quase parecem insignificantes outras obras pelas quais passamos com regularidade: a do Duqe de Saldanha, na praça do mesmo nome, a de Afonso de Albuquerque, que está em Belém.

Um belo local, sem dúvida.



quinta-feira, 1 de julho de 2021

PAISAGEM ORIGINAL

Crónica de hoje, em "A Planície", com uma obra de Álvaro Fialho, no Ateneu Mourense, em pano de fundo.

Terminava o verão de 2010 quando me pus a caminho de Nice. Ia participar num encontro sobre História e Arqueologia da Idade Média, patrocinado por uma fundação. Que tinha sido fundada por Anne Gruner Schlumberger, senhora de uma fortuna inimaginável (Schlumberger é sinónimo de plataformas petrolíferas, ok?).

O encontro não teria público, para minha enorme surpresa. Seriamos nós a falar uns com os outros. Quando agora revejo o programa, não me recordo que estivesse assim tanta gente, mas aparentemente esteve. Éramos uns 20 e estivemos enclausurados na luxuosa herdade durante quase uma semana. Os pormenores do que por lá se passou são desnecessários. O facto para mim mais relevante foi uma simples frase, que me foi disparada num desses dias por Antonio Malpica Cuello, o frenético professor e arqueólogo de Granada. Textualmente, “a lo largo del tiempo, y cuando empezamos a envejecer, pensamos en volver a los sítios de donde hemos salido”. A frase pareceu-me meio estranha, na altura. O António tinha então 60 anos, eu ainda não tinha chegado aos 50. Vivia por esses tempos entre Moura e Mértola, e sentia as duas terras como os meus sítios de origem.

Uma década passou e o António está à beira da jubilação. O meu próprio futuro, que me parecia tão distante, está agora à distância de um braço. Opções profissionais levaram-me, em 2018, a uma curva em 180º. Para trás ficavam quase três décadas entre Moura e Mértola. O distanciamento lisboeta trouxe desafios novos (aos 55 ainda não era tempo de parar, muito longe disso) e trouxe uma certeza. Longínqua e decisiva. Não é tanto a ideia que um dia, assim a saúde o permita, regressarei, regressaremos ao eixo Moura-Mértola (com Trás os Montes pelo meio). É a convicção funda que Moura me continua, nos continua, presente. Com regularidade certa, os trabalhos de investigação histórica e arqueológica se atravessam no caminho. Um livro sobre a Mouraria, outro sobre ossos islâmicos que virá, os estudos sobre toponímia, ainda e sempre a arqueologia no Castelo de Moura. Porquê assim, com tantos outros caminhos? Porque, “a lo largo del tiempo, y cuando empezamos a envejecer, pensamos en volver a los sítios de donde hemos salido”. A verdade é essa.

Neste verão, começarei a regressar um pouco mais. Porque a vacina já está, porque não há o confinamento duro de 2020, oxalá as coisas assim se mantenham, porque tenho saudades da paisagem original. O compromisso político também me fará estar ainda um pouco mais. Agora e sempre. Porque há coisas que não se negam, a começar pela amizade a sério. O André merece esse empenhamento, a minha paisagem original também.

Depois assim continuaremos. Entre as nossas vidas profissionais, os amigos de Moura e a casa de Mértola, os projetos de investigação que serão concretizados (o da água é um, o do Carmo é outro, mais o castelo) e as paisagens originais que nos fazem falta. E de onde, na verdade, nunca saímos. Com Trás os Montes lá ao fundo.

terça-feira, 29 de junho de 2021

LAGAR DE VARAS DE MOURA? TAL NÃO É O "POEIREDO" QUE A GENTE VAI FAZENDO...

É hoje assinado um protocolo - mais um - transferindo o Lagar de Varas do Fojo para a Câmara Municipal de Moura. Uma decisão discutível, pela assunção de um compromisso permanente. Espera-se, naturalmente, que haja um "envelope financeiro" associado... Se não houver, então não se percebe mesmo a lógica disto.

Conheço muito bem, desde meados da década de 80, o dossiê do Lagar de Varas. A sua classificação como imóvel de interesse público foi, em grande parte, motivada por uma iniciativa do Dr. José Arez, então técnico do Instituto Português do Património Cultural.

O espaço é gerido pela autarquia desde há décadas. Não é coisa nova.
Recordo que em 2015, durante o anterior mandato autárquico, foi terminado um importante trabalho de beneficiação, que envolveu a substituição de toda a cobertura. Um investimento arrojado.

O que faria sentido aqui?
Concretizar o Centro Documental da Oliveira, ligá-lo ao Jardim e ao Lagar de Varas;
Continuar a atribuir o Prémio de Mérito Académico a dissertações de mestrado e de doutoramento sobre olivicultura;
Concretizar o projeto de iluminação do Lagar de Varas (pronto desde 2017) e melhorar o espaço do monumento.

