segunda-feira, 30 de abril de 2012

A MISSÃO EVANGELIZADORA DO BLOCO DE ESQUERDA

Uma das características mais ternurentas do Bloco de Esquerda é aquele hábito evangelizador de quererem pensar por nós e decidir por nós. E não estão no poder...

Agora, resolveram embirrar com as corridas de touros. Irmã vaca, irmão touro, assim tipo franciscanos do burladero. Os argumentos, as falácias e as demagogias são as do costume: a violência blabla o sangue blabla o dinheiro público blabla. Mas o melhor é invocarem a "alteração ética" e, melhor ainda, "a mudança de pensamento na sociedade". Ena! Já policiam o nosso pensamento e decidem aquilo de que devemos gostar. E não estão no poder...

Uma perguntinha: ainda há corridas de touros em Salvaterra de Magos?

Clérigo do Bloco de Esquerda abençoando boizinhos

ÁGUA-FORTE

O preto no branco,
O pente na pele:
Pássaro espalmado
No céu quase branco.

Em meio do pente,
A concha bivalve
Num mar de escarlata.
Concha, rosa ou tâmara?

No escuro recesso,
As fontes da vida
A sangrar inuteis
Por duas feridas.

Tudo bem oculto
Sob as aparências
Da água-forte simples:
De face, de flanco,
O preto no branco.

 

Já há algum tempo andava para colocar aqui esta fotografia de Whoopi Goldberg, retratada por Annie Leibovitz (n. 1949), verdadeira cronista da gente da (na) moda desde os anos 70. Leibovitz tem uma série de produções marcadas pela exuberância, roçando muitas vezes o espalhafato. Criou um número muito apreciável de ícones. Mas uma das fotografias de que mais gosto é esta, justamente pelo humor, pelo jogo cromático e pela simplicidade. A atriz parece estar verdadeiramente divertida. Se não está, imita muito bem.

O poema? É de Manuel Bandeira. E o título é, de facto, Água-forte.

domingo, 29 de abril de 2012

STROMBOLI

Apenas a água principiou a ferver, com a revolução do peixe que se aproximava da superfície, rompeu a mais tremenda gritaria e algazarra, de que tenho memória, e que ainda redobrou ao aparecimento dos primeiros atuns. Começou então a toirada.
Sucedeu que o primeiro atum arpoado se escapou, e caído à água com tal velocidade parecia voar, jorrando sangue que o acompanhava de um rastro de púrpura. A assuada ao marujo infeliz foi medonha, e vi jeitos de o atirarem também à água. Mas é que os primeiros atuns que apareciam, tendo ainda campo avonde para nadar, fugiam das barcas, enquanto os marujos, abrindo os braços, e com grandes pancadas no costado das lanchas, os incitavam às sortes, como se fossem bois.
Isso, porém, durou pouco. Entre borbolhões de espuma assomou logo uma densa camada de peixe, e tão apertada pelo costado das barcas, que os marujos quase lhe davam às cegas, levantando uma cabeça a cada arpoada.
Viu-se então que o atum era de bom calibre e muito. Ao meu lado, um perito amador, mas de reconhecida autoridade, ia-o contando, e quando chegou aos quinhentos verificou-se que não fazia falta no copo, onde continuava a afluir em camadas igualmente densas.
O sangue e a água, misturados, soltavam-se aos cachões, envolvendo os peixes em línguas de púrpura cristalina, e ao centro da rede faziam remoinho, abrindo um poço fundo e largo, por cujas paredes transparentes giravam, desvairados, os grandes bichos cintilantes.
Dissera-me o meu hóspede que o Joaquim Negrão me preparava uma surpresa, e sem o ter esquecido eu pensava, com cepticismo, no que poderia haver mais surpreendente do que aquele espectáculo de colossal carnificina, com tal cenário, nunca igualado, nem aproximado pela fantasia do mais asiático dos imperadores romanos.
O contador já ultrapassara o milhar e ainda o peixe acudia em abundância, sendo algum de extraordinário tamanho. Eram os "velhos manhosos", observava um marujo, que só aparecem no fim. Com efeito, as camadas que vinham à superfície tornavam-se pouco a pouco menos densas, avolumando ainda mais as proporções dos "velhos manhosos" que se multiplicavam.
O Negrão, aproximando-se do meu grupo, para falar com o mestre da companha, bradou-me:
- "Agora vou-lhe mostrar um quadro da mitologia." - "Vamos lá ver", repliquei, se bem que pouco disposto ao entusiasmo, já embotado pela prodigiosa cena a que assistia. Depois de falar com o mandador, o Negrão gritou para a ré da barca: - "Bem, se não há mais nenhum, que venha cá o Serafim..." - "O Serafim, o Serafim!" pôs-se a clamar quase em coro a marujama, e um rapaz atarracado, embezerrado, e arruivado, como que lhe veio nos braços, pela amurada fora, até onde o Negrão estava. E ouvi este que lhe dizia: - "Não quero desculpas; é para já..."
Então o rapaz, depois de olhar entre envergonhado e receoso para o meu grupo, principiou a despir aquela quantidade de trapalhadas em que os pescadores se envolvem, mesmo de Verão, quando vão para o mar. E apareceu admiravelmente bem proporcionado e forte, com um tronco de coiraça grega, abaulado no peito e estio no ventre, os quadris estreitos, mas as coxas volumosas e de formidável musculatura. Tirante os pulsos, o pescoço, e os pés, que andavam tostados do sol, todo ele era de uma brancura marmórea. De pé, na borda da lancha, erguendo os braços e juntando as mãos, tomou um leve balanço e jogou-se à água, sumindo-se entre os peixes.
Mas em poucos segundos ele surgia, quase na extremidade oposta do copo, montando um enorme atum, que, para se desembaraçar da estranha carga, entrou a correr vertiginosamente, saltando sobre o outro peixe que lhe impedia a passagem, ou mergulhando subitamente, para reaparecer alguns metros mais longe, sempre com o tritão às costas, agarrado com a mão esquerda a uma das alhetas, agitando a outra mão no ar, e dando gritos de triunfo. O rapaz estava transfigurado; resplandecia de audácia e mocidade, entre as grandes salsadas de água rubra que lhe lambiam o corpo, e luzia, ao sol, como um vivo mármore cor-de-rosa.
Animados pelo exemplo, outros rapazes se atiravam à água, para cavalgar os peixes, mas nenhum tinha a segurança heróica, nem a graça helénica do Serafim.
A pesca fechou acima de mil e trezentas cabeças. Mais de "treze centos", como dizia a gente da companha. Fora, na verdade, uma copejada maravilhosa.
Tomámos o bote para regressar a terra. O sol ardia já como fogo, e em volta da armação formara-se um círculo imenso ensanguentado, onde as lanchas, carregadas de peixe, bordejando, abriam silhagens de carmim, que se lhes reflectia nos bojos das velas pandas.
Quando entrámos em águas limpas, senti a necessidade de me purificar, depois daquela monstruosa hecatombe, e atirei-me, nu, ao mar. Após vários mergulhos fundíssimos, até onde o peso morto do corpo me podia levar, passei debaixo dos braços um cabo que lançaram do bote e deixei-me rebocar para terra, já meio adormecido...


