quinta-feira, 19 de julho de 2018

CHIQUE A VALER

Causaram alguma indignação as abjetas declarações de Miguel Guedes de Sousa, CEO da Amorim Luxury. Alguma, mas não muita, que o facebook anda cheio de supostas frases de Ghandi, de Mandela e de Einstein, à mistura com muitos elogios à presidente da Croácia, pelo seu suposto despojamento.

Que disse a criatura ao Expresso? Que não podemos ter pessoas da classe média ou média baixa a morar em prédios classificados. É tanta a arrogância, que já nem disfarçam. O que precisam os da luxury? Um povo-cenário, alegrote e que tenha uma vivência genuína, que cante o fado mas, POR FAVOR!, que não se misture...

Criaturas como Miguel Guedes de Sousa merecem-me o mais absoluto desprezo. E levam-me a combater em sentido contrário.

Em Moura, o Pátio dos Rolins (um edifício classificado, justamente) foi destinado a habitação social. As casas foram entregues no verão de 2017, sem pompa nem circunstância. Qual a lógica? Muito simples. Se o edifício podia ter funções de habitação social enquanto estava degradado, também o deveria ter depois de recuperado. Os mais desfavorecidos podem e devem viver em palácios ou palacetes. Era essa a nossa convicção. Foi isso que a nossa equipa fez.



terça-feira, 17 de julho de 2018

LUGAR DE PISTA

post 100% mourense e só para a geração 50+

Em tempos, a praça de touros era transformada em "sala de espetáculos". Havia bailes pelos santos populares, pela Santa Maria e no final da festa da padroeira. Nessas alturas, a praça de touros ganhava o nome de Esplanada Salúquia. O palco costumava ficar em frente à entrada e esta fazia-se pela porta por onde os cavaleiros entravam na arena. Havia dois tipos de bilhetes com direito a lugar sentado: geral (nas bancadas) e mesas com cadeiras (na arena). Estes últimos eram os mais caros. Mas havia também os lugares de pista, um requinte que permitia que se ficasse no redondel, mas de pé. Posso estar enganado, ou a exagerar, mas era a solução preferida de boémios, farristas e conquistadores, aqueles que se alheavam do espectáculo e ficavam a beber, junto ao bar, a conversar ou a fazer olhos de carneiro mal morto às mourenses mais belas.


segunda-feira, 16 de julho de 2018

O GOLO MARCADO POR MBAPPÉ FOI UM ESPINHO CRAVADO NA GARGANTA DE KOLINDA GRABAR-KITAROVIC

Para os mais novos o título é, no mínimo, enigmático. Para quem se recorda da A.O.C. não o é tanto. Ainda que no linguajar maoísta destes o alvo do espinho fosse outra pessoa.

Bref, não tenho a mínima simpatia pelo regime político croata. E vi com alívio a vitória gaulesa. Ao menos, refreou a paranóia nacionalista.


KIKO - PALETA MOURENSE

Exposição de pintura do meu amigo Francisco Fachadas Marques, no âmbito das Festas de Nossa Senhora do Carmo. Mais uma belíssima mostra. A nossa terra, reinterpretada pelas cores de um muito jovem autor.

O quadro que aqui se reproduz pode, a partir de hoje, ser exposto com a referência "coleção particular". Perspetiva que muito me apraz.


domingo, 15 de julho de 2018

AZEITONAS


As oliveiras são árvores sagradas no Mediterrâneo. Recordo, neste domingo da Festa de Moura, uma passagem de um tratado de agricultura do período islâmico a respeito da preparação das azeitonas para consumo caseiro: "das frescas e verdes umas se partem com pedra lisa ou com um pau de forma que cada caroço delas fique quebrado e estas se chamam partidas; a outras fazem-se três golpes ao alto e são chamadas abertas".  Este procedimento corresponde aos tipos de preparação de azeitona que ainda hoje se praticam no Alentejo e que popularmente se designam como pisadas e arretalhadas. A principal diferença reside nos temperos utilizados, sensivelmente modificados desde aquela época.

