quinta-feira, 29 de junho de 2017

TENHO BARCO, TENHO REMOS

A gravação foi feita na última Feira do Vinho, na Amareleja. Durante uma curta intervenção aludi a dois factos: a origem familiar paterna em Aldeia Nova de S. Bento e o gosto por algumas modas antigas, nem sempre muito cantadas. Referi expressamente "Tenho barcos, tenho remos", numa interpretação do Grupo Coral da Casa do Povo de Serpa. Comprei o disco (um single, 45 rpm, coisa que para os mais novos é chinês...) numa loja que vendia discos em segunda mão (!) na Rua da Prata. Foi em 1983 ou em 1984...

Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de São Bento teve a extraordinária simpatia de me dedicar a moda, interpretando-a de seguida de forma absolutamente magnífica. Depois emocionei-me assim um bocadinho, mas ainda bem que ninguém reparou.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

A RAÍZ DOS PROBLEMAS

A raíz dos problemas da região está aqui. Na debilidade demográfica. Na incapacidade de renovação. No envelhecimento e no despovoamento. Pensar que isto se resolve com a devolução de parte da participação variável do IRS é andar a brincar.


Tabela publicada no "Diário do Alentejo".

DIAS FORMAIS

Depois dos dias de festa, outros mais formais. Dois momentos importantes na vida do concelho:

1) Fotografia de cima (dia 26 de junho) - Recebendo o Diretor-Nacional Adjunto da PSP, Superintendente Chefe José Ferreira de Oliveira e o Comandante Distrital de Beja, Superintendente Raúl Dias, na companhia do Comandante da Esquadra de Moura, Subcomissário Carlos Carvalho. A cerimónia comemorativa do 140º aniversário do Comando Distrital de Beja da Polícia de Segurança Pública teve lugar em Moura. O ato formal decorreu no salão nobre dos Paços do Concelho.
2) Fotografia de baixo (dia 27 de junho). Presente na assinatura do contrato de financiamento referente à obra da casa mortuária de Santo Amador entre a DGAL e a UFMSA. Estiveram ainda presentes a Vice-Presidente da CCDRA e o Secretário de Estado das Autarquias Locais. A obra de melhoramento da casa mortuária de Santo Amador irá ter o seguinte financiamento: 50% da DGAL, 25 % da União de Freguesias, 25 % da Câmara Municipal.



terça-feira, 27 de junho de 2017

A VILA, AMANHECENDO



Moura, de manhã cedo. Rescaldo da festa, com as ruas silenciosas. Emily Dickinson, de novo

When night is almost done,
And sunrise grows so near
That we can touch the spaces,
It ‘s time to smooth the hair
And get the dimples ready,
And wonder we could care
For that old faded midnight
That frightened but an hour.

segunda-feira, 26 de junho de 2017

FERIADO RESENHADO

Crónica fotográfica do nosso feriado municipal. Mais dias cheios de animação e com momentos importantes. De cima para baixo:

1. Concurso de mastros.

2. Distribuição de flores, seguida de passeio pelo centro histórico.
3. Com "Os Caprichosos".
4. Manhã dos Campeões. Segunda edição de uma iniciativa destinada a homenagear os desportistas do concelho. Este ano foi no "Jardim das Oliveiras" e teve maior adesão que em 2016.
5. Cerimónia de atribuição da Medalha de Honra do Município de Moura a sete entidades do concelho.
6. Marchas populares em Moura.
7. Almoço dos trabalhadores da Câmara e das Juntas, com convidados especiais (as moças e os moços do "Um dia na presidência").
8. Com as moças e os moços do "Um dia na presidência" num momento habitual.
9. Marchas populares em Amareleja.

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ANDALUZIA - I

História pícara e real, ocorrida nos anos 40 numa aldeia do Andévalo. Uma pessoa de uma família humilde e pertencente a um setor bem conhecido da sociedade falecera. O funeral teve lugar num dia de chuva violenta. A cova enchia-se de água e o caixão, para embaraço dos presentes, quase boiava. Ouviu-se então o lamento da mulher: "Ai, Trapatiesta, que nunca querías lavarte la cara, y ahora te han hecho capitán de un barco!".

O João assistiu ao episódio. Foi há muitos anos e nunca mais o esqueceu.

domingo, 25 de junho de 2017

ÚLTIMO FERIADO MUNICIPAL

Entra-se em contagem decrescente. A partir daqui todas as intervenções serão as últimas. Como a de hoje, no almoço dos trabalhadores da Câmara Municipal e das Juntas de Freguesia do concelho. Aqui fica o texto que tive a oportunidade de ler.


