domingo, 1 de setembro de 2019

FESTIVAL ISLÂMICO VEZES DEZ

Na próxima edição, em 2021, há-de comemorar-se o 20 º. Aniversário do Festival Islâmico de Mértola. Do ponto de vista do sítio, é quase um ovo de colombo. É difícil encontrar outro local onde se conjuguem tantos fatores favoráveis para um tão grande sucesso. Como quando os astros estão todos alinhados e, segundo dizem, acontecem coisas extraordinárias. E, sem meias palavras, o Festival Islâmico é um acontecimento extraordinário. O sítio, com ruas estreitas e sinuosas, por entre a cal e as improvisadas sombras, tem em si todo o Mediterrâneo, histórico, cultural e humano. O investimento feito no património da vila – e que conheceu, nos últimos anos, um assinalável incremento – torna-se mais visível naqueles dias e põe em evidência aquele que foi o último porto do Mediterrâneo. Ou, como prefere dizer um colega e amigo, o primeiro do Atlântico. Já são dois dados dignos de registo. Juntemos-lhe um terceiro. É comum outros festivais de pendor histórico recorrerem a “pacotes”: três malabaristas, mais um sortido de dromedários, uns desfiles e um programa musical a preceito. Em Mértola, porém, o fator local é essencial. A arquitetura do festival é construída por trabalhadores da autarquia. Portas como as que recriam a arquitetura do período islâmico ou fontes redesenhadas são fruto do trabalho de Manuel Passinhas da Palma e Margarida Rosário. Esse toque pessoal é outra das pedras de toque do festival.

São tudo rosas? Claro que não. O festival enfrenta, passadas dez edições, novos desafios. A candidatura a Património da Humanidade é um deles e não o menor, decerto. A pressão acrescida que uma tal classificação pode trazer vai obrigar à criação de mais infraestruturas, de maior capacidade de resposta a todos os níveis, de uma programação que será (ainda) mais exigente. O programa do festival tem estado à altura da responsabilidade, mas a necessidade de criar novos interesses e novos públicos implicará, provavelmente uma nova estrutura organizativa e de conteúdos.

Várias vezes, fora de Mértola, me questionaram sobre o caráter dúbio da designação. “Festival Islâmico” pode remeter para o domínio da propaganda ou do proselitismo. Não é assim. Nem o festival é de cultura islâmica, num sentido estrito. O passado islâmico é, nesse sentido, um ponto de partida, mas não necessariamente de chegada. Parece contraditório? Talvez, e daí? É preferível que o seja, e que as coisas aconteçam, do que embarcarmos num qualquer inútil debate sobre designações, como o que envolveu o falecido Museu da Descoberta.

O Festival Islâmico tornou-se imagem de marca da vila. Com orgulho e com convicção. Não há melhor prova disso que a pergunta, que tantas vezes me repetem, nos lugares onde vou, “para o ano há festival?”. Lá respondo, sempre, que é nos anos ímpares. Tal com o festival, que também é ímpar.

Venha o 11º., em 2021.


Crónica publicada na edição de 30.8.2019 do "Diário do Alentejo"

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