A expressiva descrição que transcrevi está no Kitab al-Filaha, de Ibn al-Awwam, escrito no final do século XII. Chegou até nós como Libro de agricultura e foi traduzido por José A. Banqueri e editado em Madrid em 1802, pela Imprenta Real. O quadro é de Henri Matisse (1869-1954). Estas oliveiras em Colliure devem datar de 1906, e estão hoje no Met, em Nova Iorque.

sábado, 14 de julho de 2018

ANTÓNIO BORGES COELHO - PRÉMIO UNIVERSIDADE DE LISBOA 2018

Do site do Centro de História da Universidade de Lisboa:

O Prémio Universidade de Lisboa 2018 foi atribuído, no passado dia 4 de Julho, a António Borges Coelho, investigador emérito do Centro de História da Universidade de Lisboa e Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Citando a deliberação do júri, "António Borges Coelho é um nome singular na historiografia portuguesa contemporânea. A sua obra incide sobre tópicos tão diversos como as raízes da expansão portuguesa, a revolução de 1383, a história da Iniquisição, a multissecular presença árabe no que é hoje Portugal, e a historiografia portuguesa. Este trabalho, inovador nos domínios tratados, culmina numa História de Portugal em diversos volumes, que prossegue, em que o autor cumulativamente delineia uma interpretação global do percurso histórico nacional, das origens à actualidade. Foi, a partir de 1974, professor na Faculdade de Letras de Lisboa, onde atingiu a cátedra. Formou, ao longo de décadas, centenas de alunos, nos quais deixou marcas, pelas suas qualidades humanas e pedagógicas. Para além da relevância do seu percurso científico, muitas vezes prosseguido em circunstâncias adversas, o júri sublinhou a grande erudição e acessibilidade da sua obra, e o seu comprometimento com a cultura e língua, evidenciado no modo como integra na narrativa dos acontecimentos a carcterização detalhada de instituições, informações demográficas, e estruturas económicas, sociais e culturais."


Gosto em especial da frase "formou, ao longo de décadas, centenas de alunos, nos quais deixou marcas, pelas suas qualidades humanas e pedagógicas". Não foi meu professor, do ponto de vista formal, mas foi-o de muitas outras formas.


*****

Ler este início do seu livro Raízes da expansão portuguesa, aos 16 anos, deixou-me marcas inapagáveis:


Ao sul e leste o Saará, a oeste o Atlântico, a norte o Mediterrâneo, a oriente desertos e a estrada natural do norte de África, a estrada das invasões, das especiarias e do Islão: eis Marrocos.

No mapa parece um cavalo deitado voltado para o Mediterrâneo com a garupa nervosa bem recortada sobre o Atlântico. A cordilheira do Atlas com os seus 4000 metros de altitude liberta-o da estepe e dos desertos do Leste. Depois os seus campos vão descendo de planalto em planalto, abrindo sobre o oceano os seus largos terraços de terras úberes. Atlas, o velho gigante, não sustenta o céu com os seus ombros possantes, mas sustém estes açafates mouriscos que podem abarrotar de cereais, de gados e de frutas. Um outro braço de montanhas corre paralelamente ao Mediterrâneo - é a cordilheira do Rif, muralha onde vêm quebrar-se as ondas invasoras.


sexta-feira, 13 de julho de 2018

1998 - UM ISLÃO PORTUGUÊS

Vinte anos se passaram. Recordo bem a intensidade da primeira quinzena de julho de 1998. Terminava-se a impressão do O legado islâmico em Portugal e a abertura da exposição Portugal islâmico - os últimos sinais do Mediterrâneo.

A apresentação do primeiro teve lugar no dia 14 de julho, no Pavilhão de Portugal da Expo-98, a inauguração da segunda no dia 15 de julho, no Museu Nacional de Arqueologia. O livro esgotou as duas edições (na Fundação Círculo de Leitores e na Temas e Debates), em pouco tempo. A exposição ultrapassou os 100.000 visitantes. O catálogo esgotou, há muito.

Recordo estes dias, com um abraço de amizade aos colegas com quem colaborei nesses dias.

Vinte anos?

