sábado, 5 de abril de 2025

IN MEMORIAM - AMADOU BAGAYOKO

Agora que Amadou Bagayoko (1954-20125) partiu, recordo-o com este texto, que resultou de uma já distante viagem ao Mali.


BAMACO


DIMANCHE À BAMAKO

É assim que se chama o disco, Dimanche à Bamako. E nós ficamos a imaginar como será o dimanche à Bamako. Haverá acácias e belas mulheres à sua sombra, nos domingos de Bamako? As águas do Níger trarão frescura aos domingos de Bamako? Correrá um pouco do harmattan, o terrível vento do deserto, nas ruas dos domingos de Bamako? Soprará esse vento sobre as águas do Níger, por entre as acácias e as belas mulheres? Que oásis haverá?

Há poucos oásis em Bamako. A planta da cidade vista só em planta é um enredo de ruas direitas e há até guias que falam nas árvores dos bairros de Sogoniko ou de Badalabougou. Foi talvez assim um dia, e agora temos pena de não termos conhecido esses dias e esses domingos de Bamako. Agora os dias são de caos, há fumo, meu Deus, há fumo e mais fumo. A cidade vive envolta em fumo. Dos carros com carburadores asmáticos, do lixo a arder ao lado dos hotéis e dos campos de golfe, do lume dos restaurantes, digamos que são restaurantes, que aparecem por toda a parte. Afinal o vento não sopra em Bamako e por isso o fumo não viaja, ficando a pairar sobre a cidade. A cidade colonial é uma miragem curta nesta parte do Sudão e as glórias passadas fenecem por entre destroços.

Nos dias que não são dimanche há mais trânsito e nota-se muito mais o fumo. Há mais carros, mais motoretas e maquinetas. Nesses dias um milhão de pessoas cruza o gigantesco bairro da lata que Bamako é, e nós ficamos sem perceber nada. De que vivem todas aquelas pessoas? De que vivem os vendedores se não há ninguém para comprar ou, pelo menos, ninguém parece comprar coisa alguma? Quando é dimanche à Bamako respira-se um pouco melhor, sem o travo do gasóleo a arder nas narinas e na garganta. Quando é dimanche podemos fugir mais ao fumo.

Aos domingos podemos esgueirar-nos um pouco mais à vontade, por entre as latas das barracas, por entre os montes de lixo semeados à toa. Para quem gosta dos mercados, há o novo mercado, nos guias lê-se que é novo mas parece já ter nascido com muitos anos. Mais longe, na margem do Níger, uma sugestão de jardim dá um pouco de placidez aos domingos de Bamako.

Há uns séculos atrás ninguém passeava ao longo do Níger nas tardes de domingo porque a cidade ainda não existia. Nesses dias havia pirogas que passavam por entre as ilhotas onde agora os poucos pássaros vão pousar. Mas as pirogas partiram e o rio é agora um deserto de água. Nesses dias lá longe os caminhos do Níger levavam para Tombouctu e para Gao. É para aí que iremos um dia, porque lá onde estão não há fumo, de certeza que não, nem um milhão de pessoas amontoadas, como nesta aldeia de homens e mulheres gentis.

Agora é Inverno em Bamako, aceitemos que 35º possam ser Inverno, e por isso o tempo é muito seco. O calor ainda vem longe e mais longe ainda está a chuva. Tenho dificuldade em imaginar como serão esses domingos de Verão, com a chuva que não pára, o calor terrível, o fumo dos carburadores asmáticos e a maior parte das ruas a serem pasto da lama e dos mosquitos.

Na próxima vez vou chegar a um domingo. Vai ser num dos beaux dimanches cantados por Amadou e Mariam. Nesse domingo haverá, decerto, menos fumo e menos gente perdida a deambular pelas ruas. Haverá, decerto, belas mulheres cujas pulseiras rivalizam, por entre as acácias, com a curva da corrente do Níger.

sexta-feira, 4 de abril de 2025

ESSA COISA DO "DRESS-CODE"...

Nunca tive grandes preocupações com a roupa. O que visto ou não visto não é tema que me interesse. Obrigatoriamente, só liguei ao assunto quando era presidente de câmara e, agora, noutras circunstâncias, no Panteão Nacional.

A formalidade obriga-nos a vestir isto ou aquilo não para "parecer bem", mas para respeitar o cargo e para o valorizar. E por consideração para com os nossos interlocutores.

Por razões circunstanciais, boa parte das cerimónias em que participo são promovidas pelo Exército. E se há coisa que a instituição militar leva (muito) a sério é o protocolo. "Desengravatamentos" e ares casuais em momentos de formalidade nem pensar...

