quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

MESQUITA OU NÃO MESQUITA?

Traz hoje o jornal "Público" uma notícia onde sou citado. Sou apresentado sem qualquer vinculação (sou professor na Universidade Nova de Lisboa, investigador do Campo Arqueológico de Mértola e técnico da autarquia mertolense - podiam ter escolhido uma destas designações...) e não fui contactado pelo jornalista. O qual afirma também que "não teve acesso ao conteúdo dos pareceres".

Não vou, obviamente, divulgar o conteúdo do meu parecer. Nem comentar a notícia, nem alimentar polémicas. Dois tópicos apenas:

1. A preservação destas estruturas da Lisboa islâmica (mesquita ou não mesquita é, para o caso, o que menos importa) é crucial.

2. Motivo maior de preocupação, neste momento? O que se cita do parecer do LNEC.




quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

JOGO DE ESPELHOS

Tenho de admitir que fiquei aborrecido e triste quando, por diversas e difíceis razões tivemos de prescindir dos Passos Perdidos para a exposição "Guerreiros e Mártires".

Hoje, de manhã cedo, andei dentro e fora de Arte Antiga. Da luz difusa de fora para a fantástica instalação de José Capela (espelhos, reflexos e perspetivas)  nesses mesmos Passos Perdidos. Senti-me compensado. Senti-me tentado a usar Borges, mas preferi Álvaro de Campos.

Depois, houve uma rajada de visitas guiadas (três), a pouco tempo de começar o confinamento.


Depus a máscara e vi-me ao espelho. —

Depus a máscara e vi-me ao espelho. — 

Era a criança de há quantos anos. 

Não tinha mudado nada... 

É essa a vantagem de saber tirar a máscara. 

É-se sempre a criança, 

O passado que foi 

A criança. 

Depus a máscara e tornei a pô-la. 

Assim é melhor, 

Assim sou a máscara. 

E volto à personalidade como a um terminus de linha.











terça-feira, 12 de janeiro de 2021

O MEU CAPOTE

Foi no outono de 1982, iria jurar que uma semana ou duas antes do Natal. Parámos em Évora, já nem recordo porquê. Percorremos lentamente as arcadas ao longo da Rua João de Deus, a caminho da Praça do Giraldo. O meu avô ía silencioso, como quase sempre. Às tantas parou em frente a uma loja e decretou "vou-te comprar um capote". Acolhi a ideia com alguma reserva, capote era coisa de velhos... Mas nem pensar em rejeitar a prenda. Lembro-me que achei o preço uma barbaridade. O meu avô, sempre de uma austeridade cortante, nem pestanejava nesses momentos. "Gostas deste?", e assim passei a ser proprietário de um belo capote cinzento. Há momentos que não se esquecem.

Hoje é dia 12 de janeiro. O meu avô nasceu há precisamente 111 anos. Devo-lhe esta recordação e muitas outras coisas. Muitas delas decisivas, em termos de caminhos futuros.

O capote tem a bonita idade de 38 anos. É usado em Moura e em Mértola, em Lisboa nunca faz frio.



PITAMENTE CATEGÓRICOS

Nas primeiras eleições, a seguir ao 25 de abril, não se falava sequer em sondagens. Sondagens eram coisas da GALLUP. Depois, aos poucos, foram aparecendo e passaram a fazer parte do nosso panorama. Ganharam reputação entidades como o Centro de Estudos da Universidade Católica. E apareceram muitas entidades muitíssimo menos fiáveis. E que têm fichas técnicas como as da PITAGÓRICA. Fez uma sondagem com 629 entrevistas (era tantas!), das quais resultaram 273 respostas (ena imensas!). É com base nisso que se fazem manchetes. Usadas por independentíssimos órgãos de informação como o TVI e o Observdor.



segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

RECOMEÇA TUDO?

Um regresso a março e o pesadelo parece que não termina. O tempo suspende-se. De novo.

Há um, dois, três, quatro, cinco trabalhos que param, ou quase.

Um júri que vai arrancar e não sei ainda como, um outro que deveria tomar forma e não sei como. A reunião de sexta-feira em Arte Antiga foi ao ar, tenho três livros para acabar e não sei como, tenho filmagens para fazer e não sei como.

Mesmo mal que estou no grupo dos que-têm-mesmo-que-estar. A partir de quinta, não estarei em confinamento, mas em reclusão.

