sábado, 1 de março de 2025

O MEU PEQUENO GRANDE MUNDO

“Esta ideia das paisagens originais surgiu-me de imprevisto: escrevi num romance (O Cerco de Cartum) uma frase onde referia que, ao longo da vida, nunca deixamos as paisagens da infância”. Quem o disse foi o escritor Olivier Rolin, quando iniciou o seu “Paisagens originais”. O livro é sobre cinco autores (Hemingway, Nabokov, Borges, Michaux, Kawabata) e nele se explicam os seus percursos, tomando como ponto de partida a influência que as paisagens iniciais tiveram nas suas obras.

 

À medida que o tempo corre firmam-se-me duas convicções, que já passaram por estas crónicas: “a lo largo del tiempo, y cuando empezamos a envejecer, pensamos en volver a los sítios de donde hemos salido” (António Malpica, historiador) e “un hombre sabe que se esta haciendo viejo porque comienza a parecerse a su padre” (Gabriel García Márquez, escritor). Constato tudo isso, agora com mais nitidez. Os últimos sete anos já são mais dos que os que faltam para encerrar a carreira. Algo que encaro sem pressa, nem angústia nem ansiedade. Nem, muito menos, com frustração. Olho, muitas vezes, para as minhas paisagens originais.

 

Olivier Rolin tinha uma parte da razão. Talvez porque as memórias primitivas sejam as mais firmes, há coisas que, absurdamente, me são convocadas à memória. Como o pontão do Arroyo del Albahacar, à saída de Paymogo, que estava sempre infestado de lagartixas. Como as amoreiras na Estrada do Sobral. Como a vereda do Barranco da Cerca. Como a barbearia do Mestre José Salvador, na Ladeira da Salúquia. Muitos dos sítios que fizeram parte dessas recordações mais antigas não existem. Na verdade, o que nós não deixamos é a memória das paisagens originais. Porque os sítios mudam e as terras onde nascemos e onde crescemos já não existem, factualmente. É como se os paradoxos de Zenão fossem aplicados ao urbanismo e aos sítios...

 

A Moura onde nasci já não existe. Ou foi deixando de existir. Ficou e ficará, sempre, o seu “espírito do lugar”. Aquilo a que os romanos chamavam “genius loci”. O que caracteriza cada sítio, que o marca e o identifica (a alegria dos habitantes de uma terra, o tipo reservado dos moradores de outra, o temperamento ácido dos naturais de uma certa localidade), e que é passado, sem que disso nos demos conta, de geração em geração, século após século. Nos meus cíclicos regressos a Moura fui-me dando conta de uma maneira de ser e de estar das pessoas que se vai renovando, com inesperada regularidade. A arte de ser mourense. É nesse registo do dia-a-dia que está o meu pequeno grande mundo. O afastamento físico pode, por vezes, enfraquecer laços ou fomentar o esquecimento. Mas não apaga, seguramente, a memória das pequenas coisas. Ou as recordações de cada rua, de cada esquina, de cada sítio. E isso acontece, a cada regresso. Quando, de forma impercetível, se reconstroem e são evocadas as paisagens de infância.


Crónica hoje, em "A Planície"


3 comentários:

R. Vieira disse...

Reflexão certeira, com a qual me identifico. Os sintomas descritos também me são familiares.

Anónimo disse...

Como eu te compreendo Santiago. Tenho mais passado do que futuro, e esse será um calcorrear de passos, onde as paredes e pedras da calçada serão os companheiros diários das memórias dos tempos passados.

Anónimo disse...

Quando regresso, de vez em quando, em cada rua, em cada esquina, a mente é por vezes assaltada por um conjunto de vivências, pedaços de vida que por ali ficaram mas que parece terem renascido. Há quem diga que a configuração dos "cascos velhos " das vilas e cidades conseguem transmitir, ao longo do tempos, sensações, sentimentos e por vezes interpretações comuns.
É curioso que na zona dos antigos moinhos da barca, cada vez que ali vou, parece que estou a cheirar de novo o alcatrão do casco da velha barca em madeira e a escutar o rio, a correr por entre os rápidos junto aos dois moinhos. Depois, muitos de nós atravessámos ali o Guadiana, a nado, seguir a barca com os seus dois remadores.