Como no final de um poema de Kavafis:
Meia-noite e meia. Como passam as horas.
Meia-noite e meia. Como passam os anos.



quinta-feira, 12 de julho de 2018

ESCAVAÇÃO ARQUEOLÓGICA - DIAS 7 A 9

Foram nove dias de campanha. Uma temporada muito curta, dedicada a avaliações e a tomadas de decisão, tendo em vista o futuro.

Os trabalhos tiveram lugar no espaço que corresponde a um dos antigos claustros do convento do castelo. Não esperávamos encontrar níveis medievais tão cedo. Bem vistas as coisas, as cotas das estruturas (c. 185.00) são coerentes com as da ocupação islâmica junto ao posto de turismo (c. 185.50) e as da alcáçova (entre 185.25 e 186.00). Ou seja, a construção do convento criou uma "falsa realidade" topográfica no sítio).

O tipo de estruturas postas a descoberto obrigarão a um alargamento de área de trabalho. Ocupações recentes (séculos XIX e XX) afetaram fortemente os níveis medievais. Uma coisa é certa. Estamos já ante a presença de vestígios - ainda fragmentários - das casas islâmicas dos séculos XII e XIII. A realidade da nossa terra de há sete ou oito séculos começa a mostrar-se.

Dia 9 - 12:09 (fecho da campanha)

Dia 8 - 07:34 (canalização do século XIX interferindo diretamente nos estratos medievais)

Dia 7 - 09:54 (uma telha digitada dá o mote: andamos pelos níveis islâmicos)

terça-feira, 10 de julho de 2018

A IGREJA DE SANTIAGO, REVISTA E AUMENTADA

No dia em que surgem, nas traseiras do convento, estruturas antigas no Castelo de Moura, um novo olhar sobre a igreja de Santiago relança novas hipóteses e outras visões sobre o edifício.

Imagem de cima:
1) Altar da primeira igreja de Santiago
2) Base de pilar de entrada na capela-mor
3) Base de pilar de entrada na capela-mor

Imagem de baixo (verão de 2012):
1 - À esquerda deste número identifica-se uma pequena estrutura quadrangular, que pensamos ter sido um altar
2 - Local onde se encontrou uma moeda da primeira metade do século XIV
3 - Enterramento com moeda associada (ceitil de D. Afonso V)
4 - Enterramento com moeda associada (ceitil de D. Afonso V)

Importa agora alargar a área de escavação e identificar a planimetria da igreja. A escavação foi interrompida neste setor no verão de 2012. É 2019 será altura de retomar nos terreno em volta da capela-mor da igreja. Porque o espaço religioso tem uma dimensão maior do que na altura se supunha. E mesmo a sua cronologia deverá ser (re)afinada.


segunda-feira, 9 de julho de 2018

DÉJEUNER SUR LE SABLE

O quadro do jovem João Gabriel (n. 1992) remete para outro. Agora que o verão começa, deixo por uns dias a frescura temperada de Lisboa.

Vêm aí outros dias. Na antecipação dos quentes finais de tarde aqui fica um pouco de Pessoa, escrito no dia 13 de julho de 1928:

É inda quente o fim do dia...

É inda quente o fim do dia...
Meu coração tem tédio e nada...
Da vida sobe maresia...
Uma luz azulada e fria
Pára nas pedras da calçada...
Uma luz azulada e vaga
Um resto anónimo do dia...
Meu coração não se embriaga
Vejo como que em si o dia...
É uma luz azulada e fria.

João Gabriel foi finalista do Prémio Novos Artistas Fundação EDP, em 2017.

Ver - https://joaogabriel.net/

domingo, 8 de julho de 2018

TERMINAL POPULAR

Ponto prévio: salvo raríssimas exceções, o atendimento que tenho tido na Rodoviária - a que recorro amiúde - é de qualidade. O problema não está, de certeza, nos funcionários. Mas no sítio e nas condições de trabalho. O terminal rodoviário de Sete Rios tem condições deploráveis. Não espero que um terminal seja exatamente o lounge da executiva da TAP, mas aquilo é de menos. A fotografia foi feita às 16:53, num ambiente caótico. Não há sala de espera, não há espaço para circular, não há um mínimo de conforto.