Quando é que isto acaba?




domingo, 10 de janeiro de 2021

COM JF7

Porquê JF7?

Tem João Ferreira tem grande classe, como o CR7.

E está no lugar 7 dos boletins de voto.

É nele o meu voto.



sábado, 9 de janeiro de 2021

CARTA AOS MEUS ALUNOS

Há já alguns anos, talvez uns 12 ou 13, o ministro José Mariano Gago foi a Mértola para apadrinhar a apresentação do mestrado Portugal Islâmico e o Mediterrâneo. Durante o encontro com a nossa equipa, disse esta coisa extraordinária: "sabem como é que recrutam professores para uma das melhores universidades americanas? Pedem três livros escritos a cada um dos candidatos e é com base nisso que fazem a seleção". Ou seja, interessa aquilo que se mostra saber ou ter feito.


Conto quase sempre este episódio nas aulas de apresentação. Voltarei a fazê-lo, no dia 8 de fevereiro, quando começar o seminário sobre “Gestão do Património”. Porquê? Qual a relevância desta historieta?


Pela simples razão que, na investigação, como na vida, como na ação política, interessa ser direto e ir direito ao que interessa, sem rodeios. É relevante o que realmente produzimos de prático e importa muito pouco aquilo que dizemos que queremos fazer. Há um par de coisas que digo sempre aos alunos, e que são, para mim, princípios básicos de atuação. Posso estar errado, mas são esses que defendo. E que tento pôr em prática.


Por isso lhes digo que o planeamento (rigoroso, calendarizado, cronometrado) é necessário, tanto quanto o é a passagem à ação. Quando os vejo com discursos difusos à volta do que estão a fazer, cito-lhes Brian Clough. Não era um filósofo, nem pertencia a nenhum “think tank”. Foi treinador do Derby County no início dos anos 70 e tinha um princípio simples, e precioso: “todo o drible que não resultar em golo, é um drible desnecessário”. Por isso, e muito concretamente, deixem-se de tretas. Foquem-se nos resultados e na forma de os obter. Habituem-se a fazer várias tarefas ao mesmo tempo. Acostumem-se a não “sair às 5 e meia e agora tenho de ir para casa e vou fazer uma caminhada ou tenho de ir passear o cão”.


Se tomarem conta de uma escavação ou de um museu (farão muito mais na vida do que arqueologia e museus, e se algum tonto vos disser o contrário, riam-se dele) não se ponham a apontar para trás, porque o anterior responsável deixou isto ou aquilo por fazer. Isso acontecerá sempre na vida, que alguém deixe algo para fazer. Tentem é vocês dar o dar tudo por tudo, onde quer que estejam, e caminhar em frente.


E não se ponham com promessas, do “agora é que vou fazer”, “tenho quase o projeto pronto”, “vou começar a escrever”. Das duas, uma: ou fazem, ou não fazem. Portanto, concretizem e mostrem resultados. Não consigo ter respeito por gente que está sempre a representar, como se num teatro estivesse. Aqueles que estão sempre com desculpas e a calimerar o mundo, fazendo-se de vítimas. Não copiem projetos e ideias. Procurem vocês outras soluções. Diferentes e atrevidas. Umas vão resultar, outras não. Lembrem-se que o sucesso não se mede só por termos muitas vitórias, mas também, e em grande medida, por termos o menor número de derrotas possível.


Habituem-se a tentar outros caminhos na vida. E se um dia vos desafiarem para algo diferente (uma intervenção na vida social, um cargo associativo, uma tarefa humanitária ou um cargo autárquico) pensem sempre “porque não?”. Mas pensem nessa outra realidade como uma missão, não como um emprego ou como um modo de vida.


E não se esqueçam de uma coisa. A verdade é como o azeite. Vem sempre ao de cima. É só uma questão de tempo.














Crónica em "A Planície"

Fotografia: Bruno Barbey (1941-2020)

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

O SAL DOS LIVROS

De Eugénio de Andrade, O sal da língua:

Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém – mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar.
Para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.

É A CULTURA, ESTÚPIDO...

A cena de faroeste de ontem é uma questão política e cultural. Foi no Capitólio, podia ter sido num saloon. Um acaso não foi, seguramente.

É favor não esquecer que o grunho teve 74.000.000 (setenta e quatro milhões) de votos.

Desde ontem me interrogo: e se os invasores fossem negros ou índios?

