sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

ALUMNUS X

José Eduardo Cavaco foi o primeiro convidado de 2017 e o 10.º desde o início do projeto.


Nesta edição da iniciativa, que ontem teve lugar, os alunos da Escola Secundária (às 10:00) e da Escola Profissional de Moura (às 15:00) ficaram a conhecer o percurso profissional e pessoal deste professor e músico.

José Eduardo Cavaco nasceu em 1969, em Moura. Frequentou os diferentes níveis escolares, até ao 12.o ano, na cidade mourense. É licenciado em Biologia Marinha e Pescas pela Universidade do Algarve, doutorado em Biomedicina pela Universidade de Utrech, na Holanda, e pela Universidade da Beira Interior na Covilhã.


Desde 2002 que é professor na Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior, lecionando no curso de Medicina (coordenador do bloco cardio-respiratório) e Ciências Biomédicas (Anatomia e Fisiologia Humana). Desempenha também outras funções na Universidade e desenvolve uma carreira de investigação na área da reprodução, com destaque para a infertilidade masculina.


Os primeiros passos na música foram dados na Banda da SFUM “Os Amarelos”, celebrando, este ano, 35 anos desde a sua primeira saída. De resto, sempre que vem a Moura, continua a tocar clarinete naquela banda. Na Covilhã, local onde reside, é presidente e diretor artístico da Banda da Covilhã, tendo lançado dezenas de projetos na área musical.


José Eduardo Cavaco tem também “veia” de jornalista, colaborando assiduamente com O Notícias da Covilhã e em outros meios regionais e nacionais. 

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

HUMBERTONA

O nome verdadeiro é Humberto Bettencourt Santos. Um músico genial. É caso para dizer MAIS um grande músico, tantos são e de tanta qualidade os que as ilhas de Cabo Verde têm.

Mea culpa, mea maxima culpa, só há semanas tomei conhecimento do trabalho de Humbertona. Para mim, o violão e as mornas ERAM Luís Rendall. Apenas e só. É um prazer errar e descobrir coisas novas e de grande beleza. Ora ouçam:

Aqui

Aqui

E escusam de agradecer.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

MH 370 - A DERROTA DA TECNOLOGIA

O avião do voo MH 370 desapareceu no dia 8 de março de 2014. Era um Boeing 777, com 239 ocupantes e 300 toneladas. As buscas foram hoje suspensas. Que o comunicado tripartido seja em chinês ou noutra língua é indiferente. A tecnologia foi derrotada. A pergunta que toda a gente (se) faz é "como é que é possível?". E para essa pergunta não se encontrou resposta.

Ver - http://jacc.gov.au/

FLAGRANTES DA VIDA REAL - VIII

Entra um cliente numa certa e determinada taberna da vila. O cabelo artisticamente no ar e a pose indicavam estatuto: artista ou intelectual. O taberneiro não se desmanchou e, olhando fixamente a bem desordenada melena, disparou: "o amigo veio de mota?".

É por essas e por outras que é bom viver na vila.

Einstein, que não foi, que se saiba, cliente daquela taberna

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

MAC - 1942/2017

75 anos não são coisa pouca. Nem é uma data banal. Na sexta-feira lá estarei, na festa do Moura Atlético Clube. Irão homenagear os sócios mais antigos. O meu pai está no top-10.

O que é o M.A.C.? Formação, juventude, solidariedade, dádiva, empenho. É muito mais que isso, decerto, mas a verdadeira força de um clube está na juventude. Que é a mola propulsora do futuro.

Parabéns ao clube e a todos os que construíram e constroem a prática desportiva. Parabéns aos que fizeram, fazem e farão o M.A.C.. 

FRIO E LUZ

Castelo de Moura, ontem, às 16:16

Da tarde luminosa e fria passei às palavras de Paul Celan:

PARTIE DE NEIGE, droit cabrée jusqu'à la fin,
dans le vent ascendant, devant
les cabanes à jamais
défenêtrées:

fait ricocher des rêves plats
sur la
glace striée ;

dégager au pic
les ombres de mots, les empiler par toises
tout autour du fer
dans le trou d'eau.

