domingo, 22 de julho de 2018

INVEJA DOMINICAL

Anda um grupo de cidadãos durante nove dias a escavar com mil cuidados paupérrimas estruturas medievais no Castelo de Moura e depois vai-se à net e vemos os esplendorosos mosaicos que, algures em Chipre, foram escavados. A mesma quantidade de terra removida, quase sem interferências e com este conjunto posto à vista.

Em 2019 continuaremos a saga iniciada em 1989. Nesta campanha encontrámos 1 (uma) tessela. Vamos no bom caminho.


sábado, 21 de julho de 2018

PESCADOR


Fotografia feita em Mopti (Mali), na primavera de 2008. O poema é de Vinicius de Moraes. Coisas de sábado ocioso.

PESCADOR
Rio de Janeiro , 1946

Pescador, onde vais pescar esta noitada: 

Nas Pedras Brancas ou na ponte da praia do Barão? 
Está tão perto que eu não te vejo pescador, apenas 
Ouço a água ponteando no peito da tua canoa... 

Vai em silêncio, pescador, para não chamar as almas 
Se ouvires o grito da procelária, volta, pescador! 
Se ouvires o sino do farol das Feiticeiras, volta, pescador! 
Se ouvires o choro da suicida da usina, volta, pescador! 

Traz uma tainha gorda para Maria Mulata 
Vai com Deus! daqui a instante a sardinha sobe 
Mas toma cuidado com o cação e com o boto nadador 
E com o polvo que te enrola feito a palavra, pescador! 

Por que vais sozinho, pescador, que fizeste do teu remorso 
Não foste tu que navalhaste Juca Diabo na cal da caieira? 
Me contaram, pescador, que ele tinha sangue tão grosso 
Que foi preciso derramar cachaça na tua mão vermelha, pescador. 

Pescador, tu és homem, hem, pescador? que é de Palmira? 
Ficou dormindo? eu gosto de tua mulher Palmira, pescador! 
Ela tem ruga mas é bonita, ela carrega lata d'água 
E ninguém sabe por que ela não quer ser portuguesa, pescador... 

Ouve, eu não peço nada do mundo, eu só queria a estrela-d'alva 
Porque ela sorri mesmo antes de nascer, na madrugada 
Oh, vai no horizonte, pescador, com tua vela tu vais depressa 
E quando ela vier à tona, pesca ela para mim depressa, pescador? 

Ah, que tua canoa é leve, pescador; na água 
Ela até me lembra meu corpo no corpo de Cora Marina 
Tão grande era Cora Marina que eu até dormi nela 
E ela também dormindo nem me sentia o peso, pescador... 

Ah, que tu és poderoso, pescador! caranguejo não te morde 
Marisco não te corta o pé, ouriço-do-mar não te pica 
Ficas minuto e meio mergulhado em grota de mar adentro 
E quando sobes tens peixe na mão esganado, pescador! 

É verdade que viste alma na ponta da Amendoeira 
E que ela atravessou a praça e entrou nas obras da igreja velha? 
Ah, que tua vida tem caso, pescador, tem caso 
E tu nem dás caso da tua vida, pescador... 

Tu vês no escuro, pescador, tu sabes o nome dos ventos? 
Por que ficas tanto tempo olhando no céu sem lua? 
Quando eu olho no céu fico tonto de tanta estrela 
E vejo uma mulher nua que vem caindo na minha vertigem, pescador. 

Tu já viste mulher nua, pescador: um dia eu vi Negra nua 
Negra dormindo na rede, dourada como a soalheira 
Tinha duas roxuras nos peitos e um vasto negrume no sexo 
E a boca molhada e uma perna calçada de meia, pescador... 

Não achas que a mulher parece com a água, pescador? 
Que os peitos dela parecem ondas sem espuma? 
Que o ventre parece a areia mole do fundo? 
Que o sexo parece a concha marinha entreaberta pescador? 

Esquece a minha voz, pescador, que eu nunca fui inocente! 
Teu remo fende a água redonda com um tremor de carícia 
Ah, pescador, que as vagas são peitos de mulheres boiando à tona 
Vai devagar, pescador, a água te dá carinhos indizíveis, pescador! 

És tu que acendes teu cigarro de palha no isqueiro de corda 
Ou é a luz da bóia boiando na entrada do recife, pescador? 
Meu desejo era apenas ser segundo no leme da tua canoa 
Trazer peixe fresco e manga-rosa da Ilha Verde, pescador! 

