Quando terminei as minhas funções na autarquia mourense, em 21.10.2017, tinha precisa noção de que muita coisa iria mudar na minha vida, nos dias seguintes.
Rematei o discurso de despedida dizendo “continuarei, com toda a convicção a seguir, solidário e solitário, a percorrer os caminhos em que acredito. Com esta minha terra e com esta minha gente sempre no meu espírito e para sempre na minha memória”. Só me vinham à lembrança duas estrofes de um poema de Kavafis “como preparado há muito, (…), / despede-te dela, da Alexandria que se vai embora”. O ato em si, naquela tarde de sábado, revestira-se de momentos da mais completa falta de nível, próprios de quem os organizara. Quando um amigo me comentou o sucedido, ri, encolhi os ombros e perguntei “do que estavas à espera?”. E segui em frente, com Moura colada à pele, para sempre.
Esses momentos foram reavivados ao ler, na imprensa, que “pelo menos 32 presidentes de câmara anteciparam as suas saídas e cerca de metade foram nomeados para cargos públicos em entidades de gestão do território, empresas de gestão de resíduos ou habitação” (Público de 19.3.2025). Quando, nos primeiros dias de 2017, tomei a decisão de não me recandidatar, sabia que não iria para nenhum “cargo”. Nunca tal sucederia, em qualquer circunstância. A decisão, tomada a frio, de regressar à minha atividade profissional, fora a pedra de toque.
Em todo o caso, havia pontos que estavam, para mim, mais que claros:
1. 1. A "saída profissional" de um ex-autarca deveria, em princípio, ser o regresso à profissão de origem. Regressaria à Câmara de Mértola e ao meu trabalho de sempre;
2. 2. A passagem pela vida autárquica não seria trampolim, social ou profissional.
Nunca necessitara da vida política para “trepar”, nem precisava dos cargos políticos para viver. Divirto-me sempre (sim, isto é um pouco “sádico”, eu sei…) quando se aproximam as eleições e vejo o ar de aflição dos que têm no cargo político a sua boia de salvação social (quando não financeira…).
No regresso à “vida civil” quase não tive surpresas: 1) o telefone deixou de tocar; 2) um par de “amigos” e “amigas” afastou-se rapidamente (num caso ou noutro fui surpreendido, noutros nem tanto); 3) aqueles com quem efetivamente contava mantiveram-se, até hoje e, creio eu, assim será para sempre.
O regresso à profissão foi menos fácil do que contaria, e esse foi o elemento de surpresa. Quem “esteve na política” é olhado com uma certa suspeição. A travessia do deserto durou de outubro de 2017 a fevereiro de 2021, mais tempo do que imaginaria. Pelo meio fui escrevendo livros, organizando exposições e regressei à docência na Universidade. Constatei aqui, com amargura, que muitas das coisas que tinham mudado tinham sido para pior. Participei em júris (na Gulbenkian, na Caixa Geral de Depósitos…). Tomei posse como Diretor do Panteão Nacional há quatro anos. Um facto que embaraçou a Câmara da minha terra… Verifiquei, com agrado, com profundo prazer, que continuo a ser bem recebido no meu concelho. Isso deu-me a tranquilidade que, noutras alturas, me faltou.
Foram, profissionalmente, os melhores anos da minha vida? Entre 2005 e 2017, seguramente que sim. A entrega foi total. Um mergulho intenso e sem repetição possível.
Dedico esta crónica a todos os que, solidariamente, estiveram de alma e coração na política. E que não precisaram do cargo como boia de salvação social ou financeira. Os outros, que se preocupem com o próximo mês de outubro. E com o dia em que deixarem o cargo. Porque, na saída, não somos “todos iguais”. Mesmo nada, tenham a santa paciência…
Crónica em "A Planície"
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