sábado, 19 de maio de 2018

ARTE OFICINAL


Escrevi aqui, em 19.4.2017.

As oficinas [neste caso da C.M.M.] são sítios extraordinários. O mais interessante é ver como os objetos mais simples do quotidiano ganham novas formas e novas funções. Há dias, um conjunto de placas de matrícula ganhou contornos diferentes. Assim, verticalizadas e fora do seu contexto habitual, podem ser junk art ou um ready-made. Não sei se o são, mas o quotidiano tem, no seu improviso, coisas assim divertidas.

Ontem, na ARCO, estavam expostas várias placas metálicas retorcidas. Uma escultura com o apropriado nome de Palimpsesto, trabalho de Kennedy Yanko. Um breve flash em direção ao passado... E a certeza da Arte no quotidiano.


ARCO 1/3

Passagem rápida pela ARCO. Duas horas e média é passagem rápida com tanta coisa para ver. Amanhã ou depois farei uma listagem do que mais me chamou a atenção. Com ênfase na fotografia. E não havia muita fotografia.

Não conhecia esta, de Paulo Nozolino, à venda na Quadrado Azul. Não foge muito ao tom sombrio de outros trabalhos feitos na mesma altura, no Egito. A luz branca sobre a base da pirâmide é trabalho de laboratório, à moda antiga...

Preço da fotografia? 12.500 €, valor de tabela. Os bons clientes não comprar por este preço, decerto.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

DECÁLOGO MEDITERRÂNICO: FIGOS


As figueiras de Mallorca, pela paleta de Hermenegildo Anglada Camarasa (1871–1959). É uma das mais perenes e impressivas imagens do Mediterrâneo. A palavra figo, na sua formulação berbere está na origem do regionalismo acarro.

Figueira 

Ó árvore que irrompes da tua secura 
suportando o penoso desdobrar de teus ramos 
amaldiçoada 
ofereces ainda a doçura de teus frutos 
a sombra de tuas folhas 
a firmeza do teu apego à terra 

Ó dura bruta forma 
heroína da escassez 
ó teimosa 
que insistes e insistes 
e nos ensinas 
que a vida é feita de incessantes mortes 
e que a nós 
suas futuras vítimas 
nos aguarda 
a todo o momento 
a derrocada do templo 
sem nenhum outro fruto 
além da amargura 

Ó doçura 
porque amargas tanto 
a nossa tentação de florir 
ao mesmo tempo sendo tudo 
e nada ? 

Ana Hatherly

REGRESSO


O REGRESSO

Como quem, vindo de países distantes fora de
si, chega finalmente aonde sempre esteve
e encontra tudo no seu lugar,
o passado no passado, o presente no presente,
assim chega o viajante à tardia idade
em que se confundem ele e o caminho.

Entra então pela primeira vez na sua casa 
e deita-se pela primeira vez na sua cama. 
Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças, 
cidades, estações do ano. 
E come agora por fim um pão primeiro 
sem o sabor de palavras estrangeiras na boca.

Algo evoca uma passagem de Marguerite Yourcenar, nest poema de Manuel António Pina (1943-2012). A assombração do regresso ao ponto de partida nunca nos deixa. Talvez por isso tenha sentido como tão próxima a paisagem de Grizzana, assim vista em 1942 por Giorgio Morandi (1860-1964).

quinta-feira, 17 de maio de 2018

MOURA - APOIO À NATALIDADE E ADOÇÃO


Foi hoje publicado em "Diário da República" o Regulamento Municipal de apoio à natalidade e adoção.

O que diz o artº. 4?

1 - O apoio à natalidade e adoção traduz-se num subsídio pecuniário, com valor máximo de 500,00 € (quinhentos euros) relativos ao nascimento/adoção de cada filho, independentemente do número de filhos existentes no agregado familiar.
2 - O apoio referido no número anterior será atribuído em duas prestações, cada uma no valor de 250,00 €, sendo a primeira, entregue após aprovação da candidatura e após entrega de faturas e a segunda seis meses após o pagamento da primeira prestação e entrega de faturas relativas ao período em questão.
Isso reverte a perda de população? Não reverte. Há um município do nosso distrito que, até ao ano passado, tinha entregue, a 182 famílias, o montante de 102.509,33€. Esse concelho continua a perder população. Porque não é com paliativos e pensos rápidos que se resolvem problemas estruturais.
Ver:
https://dre.pt/web/guest/home/-/dre/115333395/details/2/maximized?serie=II&parte_filter=36&dreId=115327836

LEGIÃO ESTRANGEIRA


Lista de 23 convocados de Portugal para o Mundial:

Guarda-redes - Anthony Lopes (Lyon), Beto (Goztepe) e Rui Patrício (Sporting).


