quinta-feira, 1 de junho de 2023

LÍNGUA DE SANGUE

Foi toda a parede da capela. Toda à volta. Só Deus e a mulher, e o marido, saberão a razão da promessa. Mas a mulher lambeu a cal da parede, até a língua ficar em sangue. Havia uma procissão e havia uma banda que ia tocar na procissão. Mas enquanto isso não acontecia, a mulher começou a lamber a parede de cal. A língua começou a sangrar. Foi deixando um rasto de sangue ao longo das quatro paredes exteriores da capela. Quando deixava algum pedacinho limpo e sem sangue, o marido chamava-a e fazia-a voltar atrás. A promessa prosseguiu até uma linha de sangue ser visível ao longo das quatro paredes. Custa-me imaginar a dor e a superação.

Ouvi esta história passada há cerca de 40 anos, com um torpor difícil de explicar. Imaginei aquele percurso, à volta da capela, como se de um filme se tratasse. Aquela promessa faz parte de um mundo antigo, marcado pela violência do quotidiano. A língua de sangue na capela é a égua a ser morta à facada em “La família de Pascual Duarte”, de Camilo José Cela, são as cabeças das galinhas arrancadas à mão pelos cavaleiros lançados a galope no filme “Las hurdes”, de Luís Buñuel, é um mundo bruto, com pouca lei e nenhuma ordem. Aquela mulher à volta da capela, com a língua esfolada, fazendo um acordo com Deus – eu dou-te o meu sangue, tu dás-me aquilo que eu preciso – faz parte de um mundo irreal e mágico. Esta relação mágica com entre Deus está explicada no filme “Nostalgia”, de Andrei Tarkovsky. Ao longo de mais de nove minutos de um plano-sequência com poucos paralelos na História do Cinema, um homem transporta uma vela. A vela tem de estar acesa no final do percurso, para que o desígnio se cumpra. Quando a vela se apaga, o homem volta para trás, para refazer o caminho e concluir o gesto. Tem de ser assim. Tal como a linha de sangue tem de cingir toda a brancura dos quatro muros. Sem o percurso estar terminado e fechado, não haverá diálogo com Deus. A magia triunfa, os cânones ficam dentro de livros encadernados.

Comentei com a amiga que me contou esta história quase irreal o meu misto de espanto e de inveja, por não ter lá estado. E não pude deixar de pensar na América do Sul. E em quantas vezes Gabriel García Márquez terá assistido e vivido coisas assim. “Vivir para contarla”, diria e escreveria ele mais tarde.

A história da língua de sangue aconteceu há 40 anos no norte de Portugal. Num país que já não existe e do qual poucos falam.

Crónica em "A Planície". O fotograma é do filme "Nostalgia".


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