Em vez disso o que se fez?
Fez-se um trabalho de maquilhagem no edifício do antigo grémio, que continua subaproveitado;
Suprimiu-se o Prémio de Mérito Académico, porque tinha sido lançado pela Câmara anterior;
Meteu-se o projeto de iluminação na gaveta.

Construir, financiar e concretizar projetos que valham a pena e que sejam estruturantes é difícil. Assinar protocolos e fazer promessas futuras é coisa facílima.

Gente que faz? Muito pouco.

PRÉMIOS APOM 2021

Os museus não pararam. A Associação Portuguesa de Museologia também não. É certo que a realidade se refez e reconstruiu. No meio da pandemia, muita coisa aconteceu. Por isso, mais que nunca, faz sentido que os Prémios APOM 2021 continuem a ser a prova de energia e de dinamismo de um setor.

Apresentação de candidaturas até ao dia 15 de julho.

Regulamento disponível em: www.apmuseologia.org



segunda-feira, 28 de junho de 2021

URBAN SKETCHERS À VISTA!

Vai ter lugar, na manhã do próximo dia 10 de julho, uma visita ao Panteão Nacional de urban sketchers, numa parceria da Urban Sketchers Portugal com o monumento.

Ao longo de três horas, o Panteão tornar-se-á um local de criatividade por excelência. A temática é livre, mas terá por tópico central o espaço do monumento.

As inscrições, num limite máximo de 30, serão feitas unicamente através do seguinte mail:  geral@panteao.dgpc.pt

Ver- http://www.panteaonacional.gov.pt/




REGRESSO A BARRANCOS

A vila de Barrancos está ligada ao meu passado profissional. Por ali andei, em intermitências várias, entre 1984 e 1988. Quando o convite surgiu, não houve margem para hesitações. É sobre bom voltar a sítios onde sempre nos trataram bem. Uma terra generosa.

Não há assim nenhuma novidade espetacular para apresentar, mas fazer um ponto de situação é sempre oportuno. Até porque este território de aquém-Guadiana continua a ser um tesouro bem escondido para o estudo do período islâmico.

Dia 2, em Barrancos.






domingo, 27 de junho de 2021

TINA MODOTTI

Faltam os adjetivos para caracterizar a extraordinária (ok, vou usar este) Tina Modotti (1896-1942) e a sua obra, comprometida e fora das normas. A fotógrafo já aqui foi mencionada, em julho de 2014. É altura de a voltar a referir.

Dei, há dias, com este registo das linhas telefónicas da Cidade do México, feito em 1925. Linhas paralelas, mas que convergem. Pelo menos, ilusoriamente.

Ela, László Moholy-Nagy, Alexander Rodchenko, Edward Weston, Manuel Álvarez Bravo estão, sempre, num sítio à parte.


sábado, 26 de junho de 2021

PORTUGAL NA ESPANHA ÁRABE - 50 ANOS

Precisei, há dias, usar um excerto do prológo ao terceiro volume do "Portugal na Espanha Árabe", de António Borges Coelho. No meio das pesquisas na net vou dar com uma referência de um alfarrabista, onde a coleção completa (quatro volumes) estava disponível. Pareceu-me improvável que assim fosse. A obra está esgotadíssima e é uma raridade, vendida em leilões. A dada altura pensei que talvez fosse uma contrafação (em tempos, houve um espertalhão que fez um fac-símile do 1º volume, quase igual, mas mais pequeno e com uma capa fotocopiada num tom parecido ao original). Mas não. O que estava à venda era mesmo uma primeira edição, a um preço honesto. Nem pensei duas vezes.

Comprei os volumes 2 a 4 em 1982, andava no começo do curso de História. Do volume 1 tenho a tal versão manhosa. Quase 40 anos volvidos, ajustei contas comigo mesmo. O lugar de honra da estante passou a ser devidamente ocupado.

"Portugal na Espanha Árabe" foi publicado pela Seara Nova entre 1971 e 1975.







sexta-feira, 25 de junho de 2021

ILITERACIAS

Episódio 1, ocorrido há meses, na Beira.

Um empresário confessa-me que nunca gostou da escola. Queria sair e começar a trabalhar: "fiz a terceira classe, nada mais". Depois riu baixinho para acrescentar: "bom, agora tenho o 9º. ano; puseram-me duas horas em frente a um computador e assim fiz o 9º. ano nas novas oportunidades, está a ver como é, não está?". Estou, pois. Mesmo descontando a hipérbole, estou bem a ver.

Episódio 2, ocorrido há dias, no metro.

O combóio arranca do Terreiro do Paço, em direção a Santa Apolónia. Um homem, de ar modesto e saco de viagem puidíssimo, dá um salto: "era aqui o Terreiro do Paço, não era?". Confirmei. O homem, talvez um pouco mais novo que eu, ficou à beira do desespero, era ali que devia ter saído. Expliquei que era só uma estação, e nem tinha que sair do combóio. Continuou com ar de desespero, para depois me dizer que precisava de ir para Tomar. Comentei, "então, deve querer ir para Santa Apolónia". Sim, afinal era isso. Saiu da carruagem e estacou "como é que se sai daqui?". Disse-lhe para me seguir, enquanto ia desfiando que era de Fátima, tinha vindo trabalhar para Lisboa e tinha o irmão à espera.