A ideia de colocar um excerto de Stromboli (Roberto Rossellini, 1950) não é de agora. Não era exatamente esta a cena que tinha em mente, mas um facto ocorrido há uns tempos levou-me a escolhê-la.

Perguntei a alunos de uma turma de licenciatura em História (12) e de uma turma de mestrado (12) "quem foi Manuel Teixeira Gomes?". De entre duas dúzias de alunos de grau superior, apenas 2 (dois) sabiam quem tinha sido. Os restantes nunca tinham ouvido falar de um homem que foi Presidente da República (1923-1925) e que assinou uma obra literária de reconhecido mérito. A culpa não é deles, bem sei...

O excerto que acima se reproduz faz parte do texto Uma copejada de atum, publicado na obra Agosto Azul.

sábado, 28 de abril de 2012

MIA BELLA MOURA

Há cinco cidades que tenho especial curiosidade em conhecer (por esta ordem):

1. Nápoles
2. Cartum
3. Tóquio
4. Isfahan
5. Nouakchott

Nápoles não me surpreenderá, em termos de ambiente urbano.  É uma certeza firme. Sobretudo depois de conhecer Moura (a minha cidade natal, no Alentejo meridional) há quase 50 anos. Tenho a convicção de vir ali a encontrar uma cidade gémea...

Em agosto do ano passado deparei, numa das ruas de Moura, com um contentor do lixo que fora alvo de uma intevenção de arte pública (soi-disant...). Alguém colara um recorte de uma revista, com um risonho bebé, por cima do brasão da cidade. Fotografei e pensei "só em Moura...".

Pensava que todas as possibilidades de criatividade estavam esgotadas. Até ontem. Fui alertado, por um mail do meu amigo José António Oliveira, que alguns miúdos da cidade andavam a roubar as rodas dos contentores do lixo para as usarem em improvisados carros de corrida. As célebres carretas dos meus dias de meninice e que pensava estarem esquecidas para todo o sempre. Naquele tempo usavam-se rodas de rolamentos e as velocidades que se atingiam na estrada de Brinches desafiavam qualquer Fittipaldi... Agora são as rodas dos contentores do lixo...