O frio da tarde percorreu-me os ossos, um a um. Mais fria se tornou a noite, com a partida de um amigo. Noite dentro, recordei um texto de há tempos: "quero voltar à frescura do oásis e aos jardins percorridos por fios de água bem ordenados, a esses labirintos com que se pretendia imitar os jardins do Paraíso, que tinham rios e aves que nunca ninguém viu". Foi esse o caminho que o Juan tomou.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

JUAN ZOZAYA STABEL-HANSEN (1939-2017)

Recebi a notícia, friamente, por mail. Faleceu, em Madrid, Juan Zozaya Stabel-Hansen.

Conheci-o em Mértola, no início de 1987, faz agora 30 anos e tudo passou tão depressa. Era, já nessa altura, um dos nomes maiores da arqueologia islâmica. Homem fraterno e tranquilo, tratava os mais jovens como se fossem seus pares. Conhecia como poucos a arte mediterrânica e a arqueologia islâmica. Uma erudição discreta e isenta de vaidade.

Um dos museus que me causou mais impacto foi, decididamente, o Museo Arqueológico Nacional, onde estive pela primeira vez em janeiro de 1987. Enquanto o meu amigo Juan Zozaya foi subdirector da instituição visitava-o com alguma regularidade, nos tempos em que a minha vida mertolense estava a começar. Recordo que o meu castelhano com forte sotaque (muito diferente do puro andaluz do meu pai) causava surpresa ao contínuo que me atendia. Fui brindado com a pergunta "es usted argentino?" (duas vezes) e "es usted paraguayo?" (uma vez). O senhor teria tão fraco ouvido como má memória...

Recordo a grande surpresa que tive com a rica e diversificada coleção do MAN. E retenho, com clareza, a confirmada paixão que senti pela arte islâmica e pelos ambientes paradisíacos que retratava. Como nos cofres em marfim, que nunca me cansarei de admirar. Devo ao Juan inúmeras facilidades, contactos e informações. A genuína vontade em ajudar estava sempre presente. O seu percurso foi marcado pelo brilhantismo e pela generosidade. Fui-o encontrando, quase sempre em Mértola, ao longo destes anos. A vez derradeira foi há sete meses.

Fez parte de uma lista de colegas e amigos que estiveram comigo quando me candidatei à Câmara de Moura, em 2013. Quando lhe telefonei a pedir apoio, respondeu-me com a sua típica gargalhada e um "claro que sí, camarada!".

Estarás sempre entre nós, Juan.

FRIO, MUITO FRIO

Esta paisagem de inverno, datada de 1908, é obra do pintor sueco Gustaf Edolf Fjaestad (1868-1948). Enquadra-se neste dias frios. Faltava no norte o esplendor da luz limpa que nos tem acompanhado.

Roald Dahl, que também tinha origens bem a norte, resolveu, à sua maneira, o problema do frio:

A woman who my mother knows
Came in and took off all her clothes.

Said I, not being very old,
'By golly gosh, you must be cold!'

'No, no!' she cried. 'Indeed I'm not!
I'm feeling devilishly hot!' 

domingo, 15 de janeiro de 2017

TOBY DAMMIT

Regresso aos clássicos. Neste caso, a uma obra pouco conhecida de Federico Fellini. Toby Dammit era a terceira e última parte de um filme de três realizadores (Roger Vadim, Louis Malle e o próprio Felini). Todos os episódios eram baseados em contos de Edgar Allan Poe. Não tenho qualquer memória das partes 1 e 2 do filme. Pelo contrário, a história que Fellini encenou é uma das mais belas sequências de mistério e terror da História do Cinema. O terço derradeiro de Histórias extraordinárias, de 1968, é a minha escolha destes dias. Com um conselho: nunca façam apostas com o Diabo...