Levei-o estação fora, até à bilheteira. Não sabia como se apanhava o combóio. Nem como se tirava um bilhete. Desfez-se um vénias de agradecimento, atarantado.

Nestas alturas pergunto-me, sem respostas, "onde facilitámos?", onde falhámos?", "qual a solução?"

#iliteracias

#SantaApolónia

quinta-feira, 24 de junho de 2021

D. MANUEL, NO ANO DO SEU CENTENÁRIO

Amanhã abre as portas ao público a nova, e glamorosa, exposição do Museu Nacional de Arte Antiga. A arte no tempo de D. Manuel é o tema desta nova viagem no tempo.

O título é um achado, tal como o são as referências de Garcia de Resende que pontuam todo o percurso. Com mais ou menos possibilidades de circulação, este vai ser um ponto de passagem obrigatória no verão de 2021.

JUNTO À PORTA DO CEMITÉRIO

É hoje ao fim da tarde. Não poderei estar, mas aproveito para fazer a divulgação. A necrópole de Lisboa ficava na encosta entre o Largo das Portas do Sol e S. Vicente de Fora. A porta oriental da cidade tinha, nas crónicas, o nome de Bab al-Maqbara (porta do cemitério).

Os trabalhos de vários colegas, nomeadamente Vanessa Filipe, têm vindo a pôr à luz do dia essa realidade absolutamente necessária para a compreensão de uma cidade. Por resolver está ainda o "mistério" da ausência de epigrafia funerária na Lisboa islâmica. Com exceção de um pequeno fragmento de uma lápide, que permanece inédito, no Castelo de S. Jorge, as outras duas inscrições não são daqui: a da Praça da Figueira veio da necrópole da Mouraria, a da Rua das Madres desconfio bem que desse mesmo local.

Às 18 horas, no Mercado de Santa Clara.




quarta-feira, 23 de junho de 2021

UM PEIXE DESSES DO POVO...

De forma provocatória, organizações de direita e de extrema-direita têm-se entretido, ante a bonomia da "comunicação social", a montar todo o tipo de festarolas e de manifestações, sem quaisquer preocupações sanitárias. Joga-se o perigosíssimo jogo do caos. Uma prática antiga e bem conhecida.

No meio disto, há motivos para rir. Um desses partidos organiza um arraial e anuncia-o como "sardinhada liberal". Tão liberal, mas tão liberal, que as sardinhas são carapaus. É o que acontece quando as "elites" se querem comportar assim como o povo...

 

terça-feira, 22 de junho de 2021

LACANT - UMA REVISTA DE ARQUEOLOGIA EM MOURA

Foi ontem publicada, em Moura, uma revista intitulada Lacant. É engraçado ser o pai do nome de uma revista. Nunca tal me tinha acontecido...

De onde vem o nome Lacant? De uma espécie de mantra. Tantas vezes se repetiu, que acabou por ser aceite. Nunca tal me tinha ocorrido (que Moura pudesse ser lacant), até ler o trabalho de Alicia Canto. E de me dar conta que as peças referentes à Ecclesia Santa Maria Lacantensis ou Lacaltensis estavam todas à volta de Moura. Verifiquei, sem espanto, que os arqueólogos da Antiguidade tardia não leram as fontes islâmicas e que os desta época não consultaram os materiais anteriores ao século VIII. Tornou-se-me então claro que a cora de Lacant referida nas fontes árabes mais antigas podia muito bem ser a nossa terra. E que o misterioso sítio de DNHKT (citado nos Muqtabis V), entre Beja e Aroche, podia ser identificado como Lacant e resultar de um erro de transliteração, ou da confusão entre duas consoantes do alifato. Sorte a minha, que tinha à mão de semear as obras de Ibn Hayyan e de Ibh Idhari... E que um dia dei comigo a pensar "esperam lá, a nossa ecclesia bem pode ser o do sítio desconhecido". E o nome de Moura ter, afinal, surgido no contexto da renovação urbana do século XI.

Uma revista não é fácil de manter. Coordenei a de "Arqueologia Medieval" entre 1992 e 2013 e sei bem o que se pena. Boa sorte, portanto.




LITERALMENTE UNDERGROUND

Ao regressar, ontem, da Fundação Oriente, passei pela degradadíssima passagem subterrânea, que dá acesso à Rua de Cascais. Uma galeria de arte underground onde já quase não há paredes que não tenham pichagens.

A jovem amiga que me acompanhava murmurou, a meia voz "nunca aqui tinha estado!". Pois, como galeria de arte não é das mais recomendáveis.