Dou comigo a pensar nisto quando vejo atitudes de abandalhamento que podiam e deviam ser evitadas.

quinta-feira, 3 de abril de 2025

UMA SÓ VOZ, EM MOGUER

 LA PAZ

Hallarme en las manos
jazmines con sol,
con el primer sol;
saber que amanece
en mi corazón;
oír en el alba
una sola voz…

Eso quiero yo.

Regresar sin odios
cerrar sin pasión;
soñarme en las manos
celindas con sol,
el último sol;
dormir escuchando
una sola voz…

Eso quiero yo.

Lembro-me de ter estado em Moguer, ha muitos anos, certamente mais de 30.Tal como me lembro das ruas de Moguer transmitirem uma imagem de grande placidez. Ou um sentimento de paz. Quem nasceu em Moguer percebeu isso melhor que eu.

quarta-feira, 2 de abril de 2025

https://jorgemurteira.pt

Aqui se divulga / publicita / apoia o site de um amigo que é, também um excelente documentarista.

Vale a pena ver a carreira de alguém que continua a ter imensos projetos para concretizar. Vai haver tempo para isso! E talento.



terça-feira, 1 de abril de 2025

EX

Quando terminei as minhas funções na autarquia mourense, em 21.10.2017, tinha precisa noção de que muita coisa iria mudar na minha vida, nos dias seguintes.


Rematei o discurso de despedida dizendo  “continuarei, com toda a convicção a seguir, solidário e solitário, a percorrer os caminhos em que acredito. Com esta minha terra e com esta minha gente sempre no meu espírito e para sempre na minha memória”. Só me vinham à lembrança duas estrofes de um poema de Kavafis “como preparado há muito, (…), / despede-te dela, da Alexandria que se vai embora”. O ato em si, naquela tarde de sábado, revestira-se de momentos da mais completa falta de nível, próprios de quem os organizara. Quando um amigo me comentou o sucedido, ri, encolhi os ombros e perguntei “do que estavas à espera?”. E segui em frente, com Moura colada à pele, para sempre.


Esses momentos foram reavivados ao ler, na imprensa, que “pelo menos 32 presidentes de câmara anteciparam as suas saídas e cerca de metade foram nomeados para cargos públicos em entidades de gestão do território, empresas de gestão de resíduos ou habitação” (Público de 19.3.2025). Quando, nos primeiros dias de 2017, tomei a decisão de não me recandidatar, sabia que não iria para nenhum “cargo”. Nunca tal sucederia, em qualquer circunstância. A decisão, tomada a frio, de regressar à minha atividade profissional, fora a pedra de toque.

Em todo o caso, havia pontos que estavam, para mim, mais que claros:

1.      1. A "saída profissional" de um ex-autarca deveria, em princípio, ser o regresso à profissão de origem. Regressaria à Câmara de Mértola e ao meu trabalho de sempre;

2.     2. A passagem pela vida autárquica não seria trampolim, social ou profissional.

Nunca necessitara da vida política para “trepar”, nem precisava dos cargos políticos para viver. Divirto-me sempre (sim, isto é um pouco “sádico”, eu sei…) quando se aproximam as eleições e vejo o ar de aflição dos que têm no cargo político a sua boia de salvação social (quando não financeira…).

No regresso à “vida civil” quase não tive surpresas: 1) o telefone deixou de tocar; 2) um par de “amigos” e “amigas” afastou-se rapidamente (num caso ou noutro fui surpreendido, noutros nem tanto); 3) aqueles com quem efetivamente contava mantiveram-se, até hoje e, creio eu, assim será para sempre.

O regresso à profissão foi menos fácil do que contaria, e esse foi o elemento de surpresa. Quem “esteve na política” é olhado com uma certa suspeição. A travessia do deserto durou de outubro de 2017 a fevereiro de 2021, mais tempo do que imaginaria. Pelo meio fui escrevendo livros, organizando exposições e regressei à docência na Universidade. Constatei aqui, com amargura, que muitas das coisas que tinham mudado tinham sido para pior. Participei em júris (na Gulbenkian, na Caixa Geral de Depósitos…). Tomei posse como Diretor do Panteão Nacional há quatro anos. Um facto que embaraçou a Câmara da minha terra… Verifiquei, com agrado, com profundo prazer, que continuo a ser bem recebido no meu concelho. Isso deu-me a tranquilidade que, noutras alturas, me faltou.

Foram, profissionalmente, os melhores anos da minha vida? Entre 2005 e 2017, seguramente que sim. A entrega foi total. Um mergulho intenso e sem repetição possível.

Dedico esta crónica a todos os que, solidariamente, estiveram de alma e coração na política. E que não precisaram do cargo como boia de salvação social ou financeira. Os outros, que se preocupem com o próximo mês de outubro. E com o dia em que deixarem o cargo. Porque, na saída, não somos “todos iguais”. Mesmo nada, tenham a santa paciência…

Crónica em "A Planície"