O terminal rodoviário de Sete Rios é todo um compêndio de sociologia sobre classes sociais. Anda de transportes públicos quem não tem alternativa. Não devia ser assim, mas é.

RETRATO DO CORPO AUSENTE

"Aproximai-vos vós todos, igualmente lamentai comigo, porque morrer não é coisa nova! Chorai comigo todos quantos a causa da dor e a aflição da morte profundamente atingem! Recordai com lamentações e com atos sagrados a Maura, que foi minha sobrinha! De olhos muito belos e formosa de feições, criou-a a mãe em castidade, a terra recebeu-a virgem, e sem mácula foi deposta na sepultura. Ai de mi, desgraçado, que perdi flor tão rara que mal fizera quinze anos! Ai de mim, desgraçado, que até recobrar alegria viverei entretanto desolado e por grande mágoa ferido por tua causa! Por isso eu, Calandronio, peço ao Senhor te conceda descanso eterno. Descansou na paz do Senhor no dia quarto das Calendas de agosto da era de 703"

Lápide pertencente ao Museu Regional de Beja, datada de 29/7/665.


O texto tem ressonâncias a Kavafis. Recordai com lamentações e com atos sagrados fez-me lembrar o sentido de despedida de Como preparado há muito, como corajoso,
despede-te dela, parte de um conhecido poema.

Há texto e evocação do corpo, mas não há imagem. Esta peça está quase no final da exposição Do tirar polo natural, que vai estar no Museu Nacional de Arte Antiga até ao início do outono. Uma exposição absolutamente magnífica, com uma multiplicidade de estimulantes perspetivas em torno do tema do retrato.

Ver - http://www.museudearteantiga.pt/exposicoes/do-tirar-polo-natural

sábado, 7 de julho de 2018

QUATRO PARA UM TÍTULO

Fazendo contas. Em que ano foram semifinalistas?

Bélgica - 1986
Croácia - 1930, 1962 e 1998
França - 1958, 1982, 1986, 1998 e 2006 (campeões em 1998)
Inglaterra - 1966 e 1990 (campeões, muito benzidinhos..., em 1966)


ESCAVAÇÃO ARQUEOLÓGICA - DIAS 1 A 4

Foi francamente melhor do que se esperava. Está terminada a primeira semana deste retomar das escavações arqueológicas no Castelo de Moura.

O projeto Intervenção Arqueológica no Castelo de Moura decorre, nesta fase, até 2020, com o apoio da autarquia.

Dia 4 - 11:02 (primeiras estruturas medievais à vista)

Dia 3 - 08:52 (aumenta área de escavação)

Dia 2 - 08:11 (primeiras cotas)

Dia 1 - 10:28 (visita dos colegas do Castelo Velho de Safara)

sexta-feira, 6 de julho de 2018

CRÓNICAS OLISSIPONENSES - XI

A cidade está em obras. E depois é isto. Há tampumes por toda a parte. Que devem ser preservados. Sem dúvida.

Rua das Janelas Verdes - hoje à tarde

MANHÃ ACADÉMICA

Dia de regressar à Nova. Interrupção nas férias, paragem nas escavações, etc. etc. Acho sempre divertido quando sou sempre o extra nestas coisas... "Está agora em que universidade, professor?", foi a pergunta ao telefone. De momento, em nenhuma.

Entre 21 relatores, só Maria João Albuquerque (da Secretaria Geral do Ministério da Administração Interna) e eu estamos fora desse grupo.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

MURALHAS MODERNAS DE MOURA - UM PASSO PARA A REABILITAÇÃO

Traçado das muralhas seiscentistas de Moura

Foi ontem aprovada, na reunião de Câmara, a abertura do procedimento para a reabilitação das muralhas de Moura. Manifestei, e manifesto, a minha satisfação, por esta intervenção avançar. Conheço bem as muralhas de Moura, que estudei em tempos. Tal como conheço muito bem este projeto de reabilitação, no qual trabalhei diretamente. Os valores de candidatura são estes:

CONSERVAÇÃO DAS MURALHAS MODERNAS
Investimento total: 381.967,43
FEDER: 324.672,32 
CMM: 57.292,11

O assunto foi ontem (re)deliberado pela Câmara. Já tinha sido objeto de deliberação em 26.7.2017. Desconheço as razões de nova decisão, que é igual à anterior. Questão fundamental? A obra avança.