Ah, pescador, que milagre maior que a tua pescaria! 
Quando lanças tua rede lanças teu coração com ela pescador! 
Teu anzol é brinco irresistível para o peixinho 
Teu arpão é mastro firme no casco do pescado, pescador! 

Toma castanha de caju torrada, toma aguardente de cana 
Que sonho de matar peixe te rouba assim a fome, pescador? 
Toma farinha torrada para a tua sardinha, toma, pescador 
Senão ficas fraco do peito que nem teu pai Zé Pescada, pescador... 

Se estás triste eu vou buscar Joaquim, o poeta português 
Que te diz o verso da mãe que morreu três vezes por causa do filho na guerra 
Na terceira vez ele sempre chora, pescador, é engraçado 
E arranca os cabelos e senta na areia e espreme a bicheira do pé. 

Não fiques triste, pescador, que mágoa não pega peixe. 
Deixa a mágoa para o Sandoval que é soldado e brigou com a noiva 
Que pegou brasa do fogo só para esquecer a dor da ingrata 
E tatuou o peito com a cobra do nome dela, pescador. 

Tua mulher Palmira é santa, a voz dela parece reza 
O olhar dela é mais grave que a hora depois da tarde 
Um dia, cansada de trabalhar, ela vai se estirar na enxerga 
Vai cruzar as mãos no peito, vai chamar a morte e descansar... 

Deus te leve, Deus te leve perdido por essa vida... 
Ah, pescador, tu pescas a morte, pescador 
Mas toma cuidado que de tanto pescares a morte 
Um dia a morte também te pesca, pescador! 

Tens um branco de luz nos teus cabelos, pescador: 
É a aurora? oh, leva-me na aurora, pescador! 
Quero banhar meu coração na aurora, pescador! 
Meu coração negro de noite sem aurora, pescador! 

Não vás ainda, escuta! eu te dou o bentinho de São Cristóvão 
Eu te dou o escapulário da Ajuda, eu te dou ripa da barca santa 
Quando Vênus sair das sombras não quero ficar sozinho 
Não quero ficar cego, não quero morrer apaixonado, pescador! 

Ouve o canto misterioso das águas no firmamento... 
É a alvorada, pescador, a inefável alvorada 
A noite se desincorpora, pescador, em sombra 
E a sombra em névoa e madrugada, pescador! 

Vai, vai, pescador, filho do vento, irmão da aurora 
És tão belo que nem sei se existes, pescador! 
Teu rosto tem rugas para o mar onde deságua 
O pranto com que matas a sede de amor do mar! 

Apenas te vejo na treva que se desfaz em brisa 
Vais seguindo serenamente pelas águas, pescador 
Levas na mão a bandeira branca da vela enfunada 

E chicoteias com o anzol a face invisível do céu.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

GORJETA ZERO

A história foi-me contada por um jovem algarvio, que trabalhou no ano passado na Quinta do Lago. Foi bell boy e valet numa unidade hoteleira luxuosa. O ordenado era fraco, mas as gorjetas compensavam largamente. Duplicavam o vencimento. As notas de 10 ou de 20 eram coisa corrente. O sítio era frequentado por astros da bola lusitanos. Com esses encheste os bolsos, provoquei. Tive como resposta uma sonora gargalhada. Nada, nem uma moeda de dez cêntimos. Desfiou o nome de quatro ou cinco estrelas. "Quanto mais conhecidos, pior se portam. São de uma total arrogância". Fiquei esclarecido. Embora já poucas dúvidas me restassem, confesso.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

CHIQUE A VALER

Causaram alguma indignação as abjetas declarações de Miguel Guedes de Sousa, CEO da Amorim Luxury. Alguma, mas não muita, que o facebook anda cheio de supostas frases de Ghandi, de Mandela e de Einstein, à mistura com muitos elogios à presidente da Croácia, pelo seu suposto despojamento.

Que disse a criatura ao Expresso? Que não podemos ter pessoas da classe média ou média baixa a morar em prédios classificados. É tanta a arrogância, que já nem disfarçam. O que precisam os da luxury? Um povo-cenário, alegrote e que tenha uma vivência genuína, que cante o fado mas, POR FAVOR!, que não se misture...

Criaturas como Miguel Guedes de Sousa merecem-me o mais absoluto desprezo. E levam-me a combater em sentido contrário.

