Parece que não começou, mas acabou. Um verão estranho e fresco. Como em 1989, ano que foi de fracas recordações.
O frio é um pouco como o das fotografias de Neal Slavin, o americano que, em 1968, andou por Portugal. Daí resultou um livro, editado em 1971, com um posfácio interessantíssimo de Mary McCarthy. A realidade fotografada por Slavin é bisonha, a relatada por McCarthy é ainda mais cinzenta. Há tradução portuguesa, editada pela Fundação de Serralves, em 1990.
Post outonal, num ano sem verões.
Chove. Há SilêncioChove. Há silêncio, porque a mesma chuva
Não faz ruído senão com sossego.
Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva
Do que não sabe, o sentimento é cego.
Chove. Meu ser (quem sou) renego...
Tão calma é a chuva que se solta no ar
(Nem parece de nuvens) que parece
Que não é chuva, mas um sussurrar
Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece.
Chove. Nada apetece...
Não paira vento, não há céu que eu sinta.
Chove longínqua e indistintamente,
Como uma coisa certa que nos minta,
Como um grande desejo que nos mente.
Chove. Nada em mim sente...
Fernando Pessoa (Cancioneiro)
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