Defesas - Bruno Alves (Rangers), Cédric Soares (Southampton), José Fonte (Dalian Yifang), Mário Rui (Nápoles), Pepe (Besiktas), Raphael Guerreiro (Dortmund), Ricardo Pereira (FC Porto) e Rúben Dias (Benfica).


Médios - Adrien Silva (Leicester), Bruno Fernandes (Sporting), João Mário (West Ham), João Moutinho (Mónaco), Manuel Fernandes (Lokomotiv) e William Carvalho (Sporting).


Avançados - André Silva (Milan), Bernardo Silva (Manchester City), Cristiano Ronaldo (Real Madrid), Gelson Martins (Sporting), Gonçalo Guedes (Valência) e Ricardo Quaresma (Besiktas).


Notas finais: Em 23, só 6 (26%) jogam no campeonato nacional.

A pouca expressão do número de jogadores que cá jogam é a tradução da falta de qualidade do nosso campeonato.
Que reflete e é reflexo da falta de qualidade dos dirigentes dos chamados "grandes". Nos "pequenos" a bitola não é muito diferente.

DIAMANTINO

Um filme sobre o percurso de um jogador de futebol, "Diamantino", ganhou ontem o Grande Prémio da Semana da Crítica em Cannes. A notícia não dá grande coisa, nestes dias que correm. A TVI 24 fez uma reportagem que, com esforço, se pode classificar de "imbecil".

É um filme português? Sim, mais ou menos. Para a imprensa portuguesa, sem dúvida. Para o "Globo", é uma coprodução brasileira. Para a "Variety" é uma  Franco-Brazilian-Portuguese comedy drama. Na imprensa francesa, só o "Figaro" fala em "film portugais". Para os outros órgãos de informação gauleses, o tema é irrelevante.

Já agora, o filme será bom?


quarta-feira, 16 de maio de 2018

AQUELA VASTA MULTIDÃO DE APOIANTES DO ATLÉTICO DE MADRID EM MOURA

Somos seis, creio. Na fotografia, de 12 de abril de 2017, falta o Ivo Ambrósio. Hoje gostava de poder estar exatamente no mesmo sítio, com estes cinco amigos, mais o Ivo. Talvez para o ano, na final da Liga dos Campeões...

A Liga Europa deste ano já está!

QUEM GANHOU O PRÉMIO DE MÉRITO ACADÉMICO DA OLIVOMOURA EM 2018?

Vinhas e oliveiras, Joan Miró (1919)

A ideia foI lançada por Francisco Derriça Mendes, veterinário municipal. Se a Câmara organizava, de dois em dois anos, a OLIVOMOURA – Feira Nacional da Olivicultura, porque não introduzir uma componente que a ligasse à investigação científica? E porque não, de facto? O próprio Derriça Mendes sugeriu que se abrisse um concurso, destinado a premiar dissertações no âmbito da olivicultura. Pareceu-nos uma excelente forma de inovar a OLIVOMOURA e dar um contributo diferente nesta área.

Assim se fez. Na feira de maio de 2010 apresentou-se a iniciativa. O prémio teve como promotores a ADEMO (Associação para o Desenvolvimento dos Municípios Olivícolas Portugueses), o CEPAAL (Centro de Estudos e Promoção dos Azeites do Alentejo) e a DRAPAL (Direção Regional de Agricultura e Pescas do Alentejo). Essas entidades, em conjunto com a Câmara Municipal, divulgaram e promoveram o prémio junto das instituições de ensino superior. Do ponto de vista prático esse reconhecimento seria traduzido na atribuição de um prémio pecuniário (2.500 euros) e na publicação da dissertação. A Feira Nacional de Olivicultura associava assim uma indispensável componente de investigação científica à promoção de uma das mais importantes atividades económicas da nossa região.