Ver: http://www.cm-moura.pt/documentos.php?page=2&ipp=40&cd=ATACM

Reunião de Câmara de 26 de julho de 2017

ABERTURA E APROVAÇÃO DAS PEÇAS DO PROCEDIMENTO PARA REALIZAÇÃO DA EMPREITADA DE CONSERVAÇÃO DAS MURALHAS MODERNAS DA CIDADE DE MOURA

Foi presente proposta do Presidente da Câmara de 06/07/2017, exarada nos termos da informação no05/2017 de 06/07 da Secção de Contratação Pública e Aprovisionamento, de abertura e aprovação das peças do procedimento para realização da Empreitada de Conservação das Muralhas Modernas da Cidade de Moura, nos termos da metodologia definida no parecer da Chefe da DADGFRH.

DELIBERADO, POR UNANIMIDADE, APROVAR A PROPOSTA DO PRESIDENTE, EXARADA NOS TERMOS DA INFORMAÇÃO No05/2017 DE 06/07 DA SECÇÃO DE CONTRATAÇÃO PÚBLICA E APROVISIONAMENTO E NO PARECER DA CHEFE DA DADGFRH DE QUE: SE DÊ INÍCIO AO PROCEDIMENTO DE CONCURSO PÚBLICO; APROVE AS PEÇAS DO PROCEDIMENTO DO ANÚNCIO, PROGRAMA DE PROCEDIMENTO E CADERNO DE ENCARGOS, A CONSTITUIÇÃO DOS ELEMENTOS DO JÚRI E AINDA QUE TODAS AS COMPETENCIAS DO ÓRGÃO COMPETENTE PARA A DECISÃO DE CONTRATAR, SEJAM DELEGADAS NO JÚRI, À EXCEPÇÃO DA COMPETENCIA DE QUALIFICAÇÃO DOS CANDIDATOS OU PARA A DECISÃO DE ADJUDICAÇÃO.

QUANDO A BUROCRACIA NOS DÁ VONTADE DE RIR

Estava eu em meu sossego, esta manhã, no Castelo de Moura, quando apareceu a minha amiga Lina Delgado (técnica superior da Câmara de Moura) com uma pasta de documentos na mão. Que era preciso assinar uns documentos na qualidade de Presidente da Câmara 😮😮😮. Um departamento governamental qualquer atrasara-se. O que era suposto estar pronto em setembro de 2017 só em julho de 2018 se concluíra. Estamos a falar de um texto tipo, igual ao dos anos anteriores...

Assinei, claro. Ninguém tem culpa destas situações, a não ser departamentos de ministérios a quem só temos de dizer que são uns tremendos IN-COM-PE-TEN-TES.

ELEMENTOS - FOGO 2

Creio que a palavra fogo evoca, em termos históricos, a cidade de Roma. Mais que qualquer outro acontecimento. Nero tocando harpa enquanto a capital do império ardia, embora esse registo careça de rigor...

L'incendie de Rome, pintado em 1785 por Hubert Robert (1733 –1808), tem o fogo como elemento central. A tela é teatral. Bem podia ser o cenário da ópera Nerone, de Arrigo Boito.

quarta-feira, 4 de julho de 2018

DESCENTRALIZAÇÃO - ASSIM TIPO VOLUNTÁRIOS À FORÇA

O Governo propõe-se passar imóveis classificados para as autarquias. Até aqui, nada de muito novo. Não fossem as autarquias a preocupar-se com estas matérias e isto estaria lindo...

O ponto extraordinário neste ofício do Secretário de Estado (que já foi Presidente de Câmara) é a frase: "solicitamos uma resposta não vincutativa até ao final do corrente mês de junho, interpretando-se a ausência de resposta, como não oposição à receção do imóvel em causa".

Se não fosse trágico daria vontade de rir.

