segunda-feira, 3 de agosto de 2026

E EM MOURA, HOUVE UMA MESQUITA?

Houve, claro. Em rigor, houve duas. Primeiro uma, dentro do castelo, depois, outra, na Mouraria. O que sabemos de qualquer uma delas é muito pouco. Não temos a certeza das localizações. Hipóteses temos, mas certezas não há. Não temos vestígios das construções, embora tenhamos, quanto à do castelo, “suspeitas”.

Fiquemos, por agora, pela mesquita do castelo. O que dela se sabe remonta ao século XVIII. E chegou-nos pela mão de James Murphy, “architect”. Que por aqui andou por vilta de 1789/1790 e depois publicou, em 1795, o livro “Travels in Portugal”. Refere uma inscrição que está junto à fonte do castelo do seguinte modo: “a cópia da inscrição B (imagem VII) foi-me dada pelo Padre [João] de Souza. A original, segundo ele me disse, está sobre a antiga fonte, junto ao castelo de Moura”. Uma informação bastante precisa e correta. A inscrição foi lida, nos anos 40 do século XX, por um célebre arabista checo, Alois Nykl (1885-1958). Mas Nykl, ao traduzir o original árabe, referiu apenas que a inscrição assinalava a construção de uma torre. Foi precisar esperar mais 40 anos até que Ana Labarta (n. 1950) e Carmen Barceló (1949-2024) explicassem, num novo estudo, que a torre a que a inscrição se referia não era uma torre qualquer, mas sim uma almenara. Ou seja, a estrutura utilizada nas mesquitas para o chamamento à oração.

Como se costuma dizer, aí o caso mudou de figura. É que o promotor da construção foi al-Mutadide Billahi, que governou no sudoeste peninsular entre 1042 e 1069. Pergunta básica: porque é que o homem mais poderoso do ocidente se preocupou em mandar construir uma almenara numa fortificação de menor importância, como era o caso de Moura na época? É preciso recuar um século, para se perceber que a região entre Moura e Aroche era particularmente rebelde e avessa a submissões ao “poder central”. Ar-Razi, no “Akhbar muluk”, diz que os habitantes desta região exploravam a prata “em segredo”. E Ibn Hayyan, no “Muqtabis V”, refere as alianças regionais e o poder de uma família local, os Banu Tutalliqi (que tiraram o nome da zona da Toutalga, naturalmente…), no combate a Córdova. Ou seja, e essa é uma ideia que defendo há muito, a construção da almenara foi um gesto de apropriação política do território (e da sua prata) e não uma mera campanha de obras públicas.

Mas, afinal, onde se situaria a mesquita? Com toda a probabilidade – diria que com 90% de certeza – no local onde mais tarde se construiu a igreja de Santiago. Cujas ruínas estão junto ao posto de turismo. Com que argumentos?

Foi comum a sobreposição de igrejas de Santiago (em especial junto às alcáçovas, como é o caso) ao espaço de antigas mesquitas. Havia que limpar o “pecado”…

A igreja de Santiago ocupou o espaço de uma construção anterior. Num dos extremos é visível a esquina do edifício mais antigo, que não só não está alinhado com os muros da igreja, como limita uma rua do período islâmico. Para mais, essa esquina apresentava um “spolium” (aproveitamento de uma pedra funerária romana), forma de valorizar o edifício que integrava.

No outro lado da rua islâmica, as escavações de 2012 puseram à vista o muro de uma construção, que poderá ser a base da almenara.

Resumindo, houve mesquita, certamente desativada em meados do século XIII. E estava no local que as escavações arqueológicas permitiram identificar. Mais tarde se construiria outra, fora de portas, na Mouraria. Coisas da Arqueologia e da História da nossa terra.

Crónica em "A Planície".

A imagem é do livro de Murphy.

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