A quem foram atribuídos os prémios?

Em 2012, ao trabalho A mecanização da poda do olival. Contribuição da máquina de podar de discos, de ANTÓNIO FERNANDO BENTO DIAS (diss. de doutoramento - Univ. de Évora).
Em 2014, a Olivicultura de precisão. Avaliação da variabilidade espacial da produtividade e qualidade da azeitona e azeite num olival semi-intensivo, de ANTÓNIO MARIA GRAVE TEIXEIRA DE JESUS (diss. de mestrado - Instituto Superior de Agronomia).
Em 2016, ao estudo Provocação de sintomas de defesas minerais em oliveira e determinação de nível crítico, de MIGUEL MARIA DE MOURA FERREIRA GUERREIRO (diss. de mestrado - Univ. de Córdova).

Registe-se, enfim, o substancial aumento substancial de trabalhos a concurso entre as edições de 2012 e 2016. As duas primeiras teses premiadas foram editadas em DVD, pela Câmara Municipal de Moura, em 2016.

Falta editar a tese de Miguel Guerreiro. Falta também saber qual o trabalho que venceu o concurso em 2018. Por lapso, seguramente, não estava no programa da OLIVOMOURA.

EFICIÊNCIA POLICIAL

Ontem à tarde, um grupo de vândalos invadiu instalações desportivas e agrediu profissionais que estavam a trabalhar. O cenário foi de operação à Rambo. Um acontecimento a raiar a inacreditável. (mais coisas destas acontecerão enquanto tivermos os dirigentes-pintas que temos, enquanto enchermos os telejornais de futebol e enquanto dermos espaço de manobra a "analistas" que passam horas a fio discorrendo sobre coisa nenhuma).

Passadas poucas horas, os vândalos tinham sido identificados. Uma notícia que tranquiliza, porque nos dá conta da eficiência das forças de segurança, PSP e GNR. Eles fizeram o trabalho que lhes competia. Com rapidez e eficiência. Deixem ver o que faz agora a Justiça...


terça-feira, 15 de maio de 2018

AI DELES...

Ai deles que não são Charlie.
Ai deles que não vivem em Paris. Ou em Londres.
Ai deles que não são do biutiful pipal.
Ai deles que não são tão importantes como o futebol.
Ai deles que só entram no telejornal às 20:35. Por causa do Sporting. Mas podia ter sido por causa do Benfica. Ou do Porto. Era igual.
Ai deles que ficaram sem as terras e sem as casas.
Ai deles na Palestina. Ou no que resta da Palestina.
Ai deles.
E ai de nós que não lhes conseguimos valer.
Ai de nós que não conseguimos, nem dos piores pesadelos, imaginar o que é viver em Gaza.
Ontem morreram 60 pessoas. Não eram Charlie. Nem europeias. Nem viviam em Londres. Ou em Paris.

SIC NOTÍCIAS FAZ RAZIA NA LÍNGUA PORTUGUESA

RAIOS OS PARTAM MAIS AS RAZIAS E AS RASANTES...

ra·zi·a 
(francês razzia)
substantivo feminino
1. Incursão árabe em território inimigoque visa a destruição e o saque. = GAZIVA
2. Ataque violento. = DEPREDAÇÃOINVESTIDASAQUE
3. [Figurado]  Destruição em grande escala. = DEVASTAÇÃO
4. [Figurado]  Acontecimento nefasto que atinge grande número de indivíduos.


ra·san·te 
(rasar + -ante)

adjectivo de dois géneros
1. Que rasa.
2. Que passa rente ao chão ou a um ponto.
substantivo feminino
3. Trajectória ou voo muito próximo de algo.
4. Inclinação ou paralelismo de uma rua ou estrada em relação ao plano horizontal.