DESCENTRALIZAÇÃO DE COMPETÊNCIAS

O pacote de descentralização de competências é o fim de um Poder Local autónomo. Doravante, os autarcas serão delegados, e serventuários, do Poder Central. E a despesa corrente vai subir em flecha.

Há quem goste disto. Sobretudo os que vivem da Política. Literalmente.

A girândola de ministros e secretários de estado de visita às colónias mais remotas vai ser um hábito. Preparem-se:

Os tapetes vermelhos;
As fanfarras;
Os discursos balofos.

MEMÓRIA DA MOURARIA

MEMÓRIA DA MOURARIA
(texto para a Alice Reis e para o Jorge Liberato)

Durante muito tempo me perguntei “afinal, quem vivia na Mouraria de Moura?”. Quem era aquela gente que, depois da reconquista da vila, por aqui foi ficando? De que viviam? Que contactos tinham fora da nossa região?

Durante muito tempo tive, erradamente, a ideia que eram apenas pequenos hortelões, artesãos sem grandes rendimentos. O tempo, novas leituras, os estudos de outros colegas, a arqueologia, obrigaram-me a rever uma posição tão radical.

Começando pelo mais fácil. Quem era Brafama? Um proprietário do século XIV, depois “passado” à História como noivo de Salúquia. Era um dos membros de uma comunidade que tinha terras e que, apesar de ter sido desapossada da rica várzea do Ardila, a continuou a explorar. E daí tirava rendimentos muito significativos. A minha colega Filomena Barros, que tem estudado aprofundadamente as comunidades muçulmanas, não tem dúvidas em dizer que a Mouraria de Moura era das mais ricas do País. Daí que o rei recorresse aos seus habitantespara pedir empréstimos para financiar a Coroa. Só nos ano de 1440 foram três ajudas ao Estado, num total de 18.000 réis (dá qualquer coisa como nove cêntimos, na moeda atual).

A imagem de uma comunidade que tinha uma vida bem mais desafogada do que em tempos pensei foi-se construindo com o tempo. Tinham meios para encomendar placas funerárias escritas, como a que assinalou a mortede Ismail Ibn Abi Abd Allah al-Ansari.Era um morador do bairro, que faleceu no dia 17 de shaban de 769. Uma data do calendário muçulmano que corresponde ao dia 7 de abril de 1368.Não esqueçamos, já agora,que a mouraria foi instalada sobre parte do antigo cemitério muçulmano.

Os habitantes da mourariatinham meios para manter uma mesquita, que se situava onde hoje é o largo. Essa mesquita tinha um “al-faqih”, um legista que devia fazer também o papel de capelão ou almoedão, cabendo-lhe o chamamento à oração.

Não se poderá que os habitantes fossem cosmopolitas, pelos nossos padrões atuais. Mas tinham contactos fora das fronteiras do Reino de Portugal. Duranteescavações arqueológicasrealizadas há anos no bairropor José Gonçalo Valente e por Vanessa Gasparapareceu um assinalável espólio cerâmico. De onde vinham os luxuosos pratos usados pela elite local? De Sevilha, de Málaga, de Valência. Na segunda metade do século XIV – a cronologia das peças parece ser coerente – havia gente na Mouraria com capacidade financeira para encomendar peças nos melhores ateliers da Península Ibérica.

Que temos hoje?Três ruas (Primeira, Segunda e Treceira, assim mesmo),uma travessa e um largo.Um bairro bonito. E tem as pessoas, que são melhores que as ruas e que as luzes.

Prepara-se, por esta altura, um livrinho sobre a Mouraria. Daqui por uns meses está na rua.



Texto para "A Planície" de hoje. Com uma correção: Brafama era do século XIV, não do XV.

terça-feira, 3 de julho de 2018

CLUBE EXCLUSIVO

As semi-finais não terão direito a estreias. Nos quartos de final do Mundial estão seleções com história na competição:

Uruguai - 5 vezes semi-finalista
França - 5 vezes semi-finalista 
Brasil - 10 vezes semi-finalista 
Bélgica - 1 vez semi-finalista
Rússia - 1 vez semi-finalista
Croácia - 3 vezes semi-finalista
Suécia - 4 vezes semi-finalista
Inglaterra - 2 vezes semi-finalista


TANTAS PIADAS QUE SE FIZERAM À CUSTA DO KOMSOMOL...