Em Moura, o Pátio dos Rolins (um edifício classificado, justamente) foi destinado a habitação social. As casas foram entregues no verão de 2017, sem pompa nem circunstância. Qual a lógica? Muito simples. Se o edifício podia ter funções de habitação social enquanto estava degradado, também o deveria ter depois de recuperado. Os mais desfavorecidos podem e devem viver em palácios ou palacetes. Era essa a nossa convicção. Foi isso que a nossa equipa fez.



terça-feira, 17 de julho de 2018

LUGAR DE PISTA

post 100% mourense e só para a geração 50+

Em tempos, a praça de touros era transformada em "sala de espetáculos". Havia bailes pelos santos populares, pela Santa Maria e no final da festa da padroeira. Nessas alturas, a praça de touros ganhava o nome de Esplanada Salúquia. O palco costumava ficar em frente à entrada e esta fazia-se pela porta por onde os cavaleiros entravam na arena. Havia dois tipos de bilhetes com direito a lugar sentado: geral (nas bancadas) e mesas com cadeiras (na arena). Estes últimos eram os mais caros. Mas havia também os lugares de pista, um requinte que permitia que se ficasse no redondel, mas de pé. Posso estar enganado, ou a exagerar, mas era a solução preferida de boémios, farristas e conquistadores, aqueles que se alheavam do espectáculo e ficavam a beber, junto ao bar, a conversar ou a fazer olhos de carneiro mal morto às mourenses mais belas.


segunda-feira, 16 de julho de 2018

O GOLO MARCADO POR MBAPPÉ FOI UM ESPINHO CRAVADO NA GARGANTA DE KOLINDA GRABAR-KITAROVIC

Para os mais novos o título é, no mínimo, enigmático. Para quem se recorda da A.O.C. não o é tanto. Ainda que no linguajar maoísta destes o alvo do espinho fosse outra pessoa.

Bref, não tenho a mínima simpatia pelo regime político croata. E vi com alívio a vitória gaulesa. Ao menos, refreou a paranóia nacionalista.


KIKO - PALETA MOURENSE

Exposição de pintura do meu amigo Francisco Fachadas Marques, no âmbito das Festas de Nossa Senhora do Carmo. Mais uma belíssima mostra. A nossa terra, reinterpretada pelas cores de um muito jovem autor.

O quadro que aqui se reproduz pode, a partir de hoje, ser exposto com a referência "coleção particular". Perspetiva que muito me apraz.


domingo, 15 de julho de 2018

AZEITONAS


As oliveiras são árvores sagradas no Mediterrâneo. Recordo, neste domingo da Festa de Moura, uma passagem de um tratado de agricultura do período islâmico a respeito da preparação das azeitonas para consumo caseiro: "das frescas e verdes umas se partem com pedra lisa ou com um pau de forma que cada caroço delas fique quebrado e estas se chamam partidas; a outras fazem-se três golpes ao alto e são chamadas abertas".  Este procedimento corresponde aos tipos de preparação de azeitona que ainda hoje se praticam no Alentejo e que popularmente se designam como pisadas e arretalhadas. A principal diferença reside nos temperos utilizados, sensivelmente modificados desde aquela época.

A expressiva descrição que transcrevi está no Kitab al-Filaha, de Ibn al-Awwam, escrito no final do século XII. Chegou até nós como Libro de agricultura e foi traduzido por José A. Banqueri e editado em Madrid em 1802, pela Imprenta Real. O quadro é de Henri Matisse (1869-1954). Estas oliveiras em Colliure devem datar de 1906, e estão hoje no Met, em Nova Iorque.

sábado, 14 de julho de 2018

ANTÓNIO BORGES COELHO - PRÉMIO UNIVERSIDADE DE LISBOA 2018

Do site do Centro de História da Universidade de Lisboa:

O Prémio Universidade de Lisboa 2018 foi atribuído, no passado dia 4 de Julho, a António Borges Coelho, investigador emérito do Centro de História da Universidade de Lisboa e Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Citando a deliberação do júri, "António Borges Coelho é um nome singular na historiografia portuguesa contemporânea. A sua obra incide sobre tópicos tão diversos como as raízes da expansão portuguesa, a revolução de 1383, a história da Iniquisição, a multissecular presença árabe no que é hoje Portugal, e a historiografia portuguesa. Este trabalho, inovador nos domínios tratados, culmina numa História de Portugal em diversos volumes, que prossegue, em que o autor cumulativamente delineia uma interpretação global do percurso histórico nacional, das origens à actualidade. Foi, a partir de 1974, professor na Faculdade de Letras de Lisboa, onde atingiu a cátedra. Formou, ao longo de décadas, centenas de alunos, nos quais deixou marcas, pelas suas qualidades humanas e pedagógicas. Para além da relevância do seu percurso científico, muitas vezes prosseguido em circunstâncias adversas, o júri sublinhou a grande erudição e acessibilidade da sua obra, e o seu comprometimento com a cultura e língua, evidenciado no modo como integra na narrativa dos acontecimentos a carcterização detalhada de instituições, informações demográficas, e estruturas económicas, sociais e culturais."