Olhei o mail, estupefacto, enquanto pensava "putaquepariu, as rodas dos contentores do lixo? o que mais se irá inventar na mia bella Moura?". Não me atrevo a pensar, sobretudo num sítio onde indisciplina, criatividade, reguilice, hedonismo, iniciativa, orgulho e alegria de viver andam a par.

Moura é divertida? É, mais do qualquer outro sítio que conheço. E exasperante, na mesma medida.


PS: alguém me arranja o mail de Stefano Domenicali? Pode estar interessado em contratar um dos artistas, nunca se sabe.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

MANUEL RIO-CARVALHO: ARTE CONTEMPORÂNEA - 1984/85

O meu colega e amigo Rui Costa Pinto citou no facebook um texto do blogue Centro Nacional de Cultura, assinado por Maria Helena Souto e em homenagem a Manuel Rio-Carvalho (1928-1994) - v. aqui.

De entre todos os professores que tive na Faculdade quatro foram decisivos: António Marques de Almeida, Cláudio Torres, João B. Serra e Manuel Rio-Carvalho.

Este último foi meu professor de História da Arte Contemporânea no 4º ano. Homem de invulgar cultura e sensibilidade, Manuel Rio-Carvalho transformava cada aula num momento de descoberta, pontuando as explicações com comentários bem-humorados e indo buscar ligações e exemplos onde menos esperaríamos. Aquela disciplina foi uma verdadeira celebração, uma mistura de idas ao teatro, visitas a exposições, passeios pelas ruas de Lisboa e deslocações a museus. Levava-nos festivamente aos ambientes mais espantosamente lumpen da Mouraria e depois cumprimentava-nos com uma fria cordialidade britânica quando íamos assistir às conferência que dava na Gulbenkian. Politicamente conservador, tinha uma abertura de espírito que o levava a considerar os nossos radicalismos como uma espécie de acne mental.

Tinha o hábito de dizer e de escrever coisas surpreendentes. Recordo, em especial, um texto que redigiu para o Jornal de Letras (1983? 1984?) intitulado "Para compreender a beleza do Barreiro". Evocando referências tão díspares como a "Carmen", de Bizet e o "Deserto Vermelho", de Antonioni, Rio-Carvalho encontrava poesia num subúrbio industrial. Usei a sua inspiração para um textinho bem mais modesto que, muitos anos depois, escrevi para a Planície e ao qual dei o título "Para compreender a beleza da Salúquia".

Depois de me ter saído particularmente bem no teste escrito final de Arte Contemporânea (onde, pedantemente, misturei o ensino artístico e as perspetivas althusserianas de reprodução da classe dominante) e de um trabalho com uma apresentação-perfomance sobre a pop-art Rio-Carvalho aconselhou-me seriamente a seguir uma carreira de crítico de arte. Ainda hoje a ideia me diverte...

A dispensa de prof. Rio, como era conhecido no Instituto de História da Arte, é um episódio sórdido da história da Faculdade de Letras. Voltei a encontrá-lo apenas uma vez, dois ou três depois de concluir a licenciatura, na Fundação Gulbenkian. Ficou surpreendido pela minha opção pela arqueologia islâmica. Desejou-me boa sorte. Ficar-lhe-ei para sempre reconhecido por aquelas aulas e pela aprendizagem e descoberta que nos proporcionou.

 
Jantar final do curso de História da Arte (julho de 1985)
Ginjal, Almada

O sítio era, na altura, uma taberna modestíssima. Foi o prof. Rio, claro, que nos indicou o sítio e depois nos apresentou aos donos. Percebemos que era habitué. Rio-Carvalho está à esquerda na foto. Imediatamente a seguir, e com uma frondosa cabeleira, não está o cantor pop israelita Izhar Cohen, mas sim o Dr. Cláudio Torres.

SER SAXOFONISTA É TER NA ALMA UMA CHAMA IMENSA

O jornalista do "Público" Nuno Catarino diz, numa crítica de jazz, a propósito da americana Matana Roberts que ser saxofonista é ter na alma uma chama imensa.

Prepare-se, meu caro. Com um pouco de azar vai haver queixa na Procuradoria, como no caso da senhora que metia um viva o Benfica na música do "atirei o pau ao gato".  O sr. Lopes e o sr. Costa já tratam de si...

Não conheço Matana Roberts. Mas, com uma crítica destas, vou comprar o disco.

Pormenor da capa do livro de Ricardo Araújo Pereira

quinta-feira, 26 de abril de 2012

FOSGASSE, TAMEIN SÓ FASEM PREGUNTAS BUÉ DIFÍSSEIS...

Do que eles se tinham de lembrar...
Perguntar a deputados os nomes do último chefe do governo antes do 25 de abril e do primeiro a seguir. Barraca total (ver aqui). Gostei em especial daquela resposta-vaselina do moço que disse "o importante é comemorar a data blablabla". Esse é dos que vai longe.
Curioso, o único a acertar foi um deputado do CDS-PP.
 

