segunda-feira, 22 de junho de 2026

WATERLOO SUNSET

O passado não é melhor que o presente. Mas tenho saudades de ver bons filmes na RTP1, ao sábado à noite. Procurei este telefilme da BBC durante muito tempo. A "solução" era fácil, mas não me ocorreu que o nome fosse o de uma canção que é cantada, logo no início: "Waterloo sunset", dos Kinks.

De que trata este telefilme absolutamente maravilhoso? É a história de uma senhora idosa, que resolve fugir do lar, e regressar ao sítio de origem. Acaba por, acidentalmente, conhecer uma comunidade de jovens jamaicanos, que a "adota". Resultado: copos, charros, reggae, festas. A história não tem um final feliz. O filho, um "atinadinho", vai resgatá-la dos "perigos" e remete-a, de novo, ao lar. Onde lhe garante que será feliz.

"Waterloo sunset" foi rodado em 1978 e tem um argumento excecional de Barrie Keeffe (1945-2019), de grande ternura e inteligência. E conta com uma soberba interpretação de Queenie Watts (1923-1980), falecida pouco depois da rodagem. O pior é o sotaque cockney dela... Nada fácil de seguir sem legendas.

O filme integrava uma série de peças para televisão (foram gravadas mais de 300!, entre 1970 e 1984), intitulada Play for today.

Gosto do final, quando ela vai no carro, insultando mentalmente os "bourgeois fascists".

Passou na RTP, em 1983 ou 1984. Nunca se me apagou da memória:

Play for Today - Waterloo Sunset (1979) by Barrie Keeffe & Richard Eyre


sábado, 20 de junho de 2026

LUMUMBA

Tornou-se uma das imagens mais célebres dentro dos campos de futebol. Nos jogos da República Democrática do Congo há um homem que fica de pé, imitando a pose da estátua de Patrice Lumumba (1925-1961), que se encontra a coroar o mausoléu do líder africano, na cidade de Kinshasa.

No mausoléu encontra-se apenas um dente de Patrice Lumumba. O seu corpo foi dissolvido em ácido, depois de ter sido assassinado. A morte de Lumumba é uma página inapável na lista de atrocidades do imperialismo.

O homem que fica de pé, imóvel (bendita preparação física e psicológica!) chama-se Michel Kuka Mboladinga (n. 1976) e é conhecido no no Congo como "Lumumba Vea" (Lumumba vive). Uma homenagem invulgar e justa. Lumumba vive. O seu corrupto sucessor nem por isso.

Entretanto, leio isto no "Público":

"Congo viraliza com “homem estátua” e imortaliza memória de Lumumba
Lumumba foi executado em Janeiro de 1961, segundo investigação realizada décadas mais tarde, numa conspiração que supostamente envolveu as autoridades belgas e a Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA)".

Aquele SUPOSTAMENTE (sublinhado meu) é fantástico. Só me fica a dúvida se a ignorância é deliberada ou casual...




quinta-feira, 18 de junho de 2026

UM CLUBE MUITO EXCLUSIVO

Esta é a Jules Rimet, uma bonita peça art-deco, ganha de vez pelo Brasil em 1970. Não tem nada a ver com o atual troféu, uma horrenda criação, muito típica dos anos 70.

Até agora, oito países entraram neste clube muito exclusivo:

Alemanha

Argentina

Brasil

Espanha

França

Inglaterra

Itália

Uruguai

O mais recente a ingressar no clube foi a Espanha, em 2010. Sete poderão repetir o feito. E cinco já ganharam neste século.



quarta-feira, 17 de junho de 2026

SOMBRAS

Adger Cowans (n. 1939) é um fotógrafo norte-americano. Quando vejo as fotografias dele penso sempre "é isto mesmo". Como neste Três sombras, de 1960. Uma enorme simplicidade neste jogo de luzes e sombras.


sábado, 13 de junho de 2026

FROM MOURA TO AYAMONTE

A primeira parte da história tem uns anos:

Num restaurante de Moura o dono, um jovem simpático e jovial, mostrou-me a ementa: "já viu? traduzi para inglês!". Olhei o menu à porta, com atenção. Estaquei num ponto. Havia grilled lizards. Havia o quê? Lagartos grelhados... Supostamente, o meu amigo queria anunciar aquela parte do porco a que chamamos "lagartos". Publicitava, contudo, algo de completamente diferente. Ou seja lagartos, dos verdes mesmos, na grelha. Expliquei o equívoco e aconselhei-o "tira isso daí, antes que tenhas aqueles ingleses, que acham que somos todos uns bárbaros, à perna". Tirou e passou anunciar uma mais banal grilled meat, ou algo assim.

