quinta-feira, 19 de março de 2026

UMA TRAGÉDIA GREGA NO CINEMA

Não ganhou nenhum daqueles prémios da estatueta dourada? Parece que não. Mas este é um filme que perdurará. Uma tragédia grega, com um barman-coro a pontuar a narrativa. E com toda a ação centrada (quase só) num único local. E com Ethan Hawke a fazer qualquer coisa de inesquecível. A tragédia de Lorenz Hart (1895-1943) em tons densos, cromáticos e narrativos.

Pensava eu que ia ver um bom entretenimento. Foi melhor que isso.



















segunda-feira, 16 de março de 2026

SILVES, DAQUI A DIAS

O meu tema não será bem, bem, o de um contexto de guerra, mas sobretudo o que acontece depois da guerra. Em todo o caso é, de certo modo, um regresso às lides. De um confesso não-excessivamente-entusiasta de congressos...


 

sábado, 14 de março de 2026

O ALGORITMO PIFOU

A "estatística" do blogue registou quase 100.000 "leituras" em dois dias...
Credibilidade = zero


 

quinta-feira, 12 de março de 2026

PANTEÃO NACIONAL - MODOS DE VER

A inauguração foi ontem, ao fim da tarde.

Uma recolha longa de imagens, que pode ser vista até final de junho.

Aqui reproduzo o texto de abertura da exposição:

O título da exposição evoca, e apenas isso, uma conhecida obra de John Berger. Não são as perspetivas ideológicas da Arte que aqui nos motivam. Mas sim, de forma muito explícita, os vários modos como o Panteão tem sido olhado.

A parte central da exposição mostra todas as propostas de remate do monumento que, ao longo dos séculos XIX e XX, foram sendo traçadas. São imagens de um panteão que, verdadeiramente, nunca existiu.

“Panteão Nacional – modos de ver” propõe um percurso marcado por uma deliberada diversidade. Abrange os registos mais antigos do monumento (telas, painéis de azulejos...), as representações do Panteão na publicidade, as perspetivas que gerou em artistas contemporâneos ou os momentos históricos de que foi protagonista. A banda desenhada, a televisão, os discos, aproximam o monumento dos “media” dos nossos dias.

“Panteão Nacional – modos de ver” não é uma monografia sob a forma de imagens. Nem apresenta uma narrativa histórica. É antes um convite à descoberta das diferentes representações que o monumento tem motivado. É também um desafio aos visitantes, que podem, a partir daqui, criar o seu próprio modo de ver o Panteão.

segunda-feira, 9 de março de 2026

C.N.C.D.P.

No sábado passado tive como memória recorrente a Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. Extinta em 2002 às ordens do governo de Durão Barroso. Aquele processo de extinção é um verdadeiro manual de como-não-fazer. A C.N.C.D.P. foi uma verdadeira escola de quadros e de produção de conhecimento. Saber aproveitar esse potencial teria sido importante para o nosso País. Infelizmente, isso não aconteceu.

sábado, 7 de março de 2026

AMÁLIA POR THURSTON HOPKINS

De ontem até ao início do verão. Amália Rodrigues estará presente no Panteão através de uma dezena de excecionais fotografias de Thurston Hopkins (1913-2014). Foram descobertas há cerca de 20 anos por Jorge Calado. Ao rever a coleção da Culturgest desenhou-se-me a pergunta "e porque não expô-las todas de uma só vez?". É isso que agora acontece, até ao arranque do verão.

quinta-feira, 5 de março de 2026

RUA MOITA MACEDO

Às 17:41 de hoje descerrou-se a placa toponímica. Um vento gelado varria o Lumiar. Entre as Ruas Pina Bausch e Querubim Lapa criou-se espaço para Moita Macedo, o poeta, o pintor, o militante comunista. Uma justa homenagem e uma semente para o futuro. As brilhantes palavras de Mário Avelar explicaram tudo e tudo iluminaram. Lá estive, entre amigos e memórias. Que se me repetiram, uma vez e outra, no regresso a casa. Uma muito feliz tarde fria.