RAÚL MIGUEL ROSADO FERNANDES (1934-2018)


Não tínhamos afinidades e só o conheci pessoalmente nos anos 90, quando pertenci a uma comissão no âmbito do Ministério do Planeamento e da Administração do Território. Não éramos nem fomos próximos, mas tivémos, a partir daí uma relação de grande cordialidade. Que se reforçou na altura em que nos foi atribuído (a Cláudio Torres e a mim, ex-aequo com o matemático Jorge Buescu, o Prémio Rómulo de Carvalho). Sem grande cerimónia, pedi-lhe que me traduzisse para latim o título de duas exposições fotográficas ("ó homem, para que é você quer isso numa língua que já ninguém fala?", exclamou entre sonoras gargalhadas). Foi assim que apareceram Lux et umbra meridianaeA riuis Anatis fluminis extremum mundi uideri potest (qualquer erro é da minha responsabilidade, bem entendido...). Pessoas como ele fazem-nos falta. Pela independência e pela liberdade de espírito que tinha. Pela erudição e pela qualidade como académico.

O NAUFRÁGIO DA ESPERANÇA

Não se era a tela Das Eismeer (O mar de gelo), pintada por Caspar David Friedrich em 1823-24, que estava na memória do fotógrafo Ammar Awad. Mas a imagem de destruição que o New York Times nos traz está bem de acordo com o outro nome do quadro. E que é, precisamente, o naufrágio da esperança.

O genocídio prossegue, sem charlies. O naufrágio prossegue. Sem esperança.

Ler: https://www.nytimes.com/2018/04/18/opinion/israel-independence-palestine-nakba.html


ÍCAROS

A tentação de Ícaro aplica-se à política? Aplica, seguramente.

Jacob Peter Gowy (c 1615-1661), The fall of Icarus (1635-7). Museo del Prado, Madrid.

Quási

Um pouco mais de sol - eu era brasa,
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe d'asa...
Se ao menos eu permanecesse àquem...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dôr! - quási vivido...

Quási o amor, quási o triunfo e a chama,
Quási o princípio e o fim - quási a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
Mário de Sá-Carneiro

segunda-feira, 14 de maio de 2018

ORA ESGUARDAE...

Um blogue é lido? É sempre. A frequência e a intensidade têm ritmos que a razão desconhece. Os textos do meu blogue passaram a ser mais lidos desde que deixei a presidência da câmara. Algo que, muito sinceramente, me deixou perplexo e que não consigo explicar...

Ora esguardae o número de leituras destes temas bem recentes...


MASSACRE EM GAZA

São já 52, neste momento... O texto do DN. transmite uma ideia de equidade que não existe... Os mortos são, todos, palestinianos.

ISTO TEM LÓGICA?

Passo por uma senhora na paragem do autocarro que me diz "olhe que acho deixou cair um cartão". Não tinha deixado, mas havia um cartão multibanco (válido) no chão. Não era meu, mas achei que não o devia deitar fora. Entrei no autocarro. O telemóvel, sempre gentil, informou-me da existência de uma esquadra da P.S.P., no caminho.

Entrei na esquadra para entregar o cartão. O guarda preenche um formulário (procedimento operacional - gestão de perdidos e achados). A dado momento pede-me três dados que acho extraordinários:

* Filiação (!)
* Local de nascimento (!!)
e, punch-line,
* Estado civil (!!!).

É, seguramente, ignorância da minha parte, mas qual é a lógica de pedirem a filiação, o local de nascimento e o estado civil a um cidadão que vai entregar um objeto perdido?

UMA NOVA PLACA, POR FAVOR

Decidiu a Câmara Municipal de Moura reconhecer o papel do INEM. E fez muito bem!
Foi sublinhado, numa placa, o papel do Suporte Imediato de Vida. O que também está muito bem. Todos nós reconhecemos a importância do serviço e a dedicação dos seus profissionais. A parte fundamental é essa e é isso que devemos valorizar.

Vem agora o que é menos importante, mas que considero que também deve ser referido. Deixo aqui um pedido à Câmara Municipal de Moura: substituam a placa, que contém um substancial número de erros de Português. O INEM e os técnicos ao serviço do SIV merecem esse pequeno esforço.


sexta-feira, 11 de maio de 2018

CONTRATOS - http://www.base.gov.pt

Uma recente notícia de um órgão de comunicação social foi reproduzida, sem qualquer sentido crítico, pela Rádio Pax e pelo jornal "A Planície". A notícia lança suspeições. Porque há três ou quatro contratos, ao longo de nove anos, com duas empresas cujos sócios serão comunistas.

