“Un hombre sabe que se esta haciendo viejo
porque comienza a parecerse a su padre”. Não creio que “El amor en los tiempos
del cólera”, de Gabriel García Márquez, seja uma obra-prima. Mas esta frase é.
Durante muitos anos fui sendo assombrado pela
afirmação “estás cada vez mais parecido com o teu pai”. Uma verdade que o tempo
foi vincando. Até chegar ao momento da irrealidade. Ao fazer uma visita
solitária a uma parente já muito idosa e muito debilitada, num lar, fui
surpreendido com a pergunta “João, o que é que está aqui fazendo? Há tanto
tempo que não o via”. Ouroboros entrava na minha vida.
Gosto agora de coisas que antes me pareciam
insuportáveis. Na música, no cinema, nos livros, mas, sobretudo, naquilo que se
liga a sítios ou a memórias precisas. Divirto-me, às vezes, a ter saudades de
coisas de há 50 anos. E que há 50 anos não achava assim tão engraçadas quanto
isso. Setembro era o mês da feira e o da feria. Havia a Feria de Paymogo, que achava
uma chatice medonha, porque não havia carrocéis e levavam o tempo todo bailando
sevilhanas. E eu não percebia porque chamavam aquela borga infindável uma
“feria” (agora percebo, mas agora já é tarde).
O tempo e o mundo não pareciam ter fim. Que
músicas havia na “feria”? Raphael e Mocedades e "Eres tú" e a Salomé
e aquele penteado inacreditável e vestida com um carpélio no "Vivo
cantando" e a Massiel. E a Marisol, claro. E os êxitos regionais, com
Perlita de Huelva e Los Marismeños. A Perlita cantava "De mi Huelva que es
tu hermana / Sevilla te traigo un beso" e eu nunca me convenci que
aquilo fosse a sério, porque os de Huelva e os de Sevilha gostam tanto uns dos
outros como os Porto gostam dos lisboetas e vice-versa.
O outro setembro era melhor, para mim. Nos
dias 8, 9 e 10 havia feira em Moura. Aí sim. Tínhamos o poço da morte, o
palhaço Fred e o Conde de Aguilar. O maior palhaço do mundo e maior ilusionista
do mundo. Houve, nessa feira de 1971, a carteira de plástico preto com o
emblema do Benfica. Era linda a minha carteira de plástico preto com o emblema
do Benfica e nunca percebi porque é que lá em casa só eu gostei dela. 12$50
(uns seis cêntimos) foi o investimento, logo no primeiro dia, embora me
tivessem dito para não comprar nada no primeiro dia de feira, porque era o dia
mais caro.
Estava muito longe de
imaginar que, entre 2006 e 2017, me caberia a tarefa de coordenar a organização
da maior parte das feiras de Moura. Houve de tudo um pouco nesses anos:
momentos de exaltação e de tensão, vitórias e derrotas, música da nossa terra,
o CD “até onde chegam as oliveiras”, concursos de petiscos, tasquinhas e um
permanente apoio às associações, salões de premiados, ateliers de costura,
exposições de fotografia e de recriação dos animais da Contenda (a melhor de
todas, em maio de 2015), encontros de apicultores, concursos de azeite, a
presença do gado, as mesas-redondas, os ateliês de cozinha, um sem número de
atividades. Parecia-nos sempre pouco, porque queríamos sempre mais e melhor e
porque não nos conformávamos com a ideia de que a feira se limitasse a um
programa de música.
O tempo passou. Agora, já
mais perto da idade maior, gostava de regressar à “feria”, a Paymogo. Embora
dos tempos de outrora já quase ninguém lá esteja. À feira de Moura, da minha
Moura, voltarei na próxima semana. Sem ter que viver sob o “stress” que ia,
sempre, de quinta à tarde até domingo à noite. E sem ter de me preocupar com a
coordenação de uma iniciativa complexa, que envolvia dezenas de pessoas. E que
era mais que palcos e música.

Crónica em "A Planície"
Fotografia no site do Arquivo Municipal de Moura: https://arquivo.cm-moura.pt/