Vejam - http://www.tcm.com/watchtcm/movie/91091


e os 15 segundos finais:

sábado, 14 de janeiro de 2017

O MUNDO INTEIRO É UM PALCO

Tenho-me lembrado hoje, insistentemente, desta passagem de uma peça de Shakespeare (As you like it), que já por aqui andou há mais de cinco anos:

All the world's a stage,
And all the men and women merely players:
They have their exits and their entrances;
And one man in his time plays many parts, (...)

Faz parte desta publicação um desenho do artista argelino Rachid Koraichi (n. 1947), inspirado em L'oeil, de Donatella Bisutti.

AQUEDUTOS DE PORTUGAL

"Aquedutos de Portugal", uma magnífica exposição de fotografia de Pedro Inácio, está patente a partir de hoje e até dia 17 de março (ou um pouco depois disso...) no Museu Municipal.

As ideias são como as cerejas... E do ato da inauguração surgiu a ideia de se organizar um Fórum 21 sobre a água. Será em março, no dia 22. Que é o Dia da Água.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

CHE COSE'È UN SUGARELLO?

Ouvido hoje, em Lisboa. À hora do almoço, num restaurante.

Senhora cliente - O que é que tem?
Empregado - Temos carapaus.
Senhora cliente (pensativa) - Carapau??? É um peixe, não é?
Empregado - É sim, minha senhora.

Fim de cena.
Aplausos.
Cai o pano.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

A PROPÓSITO DE PAULO MACEDO

Conheço Paulo Macedo desde outubro de 1976. Somos amigos desde então. Já sobre ele escrevi um artigo no jornal "A Planície" (v. aqui).

Foi meu assistente de realização numa curta-metragem da qual não rezará a História. Um trabalho feito com amor e entusiasmo. Ao longo de décadas fomo-nos encontrando de forma irregular. Como acontece nas amizades antigas, a conversa recomeça sempre no ponto em que ficáramos.

Discordamos seriamente em muitas coisas, a começar pelos temas políticos. Como é óbvio. Pois, mas a Amizade vale mais. Continuo a achar que fez um trabalho sério à frente da Saúde, a despeito de todas as decisões que mereceram a minha oposição. Curiosamente, do combate às farmacêuticas pouco se falou...

Li com tristeza as infames notícias de hoje, que procuram atingi-lo. De uma coisa tenho a certeza: é alguém que não pressiona, não faz fretes, não admite cunhas, nem favorece amigos. Constato, há mais de 40 anos, que é de uma ética inabalável. Tentativas de tosca vingança, como a que hoje se esboçou, irão parar ao local que merecem: o caixote do lixo. 

AULA NA ESCOLA SECUNDÁRIA

Foi na passada segunda-feira, logo pela manhã. Fui, a convite do Prof. Elói Ribeiro, dar uma aula sobre património histórico de Moura a uma turma do 10º ano. A estreia, a convite do mesmo docente, ocorrera no dia 6 de junho de 2012.

A Escola Secundária tornou-se, nos últimos três anos, parte dos meus horizontes mais familiares. Procurei e consegui uma maior proximidade com os mais novos. A aula veio reforçar esse princípio.

Dar uma aula a um escalão etário que não me é, profissionalmente, familiar, causa dificuldades. A última disciplina que lecionei, em Coimbra, foi Gestão do Património Arqueológico e as idades oscilavam entre os 19 e os 63 (!) anos. Ainda assim, no passado dia 9 não me saí mal. Acho eu... Houve de tudo, como sempre, mas no essencial estiveram atentos e fizeram perguntas (um punhado delas de grande argúcia e pertinência, que revelaram cabeça e atenção). Foi um excelente começo de semana.


quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

MOURA, O PRESENTE E O FUTURO

A notícia saiu hoje no "Jornal de Negócios". Deixo o link e duas imagens, sem mais comentários. Fico apenas a aguardar as reações. A noite promete ser algo divertida...

http://www.jornaldenegocios.pt/economia/autarquias/detalhe/mapa-saiba-se-o-seu-municipio-esta-a-exportar-mais?ref=HP_Destaquesduasnot%C3%ADcias



ARQUITETURA INFORMAL

O título é gentil, tendo em conta a obra concretizada. A inspiração parece estar no expressionismo, caso o autor de tal soubesse. Ou no MIT Stata Center, de Frank Gehry. Ou nos cenário do filme "O gabinete do Dr. Caligari", de Robert Wiene. E não me parece que assim seja. Mas aquele equilibrismo arrojado tem graça, sem dúvida.



terça-feira, 10 de janeiro de 2017

QUAL A MOURA QUE QUEREMOS? - nº 4

Todas as mudanças são suscetíveis de causar polémica. Todas, sem exceção.