De Westworld (1973) não reza a História. Mas ilustra a inacreditável jornada de ontem.


terça-feira, 5 de janeiro de 2021

JOÃO CUTILEIRO EM MÉRTOLA

Aqui se recorda um texto publicado neste blogue, em 24.11.2011.

Quem entra em Mértola, vindo de Beja ou de Serpa, depara, no meio de uma enorme rotunda, com uma escultura, onde coexistem colunas em mármore, um conjunto de rochas e uma oliveira que é, por si só, um monumento.

Esta escultura, concebida em 1991 por João Cutileiro, tem uma história curiosa. A Câmara Municipal de Mértola foi, na altura, distinguida pelo trabalho desenvolvido no Centro Histórico. Deslocou-se à vila o ministro Valente de Oliveira. O prémio, do conhecido escultor, vinha dentro de uma caixa. Era uma miniatura, destinada por certo a figurar no gabinete do alcaide. Que não, foi dito ao ministro, a autarquia estava convencida que a escultura era mesmo a sério e portanto já havia uma rotunda preparada e tudo. O que era verdade. Depois de uns momentos de embaraço, o assunto foi rapidamente decidido. Mértola teria a sua escultura em king-size. E assim se preparou e instalou a mais bela peça de arte feita em Mértola nos últimos séculos.

A equipa autárquica em regime de permanência era então constituída por Fernando Rosa (presidente) e pelos vereadores José Manuel Santana e António Raposo.



segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

MEMÓRIAS PAROQUIAIS - CIDEHUS: UM SERVIÇO PÚBLICO

As "Memórias Paroquiais" são um insubstituível elemento de trabalho para quem queira estudar a realidade portuguesa. E não me reporto, necessariamente, ao século XVIII. Muita da informação que contêm é da maior importância para o período medieval.

As Memórias são o resultado de um inquérito às paróquias portuguesas, mandado fazer pelo Marquês de Pombal. Os resultados são de desigual interesse e dependem muito do empenho que cada pároco colocou na sua tarefa. Mas os dados são sempre relevantes e de enorme utilidade.

As Câmaras Municipais têm, progressivamente, vindo a promover a edição dessas Memórias. A de Moura fê-lo em 2002. Quando havia preocupações com o Património e editava livros.

Em plena redação de um trabalho sobre urbanismo, arquitetura e iconografia de sítios, fui parar a um magnífico site, feito a partir da Universidade de Évora.

As Memórias Paroquiais do Alentejo (já publicadas ou não) está lá disponíveis:

http://www.cidehusdigital.uevora.pt/portugal1758

Serviço público e investigação ao dispor de todos.

UMA QUERELA DO PRIMEIRO MUNDO...

Prefiro não entrar nesta querela do elenco negro/dobragem branca.

E recordo outra questão, bem mais significativa.

Do site da UNICEF

A REALIDADE DA MALÁRIA
O maior assassino de crianças.
A malária mata uma criança cada 30 segundos, cerca de 3000 crianças por dia.
Mais de um milhão de pessoas morre de malária por ano, a maioria crianças com menos de 5 anos, ocorrendo 90% dos casos de malária na África subsaariana.



PAULO PORTAS E OS DOIS PICOS DO KILIMANJARO

Paulo Portas consegue ver o que não existe.

Última descoberta: Vladimir Putin como "czar do Partido Comunista Russo".

Fez-me recordar aquele sketch dos Monty Python, em que John Cleese via uma "realidade" que não existia. Como os dois picos do Kilimanjaro. Só depois de tapar um olho conseguia enquadrar a realidade - v. aqui. Fica a sugestão.



domingo, 3 de janeiro de 2021

DEBATES

O que aconteceu no "debate" de ontem era expectável. O candidato fascista (o tal que fala com Deus...) transformou o que deveria ter sido um debate num completo caos. Com a complacência da "moderação". Conheci/conheço populistas assim. Nomeadamente no meu concelho de Moura. Eram/são imbatíveis na mentira, na insinuação, na perseguição, no "eu é que sei o que as pessoas querem", no "eu é represento o povo". Pois claro que sim...

Não creio que valha a pena perder tempo com este tipo de "debates". Não tenho a mínima paciência para fascistas nem para gente mal educada.

