sexta-feira, 25 de novembro de 2011

HERÓIS DO MAR

Faz hoje 30 anos que os Heróis do Mar se apresentaram pela primeira vez em público.

Os Heróis do Mar marcaram uma época e fizeram História. Há quem não resista a tentar re-escrever a História. E a construir novas verdades. Ao ler hoje o ípsilon, não pude deixar de sorrir. Diz Jorge Pires, autor de um documentário sobre a banda: "Na altura existia o Sete que era um jornal de espetáculos mas queria representar a esquerda comunista, que tinha falta de inimigos". E mais "O Estado Novo usava a Cruz de Cristo, embora ela fosse anterior ao fascismo. E eles [Heróis do Mar] pegaram nisso, com a consciência da provocação", conta Edgar Pera.

Sempre gostei de argumentos pueris. E adoro falsas inocências.

A ideia que o Sete era um semanário comunista (ou que andasse por lá perto) é uma chachada absoluta. E que os Heróis do Mar usassem aquela estética por pura diversão é um "argumento" penoso...

Sinto-me à vontade neste tema. Gosto (muito) da música dos Heróis do Mar desde o primeiro dia. Sabia porque gostava e sabia que gostava de um estilo mais que discutível. Cada vez que falava no tema levava uma saraivada de insultos na Direção da Associação de Letras.

Pedro Ayres de Magalhães, mentor do grupo e, ao tempo, aluno de Letras, estava vagamente ligado a um grupo extremista intitulado AXO, que se entretinha a encher as retretes da faculdade (juro que não estou a inventar) com slogans como "Portugal-Raça-Império" e "Pátria - peitos expostos pelo Quinto Império". A existência do AXO é um episódio quase esquecido. Dá-se o acaso de eu ter boa memória...

Em Brava dança dos heróis cantavam-se estes versos:

Corpos caídos na selva ardente
A terra fértil do sangue quente
Brava Dança dos Heróis
Dos feitos a glória há de perdurar
Mesmo se a morte nos apagar
Brava Dança dos Heróis
Dos fracos não reza a história
Cantemos alta nossa vitória

A batida era marcial. Dançava-se no mesmo estilo. A primeira atuação dos Heróis no Alentejo foi em Moura, no final das festas de 1983. Estava eu dançando, ou coisa que o valha, quando passou à minha frente o José Maria Pós-de-Mina. Na altura o tratamento era por você. Dirigiu-se-me, em tom sardónico "está a preparar-se para a recruta?".

Musicalmente, o grupo era excecional. Essa é uma parte da história. Que o estilo, provocador ou não, não era inocente, essa é outra questão. Que a mensagem das letras tinha tentações épicas é, ainda, outra faceta. Não se queira, à boa maneira portuguesa, lançar cortinas de fumo sobre as coisas e mistificar a realidade. Ou inventar conspirações de comunistas.

Pedro Ayres de Magalhães, produtor de enorme talento, estaria ainda na raíz de projetos como Resistência ou Madredeus.

7 comentários:

Lucrecia disse...

Você escreve de maneira leve e agradável.Tenho estado sempre aqui, no Brasil, acompanhando o seu blog. Gosto de ler o que você escreve.

Tambor de Domingo disse...

"... alem vai o meu amigo
a vida dele corre perigo...
já não posso mais..."

"...são só mentiras do senhor do tribunal,
as mãos não são estas
não são estas as mãos...."

eu na altura era um miudo pouco mais novo que agora, adorava as músicas mas durou pouco tempo.
ainda hoje compro albuns com que me identifiquei na altura; Xutos, gnr, ena pá, peste e sida, sitiados, e outros.
também é engraçado ver que bandas que lançaram albuns nas decadas de 80 e 90,e que passaram completamente ao lado, consigam agora reeditar e esgotar coliseus!!! as letras estão do mais actual, são sobre crise e repressão, como tal, ou estavam á frente no tempo... ou o tempo não está assim tão diferente. em 1983, em Portugal a dureza de ouvido era muita. quem ouvia coisas como heróis do mar devia ser chalado... agora até pedras batendo são música!

Santiago Macias disse...

Obrigado, Lucrécia.

Sabe que uma das coisas que te tento é, curiosamente, aproximar-me do estilo de escrita do jornalismo brasileiro, bem mais gracioso e menos pomposo que muita escrita engravatada aqui do burgo.

João Macías disse...

Esse de 83 deve ter sido o primeiro concerto de toda a minha vida. Chegaram ao fim e tocaram tudo de novo. Claro que antes disso os meus pais arrastaram-me daquelas bancadas para fora vociferando contra "semelhante chaladice".

De resto isso com uns copos de Volubia a olhar da janela para a citadela de El Jadida ou para o castelo à beira-mar de Safi faz todo o sentido. Ainda que igualmente tenha levado umas bocas online (é mais moderno) de alguns camaradas e amigos.

Die schüler. disse...

Também na Rua de Aroche ouvi este single teu até quase só restar a rodela com o nome ao centro.


"A morte não te há-de matar
Nem sorte haverá de ele viver
Sem amar sem te ter
Sem saber se rezar
Amor oxalá seja amar
Ter prazer sem poder
Nem sequer te tocar
Os deuses não te hão-de levar
Sem que eu der a mão
P'ra ser par
Sermos dois a partir
E depois a voltar
Não vais-me deixar sem o céu
Ser o chão onde vão se deitar os mortais
E a Glória será não esqueçer
Memoria de tanto te querer
Sem razão meu amor
Com paixão sem morrer (...)"



"A Morte não te há-de levar". Tampouco a tristeza, seja ela qual fôr. Sob pena de morte interior.

babao disse...

Ai, ai...

Santiago Macias disse...

quoi?