Gosto em especial da frase "formou, ao longo de décadas, centenas de alunos, nos quais deixou marcas, pelas suas qualidades humanas e pedagógicas". Não foi meu professor, do ponto de vista formal, mas foi-o de muitas outras formas.


*****

Ler este início do seu livro Raízes da expansão portuguesa, aos 16 anos, deixou-me marcas inapagáveis:


Ao sul e leste o Saará, a oeste o Atlântico, a norte o Mediterrâneo, a oriente desertos e a estrada natural do norte de África, a estrada das invasões, das especiarias e do Islão: eis Marrocos.

No mapa parece um cavalo deitado voltado para o Mediterrâneo com a garupa nervosa bem recortada sobre o Atlântico. A cordilheira do Atlas com os seus 4000 metros de altitude liberta-o da estepe e dos desertos do Leste. Depois os seus campos vão descendo de planalto em planalto, abrindo sobre o oceano os seus largos terraços de terras úberes. Atlas, o velho gigante, não sustenta o céu com os seus ombros possantes, mas sustém estes açafates mouriscos que podem abarrotar de cereais, de gados e de frutas. Um outro braço de montanhas corre paralelamente ao Mediterrâneo - é a cordilheira do Rif, muralha onde vêm quebrar-se as ondas invasoras.


sexta-feira, 13 de julho de 2018

1998 - UM ISLÃO PORTUGUÊS

Vinte anos se passaram. Recordo bem a intensidade da primeira quinzena de julho de 1998. Terminava-se a impressão do O legado islâmico em Portugal e a abertura da exposição Portugal islâmico - os últimos sinais do Mediterrâneo.

A apresentação do primeiro teve lugar no dia 14 de julho, no Pavilhão de Portugal da Expo-98, a inauguração da segunda no dia 15 de julho, no Museu Nacional de Arqueologia. O livro esgotou as duas edições (na Fundação Círculo de Leitores e na Temas e Debates), em pouco tempo. A exposição ultrapassou os 100.000 visitantes. O catálogo esgotou, há muito.

Recordo estes dias, com um abraço de amizade aos colegas com quem colaborei nesses dias.

Vinte anos?

Como no final de um poema de Kavafis:
Meia-noite e meia. Como passam as horas.
Meia-noite e meia. Como passam os anos.



quinta-feira, 12 de julho de 2018

ESCAVAÇÃO ARQUEOLÓGICA - DIAS 7 A 9

Foram nove dias de campanha. Uma temporada muito curta, dedicada a avaliações e a tomadas de decisão, tendo em vista o futuro.

Os trabalhos tiveram lugar no espaço que corresponde a um dos antigos claustros do convento do castelo. Não esperávamos encontrar níveis medievais tão cedo. Bem vistas as coisas, as cotas das estruturas (c. 185.00) são coerentes com as da ocupação islâmica junto ao posto de turismo (c. 185.50) e as da alcáçova (entre 185.25 e 186.00). Ou seja, a construção do convento criou uma "falsa realidade" topográfica no sítio).

O tipo de estruturas postas a descoberto obrigarão a um alargamento de área de trabalho. Ocupações recentes (séculos XIX e XX) afetaram fortemente os níveis medievais. Uma coisa é certa. Estamos já ante a presença de vestígios - ainda fragmentários - das casas islâmicas dos séculos XII e XIII. A realidade da nossa terra de há sete ou oito séculos começa a mostrar-se.

Dia 9 - 12:09 (fecho da campanha)

Dia 8 - 07:34 (canalização do século XIX interferindo diretamente nos estratos medievais)

Dia 7 - 09:54 (uma telha digitada dá o mote: andamos pelos níveis islâmicos)

terça-feira, 10 de julho de 2018

A IGREJA DE SANTIAGO, REVISTA E AUMENTADA

No dia em que surgem, nas traseiras do convento, estruturas antigas no Castelo de Moura, um novo olhar sobre a igreja de Santiago relança novas hipóteses e outras visões sobre o edifício.