Caros colegas autarcas
Caros trabalhadores da Câmara Municipal de Moura e das Juntas de Freguesia
Caros amigos do Um dia na Presidência

Por norma, estas intervenções são o momento em que se faz o balanço do ano que passou e se apontam metas para o ano seguinte. Este ano, a intervenção será diferente. Desde logo, porque em 2018 não terei estas funções.

Gostaria, assim, de deixar algumas ideias sobre o tempo que passou. E sublinhar o caráter crucial de algumas opções que foram sendo tomadas. Em cinco pontos.

Começo antes por vos contar uma coisa que os que não se interessam por História normalmente desconhecem. Lembrei-me, há dias, e por motivos de ordem pessoal, de um livro escrito em 1957, intitulado “O capitalismo monárquico português”.

Em 1517 (há 500 anos), o País estava fortemente endividado.
O rei tinha acumulado empréstimos atrás de empréstimos.
Quem nos emprestava dinheiro? Banqueiros alemães.
Onde eram feitas as transações? Em Antuérpia.
500 anos depois, estamos fortemente endividados.
Quem manda? Os alemães.
Onde se tomam as decisões? Em Bruxelas (que fica a 40 quilómetros de Antuérpia).
Tudo se mantém monotonamente igual.
O País continua pobre e dependente.

O interior despovoa-se e envelhece. Faltam políticas capazes de invertir a situação e faltam homens de Estado. O último a ter uma noção precisa da importância do interior foi o Marquês de Pombal. Morreu há 235 anos e usava, em temos políticos, métodos discutíveis.
Somos, para mais, desgraçadamente, pobres com mentalidade de rico. Muitas vezes o temos constatado, ao longo dos últimos anos. Acha-se que tudo é possível, ou que a tudo temos direito ou que o dinheiro não se acaba. Não é assim. Daí também o estilo austero e firme que adotámos. Nem sempre pudémos agradar a todos. Não foi essa a nossa preocupação. Porque isso não é possivel. Ai dos que acham que a governação é um exercício de consulta a todos a toda a hora, para depois tomarem decisões. Ai deles.

O que faríamos outra vez e porquê?

1. Voltaríamos a apostar na reabilitação do património edificado. Obras como a do Matadouro, a dos Quartéis, a da igreja de Safara, a do Pátio dos Rolins, são importantes porque resolveram problemas. Mas são também decisivas pelo seu caráter simbólico. Não há futuro sem um passado sólido. Não há futuro sem que os centros urbanos se renovem. E sem que edifícios antigos ganhem novos usos. Não perceber que isso não é um capricho (ou arqueologia e museus) é, do ponto de vista político, social e cultural, uma tragédia. Uma perfeita tragédia.

2. Voltaríamos a apostar em infraestruturas. Está agora em moda a ideia de que o essencial das infraestruturas está feito e que agora a opção é a “área social”. Um perfeito disparate. Primeiro, as infraestruturas precisam de permanente renovação e manutenção. Depois a realidade, não é um bolo de bolacha, com camadas que podem ser retiradas. A realidade é global. Na política social apostámos na habitação (perto de um milhão de euros). É a condição primeira para uma vida digna. Às obras em casas particulares segue-se a recuperação do Bairro do Carmo.

Houve outras apostas em infraestruturas? Sim. No Parque de Vale de Juncos e no Pavilhão das Cancelinhas, na Amareleja. Na reabilitação de escolas. Na renovação da Zona Industrial. Na obra em curso na Ponte do Coronheiro. Na criação do Centro Náutico da Estrela. Na conclusão da obra da Ribeira da Perna Seca. Era possível mais? Talvez. Assaltando um banco. E tinha de ser bem escolhido. Que alguns não têm dinheiro.

3. Voltaríamos a investir no setor operacional e na atenção que démos à área financeira. Nós não somos donos do Município. Somos transmissores daquilo que recebemos. Por isso tivémos a preocupação de dar aos nosso trabalhadores melhores condições e melhores equipamentos. Essa opção implicou não fazer outras coisas. Ou isto ou aquilo, como no célebre poema de Cecília Meireles. Aumentámos 10 vezes a compra de equipamentos e diminuimos 10 vezes o montante de pagamentos em atraso. Houve esforço de todos, empenho de todos. Teve de haver uma atitude tesa e de não transigência em muitas ocasiões. A Câmara Municipal de Moura está no pelotão da frente em termos de novos investimentos e no aproveitamento de fundo comunitários.