Questões objetivas:
A Câmara Municipal de Moura celebrou contratos com as empresas citadas? Sim, com essas e com muitas mais. Qualquer pessoa pode, e deve, consultar essa base de dados: http://www.base.gov.pt (é só copiar o link). Ainda bem que essa base de dados existe. E que é pública.

Quantos contratos estão nessa base de dados e que se referem à Câmara Municipal de Moura? 549.
Qual o valor global desses contratos? 19.444.978,27 € (entre 2009 e o dia de hoje).

Nesses contratos há 2 (duas) empresas que são propriedade de comunistas? Não sei. Não temos por hábito pedir cartões partidários na hora de celebrar contratos.

Já agora, e continuando a pesquisa, há várias dicas que posso dar. Há empresas de conhecidos socialistas e social-democratas de Moura com quem a Câmara Municipal celebrou, entre 2009 e 2017, contratos no valor de muitas centenas de milhares de euros. E daí? Deveriam ter sido excluídos? Claro que não. Se a Câmara fosse de maioria PS na altura essas empresas não poderiam celebrar contratos? Claro que podiam.

Que pasquins ordinários lancem a lama é-me indiferente. Que a nível local, haja quem vá pelo mesmo caminho custa mais. Como já disse a alguém aí em Moura, quem não deve não teme. Não temo, nem devo. A ninguém.

Veja-se este excerto da base de dados. É de uma empresa de Moura, cujos sócios estão politicamente muito distantes do PCP, e que, entre 2009 e 2017, só fez contratos com Câmaras CDU. Isso torna-os suspeitos?

SÃO VICENTE CUNEIFORME

A escultura está na Rua de S. Paulo. É o que resta de uma fonte seiscentista,  ao lado da qual se passa sem quase se dar por ela. As formas da barca com os corvos foram-se arredondando. Tal como as velas, tal como os corvos. A dada altura, parece que estamos a olhar para uma tabuinha de escrita cuneiforme. Não estamos, mas a Suméria é, como diríamos no Alentejo, "logo ali".


MITO RURAL

Na mesa ao lado, no nepalês da Madragoa, um idiota engravatado, ar de executivo, largava esta bojarda, alto e bom som, "há uma herdade no Alentejo onde os deputados vão caçar, disparando a partir de helicópteros". Os comensais indignavam-se "como é que é possível?", "mas que barbaridade", "ninguém põe fim a isso?". Senti-me ferver... Pensei "se ouço a palavra Contenda, ainda se dá aqui uma barraca". Felizmente não. O idiota engravatado, com ar de executivo, passou a outro tema. Concentrei-me nos meus apontamentos e no prawn masala.

Caça-se a partir de helicópteros? Sim, no Texas. Não no Alentejo.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

JEREMY MOON, HOJE QUE COMEÇA A FEIRA DE MOURA


O amarelo e o preto em duas obras de Jeremy Moon (1934-1973). A de cima é Concord, e data de 1964. A de baixo intitula-se 11/68, e foi pintada em 1968. Estão temporariamente em exibição na Gulbenkian. Mas as cores levam-me, nesta data, para Moura.


POR TERRAS DE SERPA

O colóquio foi há umas semanas. Encontrei agora registo dele no boletim municipal de Serpa. Companheiros de mesa: Pedro Barbosa (arguente da minha tese de mestrado) e Joaquim Boiça, colega e amigo das lides de Mértola. Tenho várias histórias que, na minha carreira, estão sempre quase: uma certa biblioteca municipal, um certo sítio arqueológico...

Regressarei a Serpa, seguramente.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

HERMAN JOSÉ E OS TRINETOS DA RAINHA VITÓRIA

Os britânicos adoram o humor. O deles, bem entendido. E quando são eles a satirizar os outros. Um bem conseguido sketch de Herman José "fazendo de" David Attenborough provocou reações na imprensa inglesa e nas redes sociais. talvez se julguem ainda nos tempos do Império Britânico. Pelo que não se pode brincar com David Attenborough. Ai não? Eles não podem. Herman José sim.

CRÓNICAS OLISSIPONENSES - V

Já aqui tinha aludido a estes sistemas de rega, referindo as "engenhosas torres de babel, banheiras em esmalte (v. fotografia) que servem de depósitos de água para rega. Um mundo de improvisação, criatividade e esforço. Um toque do sul no cinzento setentrional". Algo semelhante a um Pedro Cabrita Reis em versão campestre.