À boleia de Rafael Rodrigues.

TEXTO MAIS LIDO NO MÊS DE JUNHO DE 2018: ASSIM, AINDA NOS DEIXAM VAIDOSOS...

1.011 leituras? Sinceramente, nunca pensei que o tema reabilitação urbana despertasse tanto interesse. Fico satisfeito com isso. Mais um tema com passado e futuro.


TERÇA-FEIRA, 5 DE JUNHO DE 2018


ASSIM, AINDA NOS DEIXAM VAIDOSOS...


Razões de ordem profissional impedem-me de ir a Moura no dia 7 de junho. A Câmara Municipal promove um encontro com o expressivo título de 
“Moura – estratégia de Desenvolvimento Local: o urbano e o rural”. Um tema sempre interessante. Tal como interessantes são os oradores. Facto curioso, todos eles estiveram comprometidos na estratégias de reabilitação que a Câmara Municipal de Moura prosseguiu ao longo de vários mandatos. Ora deixa cá ver (e por ordem alfabética):

João Nunes (PROAP):
Arranjos exteriores dos Quartéis - concretizado
Projeto de reabilitação da Ribeira de Vale de Juncos(Amareleja) - concretizado

Nuno Lopes:
Revisão ao regulamento do Plano de Salvaguarda de Moura - concluído e em vigor
Projeto de reabilitação do Bairro do Carmo - em obra (contrato assinado no mandato passado)

Tiago Mota Saraiva:
Projeto do novo cemitério de Moura - projeto concluído e com financiamento para a primeira fase
Projeto da Zona Industrial da Amareleja - projeto concluído
Torre do Relógio (Amareleja) - em obra (contrato assinado no mandato passado)

Victor Mestre [e Sofia Aleixo]:
Reabilitação da Igreja do Espírito Santo - concretizada
Pavilhão das Cancelinhas (Amareleja) - concretizado
Reabilitação do antigo Grémio - projeto concluído e com financiamento assegurado
Reabilitação da antiga estação da CP - projeto concluído e com financiamento assegurado

Todas estas equipas trabalharam ativamente em Moura, a partir de 2006. O que antes, nos mandatos da CDU, se fazia era péssimo. Agora já é ótimo.

Em resposta a uma amiga de Moura: estas mudanças de posição não são "política", como tu dizes. Têm a ver com caráter.

No meio disto tudo, ainda nos deixam vaidosos. Fico feliz (sem ponta de ironia) com estas iniciativas. Não há nada como os nosso adversários reconhecerem o nosso trabalho.


segunda-feira, 2 de julho de 2018

UM MILHÃO E MEIO

Foi hoje, perto das 11 da manhã, que o blogue chegou a 1.500.000 de leituras. Aconteceu isto 9 anos, 6 meses e 23 dias depois do começo.

OLHAR EM FRENTE

Olhemos em frente, dizia há dias um amigo. É um princípio de toda a vida. Olhe-se sempre em frente, sem esquecer as lições do passado. Tenho passado os últimos oito meses olhando em frente.

Não posso deixar de recordar um episódio, ocorrido há meses, em Évora. No decurso de um encontro promovido pela Caixa Geral de Depósitos, dizia o Prof. Augusto Mateus (antigo Ministro da Economia) "não podemos olhar para o retrovisor". Na minha intervenção disse-lhe, para gáudio da plateia, "não faça isso, professor; é que nós, historiadores, vivemos do retrovisor; não nos tire o sustento". É nesse olhar para a frente que nos temos de situar. Mas o passado faz parte integrante do futuro. Por isso, tenho tido o prazer de voltar a Moura. 

Passei o feriado municipal olhando em frente, na Amareleja. A inauguração do bar das Cancelinhas foi um bom regresso.

Passei o dia de ontem olhando em frente. Do outro lado estava a ermida de S. Pedro da Adiça. Uma tarde fraterna, entre amigos que me convidaram para um almoço.