4. Voltaríamos a apostar nas novas oportunidades que surgiram na área económica. Sim, voltaríamos a criar condições para a instalação do CONTINENTE. Voltaríamos a apostar no Centro de Acolhimento a Microempresas de Moura. Voltaríamos a negociar e criar condições para a instalação do Centro de Inspeção de Veículos. Voltaríamos a criar condições para o Centro de Fisioterapia começar a laborar. Voltaríamos a disponibilizar lotes para os dois importantes investimentos em curso (apicultura e vinhos) na up 11. Não esqueçamos o domínio do fotovoltaico. Que gera agora tantas e tão assolapadas paixões.

O Município de Moura cresceu 350% em termos de exportações (estamos em 3º lugar a nível nacional). O mérito é dos empresários. Mas uma Câmara inimiga das empresas não criaria condições para eles trabalharem.

5. 0 futuro que aí vem passa por todos nós. Passa pelas associações (ainda ontem distiguimos sete, Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Moura, Centro Recreativo Amadores de Música "Os Leões", Círculo Artístico Musical Safarense, Grupo Desportivo Amarelejense, Moura Atlético Clube, Sociedade Filarmónica União Musical Amarelejense, Sociedade Filarmónica União Mourense "Os Amarelos" com a medalha de honra do município). O futuro passa pela afirmação do nosso concelho. Passa pelos novos investimentos. Neste momento temos candidaturas em curso de mais de cinco milhões de euros: o antigo grémio, a Torre do Relógio (Amareleja), o futuro terminal rodoviário, a reabilitação do Bairro do Carmo e a consolidação das muralhas modernas. Mais a obra do novo cemitério e ultrapassamos os seis milhões e meio de euros.

Precisamos que as regras do jogo, em termos de financiamento, sejam alteradas para que seja possível renovar redes de águas e de saneamento. E para que possamos criar e expandir as zonas industriais. Só com o orçamento municipal não vamos lá.

Temos tudo isso e temo-los a eles. Aos jovens do “Um dia na presidência”. Foram eles os protagonistas dos melhores momentos que tive neste mandato. Conseguir estar perto da juventude foi um privilégio. Sem preço.

São eles o futuro. Temos a obrigação de lhes explicar aquilo que vão herdar e a responsabilidade que vão ter em melhorar aquilo que foi feito ao longo de centenas de anos. Terão de fazer do nosso concelho um concelho melhor. É uma responsabilidade grande. E eles vão conseguir.

Reitero o que há poucos meses disse numa cerimónia pública: “de uma coisa tenho hoje a certeza. As soluções e a força estão em nós. Em todos nós. Não há salvadores da pátria, nem profetas nem homens ou mulheres providenciais. Estamos todos nós, com o nosso empenho, o nosso sentido de luta e a nossa capacidade de concretização. Estamos nós e, como me disse um dia o Prof. José Mattoso, a ‘infinita liberdade do espírito’. É a essa, cada vez mais, a minha firme convicção.”


Devo um agradecimento final aos trabalhadores da Câmara Municipal de Moura. Fiz parte da vida deles durante estes anos. E eles da minha. Graças a eles pude melhorar o meu trabalho e tornar diferente a perspetiva que tenho das coisas e da vida. Devemos-lhes reconhecimento. O trabalho deles foi decisivo para termos um concelho melhor. O esforço deles é um contributo essencial na construção do futuro. Tarefa que se faz e recomeça em cada dia.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

ORA CÁ VAMOS NÓS

Aceitei com prazer este cargo.
Estamos juntos.

REGRESSO A PORTO MOURÃO

My River runs to thee—
Blue Sea! Wilt welcome me? 
My River wait reply—
Oh Sea—look graciously—
I'll fetch thee Brooks
From spotted nooks—
Say—Sea—Take Me!



O poema de Emily Dickinson fez mais sentido, naquela manhã de regresso a Porto Mourão. Havia água e o Pego dos Marmeleiros ganhava o esplendor de outrora. Atrás, à esquerda, tínhamos a Atalaia de Porto Mourão. À direita, mais atrás e mais longe, fica a Quinta da Esperança. O bucolismo do rio, verde e silencioso, era de cena bíblica, embora não tenha vivido nos tempos da Bíblia.

Há muito que não vinha a Porto Mourão. Regressarei em breve. A pé, como em tempos fazia.