Da esquerda para a direita:

Carlos Moedas (Pres. CML), Ricardo Mexia (Pres. J.F. Lumiar), Maria Rosário Macedo e Paulo Macedo.

quarta-feira, 4 de março de 2026

ÚLTIMO DIA

Foi um percurso que quase sete anos. Entre setembro de 2019 e março de 2026. Hoje é, por vontade própria, o meu último dia na FCSH. Não quis prolongar a minha presença no segundo semestre nem aceitei lecionar no próximo ano. Termina um ciclo, que foi mesmo muito bom. Na licenciatura ensinei História do al-Andalus, no mestrado orientei os seminários de História, Município e Cultura e de Gestão e Proteção do Património Arqueológico.
O que posso dizer? Que só trago boas recordações.
Viva a FCSH!

segunda-feira, 2 de março de 2026

MEIN DONALD, I CAN WALK!

Sem nenhuma vontade de rir, nem de sorrir, recordo o final de um filme de Stanley Kubrick.

domingo, 1 de março de 2026

O TURISMO E OS OUTROS, QUE SOMOS NÓS

“Olha para isto! Olha para isto!”, acotovelava-me Cláudio Torres. Andávamos algures entre a cidade antiga de Tânger e a zona nova. Era perto da hora do almoço e uma multidão de gaiatos saia da escola. Uma torrente de juventude e de alegria varria as ruas da cidade marroquina. “Já viste? Isto lá já acabou. São estes é que nos vão salvar”. Vivia-se o verão de 1999 e tanta juventude (só veria algo semelhante, anos mais tarde, na Guiné-Bissau) começava a rarear por cá. Aquela frase “são estes é que nos vão salvar” só anos mais tarde me faria total sentido, mas o Cláudio sempre teve aquela particularidade de ver muito longe.

 

Nos tempos de juventude, gostava de vagabundear, solitariamente, horas a fio, pelos bairros antigos de Lisboa. Corri, muitas vezes, as ruas de Alfama. Ao ali regressar, em 2021, para me fixar no meu local de trabalho (no limite entre Alfama e a Graça) constatei, com consternação que a cidade antiga quase morrera. Crianças não há, os velhos são poucos, os portugueses uma raridade. Há alojamento local, há turistas, há edifícios em obras. Os operários são, maioritariamente, imigrantes. As coletividades definham, as velhas tabernas desapareceram para dar lugar a tretas de “wine and food”. O génio do lugar desapareceu e não voltará.

 

Ao passar, há dias pela Rua de S. João da Praça, entrei no túnel do tempo. Recuei 30 anos. Conduzia um grupo de amigos franceses, mais velhos, pelas ruas de Alfama. Ao acaso, ainda não havia lojas para turistas e eram poucos os “restaurantes típicos”. Em plena rua estava um grelhador com sardinhas. O cozinheiro não estava à vista. E ei-lo que sai, quase em passo de corrida, do seu estabelecimento, de tesoura ainda em punho, para, num golpe rápido, mandar uns borrifos de água para o grelhador e virar as sardinhas. Era o barbeiro que, no meio do atendimento, preparava o almoço. Depois regressou, para dentro da barbearia, no mesmo passo rápido.

 

Os amigos franceses ficaram extasiados, como os grupos de excursionistas sempre ficam, quando desembarcam em sítios longínquos e exóticos e veem coisas que, nos países civilizados, fazem parte dos livros de histórias.

 

Não podemos, seguramente, desejar um mundo congelado no tempo. Muito menos podemos pensar que seria conveniente que não houvesse turistas. Era só o que faltava. Mas a verdade é que esta avalanche, sem a contrapartida juvenil que África ainda tem, levou tudo à frente. Por aquelas bandas ficámos sem os sítios que são o espelho de nós próprios. E que são a nossa identidade. Como a taberna com colunas de ferro forjado onde acabei por almoçar com o grupo gaulês, perto do Chafariz d'el-Rei. Passei por lá há semanas. O sítio tinha vestido um ar sofisticado. Não entrei. Fui afogar as mágoas prandiais do “Pitéu da Graça”, onde os turistas ainda não chegaram em avalanches. Não servem pizzas, nem lasanha, nem hambúrgueres, nem tacos, nem sushi. Só coisas decentes, como vitela no tacho, filetes de peixe galo, petingas fritas, bacalhau com todos...

 

Fico sempre a pensar quanto tempo mais teremos sítios assim. E quando é que, à força do turismo, passaremos, de vez, a ser apenas os outros.


Crónica em "A Planície"