Imagem de cima:
1) Altar da primeira igreja de Santiago
2) Base de pilar de entrada na capela-mor
3) Base de pilar de entrada na capela-mor

Imagem de baixo (verão de 2012):
1 - À esquerda deste número identifica-se uma pequena estrutura quadrangular, que pensamos ter sido um altar
2 - Local onde se encontrou uma moeda da primeira metade do século XIV
3 - Enterramento com moeda associada (ceitil de D. Afonso V)
4 - Enterramento com moeda associada (ceitil de D. Afonso V)

Importa agora alargar a área de escavação e identificar a planimetria da igreja. A escavação foi interrompida neste setor no verão de 2012. É 2019 será altura de retomar nos terreno em volta da capela-mor da igreja. Porque o espaço religioso tem uma dimensão maior do que na altura se supunha. E mesmo a sua cronologia deverá ser (re)afinada.


segunda-feira, 9 de julho de 2018

DÉJEUNER SUR LE SABLE

O quadro do jovem João Gabriel (n. 1992) remete para outro. Agora que o verão começa, deixo por uns dias a frescura temperada de Lisboa.

Vêm aí outros dias. Na antecipação dos quentes finais de tarde aqui fica um pouco de Pessoa, escrito no dia 13 de julho de 1928:

É inda quente o fim do dia...

É inda quente o fim do dia...
Meu coração tem tédio e nada...
Da vida sobe maresia...
Uma luz azulada e fria
Pára nas pedras da calçada...
Uma luz azulada e vaga
Um resto anónimo do dia...
Meu coração não se embriaga
Vejo como que em si o dia...
É uma luz azulada e fria.

João Gabriel foi finalista do Prémio Novos Artistas Fundação EDP, em 2017.

Ver - https://joaogabriel.net/

domingo, 8 de julho de 2018

TERMINAL POPULAR

Ponto prévio: salvo raríssimas exceções, o atendimento que tenho tido na Rodoviária - a que recorro amiúde - é de qualidade. O problema não está, de certeza, nos funcionários. Mas no sítio e nas condições de trabalho. O terminal rodoviário de Sete Rios tem condições deploráveis. Não espero que um terminal seja exatamente o lounge da executiva da TAP, mas aquilo é de menos. A fotografia foi feita às 16:53, num ambiente caótico. Não há sala de espera, não há espaço para circular, não há um mínimo de conforto.

O terminal rodoviário de Sete Rios é todo um compêndio de sociologia sobre classes sociais. Anda de transportes públicos quem não tem alternativa. Não devia ser assim, mas é.

RETRATO DO CORPO AUSENTE

"Aproximai-vos vós todos, igualmente lamentai comigo, porque morrer não é coisa nova! Chorai comigo todos quantos a causa da dor e a aflição da morte profundamente atingem! Recordai com lamentações e com atos sagrados a Maura, que foi minha sobrinha! De olhos muito belos e formosa de feições, criou-a a mãe em castidade, a terra recebeu-a virgem, e sem mácula foi deposta na sepultura. Ai de mi, desgraçado, que perdi flor tão rara que mal fizera quinze anos! Ai de mim, desgraçado, que até recobrar alegria viverei entretanto desolado e por grande mágoa ferido por tua causa! Por isso eu, Calandronio, peço ao Senhor te conceda descanso eterno. Descansou na paz do Senhor no dia quarto das Calendas de agosto da era de 703"

Lápide pertencente ao Museu Regional de Beja, datada de 29/7/665.


O texto tem ressonâncias a Kavafis. Recordai com lamentações e com atos sagrados fez-me lembrar o sentido de despedida de Como preparado há muito, como corajoso,
despede-te dela, parte de um conhecido poema.

Há texto e evocação do corpo, mas não há imagem. Esta peça está quase no final da exposição Do tirar polo natural, que vai estar no Museu Nacional de Arte Antiga até ao início do outono. Uma exposição absolutamente magnífica, com uma multiplicidade de estimulantes perspetivas em torno do tema do retrato.

Ver - http://www.museudearteantiga.pt/exposicoes/do-tirar-polo-natural

sábado, 7 de julho de 2018

QUATRO PARA UM TÍTULO

Fazendo contas. Em que ano foram semifinalistas?