O BORGES

A cara do senhor que me atendeu no restaurante era vagamente familiar. Mas não mais que isso. Alguém referiu, ao meu lado, que era um dos donos do “Borges”. Aí sim, ligou-se a máquina do tempo, o cabelo do senhor ficou mais escuro, as rugas desapareceram e ficou à minha frente, por artes mágicas, o homem que servia imperiais ao balcão do Borges. A cervejaria nada tinha de especial, a não ser a afabilidade dos empregados, que aturavam sorridentes a impertinência da juventude de Letras, e o facto de ficar mesmo à saída da Alameda da Universidade. O Borges tinha um estranho íman, que nos puxava lá para dentro, só para espreitar, só para ver se havia alguém. Fatalmente, havia alguém. Assim foi, entre 1981 e 1986.

A sala de entrada era o grande ponto de encontro dos alunos da faculdade. Do lado esquerdo ficava o balcão. À direita, havia filas de mesas, encostadas umas às outras, para rentabilizar o espaço. Isso diminuía a intimidade das conversas, mas ninguém ía para o Borges namorar. As séries de imperiais e de tremoços desfilavam por entre discussões mais ou menos absurdas sobre o futuro da investigação, sobre a falta de saídas profissionais, sobre a entrada de Portugal na CEE. Discutiam-se os livros comprados na livraria da esquina. Passei lá muitos finais de tarde, na companhia de colegas que, por vezes, voltei a encontrar muitos anos depois. Alguns tornaram-se pessoas muito importantes, que ganharam tiques e pose e que falam com um tom de voz que cheira a Poder. Nunca lhes recordo esses dias, não vão eles ficar embaraçados. 

O João abominava o Borges, que classificava como “espelunca”. Não era tal, mas o João às vezes tinha coisas assim e só lá fomos almoçar uma vez. Um dia de grande azar, porque encontrou uma mosca no meio do arroz de polvo. Foi a única mosca que vi no Borges, e logo morta, e fiquei convencido que os empregados sabiam da opinião do João sobre o Borges e lhe semearam a mosca no prato… 

Não sei se o sítio ainda existe. Se existir não entrarei. Com um pouco de sorte não terá sido transformado num “fast-food”. Com mais sorte ainda, haverá lá dentro um sortido de estudantes despenteados, discutindo coisas absurdas. Não é sítio para homens grisalhos. Cabelos brancos só detrás do balcão, onde pontificarão, se o sítio existir e não for um “fast-food”, empregados antigos, dispostos a aturar o barulho da juventude. E, talvez, com um “stock” de moscas mortas para alvejar clientes impertinentes.


Texto publicado em "A Planície" (1.4.2012)
Ao tentar copiar uma fotografia - a única que encontrei na net- com a fachada atual do Borges a imagem "desconfigurou", creio que é assim que se diz. A imagem ficou com sobreposições e fantasmas. É sempre assim quando se tenta recuperar o passado, não é?

quarta-feira, 25 de abril de 2012

TÁXI!

O 25 de abril de 1974 trouxe-nos, felizmente, a possibilidade de sermos interventivos e irreverentes sem estarmos condicionados a censores, a bufos e a pides. O País de hoje nada tem a ver, e ainda bem que não tem, com o de 24 de abril de 1974.

Entre 1974 e 1982 as paredes das nossas cidades foram um importante suporte de escrita e da liberdade de expressão. Enormes murais cobriam muitas paredes, nem sempre da forma mais adequada ou no local mais apropriado.

Os murais do MRPP eram dos mais expressivos e militantes. Sofriam, por vezes, os efeitos do humor cáustico dos tempos que se viviam. No que aqui se reproduz, e que estava no Largo da Estrela (Lisboa), em dada altura um espirituoso resolveu acrescentar um balão à frente da imagem do grande dirigente e educador do proletariado português, Arnaldo Matos. Que dizia o balão? Isto apenas: "Táxi!".

Viva o 25 de abril! Também por coisas como esta.
 
 

VERMELHO




Hoje é aquele dia que a direita detesta. Detesta mesmo, por mais que tente disfarçar. A prova está nas recentes manobras de destruição de algumas das mais belas conquistas que a revolução de abril proporcionou. Como o Poder Local, uma das mais radicais e inovadoras modificações que a sociedade portuguesa conheceu.

Muita gente contribuiu para que o dia 25 de abril chegasse. De entre todos, reservo um lugar especial para os meus camaradas do Couço. Durante longos anos lutaram de forma abnegada por melhores condições de trabalho e de vida. Foram presos às centenas. Uma das jornadas de luta ocorreu em abril de 1962, faz agora 50 anos. Os registos da PIDE não deixam margem para dúvidas quanto à violência da repressão. Os operários do Couço não têm amigos nos jornais nem entre a intelectualidade lisboeta. Por isso, a efeméride passará mais ou menos incógnita, sem o estardalhaço que envolveu as comemorações do dia do estudante.