E a minha opção está tomada.





sábado, 2 de janeiro de 2021

DA IGUALDADE

Foi há semanas. Entrei num pequeno café do Alto Alentejo, para registar um prosaico totoloto. O dono do café estava em pleno e convicto monólogo com o que devia ser um cliente habitual: "sabes como é que eu sou; gosto de ajudar toda a gente" (o interpelado fazia que sim com a cabeça, sem grande entusiasmo); gosto de facilitar e não sou um gajo complicativo; estamos aqui para isso, não é?; olha, no outro dia, telefonou para cá uma às 7 menos um quarto, para eu lhe meter o euromilhões; disse-lhe logo que não; tenho que tratar toda a gente por igual, olha a esperta...". Virou-se para mim "o meu amigo faz favor de dizer".

Tive vontade de perguntar: "o que entende, em rigor, por ajudar e facilitar? é que não percebi a lógica da argumentação...". Em vez disso, limitei-me a dizer "são cinco apostas da máquina, por favor".

Woody Allen passeava pelas ruas de Manhattan, observando as pessoas à sua volta. Era esse um dos seus métodos favoritos para arranjar material para os argumentos. Todos os dias tenho testemunhos ao vivo que provam a eficácia do método.




TOP 3: 2008/2020

Pequena mania pessoal, num blogue pessoal. Quais os textos mais lidos ao longo destes anos?

Destaco três, os que mais consultados foram. O tema "autarquia-Moura" (what else?) está à cabeça, mais que destacado.



22695 leituras num texto sobre um conjunto de disparates ditos/escritos sobre a reabilitação da antiga discoteca de Moura. Foi uma grande aposta de então (foi processo em que não participei diretamente) e um grande sucesso. Moura ganhou um belo espaço. As críticas vieram de quem nunca fez nada de semelhante nem conseguiu construir nada parecido. Nem antes nem depois. O PS local, who else?



10041 leituras num texto sobre a forma como o Real Madrid chacina treinadores. Foi na altura em que José Mourinho por lá iniciava o seu percurso. Houve quem lesse o texto como um desejo meu que o nosso compatriota falhasse. Nada mais longe das minhas cogitações, bolas...



8716 leituras num texto sobre um querido conterrâneo, já desaparecido. Propunha eu que a Câmara Municipal perpetuasse a sua memória através da atribuição de uma bolsa de estudo com o seu nome. A proposta não teve sucesso.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

UM HOMEM NA CIDADE

O ano começa mal. Morreu Carlos do Carmo (1939-2021), artista maior de Lisboa e do País. Um fadista excecional, um profissional como uma rara perceção de como trabalhar com o público. Numa perspetiva de grande exigência e com a noção de que um espetáculo musical não é um local de convívio e de conversa enquanto "alguém está para ali a cantar".

Vi-o ao vivo apenas duas vezes. Uma em Moura, com ele muito zangado com a indisciplina do público; outra, em 3.2.2017, num concerto promovido pela Presidência da República para celebrar 40 anos de poder local democrático.

Aqui fica este excerto do filme "Fados" (2007), de Carlos Saura. Um música imortal. Tal como o cantor.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

2020 - VISTO, REVISTO E SEM SAUDADES

Foi o mais bizarro ano destes 57 que conheci. Um tempo inclassificável. E, no entanto, nada o faria prever. A capacidade de adaptação que todos temos é espantosa. Em março fui para casa. Em junho regressei a 100%. No final desse mês comecei um levantamento fotográfico concluído em outubro. Foram meses de bisonha solidão. Mas o trabalho fez-se. Terminaram-se livros, concluíram-se exposições. Dei aulas e fui trabalhando. A vida é menos divertida que antes? Muito menos. Faltam-me as festas e as romarias, as corridas de touros e os jantares com os forcados. A ópera e o cinema. As saídas sem máscara. Andar na rua. Isto vai ter de terminar. Ou em autómatos nos tornaremos.

O que destaco no meu ano de 2020? Foi um ano muito profissional. Centrado em projetos de trabalho. As alternativas eram poucas.


Janeiro

Arguição de uma tese de doutoramento na Universidade Nova. Um momento que fez parte de um percurso retomado em final de outubro de 2017.

QUARTA-FEIRA, 22 DE JANEIRO DE 2020

DIA DE TESE

Não é prática corrente, até porque, formalmente "não estou na carreira". Mas a arguição da tese de Luís Gil, que me foi pedida pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, deu-me especial prazer, por ser sobre Marrocos e por ser um importante esforço de identificação de campanhas de obras e da sua datação.