Bélgica - 1986
Croácia - 1930, 1962 e 1998
França - 1958, 1982, 1986, 1998 e 2006 (campeões em 1998)
Inglaterra - 1966 e 1990 (campeões, muito benzidinhos..., em 1966)


ESCAVAÇÃO ARQUEOLÓGICA - DIAS 1 A 4

Foi francamente melhor do que se esperava. Está terminada a primeira semana deste retomar das escavações arqueológicas no Castelo de Moura.

O projeto Intervenção Arqueológica no Castelo de Moura decorre, nesta fase, até 2020, com o apoio da autarquia.

Dia 4 - 11:02 (primeiras estruturas medievais à vista)

Dia 3 - 08:52 (aumenta área de escavação)

Dia 2 - 08:11 (primeiras cotas)

Dia 1 - 10:28 (visita dos colegas do Castelo Velho de Safara)

sexta-feira, 6 de julho de 2018

CRÓNICAS OLISSIPONENSES - XI

A cidade está em obras. E depois é isto. Há tampumes por toda a parte. Que devem ser preservados. Sem dúvida.

Rua das Janelas Verdes - hoje à tarde

MANHÃ ACADÉMICA

Dia de regressar à Nova. Interrupção nas férias, paragem nas escavações, etc. etc. Acho sempre divertido quando sou sempre o extra nestas coisas... "Está agora em que universidade, professor?", foi a pergunta ao telefone. De momento, em nenhuma.

Entre 21 relatores, só Maria João Albuquerque (da Secretaria Geral do Ministério da Administração Interna) e eu estamos fora desse grupo.

quinta-feira, 5 de julho de 2018

MURALHAS MODERNAS DE MOURA - UM PASSO PARA A REABILITAÇÃO

Traçado das muralhas seiscentistas de Moura

Foi ontem aprovada, na reunião de Câmara, a abertura do procedimento para a reabilitação das muralhas de Moura. Manifestei, e manifesto, a minha satisfação, por esta intervenção avançar. Conheço bem as muralhas de Moura, que estudei em tempos. Tal como conheço muito bem este projeto de reabilitação, no qual trabalhei diretamente. Os valores de candidatura são estes:

CONSERVAÇÃO DAS MURALHAS MODERNAS
Investimento total: 381.967,43
FEDER: 324.672,32 
CMM: 57.292,11

O assunto foi ontem (re)deliberado pela Câmara. Já tinha sido objeto de deliberação em 26.7.2017. Desconheço as razões de nova decisão, que é igual à anterior. Questão fundamental? A obra avança.



Ver: http://www.cm-moura.pt/documentos.php?page=2&ipp=40&cd=ATACM

Reunião de Câmara de 26 de julho de 2017

ABERTURA E APROVAÇÃO DAS PEÇAS DO PROCEDIMENTO PARA REALIZAÇÃO DA EMPREITADA DE CONSERVAÇÃO DAS MURALHAS MODERNAS DA CIDADE DE MOURA

Foi presente proposta do Presidente da Câmara de 06/07/2017, exarada nos termos da informação no05/2017 de 06/07 da Secção de Contratação Pública e Aprovisionamento, de abertura e aprovação das peças do procedimento para realização da Empreitada de Conservação das Muralhas Modernas da Cidade de Moura, nos termos da metodologia definida no parecer da Chefe da DADGFRH.

DELIBERADO, POR UNANIMIDADE, APROVAR A PROPOSTA DO PRESIDENTE, EXARADA NOS TERMOS DA INFORMAÇÃO No05/2017 DE 06/07 DA SECÇÃO DE CONTRATAÇÃO PÚBLICA E APROVISIONAMENTO E NO PARECER DA CHEFE DA DADGFRH DE QUE: SE DÊ INÍCIO AO PROCEDIMENTO DE CONCURSO PÚBLICO; APROVE AS PEÇAS DO PROCEDIMENTO DO ANÚNCIO, PROGRAMA DE PROCEDIMENTO E CADERNO DE ENCARGOS, A CONSTITUIÇÃO DOS ELEMENTOS DO JÚRI E AINDA QUE TODAS AS COMPETENCIAS DO ÓRGÃO COMPETENTE PARA A DECISÃO DE CONTRATAR, SEJAM DELEGADAS NO JÚRI, À EXCEPÇÃO DA COMPETENCIA DE QUALIFICAÇÃO DOS CANDIDATOS OU PARA A DECISÃO DE ADJUDICAÇÃO.