A segunda parte:

O episódio foi revivido há semanas, numa esplanada de Ayamonte. A Luísa, uma jovem amiga, apontou-me a ementa do bar: "já viste aquilo?". Tinham traduzido "raia com pimentão" por "risca com parrika". Dois erros: raya é risca em espanhol (daí o stripe), e pimentão é/pode ser paprika (não parrika) em inglês. Ah, e raia é fishbase 😁😁😁

Imagino o ar intrigado de um inglês a olhar para aquele stripe in parrika... (what the hell do they eat in Spain?...)





quinta-feira, 11 de junho de 2026

COMEÇA O MUNDIAL...

Começa o Mundial.

O deste ano "promete". Quase 50 (!) seleções, milhares de quilómetros em viagens, seleções policiadas, delegações revistadas à chegada, Infantino, um árbitro expulso, um repórter fotográfico idem, jogos da treta para ver em sinal aberto, uma seleção com a camisola vetada, Infantino, o jogador suíço que não foi aceite (!), balbúrdias com os bilhetes e os transportes, e mais o racismo, sempre o racismo. E o mundo de gatas antes um governo abjeto.

Tem muito para correr mal.


segunda-feira, 8 de junho de 2026

SANTIAGO CUBIDES

Fiquei com a ideia que a ARCO não tinha muitas novidades.
O que me chamou a atenção?
O colombiano Santiago Cubides.

sábado, 6 de junho de 2026

CARIOCA

Uma conversa à volta de um filme - Do fundo do coração - trouxe para cima da mesa um música de 1933. Que se ouve fugazmente nesse filme, e que sempre tive como memória cinéfila de Francis Ford Coppola.

Trata-se de "Carioca", e foi composta para o filme Flying down to Rio. Era cantada por Alice GentleMovita Castaneda e Etta Moten. Vale a pena ouvir e ver a cena em que Fred Astaire e Ginger Rodgers a dançam.

https://www.youtube.com/watch?v=HA2zuZON5fo

quinta-feira, 4 de junho de 2026

PANTEÃO SENSÍVEL

Foi um dos projetos mais bonitos desenvolvidos pelo monumento nos últimos anos. O objetivo é tornar o Panteão sensorial e sensível. E acessível a todos. A começar por aqueles que o podem sentir, sem o verem fisicamente.
Um desafio importante e decisivo.

terça-feira, 2 de junho de 2026

DAMNATIO MEMORIAE

Ao ler os documentos do Panteão Nacional não pude deixar de ficar intrigado com a ausência do nome do arquiteto que finalizou o projeto da cúpula (Luís Amoroso Lopes) nos textos que assinalam o final dos trabalhos. Que se terá passado para tão drástico esquecimento? Alguém disso se encarregou... O tempo se encarregou de remeter ao anonimato quem o quis apagar. Hoje é o nome do arquiteto que surge quando se fala do monumento e não o de outras pessoas.


A expressão que me ocorre é “damnatio memoriae”. Significa “condenação da memória”. Equivalia, em Roma, a apagar qualquer traço ou vestígio que pudesse lembrar uma pessoa que tivesse sido votada ao esquecimento. Como se ela nunca tivesse existido.


A História é fértil em episódios assim. Um dos meus preferidos é o da lápide mandada fazer para assinalar a construção de uma torre no castelo de Silves, no verão de 1227. Quem veio a seguir, mandou apagar o nome do construtor. Uma atitude banal. E tão menor quanto banal.


Na terceira linha da inscrição foi, como se pode ver na imagem, intencionalmente destruído o nome de quem mandou fazer a construção e que o arabista Lévi-Provençal identificou como tendo sido Abu l-Ula Idris, filho de Yaqub al-Mansur. Especula-se que o nome do construtor possa ter sido mais tarde apagado por ordem de Ibn Mahfuz, que ali se rebelou contra os almóadas.


Esta tentação de apagamento da memória é tanto mais intencional e violenta, quanto menores são os autores das perseguições. Tal como Ibn Mahfuz tentou apagar a memória de quem o antecedera e tinha construído a torre, há sempre pequenos protagonistas e autores menores que se esforçam por apagar o passado. Como se a História tivesse começado com eles e antes deles nada houvesse. Ora, quem estuda História, como é o caso do autor destas linhas, sabe muito bem que as coisas não são assim.


É sempre uma luta de polos opostos. Entre as atitudes positivas e as negativas. Entre escrever e apagar a escrita. Entre a construção da memória e a sua destruição. Entre o que tem luz e o que a não tem. Como nos filmes, nas óperas, nos bailados de final feliz, em que o bem triunfa sobre o mal, também nas tentativas de apagamento da memória é a verdade que teima sempre em triunfar. É tudo uma questão de tempo e de não se deixar que a memória do passado seja apagada.


Crónica em "A Planície"