O Campo Maria Vitória, antigo estádio de futebol, estava há mais de uma década sem qualquer uso regular e devidamente definido. Cerca de um hectare de área urbana precisava de tratamento e requalificação. Foi isso que resolvemos fazer.

Dados objetivos:

Valor do investimento total - c. 3.000.000 €.

Área total do Campo Maria Vitória - 9.627 metros quadrados.
Área cedida ao promotor - 6.508 metros quadrados.
Área propriedade do Município - 3.119 metros quadrados.

Valor de cedência - 300.000 €
mais,
Obras realizadas pelo promotor no espaço propriedade do Município - 1.261 metros quadros de espaços verdes, 1.008 metros quadrados para equipamento de utilização coletiva, 850 para rede viária, caminhos pedonais e estacionamento, incluindo parque de autocaravanas);
mais,
Realização de obras de infraestruturas gerais por parte do promotor.

Utilização e manutenção do espaço - garantida pelo promotor durante durante 20 anos.

Criação de postos de trabalho - c. 60.

Data de conclusão da obra - maio de 2017 (sim, dentro de quatro meses).

Que Moura queremos? estamos dispostos a investir tempo e dinheiro numa outra imagem de cidade? Repito o que há semanas escrevi algures: governar implica determinação, a procura de soluções e coragem. Não se anda ao sabor das marés nem ao jeito do vento que sopra. O tempo dirá quem tem razão. E o tempo, também, separará o trigo do joio. O que se tem tentado fazer implica conhecimento e não apenas opiniões. É tão simples quanto isso.

Está melhor assim?

Ou ficará melhor assim, dentro de poucos meses?

MERYL STREEP

Os óscares, Cannes, Berlim, os globos de ouro são importantes? Seguramente que sim, e Meryl Streep, a melhor atriz do mundo ocidental (já que falamos tanto em multiculturalismo, recordemos que os padrões de representação não são universais) é, sendo comedido, extraordinária. Desde há muitos anos.

Tão impressionante como isso foi o discurso que fez há dias, e que aqui deixo, sem mais considerandos.

Meryl Streep queixou-se da falta de voz. Sei o que isso é. Tem-me acontecido um par de vezes. A última vez foi no Sobral da Adiça, no dia 18 de dezembro...



(legendas em espanhol; é só seguir as indicações)