Safim e a aventura colonial portuguesa no norte de África foram a minha companhia nos últimos dias. Virar de página. Outras coisas se aproximam.

(gosto em especial que o traje académico de Letras, em França, seja amarelo e preto, as cores de uma das minhas terras; a fotografia, com a luz detrás, fez-me lembrar uma música dos Pink Floyd...).

Fotografia de grupo, após as provas (da esquerda para a direita):
Francisco Caramelo (diretor da FCSH), Mário Barroca (Univ. do Porto), Paulo Pereira (Univ. de Lisboa), Luís Gil), o autor do blogue, Luís Miguel Duarte (Univ. do Porto) e André Teixeira, orientador da tese (Univ. Nova de Lisboa)


Fevereiro

Ida a Silves, para a derradeira viagem da exposição "Caligrafias". Um caminho iniciado em finais de 2017 e que em 2020 se concluiu.

DOMINGO, 9 DE FEVEREIRO DE 2020

PELA TARDE DE SILVES

A Câmara Municipal de Silves organizou uma simpática abertura das Caligrafias, na torre de menagem do castelo. Foi um ida e volta em registo blitz. O suficiente para recordar o que foi a aventura da montagem da exposição Algarve Islâmico, inaugurada a 16.7.2010 (v. aqui). A tarde estava cinzenta, a fazer recordar o célebre poema céu pluvioso, de Ibn Ammar. Mas deu para ver que Silves continua bonita.

As caligrafias estarão por Silves até ao próximo dia 12 de abril.

Março

Subitamente, tudo mudou. O mundo começava a parar. De uma forma que não se imaginaria. Recordo-me de ir dar aula e dizer "para a semana, não estaremos aqui". Não voltei a ver os alunos pessoalmente.

SEXTA-FEIRA, 13 DE MARÇO DE 2020

UM POUCO DE UM DESNECESSÁRIO AGOSTO EM MARÇO...

O telemóvel diz a hora precisa: 20:38:52. Não é a hora de maior "pico" na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, mas nunca tinha visto o edifício assim. À saída do seminário do Mestrado em Património há sempre alunos e colegas à vista. Ontem, ninguém. O pátio deserto, a Avenida de Berna vazia, a Avenida Lusíada sem carros (!). Subitamente, o País reagiu (levou tempo, mas foi...).

A Faculdade fecha na segunda e só abrirá no final do mês. Acho que será depois, mas isso agora é irrelevante.

Os adiamentos sucedem-se:

12 - adiada reunião na Câmara Municipal de Lisboa
14 - adiada a visita à Lisboa Islâmica
14 - adiado o lançamento de um livro
19 - adiada reunião na Caixa Geral de Depósitos
21 - adiado o concerto no CCB
31 - adiada uma conferência no Gabinete de Estudos Olisiponenses

Creio que não ficará por aqui.

Abril

À falta de melhor, e fechado em casa, resolvo falar sobre o Património de Moura. Para minha enorme surpresa, quando aquilo acaba, tenho mais de 6.000 (!) visualizações. 

QUINTA-FEIRA, 30 DE ABRIL DE 2020

PATRIMÓNIO DE MOURA X 6.000


No início de abril comprei dois meses de "zoom". Era a maneira mais prática de continuar a dar as aulas. O método funciona, ainda que saiba a pouco. É um pouco como aquelas rodas estreitinhas que os carros agora têm quando temos um furo. Dão para desenrascar.

Resolvi aproveitar o zoom, o trabalho acumulado sobre Moura e projetos em curso para quatro curtas conversas à volta do Património. Tive a surpresa de contar, ao todo, com mais de 6.000 visualizações. Esperava umas centenas, vá que chegasse ao milhar.

O mérito não é meu, é da terra. E dos que lá nasceram ou vivem e que gostam de Moura. E do interesse que os temas suscitam.

Aqui ficam os links e os temas:

COMO DUARTE DARMAS VIU MOURA EM 1510
https://www.facebook.com/santiago.macias.58/videos/10217653092060859/

A MOURARIA DE MOURA
https://www.facebook.com/santiago.macias.58/videos/10217722009183744/

AS MURALHAS MODERNAS DE MOURA
https://www.facebook.com/santiago.macias.58/videos/10217799001228497/

DA PRATA DA ADIÇA À MOURA SALÚQUIA
https://www.facebook.com/santiago.macias.58/videos/10217871808568635/
Maio

Foi o mês de terminar um livrinho começado em 2012. Foi sendo feito ao sabor do tempo. Sem rigor (nenhum, mesmo) nem pressa (ainda menos). Ficou feito e será impresso em 2021.