MEDALHA DE HONRA DO MUNICÍPIO DE MOURA x 7

Tal como foi anunciado há quatro meses, são sete as entidades que irão receber a  Medalha de Honra do Município de Moura:

Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários de Moura

Centro Recreativo Amadores de Música "Os Leões"

Círculo Artístico Musical Safarense

Grupo Desportivo Amarelejense

Moura Atlético Clube

Sociedade Filarmónica União Musical Amarelejense

Sociedade Filarmónica União Mourense "Os Amarelos"

quinta-feira, 22 de junho de 2017

ERA UMA VEZ A ÁGUA

Quase dois anos depois, a exposição encerrou.

Que nos deixou?
Três prémios.
Quatro mostras temporárias que a acompanharam ao longo deste tempo.
Sete mil visitantes.
Duas visitas especiais: Presidente da República e embaixadora da Argélia.
Atividades como“Do Castelo ao Museu”, “Dá-me uma gotinha de água” e “Da cidade à ribeira – percursos à sombra da água”, atividade promovida no âmbito da Bolsa de Turismo de Lisboa;
Uma câmara aberta denominada “Água – património de todos”
Duas edições do Fórum 21;
A edição da Valsa da Água Castello “Sallúquia a Bella Moura” de Alfredo Keil;
A edição do catálogo da exposição.

Temos motivos para contentamento? Algum. Próximo desafio para a equipa? A próxima exposição, sobre metais, que abrirá no final do verão / início do outono. Mais informo que, contra certas e determinadas opiniões, assumirei de novo a coordenação técnica do projeto. Porquê? No essencial, porque gosto de o fazer.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

SHORT CUTS

É o começo de um belo filme de Robert Altman (1925-2006). Short cuts, baseado em nome histórias de Raymond Carver, foi rodado em 1993 e tem a típica trama altmaniana de histórias paralelas que se vão cruzando. O cinema já ia faltando aqui no blogue. Viva Altman! Um dia destes passo aqui a involuntária cena de strip de Hot Lips (do filme MASH, deste mesmo autor).

terça-feira, 20 de junho de 2017

REFAZENDO O CV

Daqui a pouco, daqui a muito pouco, a minha vida toma outro caminho. É preciso rever e repensar uma série de coisas. "Há quanto tempo não atualizas o currículo?", perguntou um colega no Fórum 21. Sei lá, um ou dois anos... Começo a recuar no tempo e a entrar em stress. Nem 2017, nem 2016, nem 2015, nem 2014, nem 2013, nem 2012, nem 2011... Bonito serviço. Arranco com um trabalho de pesca à linha, em ficheiros, no gmail, em notas manuscritas. Arguições de teses, artigos já esquecidos ou de que não tomara nota, uma balbúrdia por resolver. Horas de almoço e noites passadas nisto. Não uso o modelo do europass (que detesto) nem o da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (que também serei obrigado a atualizar, ainda que abomine aquele comboio de atividades que temos de lançar nas nossas páginas pessoais). Trabalho à maneira antiga, mas isso deve ser porque nasci noutro século.

Já está quase. 31 anos de administração pública numa vintena de páginas. A melancolia de pensar que a próxima etapa profissional será quase a derradeira. 

BEJA - O CÉU QUE NOS PROTEGE

Das escavações da Rua da Moeda ao Museu Regional o percurso é curto. No sábado de manhã parecia que se eternizava, sob um sol mais quente que nunca. Ao longo da Rua dos Infantes, sombrinhas às cores davam um tom protetor. À entrada do museu, a cabeça de Júlio César espera-nos, na sua frieza de milénios.

O tempo à nossa frente não é ilimitado (certo, Maria da Conceição Lopes?), e não sei quantas vezes me lembrarei de ver o nascer da lua. Olhando as escavações da Rua da Moeda e vendo os tesouros pouco divulgados do Museu Regional fico, cada vez mais, com a convicção que sítios como estes são, ou têm de ser, encenações do tempo.




“Death is always on the way, but the fact that you don't know when it will arrive seems to take away from the finiteness of life. It's that terrible precision that we hate so much. But because we don't know, we get to think of life as an inexhaustible well. Yet everything happens only a certain number of times, and a very small number really. How many more times will you remember a certain afternoon of your childhood, some afternoon that's so deeply a part of your being that you can't even conceive of your life without it? Perhaps four or five times more. Perhaps not even that. How many more times will you watch the full moon rise? Perhaps twenty. And yet it all seems limitless.”
Paul Bowles (The sheltering sky)

domingo, 18 de junho de 2017

NACIONAL 236

Uma estrada nacional pouco conhecida e concelhos por norma arredados das notícias são, ao longo do dia, os sítios da notícia. O que resta de um País ainda rural e ainda interior vai morrendo assim.