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

UMA QUESTÃO DE FORMATO


“Como é que se tornou presidente da câmara?”, disparou o Luís Martins às 16:55 do dia 14 de dezembro de 2016. Faltavam cinco minutos para a reunião de câmara e aproximava-se o fim de mais “Um dia na Presidência”. A iniciativa, que arrancou em janeiro do ano passado, destina-se a mostrar a jovens do concelho o que é o quotidiano de um autarca. Tem sido uma experiência gratificante e enriquecedora. Pautada por muitas surpresas.
            Achei a pergunta do Luís muito interessante e decidi “cinco minutos não dá, voltamos aqui depois da reunião de câmara”. Obviamente, não era o facto eleitoral que motivava a pergunta, mas sim o interesse em saber que percurso se faz até aqui se chegar. Tive a maior dificuldade em lhe explicar as razões. Até final de 2012 nunca tal me ocorrera. Sempre pautara o percurso por outros interesses. Nunca me interessara dirigir o caminho nesta ou naquela direção, no intuito de “chegar” onde quer que fosse. Lembrei-me, sem tal dizer ao Luís, do tapete 9, o local onde, em tempos, se recolhia a bagagem fora de formato, no Aeroporto de Lisboa.
            A minha dificuldade nunca foram os dossiês ou o trabalho técnico ou o debate político. Mas sim formatar-me a uma tarefa que requer, à partida, rigidez e sisudez. “Não deves disfarçar-te no carnaval, que pareces o Alberto João Jardim”, “fica mal ao presidente beber copos em tabernas”, “aquela coisa de imitares o Usain Bolt é uma péssima ideia”, “porra, pá, um tipo doutorado e professor universitário tem necessidade de dar o flanco?”, “que ideia é aquela das poesias eróticas no blogue?”  etc. etc. Ao que parece, ser presidente requer alguma pose e alguma distância. É o que, por vezes, (me) dizem. Disposto a ser um ser humano como os demais e nunca tendo frequentado nenhum curso “como ser presidente de câmara em 10 lições” mantive-me fiel a velhos princípios. E à minha maneira de ser.
            Defini alguns princípios, ainda antes de ser eleito: 1) tentar resolver problemas e ter um bom desempenho técnico-político; 2) dignificar o Município que represento; 3) ser ousado e, em conjunto com a equipa, inovar e lançar novos projetos; 4) ter em atenção os problemas sociais, a começar pela habitação; 5) não ser subserviente em relação aos “poderosos”. No meio de tudo isto, mantive-me fiel a velhas amizades, aos sítios onde gosto de ir, a calcorrear as ruas da minha terra, a dar a cara pelos problemas e a concretizar o que me/nos diziam ser impossível. O balanço far-se-á. Não agora, mas dentro em breve. Seguimos o percurso atrevidamente e com firmeza. Defenderei o desempenho da Câmara Municipal e explicarei, com clareza, as opções tomadas. Quem não deve não teme.

            No meio de tudo isto, ainda estou no tapete 9. Não me sinto obrigado a formatos. Poses imperiais? A quem estiver interessado no tema, recomendo a leitura das “Embaixadas a Bizâncio”, de Liuteprando de Cremona, ou a famosa “História Secreta”, de Procópio de Cesareia. Aí se explica como viviam e se comportavam Justiniano e Constantino Porfirogeneta. A lógica oriental da representação do poder reflete-se, como um eco distante, na Rússia de hoje. Não sou nem isso nem um chefe africano nem um caudilho ibérico. Apenas um homem comum, que desempenha convictamente funções numa autarquia do interior português. Que o faz com empenho e total entrega. Sem sair do tapete 9.

Crónica publicada hoje em "A Planície".

domingo, 8 de janeiro de 2017

ANTÓNIO TERESO (1927-2017)

No site do PCP:
O Secretariado do Comité Central do Partido Comunista Português informa com mágoa e tristeza, do falecimento hoje dia 7 de Janeiro aos 89 anos, de António Tereso. Militante comunista que dedicou a sua vida à luta dos trabalhadores e do povo português pela liberdade, pela democracia, pelo socialismo.
Na prisão de Caxias desempenha complexo e destacado papel na preparação e concretização da fuga de oito destacados dirigentes e militantes comunistas do Forte de Caxias no carro blindado de Salazar, a 4 de Dezembro de 1961.