DOMINGO, 24 DE MAIO DE 2020

MÚSICA GUINEENSE

É assim que me soa o crioulo, a uma toada musical. E é assim que arranca o livrinho:

Marjen di riu i un tapadu di tarafi. Marjen di riu i un linha ki ka kortadu. Tris ora dipus di ianda na iagu na metadi di tarafi, di seu fungulidu ku di mar fungulidu, barku tchiga Bulama. Na mar no ka na odja sidadi. No na odja son puntu, ku pekaduris manga del suma kakris na kabas.

Pensada em 2012, anunciada em abril de 2013, está perto do final esta saga teimosa sobre Bolama. Há dias, um escritor guineense, Geraldo Marinho Pina, enviou-me a tradução do texto. Vamos ao financiamento do que falta.

Junho

Foi tempo de recordar prémios recebidos pelo Museu de Moura em 2016 e em 2017.

TERÇA-FEIRA, 30 DE JUNHO DE 2020

JUNHO, MÊS DE MUSEUS

Junho é mês de museus. Moura recebeu prémios da Associação Portuguesa de Museologia em junho de 2016 (menção honrosa na secção "exposição" pelo trabalho Água, património de Moura) e em junho de 2017 (prémio "instituição do ano"). Como alguém costuma dizer "eu sei como aconteceu; eu estava lá!".

No próximo ano letivo, irei explicar, em Moura, aos alunos do Mestrado em Património quais as possíveis opções ante os recursos que temos. Como se fez a intervenção na arqueologia e nos museus 💗💗💗, áreas onde trabalho há 35 anos (esta parte custa a escrever...). Em especial, há um aspeto que importa frisar. Não há caminhos únicos, não há projetos "exemplares" nem há exemplos a seguir. Há, sim, esforço e a procura da originalidade a partir do território.


Julho

O "Público" pediu-me um testemunho sobre a reconversão da basílica de Santa Sofia. Vim depois, a constatar, não sem surpresa, que o texto era menos pacífico do que eu suporia. É a vida...

DOMINGO, 19 DE JULHO DE 2020

QUANDO O PATRIMÓNIO É ARMA POLÍTICA

A recente decisão turca de reconverter a basílica de Santa Sofia em mesquita é mais um capítulo na já longa história do monumento. De basílica para mesquita, depois museu, agora novamente mesquita. Esta última mudança causou comoção e protestos um pouco por todo o nosso mundo ocidental. A intenção fora expressa por Recep Tayyip Erdogan, em março de 2019, durante a campanha eleitoral para as eleições municipais. O tema nem sequer é recente. Há mais de 50 anos, o poeta islamista Necip Fazil Kisakurek protestava publicamente contra o estatuto de museu dado à antiga mesquita. E profetizava que o regresso ao passado seria uma questão de tempo. Não se enganou.

Esta decisiva mudança de estatuto representa um retrocesso? Não tenho dúvidas que as modificações de uso de monumentos, determinadas de modo reativo e como forma de marcar uma agenda política, são sempre um recuo. Também aqui não há novidades. No fundo, e de forma talvez demasiado simplificadora, aquilo que nós, ocidentais, valorizamos do ponto de vista cultural e patrimonial, é aquilo que outros rejeitam. A destruição dos Budas de Bamyan e de importantes testemunhos históricos e artísticos em Palmyra são as duas faces da intolerância e, também, de uma forma de afirmação política anti-ocidental. Nestes dois casos, tal como no de Santa Sofia, estamos ante exemplos de monumentos e de sítios classificados pela UNESCO como Património da Humanidade.

Não é tanto sabermos que a antiga basílica de Constantinopla volta a ser mesquita que é o fator principal de preocupação. Em boa verdade, o monumento está na Turquia e é aos turcos que, em última análise, cabe uma decisão sobre o uso a dar aos seus edifícios históricos. Claramente, têm esse direito, por muito que tal custe a um paternalismo ocidental que me faz lembrar, irresistivelmente, o episódio do astrónomo turco em “O principezinho”. O tal que só foi levado a sério quando se passou a vestir como nós.