Pedro Cabrita Reis, Posto de Observação / Atlas Coelestis V, 1994

RAMAL DE BEJA CINEMATOGRÁFICO

O Sérgio chamou-nos (ao João, ao Tomé e a mim) para uma fotografia. Depois chamou também Hugo Bentes e Diogo Dória. Ficou assim o ramalhete.

Texto no facebook da Câmara Municipal de Serpa:
“Raiva” com sala cheia
O grande auditório da Culturgest, em Lisboa, foi pequeno para a estreia do filme “Raiva, de Sérgio Trefaut. A estreia do filme, cuja produção contou com o apoio da Câmara Municipal de Serpa, e que aconteceu no encerramento do Festival de Cinema Indie Lisboa, no passado dia 6 de maio, deixou a plateia emocionada, com a dureza das imagens.
Com base no livro “Seara de Vento”, de Manuel da Fonseca, “Raiva” foi filmado em várias localidades alentejanas como Serpa, Pias, Moura e Beja, e conta, no seu elenco, com vários atores locais.
Antes da apresentação do filme, Sérgio Trefaut salientou a importância do apoio dado por três autarquias alentejanas, nomeadamente a de Serpa. “O filme, sem o apoio das três Câmaras [Serpa, Beja e Moura], não teria existido (...). Houve vontade política em apoiar o cinema, o que não é comum. Houve uma consciência de que era uma história do Alentejo, que tinha que ser contada. E houve a noção que, por vezes, os meios que temos disponíveis não chegam”.
Na plateia, como convidados a assistir ao filme, marcaram presença os três presidentes de Câmara da altura, que apostaram no filme: Tomé Pires (Serpa), João Rocha (Beja) e Santiago Macias (Moura).

terça-feira, 8 de maio de 2018

F FOR FAKE

Orson Welles, se vivesse nos dias de hoje, teria aqui pano para mangas. A linha entre realidade e ilusão dilui-se.

VENEZA

Tinham bom gosto, os Rockfeller. Compraram, em tempos, este Venise, vue du Quai des Esclavons, de Corot (1796-1875). Não conhecia este Corot, que é muito bonito. A luz é um pouco à Hopper e parece antecipar o realismo americano... 

A explicação dada por David Rockfeller para a sua compra é extraordinária:  "Its size and shape, which was rather long and low, were precisely what we had been looking for to replace Cézanne’s Jas de Bouffan, which we had over our mantel in the library at Hudson Pines,’ he would later recall. ‘We had bought the Cézanne seven years earlier but it did not... seem right for the spot." Quando tiver uma lareira, tenho de arranjar um quadro assim.

Venise, vue du Quai des Esclavons está agora à venda. Valor? Entre 8 e 12 milhões de dólares.


ELEMENTOS - TERRA 7

Não é exatamente um filme sobre terra, mas sobre uma torre feita em cimento. Que também vem da terra. Já aqui aludi a este espantoso documentário sobre uma utopia que tomou forma em Limete, Kinshasa (Congo). O filme tem 70 minutos, durante os quais acompanhamos, da terra para o céu, o seu visionário autor. Não consegui ter uma ideia precisa até que ponto ele acredita mesmo no projeto, mas parece que sim, que conta terminá-lo.


CRÓNICAS OLISSIPONENSES - IV

Um dos elementos mais fascinantes, na leitura das cidades, é tentarmos ler e decifrar as cidades anteriores no meio da malha urbana atual. Um exercício de arqueologia visual, cuja memória não é, ainda, muito distante do que, em tempos, pude ver.

No início dos anos 70, ainda existiam, de facto, as estradas e as azinhagas que hoje perduram na toponímia. Lembro-me de ir à Quinta de S. Vicente, na zona de Telheiras, por entre muros de quintas que delimitavam, de um lado e do outro, a estrada. Dessa Lisboa desaparecida restam sítios como a Azinhaga da Fonte Velha, restos de uma cidade rural que o crescimento levou.