O meu 25 começou há algumas horas, num jantar com camaradas do PCP, em Mértola. Continuará pelo Couço (onde nunca fui e onde estarei apenas sentimentalmente), recordando as fotografias de Fausto Giaccone, testemunho único de dias fundamentais na construção da história recente portuguesa.

Onde andas tu, Maria Antónia, minha camarada do Couço?


 

terça-feira, 24 de abril de 2012

DOIS DIAS DEPOIS, UM DIA ANTES

O score obtido por Marine Le Pen, em França, quase relegou para segundo plano a contenda Hollande-Sarkozy. Marine tem um ar de pessoa comum e diz as banalidades que agradam a um eleitorado que tem medo dos árabes, dos pretos e que ainda ainda sonha com la grandeur de la France. Essa foi uma das derrotas da esquerda. A outra é sabermos que a votação de Marine vem, sobretudo, do meio operário. E do sul, onde ganhou num departamento (Gard) e onde, outrora, o PCF predominava (em 1978 todos os deputados do Gard eram desse partido...).

É essa a situação em França, tandis qu'au Portugal já se esboçam derivas autoritárias. Segundo Magina da Silva, inspetor máximo da polícia, já foram dadas instruções para "impedir manifestações, desfiles e acções de rua que não tenham seguido todos os procedimentos legais". Uf... Um cravo na lapela exibido por mais de duas pessoas será uma ação de rua?

O Vasco Lourenço e o Otelo que se ponham a pau. Ainda lhes vão pedir cópia do requerimento que deviam ter entregue para fazerem o 25 de abril...

Conselho de amigo: vale a pena ler o blogue 5 dias.

Magina da Silva, uma Marine de calças (parto desse princípio, claro) e boina

OS PORTENTOSOS BÍCEPS DE JOÃO PROENÇA

 Ontem, João Proença, da UGT, foi dizer ao primeiro-ministro como é. E afirmou, num certo estilo de abstenção violenta, que "só ficará arrependido de ter assinado o acordo de concertação se tiver de o denunciar". Mai nada! Assim é que é. PPC deve ter ficado a tremer de medo...
 
Proença, exibindo a sua musculatura política após o encontro com PPC

segunda-feira, 23 de abril de 2012

EM CARTUM

Séguidille

Brune encore non eue,
Je te veux presque nue
Sur un canapé noir
Dans un jaune boudoir,
Comme en mil huit cent trente.

Presque nue et non nue
À travers une nue
De dentelles montrant
Ta chair où va courant
Ma bouche délirante.

Je te veux trop rieuse
Et très impérieuse,
Méchante et mauvaise et
Pire s'il te plaisait,
Mais si luxuriante !

Ah ! ton corps noir et rose
Et clair de lune ! Ah, pose
Ton coude sur mon cœur,
Et tout ton corps vainqueur,
Tout ton corps que j'adore !

Ah, ton corps, qu'il repose
Sur mon âme morose
Et l'étouffe s'il peut,
Si ton caprice veut,
Encore, encore, encore !

Splendides, glorieuses,
Bellement furieuses
Dans leur jeunes ébats,
Fous mon orgueil en bas
Sous tes fesses joyeuses !


Na verdade, não foi o autor do poema, Paul Verlaine, quem esteve em paragens africanas, mas sim o seu amante temporário, Rimbaud. O sítio onde Marta Sentís (n. 1949) fez esta fotografia, datada de 1984, deixa-nos margem para a imaginação. O poema de Verlaine parece-me, pois, apropriado ao ambiente vivido naquela casa da capital sudanesa.

domingo, 22 de abril de 2012

JOSÉ VILHENA

Com alguma surpresa, soube ontem que o autor mais castigado pela censura fascista foi o humorista José Vilhena (n. 1927), com 29 (!) livros apreendidos. Nem marxistas, nem neo-realistas, nada disso. Mas sim um autor dado a livros espalhafatosos, pouco convencionais e provocatórios. Onde o regime fascista era ridicularizado, sem dó nem piedade. Foi, por isso, várias vezes detido. Pior ainda, Vilhena divertia-se a satirizar o clero, de forma impiedosa e ácida. Coisa que um regime beato e sisudo não lhe perdoava. Diga-se, aliás, que o humor nunca foi o ponto forte das ditaduras.

Nunca foi "bem" gostar de José Vilhena. Mais um ponto em meu desabono: acho imensa graça ao estilo pouco delicado e a traço grosso de Vilhena. Ainda andam pelas minhas estantes exemplares de As misses, As noites quentes do cruzado D. Egas e A vaca borralheira. Um certo Portugal dos anos 50 e 60 passa por ali...