No blogue O tempo das cerejas, de Vítor Dias, texto importante sobre este herói do Povo Português:
«Foi com sacrifício que aceitei a tarefa de “rachar”. Foi o que mais me custou na vida», afirmou, visivelmente emocionado, António Tereso. Por indicação de José Magro, viveu juntamente com o inimigo durante dezanove meses. O objectivo era encontrar uma hipótese de fuga.
A ruptura com os seus camaradas – de que apenas um pequeno número de dirigentes sabia tratar-se de uma encenação – deu-se durante um almoço.
«Atirei com um prato de arroz à cara de um preso, mas ele, em vez de se virar a mim, começou-se a rir, o que me dificultou a tarefa.» De rompante, começou a esmurrar a porta gritando que queria sair daquela sala. Dezanove dias depois mudou-se para a «sala dos trabalhos». Até conseguir a transferência, ficou na sala com os seus camaradas. Esses dias, recordou, foram «muito difíceis».
«Eram todos meus amigos», confessou.
Começava assim o seu percurso de «rachado», ao serviço dos carcereiros. Tereso contou como conseguiu ganhar a confiança dos inimigos. Havia que esperar que «eles precisassem de nós. Foi essa a minha vitória». «Um dia chego ao pé do director, o Gomes da Silva, e disse-lhe: se precisar do carro lavado, eu lavo-lhe o carro», recorda António Tereso. O director concordou. Antes de trabalhar como motorista da Carris tinha lavado carros e fazia aquilo bem. «Ficou muito contente e ganhei um cliente», ironizou.
A confiança que ganhou foi tanta que chegou a conduzir o director fora da prisão e este deu-lhe permissão para ir ao seu gabinete sempre que necessário. Daí para a frente, recordou, os «carcereiros quando queriam alguma coisa vinham ter comigo para eu ir ver ao gabinete do director se ele estava lá. Eu tinha esta liberdade toda».
Também o guarda Lourenço, um PIDE reformado, foi conquistado pelo falso «rachado». Numa ocasião, ao lavar o seu carro, Tereso encontra um pequeno coração de ouro. «Depois de lhe lavar o carro, devolvo-lhe o coraçãozinho. Ele respondeu: “há dois anos que procurava isso, é da minha netinha”.». Após contar à mulher o sucedido, esta responde: «esse homem é sério demais para estar preso.»
A confiança era tanta que lhe é oferecido um lugar como motorista da PIDE, a ganhar 1 500 escudos. Tereso comunica o sucedido ao Partido. A resposta, recorda, foi «não há fuga para ninguém, agarra-me isso com as duas mãos». Faltavam três meses para sair em liberdade…
Um dia, passeava com o director pela prisão e depara-se com o carro, estacionado numa garagem. O desafio vem do próprio responsável da cadeia. «Há-de me pôr este carro a trabalhar», disse-lhe. «Quando ele me diz isso, eu esqueci os meses e a liberdade, esqueci tudo», lembrou. Nessa noite, comunicou ao Partido: temos fuga!»

MÁRIO SOARES (1924-2017)

Valerá a pena fazer um dia, daqui a uns anos, a releitura das reações à morte de Mário Soares. Tenho seguido, com grande interesse, os panegíricos e as homenagens emocionadas dos que lhe eram próximos, pessoal ou politicamente. Tenho lido, com não menos interesse, as mensagens de conveniente pesar doutros quadrantes políticos. Evito ler júbilos lamentáveis e outros insultos, que brotam à esquerda e à direita. O curto testemunho de António Barreto foi, até agora, o texto mais interessante qe li (v. aqui).

O papel de Mário Soares na construção do País que hoje somos é inquestionável, estejamos de acordo ou não com o modelo que temos. Foi ele um dos principais fautores da ocidentalização de Portugal. Do ponto de vista do funcionamento do modelo da democracia que temos e na perspetiva económica. O País rural e atrasado de 1973 pouco tem a ver com o de hoje. Isso não foi coisa pouca. Outros desiquilíbrios se fomentaram... Mário Soares, intuitivo e com leitura de curto prazo, acreditava que Portugal seria arrastado pela dinâmica dos grandes e atingiria assim um desenvolvimento pleno. Isso não aconteceu, como bem sabemos.

Foi um português determinante na História do século XX em Portugal? Foi. Não deixava as pessoas indiferentes? De facto, não. Antes isso, que os de "saia rodada" que por aí abundam...

Retrato oficial, por Júlio Pomar (1992)

sábado, 7 de janeiro de 2017

AGRIPPINA


Eis mais uma prova de como a ópera nada tem de aborrecido.

Georg Friedrich Händel (1685-1759) compôs esta ópera em 1709-1710. O contexto é marcadamente político. Mas da Itália imperial passa-se a Mussolini e a Berlusconi. A encenação de Robert Carsen tem ressonâncias que recordam a arquitetura de Aldo Rossi e as telas de De Chirico.





