domingo, 15 de março de 2020

A SEGUNDA MORTE DE VENTURA TERRA

O episódio foi contado por Manuel Rio-Carvalho numa das nossas aulas de Arte Contemporânea, algures em 1984 ou 1985. Um senhor muito rico deixara como uma das últimas vontades ser enterrado com um anel caríssimo, ouro e diamantes, algo assim. Na hora do funeral, os descendentes pragmáticos, mandaram avaliar o anel, preencheram um cheque e meteram-lho na mão. Ao menos, o cruzar o Estige, poderia perguntar ao barqueiro qual a agência onde o poderia descontar.

Não pude deixar de me lembrar deste episódio quando ouvi as justificações do Reitor da Universidade de Lisboa a propósito da alienação do edifício deixado em testamento por Ventura Terra. O arquiteto deixara, generosamente, uma casa no centro de Lisboa, para que os seus rendimentos pudessem ser utilizados em bolsas de estudo para alunos cadenciados. Resolveram agora vender o edifício, argumentando que iria esse dinheiro ser empregue em residências universitárias. O argumento não colhe. Bolsas são uma coisa, residências outra, completamente diferente. É confrangedor constatar como duas instituições não foram capazes de gerir um edifício e de o rentabilizar. Pior, traem duplamente a memória de quem instituiu o legado. Vendem o edifício e deixam que se destrua a lápide que ao legado se referia.


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