Rui Zink escolheu-o como tema para a sua tese de mestrado em Literatura e Cultura Portuguesas na UNL, em 1989. Ainda bem.

Montagem no livro As noites quentes do cruzado D. Egas (1973)

sábado, 21 de abril de 2012

MOURA: FEIRA DO LIVRO


Começa hoje e vai até dia 1 de maio a Feira do Livro de Moura (programa completo aqui). Começa hoje, logo hoje em que não poderei estar em Moura. Hoje que a Profª Jacinta Oliveira Pinto, minha professora da 1ª à 4ª classe (1969/73) apresenta o seu livro Cores do Alentejo. É leitura que ficará para a próxima semana.

LA TRAVIATA

Hoje começa a Feira do Livro, em Moura. Em julho do ano passado não podia imaginar que a data seria esta e, assim, decidi que o dia 21 de abril de 2012 seria uma boa oportunidade para ver e ouvir La traviata, na Gulbenkian, em transmissão a partir do Met.

A produção de Willy Decker é elogiada desde 2005 e por isso é a que amanhã será levada à cena. Não serão Netrebko e Villazon a cantar, mas não se pode ter tudo...

sexta-feira, 20 de abril de 2012

MANHÃ PACENSE


Manhã na cidade de Beja, a convite do presidente da CIMBAL e da Câmara de Moura, José Maria Pós-de-Mina. Acompanhei-o, bem como ao presidente da Assembleia Distrital e da Câmara de Almodôvar, António Sebastião, e ao diretor do Museu Regional, José Carlos Oliveira, numa demorada visita ao museu.

O antigo Convento da Conceição encontra-se numa situação de dificuldade, fruto de uma indefinição que não se entende. Os presidentes de câmara do distrito têm competência técnico-científica ou experiência na área da museologia? Nenhum deles tem, que eu saiba. Mas há uma coisa chamada bom senso, que ajuda imenso a ultrapassar estes problemas. E há outra, chamada boa vontade, que é essencial.

As indecorosas cenas de ontem à noite na Assembleia Distrital (ler aqui) ficaram à margem da visita.

quinta-feira, 19 de abril de 2012

NATUREZA MORTA Nº 5


De um jogador brasileiro
a um técnico espanhol

Não é a bola alguma carta
que se leva de casa em casa:

é antes telegrama que vai
de onde o atiram ao onde cai.

Parado, o brasileiro a faz
ir onde há-de, sem leva e traz;

com aritméticas de circo
ele a faz ir onde é preciso;

em telegrama, que é sem tempo
ele a faz ir ao mais extremo.

Não corre: ele sabe que a bola,
Telegrama, mais que corre voa.


Porquê a natureza morta verde de Picasso (1914)? Porquê o poema do grande João Cabral de Mello Neto? Porque hoje é dia verde no futebol. E mesmo um benfiquista empedernido (eu) quer que o Sporting ganhe.

Coisa interessante, os escritores e os poetas brasileiros nunca tiveram complexos em declarar o seu amor ao futebol. Já deste lado do Atlântico, a intelectualidade vê a bola como coisa de casca-grossa. E só pode escrever-se sobre futebol se o título for algo como "Hermenêutica do futebol". No mínimo, algo assim.

quarta-feira, 18 de abril de 2012

SEMANA SANTA - SAFARA

Semana Santa - Endoenças em Safara é o título do livro de José António Correia, editado recentemente pela Câmara Municipal de Moura. Importante compilação sobre um momento do calendário religioso católico, traz-nos ainda informações de grande valia sobre a encomenda de obras de arte, feitas a artistas locais no final do século XVII. São, em concreto, mencionados os nomes de Filipe de Santiago Neves e de Manuel Vaz. No caso deste último a referência documental é muito interessante e assume foros de anúncio publicitário: "especialista nas modalidades de óleo, fresco, têmpera, dourado, estofado e azulejo". Ainda não se usava aquela do "orçamentos grátis, vamos a casa"...

terça-feira, 17 de abril de 2012

EM ARGEL, AO CORRER DO TEMPO


A maior parte das rotundas, nesta cidade, tem uma coluna central com três relógios. Há uma place des trois horloges, em Bab el-Oued, mas há muitas mais, sem o nome mas com os aparelhos. Facto que me intriga. E para o qual não obtive resposta.

Foi sob o signo do tempo que o dia se passou, entre a conferência inaugural da exposição Mértola, o último porto do Mediterrâneo e o jantar na residência do embaixador de Portugal, Doutor José Fernando Moreira da Cunha.