A versão integral de "Agrippina", de Händel, pode ser vista aqui:
http://www.dailymotion.com/video/x49nrvn

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

COM OS MOURENSES, DENTRO E FORA DE PORTAS

De Lausanne ao Palácio Alverca (Casa do Alentejo). Duas Câmaras Abertas literalmente fora de portas. Suiça e Lisboa.

Reuniões com entidades, encontros com os nossos emigrantes, debates sobre os problemas de quem vive longe da sua terra, visitas a coletividades e manifestações culturais preencherão os programas das duas edições da “Câmara Aberta”.

Datas apontadas: fevereiro (Suiça) e março (Lisboa).


quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

NA ESFERA DE ONAN...

Ontem, no Globo, e seguramente pensando nos que dizem que a política é uma coisa aborrecida e sem graça:
"Marcelo Aguiar, deputado federal pelo DEM de São Paulo, entrou numa cruzada contra a pornografia e a masturbação. Apresentou um projeto à Câmara propondo que as operadoras telefônicas criem uma maneira de vetar "conteúdos de sexo virtual, prostituição e sites pornográficos".
Na justificativa ao projeto, Aguiar diz que há "viciados em conteúdo pornô e na masturbação". Explica o deputado na justificativa do projeto: "Estudos atualizados informam um aumento no número de viciados em conteúdo pornô e na masturbação devido ao fácil acesso pela internet e à privacidade que celular e o tablet proporcionam.
Os jovens são mais suscetíveis a desenvolver dependência e já estão sendo chamados de autossexuais – pessoas para quem o prazer com sexo solitário é maior do que o proporcionado, pelo método, digamos, tradicional."
Woody Allen, teórico da autossexualidade
Don't knock masturbation. It's sex with someone I love (no filme Annie Hall, de 1977).

COM OS TRABALHADORES

Reuniões dentro de portas. Repetição de uma prática antiga: explicar em primeiro lugar, e de viva voz, aos trabalhadores quais as opções tomadas e a tomar. Inevstimentos, obras em curso ou a iniciar, custos e implicações dos processos de decisão.

Descontração e ação direta. A mensagem passou e a receptividade foi mais que positiva.

08:00 - Estaleiros municipais

16:30 - Sala de sessões

quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

O REALIZADOR ESTETA: COMO CASPAR DAVID FRIEDRICH NOS ENTROU EM CASA ÀS 20:25

Via as notícias distraidamente quando, subitamente, reparei no fundo do écran. Falava-se da tragédia do Bolama. A imagem escolhida para ilustrar a situação foi Das Eismeer (O mar de gelo), uma tela de Caspar David Friedrich pintada em 1823-24 e que se reporta ao desastre de um navio britânico. "Ilustrar" um nebuloso naufrágio com uma pintura romântica é, no mínimo, insólito. Mas a criatividade não parece ter limites na RTP.

A obra de Caspar David Friedrich já por aqui passou, em 14.3.2011.



SCOOP FUTEBOLÍSTICO

Um amigo mandou-me há pouco este desenho, garantindo ser o esquema tático de Nuno Espírito Santo, ontem à noite. Esse meu amigo está a aldrabar. Acho que a tática do FCP não era assim tão boa...

MAESTRO JOSÉ COELHO - DAQUI A UM MÊS

Falta cerca de um mês para ser lançado CD de homenagem ao maestro José Coelho,  figura querida dos mourenses e autor do imortal hino Nossa Senhora do Carmo (haverá um só natural desta terra que não saiba a letra?). Na mesma altura, estará terminada a reabilitação do monumento na praceta que tem o nome do popular compositor.

Valorizar a memória dos que ajudaram a construir esta terra é tarefa da Câmara Municipal mas é, sobretudo, uma obrigação coletiva. É isso que faremos com a apresentação do CD e com mais esta forma de perpetuarmos o legado do maestro José Coelho.