Passei a manhã de hoje olhando em frente, tanto para o Ardila, lá longe, como para o futuro da escavação no Castelo de Moura.

Olhando em frente, tenho uma exposição de fotografia em Évora, e outra de pintura contemporânea, que acabei agora de organizar (dizer curadoria é mais fino, mas desisti da palavra, que é feia).

Olho, meu caro, sempre em frente. Tenho pela frente um livro quase terminado. E outro que acabei de escrever. Olho para a frente, refletindo nesse passado recente. O testemunho que quero deixar parece-me interessante, como reflexão da participação na vida política, ao longo de várias décadas. E também para não serem outros a construir o meu passado, à minha revelia. 

Em estradas como esta olha-se em frente.
É a State Road 64, no Novo México. Entre Taos e Tres Piedras.

domingo, 1 de julho de 2018

GONE TO GARGALÃO

Na sexta à tarde fiz como Bruce Chatwin. Deixei um papel em cima da secretária. Dizia apenas Gone to Gargalão. Sempre gostei de romarias e de festas no campo. 

Daí o prazer de regressar aos sítios. E de (re)encontrar amigos. Aquela procissão, campo fora, tem algo de onírico. Do Gargalão à ermida são 500 metros. Dali à entrada na aldeia 2.500. Mais uns 1.000 até á igreja. Fomos campo fora, com a música da banda e uma celebração entre o sagrado e o profano.


sábado, 30 de junho de 2018

EXPRESSIONISMO PONTESSORENSE

Da Chilehaus, em Hamburgo (Fritz Höger - 1924) ao Ray and Maria Stata Center, no M.I.T. (Frank Gehry - 2004), passando pelo Crédito Agrícola, em Ponte de Sor. Desconstruindo a realidade, as linhas e as formas. Dei com o edifício do C.A. por acaso, no meio de uma investigação sobre outra coisa. Mas achei graça à sua rudeza quase expressionista.




sexta-feira, 29 de junho de 2018

PÁS NA TERRA

Não é Lucas 2:14 que aqui cito ou insinuo. Embora seja esse versículo que nos vem à memória. Segunda-feira, 2 de julho, recomeçam as escavações arqueológicas no Castelo de Moura.

Anos deste percurso?
1989
1990
2003
2004
2005
2007
2008
2010
2011
2012
2013
2017, num total de cerca de 400 dias de trabalho.

Está tudo resumido em dois volumes, editados em 2013 e em 2016. As questões de urbanismo merecerão tratamento num outro livro, que depende do afinar de muitas coisas em curso. Não há tempo de edição, nem pressa. Para já, prossegue a grande incógnita sobre a ocupação medieval nos terrenos a nordeste do convento. Faremos uma campanha mais curta, de registo e de reflexão. Haverá decisões, com reflexo nos anos seguintes.

É o momento Jeremy Boob: "Ad hoc ad loc and quid pro quo, so little time, so much to know!".


O DOM AFONSO HENRIQUES DA SEGUNDA CIRCULAR

Prevejo páginas épicas. Ao pé disto o al-Mann bi ’l-imāma vai parecer uma chatice do caraças...

quinta-feira, 28 de junho de 2018

VITORINO MAGALHÃES GODINHO E A BIBLIOTECA MUNICIPAL DE MOURA


Isto é um país meio esquisito. Para não dizer pior. A memória parece não funcionar.

Primeiro, foi o centenário de Vitorino Magalhães Godinho (nasceu em 9 de junho de 1918), que passou ao lado de tudo e de todos. Nem a sua Universidade Nova parece ter assinalado a data.

Ontem, no blogue de Zélia Parreira (Açúcar Amarelo) referia-se a passagem do cinquentenário da Biblioteca Pública de Moura, que a Câmara Municipal silenciou. O tema passou à margem de tudo e de todos, aparentemente.

Uma biblioteca é um sítio demasiado importante para ser esquecido. No caso de Moura, é doloroso ver que o financiamento de reabilitação total do antigo Grémio (e a sua adaptação a centro documental e biblioteca) vai ser atirado ao lixo, em nome da maquilhagem da fachada do imóvel...