Tempo de ir, de metro, até ao bairro de Mohamed Belouizdad. Tempo de andar a pé até ao teleférico na esquina da rue Oued Kenis. E de subir ao Palácio da Cultura e ver uma exposição de pintura, que foi uma perda de tempo e que podia ter passado sem ver. Tempo de regressar, numa longa caminhada pelo bairro de El Hamma. Tempo de me apaixonar, um pouco mais, por esta cidade fascinante. Ao longo do extenso percurso cruza-se, numa viagem pelo tempo, um patchwork histórico e social: modernidade e integrismo, arquitetura colonial e pós-colonial, passado e presente, religião e laicidade, tudo passa ante os nossos olhos.

A imagem do tempo ocorre-me de novo, quando me surge a interrogação "quando voltarei?".

Inauguração da exposição:
à esquerda, a Dra. Houria Cherid, diretora do Musée National des Antiquités et des Arts Islamiques
à direita, a Dra. Lídia Nabais, secretária da Embaixada de Portugal em Argel


Sem o empenho destas duas instituições (Embaixada de Portugal e Museu), a exposição de Mértola nunca teria vindo a Argel. Ainda bem que chegámos a bom porto.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

DO BOULEVARD COLONEL KRIM BELKACEM À RUE AHMED TOUZEM


Nas cidades do Mediterrâneo nunca chove, como se sabe. É esse o mito em que muito boa gente acredita. É por isso que as cidades do Mediterrâneo ficam inundadas de água e de imprecações quando caem umas pingas. E nem precisa de ser uma bátega. Foi isso que aconteceu hoje, na caminhada até ao bairro de Bab el-Oued, depois de ter terminado a montagem da exposição, no Musée National des Antiquités et des Arts Islamiques. Era nesta zona da cidade que estava a pensar quando escrevi este excerto num livrinho, publicado há uns anos: "as cidades em volta do mar, cheias de vozes e de gente, são brancas. O branco das paredes reflecte-se nos lenços e na timidez das mulheres. São cidades discretas e, às vezes, mesmo um pouco tristes. Em muitas delas não há turistas, porque os turistas não gostam de cidades belas mas um pouco tristes e porque os turistas querem quase sempre um pouco mais que a bruma que envolve as baías e os portos do mar ao entardecer. As cidades do Mediterrâneo estão entregues a si, à sua história, aos milhares de anos sedimentados no subsolo, aos muros que se esfarelam. São belas assim, de ar colonial já sem colonos, com as paredes brancas e as persianas azuis, com o seu ar um pouco triste e com a bruma e as ruas que assomam ao longo dos portos."

Bab el-Oued era o bairro dos pequenos funcionários na era colonial. Continuou a ser um bairro popular, depois da independência. É um sítio "difícil", onde o ar simpático das ruas e dos prédios esconde terríveis problemas sociais. Em tempos foi uma zona a evitar, muito por via de mitos urbanos que se criaram (como o da guilhotina ambulante...). Hoje, a cidade respira normalmente e as ameaças do passado parecem pertencer, de vez, ao passado. Mesmo em Bab el-Oued. E apesar de problemas recentes (v. aqui).

No cruzamento da Rue Ait Moussa o telefone tocou. A marcação de uma reunião para dia 3 de maio adensou as nuvens da tarde. Que cresceram e desabaram numa série de telefonemas, recebidos em frente à estátua de Abd-el-Kader.

Choveu copiosamente até ao anoitecer.



Em cima: entrada da exposição, no Musée National des Antiquités et des Arts Islamiques
Em baixo: Place de l'emir Abd-el-Kader

domingo, 15 de abril de 2012

135


Sono arrivato alla Serenissima Repubblica di San Marino.
Já são 135 países e territórios. Mas estes casos são aqueles a que acho mais graça. Ah!, é verdade, falta-me o Vaticano.

TABU

Há um extraordinário filme em exibição. Chama-se Tabu e é obra de um jovem cineasta português, Miguel Gomes. Com as salas afogadas em blockbusters há pouco espaço para o artesanato. Ainda que de artesanato sofisticado, como é o caso deste filme.

A história é pesada, não tanto pelo adultério em si, ainda que estando Aurora grávida, mas pelo crime que a relação amorosa virá a esconder. O silêncio de décadas só virá, afinal, a ser quebrado depois da morte da principal interveniente.

O que me entusiasmou:

1. A assombrosa fotografia, num formato clássico 4:3, com um ar marcadamente retro e de grande limpidez;
2. A interpretação de Laura Soveral, uma das melhores que alguma vez vi em cinema;
3. A narrativa feita por Gianluca em off, que ocupa toda a segunda parte do filme, e que é um verdadeiro achado, uma vez que assistimos a todo aquele tórrido enredo sem que ouçamos uma única palavra dos amantes;
4. A desenvoltura e elegância do argumento, apesar do estilo um pouco à la Huillet-Straub da primeira parte;
5. A imensa melancolia da história, que se nos cola e que fica à nossa volta muito depois de termos saído do sala;

"Aurora tinha uma fazenda em África" remete para a frase inicial de outro filme, Out of Africa. Com uma diferença substancial: o filme de Miguel Gomes é infinitamente melhor.

