O ano acabou há pouco. De um ano pouco nos fica. Deste que passou
recordarei, daqui a algum tempo, quase nada. O meu dia mais significativo foi o
29 de setembro. Foi a data das eleições autárquicas.
Cheguei aquele dia depois de meses duros e intensos. Em setembro
de 2012 não me passava pela cabeça ser candidato. Um ano depois era dado como
favorito para ganhar as eleições. Encaro essa perspetiva com calma e sem
euforia. Ao cair da tarde, na solidão do gabinete, leio a imprensa do dia e
tomo notas num caderno. Chega a Isabel, que me vem fazer companhia. Nunca
esteve de acordo com a minha opção política, mas vem dar-me apoio. Um gesto de
elevação. Logo a seguir, a Sara Infante sobe as escadas. É a colaboradora da
“Rádio Planície” que vem acompanhar o candidato da CDU. Prefiro aquela quase
solidão ao bulício e ao nervosismo da sede. Passam as 19.30, depois as 20. Não
há resultados. Elas dão nota de impaciência. Explico que só haverá alguns
resultados por volta das 20.30 ou das 20.45. Se as tendências de voto forem
claras, os resultados serão inequívocos cerca das 21.30. Caso contrário, a
noite será longa. Volto a mergulhar na leitura e vou explicando como são as
noites das autárquicas. Chegam os primeiros dados. Há surpresas. Os resultados
são bons, mas não excecionais, em Santo Aleixo e em Safara, melhores no Sobral
e, pasme-se, ganha-se a Junta da Póvoa. Olho para os números e não estou
convencido. Estamos à frente, mas perdemos votos. A Sara pergunta quando haverá
declarações. Rio e digo que falta muito. Subitamente, as coisas complicam-se.
Há perdas importantes em Moura e em Amareleja. O PS não se afirma, embora suba
um pouco. A contagem faz-se taco a taco. Tenho a sensação de que irei perder. A
Isabel mostra-se incrédula. A Sara quer declarações. A dada altura, já a noite
vai longa, tenho a quase certeza da derrota. A minha calma causa,
paradoxalmente, enervamento. Lembro-me de um poema de Konstandinos Kavafis,
“Pois Deus abandona a António”, que evoca a derrota de Marco António. O texto é
de uma beleza ímpar e leio-o em tom pausado, quase solene. A Isabel pergunta
“como é que raio tens cabeça para poetas gregos a esta hora?”. Telefona-me o
José Maria, preocupado com o evoluir da contagem. A coisa está muito tremida.
Decido sair do gabinete e ir para a sede de campanha, para acompanhar os nossos
generosos ativistas. O ambiente é pesado. Uma funcionária da Câmara, por quem
tenho respeito e amizade, repetia “eu não acredito”. Chegam notícias de
vitórias: Beja, Cuba, Évora, Alandroal, Loures, Grândola... Digo, em tom de
humor ácido, “sou a ovelha negra da CDU”. A Zélia repreende-me, sem cerimónia.
Chovem telefonemas, que rejeito, e sms, que ficam sem resposta. Mantenho uma
calma que causa mais enervamento em volta. A Sara quer umas palavrinhas para a Planície.
Digo que só falarei quando houver resultados finais. Sei que a vida de muitos
dos que me apoiaram não será fácil. Já vi este filme. Falta uma mesa por contar
e temos 40 votos de desvantagem. Dou a eleição como perdida e começo a
preparar, mentalmente, um discurso de despedida. E outro futuro. Subitamente, o
PS faz a festa. Clamor, buzinas, uma caravana que se forma. O repórter da Rádio
Planície dá, em tom empolgado, a vitória do meu adversário como certa. Este,
sem maturidade e de forma precipitada, proclama-se vencedor e faz um discurso despropositado.
Pedem-me declarações. Volto a recusar. Vejo passar um funcionário da Câmara,
que sempre me fez profundas declarações de amor e fidelidade, em direção à sede
de candidatura do PS. Vai de sorriso rasgado e olha, ironicamente, o grupo de
gente abatida que está à porta da nossa sede de campanha. De onde eu estou ele
não me vê. Também eu sorrio e penso em Blaise Pascal... Chega o Escolate, que
estava em casa e me veio dar um abraço. Logo a seguir chega o Tarugo. Conto com
os de sempre, coisa que não se apagará. Mais com o Jorge, que está com um ar chateadíssimo. Subitamente, o José Maria telefona, com uma frase curta: “já
podes dizer à malta que ganhámos”. Peço que me confirme. Pergunto se quer que
espere por ele. Diz-me que não. Cruzo o largo em passo lento. Durante aqueles
cinco segundos percebi que o futuro seria, afinal, outro. Duas pessoas
perguntam-me que se passa. Faço “bluff” total e nada digo. Subo a um
improvisado palanque e peço às dezenas de pessoas que se aproximem. Peço um
segundo de silêncio antes de dizer “ganhámos”. Só consigo dizer uma palavra. Só
essa. Sou submergido pelo entusiasmo. Abraços, gritos e encontrões. Há quem
chore copiosamente. Vou beber uma imperial, com os de sempre, ao “Ideal”.
Começa uma ida e vinda entre a sede e a Câmara. Não há a certeza da maioria
absoluta. Depois sim, isso confirma-se. Falo, finalmente, à Rádio. Refugio-me,
quase solitariamente, no “Liberato”, para uma cerveja. Telefona Francisco
Cerejo a dar-me os parabéns. Retribuo. Do outro lado, nada mais. Rumo à Póvoa
de S. Miguel, ainda em plena festa do padroeiro. A minha chegada causa
surpresa. Tratava-se de uma promessa que fizera ao Rui Almeida “se ganhar, vou beber
uma cerveja consigo”. Chove na Póvoa e há um baile molhado no meio do largo.
Apetece-me dançar mas tenho vergonha. Opto por mais uma imperial. Levo um banho
de “whisky-cola”, dado pelo Cláudio Pereira. Regresso a uma Moura silenciosa.
Antes de rumar à Salúquia, ainda tenho tempo para um derradeiro festejo com um
eufórico grupo de santo-aleixenses (Jorge Machado, José Caçador etc.), armado
com uma grade de minis.
CODA – O futuro mudou, de vez, em 20 de outubro. Tomei
posse, tendo a honra de ser o oitavo presidente da câmara do pós-25 de abril.
Não está ninguém de Mértola. Não há colegas de profissão. Vieram amigos de
fora. Não posso deixar de notar que são mais os do PS e os do PSD que os do
PCP. Estão, sobretudo, os amigos de sempre. E estão os mourenses.
Crónica publicada em "A Planície" de 1.1.2014. A fotografia é do amigo Rui Ferreira. Veja-se o site:
http://www.rf-fotografia-aerea.com