Mais de 60 mortos. Dezenas de famílias destroçadas. Bens que se perderam, vidas que deixam de ter futuro

Como foi possível isto ter acontecido?

A pergunta é mil vezes repetida. Daqui a um ano, ou daqui a uns meses, voltaremos a repetir a mesma pergunta.

sábado, 17 de junho de 2017

UM "PRÉMIO" DIFERENTE E ESPECIAL

Comecei o dia bisbilhotando o facebook. E eis que encontro esta referência, que me fez "ganhar o dia". As razões são as de Maria José Moura. Creio, para lá das apreciações pessoais, que gostará de conhecer o dossiê de candidatura que a nossa Câmara Municipal tem em preparação. E que dará novo alento à leitura pública no concelho de Moura.


sexta-feira, 16 de junho de 2017

NOITE SEM LUZ

Um acidente num posto transformador deixou parte de Moura sem iluminação pública durante muitas horas. Sítios como o jardim público lançavam uma generosa luz sobre a escuridão. Os volumes ficaram mais recortados e pormenores esquecidos ganhavam vida. Deambulei um pouco por ali. Ainda pensei em ir buscar o tripé e tentar algumas exposições mais prolongadas. Era quase meia-noite. Sucumbi ao pragmatismo. E, sobretudo, ao cansaço. Quando a luz voltar a faltar estarei preparado.


quinta-feira, 15 de junho de 2017

ANTÓNIO AUGUSTO MARQUES DE ALMEIDA (1936-2017)

Foi meu professor de Matemática para as Ciências Sociais e Humanas no ano letivo de 1981/82. A primeira aula foi no dia 7 de dezembro, na sala 7. Recordo o sorriso meio irónico com que entrou na sala e deparou com a turma, silenciosa e aterrorizada. Matemática?? A cadeira era obrigatória. Com sensibilidade e inteligência, o Prof. Marques de Almeida levou a "coisa" por outros caminhos. Interessou-nos por Bento de Jesus Caraça, pela matematização do real, pela visão qualitativa e não quantitativa. As aulas eram espaços de liberdade e Marques de Almeida obrigava-nos a improvisar. Uma das componentes obrigatórias era a "apresentação oral". Tinhamos de falar durante 10 ou 15 minutos sobre um tema à nossa escolha. Optei pelo cinema português e pela visão que os estrangeiros colhiam de Portugal através dos filmes. Com aquele pequenos exercício, Marques de Almeida queria que nos disciplinássemos e que puséssemos o cérebro a trabalhar cronometricamente. Lembrei-me do seu austero "tens 10 minutos para terminar" muitas vezes ao longo da vida. Orientou-me nas leituras, obrigou-me a ler o Capitalismo monárquico português, de Manuel Nunes Dias, fez-me trabalhar sobre a feitoria portuguesa de Antuérpia e, sobretudo, ajudou-me.

Perdido em dúvidas filosóficas, sozinho e sem vontade especial de estudar História, teria errado se não fosse o apoio que me deu. A generosa nota com que terminei Matemática foi um impulso decisivo para a carreira que mais tarde escolhi. Marques de Almeida parecia-me um homem quase idoso. Constato agora que tinha apenas 45 anos... Faleceu ontem. Vi-o a última vez há uns bons quatro ou cinco anos.


Coincidências e ironias do destino: doutorei-me, em Lyon, no amphithéâtre Benveniste. O nome de judeu que motivou a criação pela família Benveniste, em 1996, de uma cátedra na Universidade de Lisboa. Primeiro diretor dessa cátedra? Marques de Almeida.

Professores importantes no meu percurso de aprendizagem?
António Augusto Marques de Almeida
Cláudio Torres
Eduardo Borges Nunes
João B. Serra
Manuel Rio-Carvalho
Muito poucos, em quatro anos.
De entre o que foram meus professores sem me terem dado aulas não posso esquecer António Borges Coelho e José Luís de Matos.

quarta-feira, 14 de junho de 2017

A ESTÁTUA



Nas suas mãos a voz do mar dormia
Nos seus cabelos o vento se esculpia

A luz rolava entre os seus braços frios
E nos seus olhos cegos e vazios
Boiava o rasto branco dos navios

O Hotel de Moura, num relance, às 22:49. Sophia de Mello Breyner Andresen, no silêncio da noite.