O problema principal está nos danos colaterais. Erdogan, que se veste como nós, tem uma agenda política claramente traçada, desde há muito. Ao reverter Santa Sofia,passando por cima da Convenção do Património Mundial de 1972,deu mais um claro sinal à Europa. E arriscou, também, abrir a caixa de pandora do Património. Claro que deu garantias que fica “quase tudo” como antes. Toda a gente, independentemente do seu credo e nacionalidade, pode continuar a visitar a mesquita. E também está garantida a preservação dos mosaicos cristãos que cobrem as paredes interiores de Santa Sofia. Que serão, pudicamente, tapados com cortinas ou com raios laser durante as orações. Uma operação que terá de ser repetida 1825 vezes por ano. A tentação seguinte será, bem o temo, a cobertura dos mosaicos por períodos mais dilatados de tempo. Soluções diplomáticas como este “tapa-destapa” esbarram, mais cedo ou mais tarde, na realidade do quotidiano, nas pressões de grupos radicais e nos interesses políticos à qual a realidade e a perenidade do Património são alheias.

Hoje, no "Público"

Agosto

Em meados de agosto fechava-se a lista de apoios a este projeto. O verão e o outono forma passados numa incessante recolha de imagens.

QUINTA-FEIRA, 13 DE AGOSTO DE 2020

DUARTE DARMAS - O SITE E OS APOIOS


Aos poucos, o projeto (promovido pela MULTICULTI, e do qual sou autor) toma forma. O site agora tem o formato definido, com as cinco secções que o compõem. Dos 20 castelos, estão registados 13 (até final do mês de agosto essa tarefa estará terminada).

Para já, está aberta a secção onde se reproduzem as imagens desses 20 castelos, segundo foram vistas por Duarte Darmas, há cerca de 500 anos. Quais são os sítios abrangidos?

Alandroal
Alpalhão (Nisa)
Arronches
Assumar (Monforte)
Campo Maior
Castelo de Vide
Elvas
Juromenha (Alandroal)
Mértola
Monforte
Monsaraz (Reguengos de Monsaraz)
Montalvão (Nisa)
Moura
Mourão
Nisa
Noudar (Barrancos)
Olivença
Ouguela (Campo Maior)
Serpa
Terena (Alandroal)

O site tem também uma secção consagrada aos apoios. Ou seja, às entidades que tornaram possível este projeto e a quem é devido reconhecimento e agradecimento:

Apoios financeiros
Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Alentejo
Caixa Geral de Depósitos
Turismo de Portugal
Direção Regional de Cultura do Alentejo
Continente
Cafés Delta
Câmara Municipal de Barrancos
Câmara Municipal de Campo Maior
Câmara Municipal de Castelo de Vide
Câmara Municipal de Elvas
Câmara Municipal de Mértola
Câmara Municipal de Mourão
Câmara Municipal de Reguengos de Monsaraz
Câmara Municipal de Serpa

Parcerias institucionais
Arquivo Nacional da Torre do Tombo / DGLAB
Turismo do Alentejo / ERT
Resialentejo
  

Setembro

Ainda sob o signo do Património. O mês de setembro veria chegar ao fim o processo de deliberação em torno do Prémio Vilalva. Não tivemos granes dúvidas, sobretudo depois da visita ao local.

SEGUNDA-FEIRA, 21 DE SETEMBRO DE 2020

RESTAURO DA IGREJA DE SANTA ISABEL, EM LISBOA, VENCE PRÉMIO VILALVA

A notícia foi hoje divulgada. O Prémio Vilalva é atribuído ao restauro de um igreja em Lisboa.












O júri salientou ainda: 

A espetacularidade e requinte estético do projeto de pintura de Michael Biberstein (na foto), que cobre a totalidade da abóbada. Trata-se de uma das mais notáveis intervenções da arte contemporânea numa arquitetura clássica, concretizada depois da morte do pintor com o acompanhamento do artista Julião Sarmento e do curador Delfim Sardo;

A pluridisciplinaridade e elevadíssimo nível de qualificação da equipa (coordenada pelo Padre J.M. Pereira de Almeida e pelo Arq. João Appleton) que tem procedido aos trabalhos, potenciando saberes da engenharia, da conservação e restauro, da história da arte, do design de equipamentos e da arte contemporânea;

A metodologia de intervenção em faseamentos sucessivos que, em 2020, se concentram na valorização do altar inicial da Igreja e na criação de novo mobiliário litúrgico. 