Não podendo divulgar ainda a capa do CD, aqui fica um registo de Quim Barreiros e do Trio Guadiana, recordação de um velho 45 rotações (o que será um 45 rotações, perguntarão os mais novos...). Neste disco, de 1973, o quarteto interpreta Nossa Senhora do Carmo (ouvir aqui).

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

JOHN BERGER (1926-2017)

Um recente Fórum 21, que teve a participação de Alexandre Pomar, Jorge Calado e José Manuel Rodrigues intitulou-se Fotografia - modos de ver, em homenagem à célebre obra de John Berger. O ensaísta britânico, ontem falecido em Paris, não precisaria do meu reconhecimento para nada... Mas é autor de uma das dez obras que mais me marcaram (v. aqui).

Reproduzo o texto de uma publicação feita no blogue, em 14 de setembro de 2010.


John Berger usava duas páginas do livro Modos de ver para exemplicar como se manipula uma imagem. Numa página apresentava o quadro com o título, Seara com corvos. Virava-se a folha e a mesma imagem surgia com nova legenda: O último quadro que van Gogh pintou antes de se suicidar. É evidente que, com esta identificação, o pintura passa a ter outra leitura e ganha uma sombria carga dramática.

E, tanto quanto se sabe, Seara com corvos nem sequer foi a derradeira obra de Van Gogh...

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

REGRESSO À ILHA



SONETO ANTIGO

Responder a perguntas não respondo. 
Perguntas impossíveis não pergunto. 
Só do que sei de mim aos outros conto:
de mim, atravessada pelo mundo.

Toda a minha experiência, o meu estudo,
sou eu mesma que, em solidão paciente,
recolho do que em mim observo e escuto
muda lição, que ninguém mais entende.

O que sou vale mais do que o meu canto.
Apenas em linguagem vou dizendo
caminhos invisíveis por onde ando. 

Tudo é secreto e de remoto exemplo.
Todos ouvimos, longe, o apelo do Anjo.
E todos somos pura flor de vento.


O regresso ao trabalho, depois de dois dias de pausa, foi marcado por intenso planeamento. O dia, cinzento, ventoso e frio, puxava à melancolia. Voltei atrás, a Cecília Meireles e a uma ilha. A poesia tem, por vezes, um efeito cauterizador. Fotografar em solidão também o é.

domingo, 1 de janeiro de 2017

POEMA SINFÓNICO PARA 100 METRÓNOMOS

"Tu gostas de Ligeti??", espantou-se o Joaquim. Admiti que sim, quase envergonhado. Quando falamos com músicos, podemos de estar a gostar dos autores "errados". Afinal era só surpresa. Não há nada de mal em gostar de Ligeti...

As obras de György Ligeti (1923-2006) são mais conhecidas por causa de um filme de Kubrick. Bendito cinema. Este Poema sinfónico para 100 metrónomos é uma peça de 1962. Data do momento em que Ligeti se ligou ao movimento Fluxus (qua já andou aqui pelo blogue).

O caráter "datado" do Poema sinfónico para 100 metrónomos não o torna menos interessante. Liga-se bem à ideia de finitude presente no poema do nosso Juan Ramón Jiménez. Melancolia dos sons e das palavras, agora que outro ano começa.



El viaje definitivo
Y yo me iré. Y se quedarán los pájaros
cantando.
Y se quedará mi huerto con su verde árbol,
y con su pozo blanco.

Todas las tardes el cielo será azul y plácido,
y tocarán, como esta tarde están tocando,
las campanas del campanario.
Se morirán aquellos que me amaron
y el pueblo se hará nuevo cada año;
y lejos del bullicio distinto, sordo, raro
del domingo cerrado,
del coche de las cinco, de las siestas del baño,
en el rincón secreto de mi huerto florido y encalado,
mi espíritu de hoy errará, nostáljico...
Y yo me iré, y seré otro, sin hogar, sin árbol
verde, sin pozo blanco,
sin cielo azul y plácido...
Y se quedarán los pájaros cantando.

Juan Ramón Jiménez