A antiga estrada que levava a Algés mantém troços do velho traçado. Quase a chegar ao mercado há ainda palacetes oitocentistas arruinados. E restos de antigas vendas à beira da estrada. Fechamos os olhos e passamos de novo as páginas de Eça. Por quanto tempo mais?

segunda-feira, 7 de maio de 2018

ISSIGONIS E OS MUSEUS

A única vez que aqui referi Alec Issigonis foi a propósito do Museu Nacional de Arqueologia (em 5.7.2010). Regresso ao seu "a camel is a horse designed by commitee". Nos últimos dias, essa frase tem-me soado uma vez e outra.

O quadro não tem nada a ver com museus. Mas tem a ver com o mini. Este sem título é uma obra inédita de uma grande pintora portuguesa, Teresa Magalhães (n. 1944). Pode ser visto, temporariamente, na Gulbenkian.

TÁSSEMÊMOAVER, NÃO TÁSSE?

Desertificação é física, despovoamento é humano, clarificou-me um amigo de Geografia. Assim, fico sem saber o que quer mesmo, mesmo, Álvaro Amaro. O texto do "Público" é pueril e as boas intenções avançadas disso não passam. Voltam as tangas do costume: os benefícios fiscais blablabla, a instalação no interior dos serviços públicas a criar blabla, as portagens blablabla. Em 1999, já lá vão quase 20 anos, foi avançada uma proposta assim. Não deu em nada, como em nada deu a Unidade de Missão. Deslocar serviços, meios, infraestruturas implica partilha de poder. E o poder não se partilha.

A apresentação vai ter lugar no antigo Museu dos Coches, em Lisboa. Começam bem...

O NOSSO CAPITÃO GANCHO

É um curto mas invulgar relato. O homem chamava-se José Cardoso, mas mudou depois o nome para Mustafá Gancho. Vinha do Maranhão e foi raptado por piratas argelinos. Converteu-se ao Islão. Dedicou-se ao corso e foi capturado por portugueses. Foi parar à Inquisição. Esteve, ao todo, preso durante 23 anos. Há homens com azar... E cujas histórias parecem tiradas de um filme. Ou que em filme deviam ser registadas.

Esta e outras histórias de vida estão na exposição  "Entre a Cruz e o Crescente - o resgate de cativos", que assinala os 800 anos da fundação do Convento da Trindade de Lisboa. Comissariado de Edite Alberto, da Direção Municipal de Cultura da Câmara Municipal de Lisboa. Na Torre do Tombo até 7 de julho.

Um pirata norte-africano, na representação de Pier Francesco Mola (1612–1666)

JOANA VASCONCELOS

Temos modas engraçadas, em Portugal. Uma delas é zurzir e maldizer tudo quanto tem sucesso. Desde logo porque o sucesso causa inveja. Um dos recentes alvos desta tendência é Joana Vasconcelos. As suas intervenções andam por um pós-pop de quarta geração, com incursões pelo kitsch. As suas intervenções andam numa bissetriz de design, moda, publicidade, arte pública. É a nossa melhor escultora? Nem por sombras. Nessa linha andarão José Pedro Croft, Rui Sanches, Fernanda Fragateiro, Rui Chafes, Rui Sanches... É atrevida e tem faro para o negócio? Tem. E depois?

Está na moda não gostar de Joana Vasconcelos. As razões? É kitsch e não tem vergonha disso. Tem sucesso. É mulher. E é gorda. Uma soma de pecados...

FIDEL CRISTAS

domingo, 6 de maio de 2018

CRÓNICA DE UMA RAIVA ANUNCIADA

Um filme que começa pelo fim. Toda a narrativa, a partir daí, é a explicação de uma tragédia. Estamos do lado do Palma, porque estamos do lado dos mais fracos.

Ante-estreia, ao final da tarde, de Raiva, de Sérgio Tréfaut. Mais um grande filme do Sérgio, rodado em terras da margem esquerda do Guadiana. Espero que Moura possa, em breve, ver esta obra. Um trabalho denso e dramático. Grande fotografia, de Acácio de Almeida. Grandes desempenhos de Diogo Dória e de um surpreendente Hugo Bentes.

A ida à Culturgest foi também o momento de rever velhos amigos. E isso também conta muito.

NACIONALISMO QUEQUE

Quem assistiu ao início da final do Estoril Open viu, certamente, muita gente nas bancadas, cantando o hino com a mão no peito, ao jeito dos IUESSEI. É tão giro e tão mimético, o nacionalismo queque...