O júri decidiu ainda atribuir uma  menção honrosa ao projeto de reconversão e reabilitação do Prédio na Rua da Boavista, 69, também em Lisboa. A decisão, de acordo com o júri, justifica-se pela qualidade do projeto de reconversão e reabilitação de um prédio que será de fundação fino-setecentista e pelo empenho dos arquitetos Filipa Pedro e Paulo Pedro na recuperação e recriação de diversos elementos construtivos e decorativos do edifício inicial ou das sucessivas fases da sua historicidade. 

Ver - https://gulbenkian.pt/noticias/restauro-da-igreja-de-santa-isabel-em-lisboa-vence-premio-vilalva/

Outubro

Conclusão de mais um processo "longo". Depois de quase 5 anos de avanços e recuos, era inaugurada na Sé Patriarcal a exposição "Moita Macedo - diálogo na Sé". Por razões que agora não vêm ao caso, foi também um saboroso ajuste de contas com um passado próximo.

SEXTA-FEIRA, 23 DE OUTUBRO DE 2020

MOITA MACEDO - DIÁLOGO NA SÉ

"Moita Macedo - diálogo na Sé" é o título da exposição que pode ser vista na Sé de Lisboa, entre 27 de outubro e 29 de janeiro de 2021.

O projeto, que arrancou em 2013 ou em 2014 (foi anunciado aqui no blogue como "recente" em 22 de março de 2015). Não é que seja complicado, do ponto de vista técnico. É um projeto bem fácil, diga-se de passagem... O pior foi lidar com o Sr. Cronos. E, ultimamente, com a Pandemia. E com outras limitações. Mas o projeto está terminado, haverá exposição e catálogo. A partir de dia 27 de outubro, na sala do tesouro da Sé Patriarcal.

O catálogo, que também coordenei, tem textos de D. Manuel Clemente, do Pe. Vítor Melícias e do autor do blogue. As fotografias, de grande qualidade, são de Fábio Moreira, que fez impossíveis, tendo em conta as difíceis condições de trabalho.







Do meu texto para o catálogo:

Os tons nacarados do algumas das suas obras parecem ter sido pensados para o ambiente operático do tesouro da Sé Patriarcal. Vermelhos cardinalícios, ouro e prata estão perto da cor das pinturas de Moita Macedo. Tal como Cristo Crucificado pertence a este sítio. Foi esse jogo, de temas, de cores, de evocações, de palavras que ecoam na Catedral, que quisemos criar e dele fazer diálogo. 

Novembro

Dois anos passados (o processo tiver início em novembro de 2018), abria finalmente ao público a exposição sobre os mártires de Marrocos. À medida que o ano caminhava para o final, ganhar a sensação de ser um tempo de viragem. Muitos processos concluídos, pensando já noutros tantos para o futuro.

QUINTA-FEIRA, 19 DE NOVEMBRO DE 2020

FINALMENTE, "GUERREIROS E MÁRTIRES"

Uma longa e sinuosa estrada, desde a primeira proposta, enviada ao Diretor do Museu Nacional de Arte Antiga, no outono de 2018.

A partir do martírio de cinco frades franciscanos, ocorrido em janeiro de 1220, construiu-se um projeto ao qual se deu o subtítulo A Cristandade e o Islão na formação de Portugal.

São mais de 200 peças, com as quais se tenta enquadrar uma época, a partir do que aconteceu em Marrakech.

A exposição está muito bonita, mas esse mérito é da Manuela Fernandes e da Sónia Teixeira Pinto, não dos comissários.

A inauguração foi hoje tarde, presidida pela Ministra da Cultura.










































Dezembro

Termina o ano com um texto sobre Mértola. Há regressos a que não se escapa, nem quer escapar.

SÁBADO, 26 DE DEZEMBRO DE 2020

REVISTA PATRIMÓNIO: UM TEXTO SOBRE MÉRTOLA

Verdade se diga que ainda não vi a revista.  Recebi um mail do Manuel Lacerda avisando que, depois de inúmeros constrangimentos devido à COVID, saiu finalmente o nº. 7 da Revista Património, uma edição da Direção-Geral do património Cultural. Fui, há meses, convidado para escrever  sobre Mértola. A abordagem é marcadamente impressionista, como tudo o que se passou (falo do ponto de vista pessoal) ao longo destes quase 40 anos. Pouca teorização, muita atuação de terreno. Muitos textos, exposições, livros e permanente interação.

Foi assim e assim será.