IBERIA

Ouvido há pouco, no voo entre Madrid e Argel, ao melhor estilo Tony Silva:

Gud aftanun ladi an djentelman. Dis iz de capta espiquing. Uelcom on bor. Da flai taim tu Alger iz abau uan auâr. Da ueda in Alger iz claudi ui lai chaua. Feinkiu for chuzing Iberia.


Não é um tipo ser chato e picuinhas. Mas espero que isto, e o calamitoso serviço de bordo que é apanágio da Iberia, sejam tidos em linha de conta naquela coisa da aliança estratégica...

NÃO

Fui aluno de José Manuel Tengarrinha. Não participei na homenagem que ontem lhe foi prestada. Nem participarei em qualquer homenagem que venha a ser preparada. Bem sei que, do alto do meu anonimato, o impacto do meu gesto é igual a zero. Mas há questões de coerência pessoal que estão acima de todas as outras. O estilo brandinho e português suave não vai, mesmo, comigo. Não digo bem só por já serem anciãos ou por já não estarem neste mundo.

Aqui vão as razões:

O ano letivo de 1984/85 foi complicadíssimo na Faculdade de Letras de Lisboa. Três ou quatro professores da velha guarda preparavam a limpeza dos resquícios do PREC e deram início a um processo de dispensa de assistentes marcado pelo revanchismo mais puro. Um dos alvos a abater era José Manuel Tengarrinha, professor convidado, figura prestigiada pelo seu passado antifascista e símbolo de uma certa esquerda. A dispensa de Tengarrinha foi dada como certa. Quais os seus "pontos fracos"? Marxismo a mais, uma tese de doutoramento que nunca mais aparecia e notas demasiado altas. Uma das cabeças pensadoras da casa exigia mesmo a aplicação da curva de Gauss às avaliações. Ou seja, era necessário que houvesse poucos chumbos, muitas notas num escalão médio e poucas notas altas.

Estava a fita armada. A Direção da Associação de Letras, da qual eu fazia parte, mobilizou-se para denunciar a canalhice e obrigar o Científico a recuar. Eu era aluno de José Tengarrinha na cadeira de "História de Portugal (sécs. XVIII-XX)". Havia motivos para o dispensar? Nem por sombras. As aulas eram razoavelmente aborrecidas e demasiado centradas na questão do capital comercial e muito pouco nas questões concretas do Portugal Contemporâneo. Tengarrinha era um professor cordial e acessível e que dava apoio aos alunos. Se o critério de dispensa era o da competência, Tengarrinha estava muito longe da frente da bicha.

Foram dias intensos de combate. Exigimos ser recebidos por toda a gente. E fomos. Do diretivo ao pedagógico passando pelo científico. Convocámos assembleias. Lemos comunicados nas aulas. Escrevemos para os jornais. Houve entrevistas para o Semanário, para o Expresso, para a Rádio Comercial, eu sei lá. Um belo dia, fomos esperar os professores à porta do Científico. Éramos uns 100. Estava na linha da frente e dirigi-me, com o desplante próprio dos 21 anos, ao catedrático de Medieval, Borges Nunes, a quem perguntei: "Como é, senhor professor? Queremos saber o que se passa com o dr. Tengarrinha.". Borges Nunes fez um sorrisinho e respondeu-me "Esse assunto não foi tratado hoje, mas haverá decisão rapidamente". Habituado ao estilo jesuítico de Borges Nunes pressenti um recuo. Não me enganei. O Científico recuou e Tengarrinha teve o contrato renovado.

O pior estava para vir. Ao ver as pautas, em julho, caiu-me o coração aos pés. Tengarrinha cedera, baixando as notas de forma radical em relação a anos anteriores. Fazia pela vidinha... Pouco depois, um furioso Santiago Macias entrava na sala de professores, e disse tudo o que lhe ía na alma ao prof. Tengarrinha. Os detalhes ficam para a minha memória pessoal e para as duas queridas amigas a quem convoquei na altura, porque queria testemunhas para aquele meu raid. Eventualmente intempestivo e radical, mas que veio do fundo do coração. E porque, ainda que consciente da inutilidade e do nulo impacto do meu gesto, ficaria para sempre a lamentar não ter dito o que lhe disse durante aqueles momentos.

Não voltei a cruzar-me com o prof. Tengarrinha. Desejo, sinceramente, que conte muitos anos mais, e de boa saúde. Daqui lhe envio uma curva de Gauss, em recordação desses dias, que tão importantes foram para ele, para mim e que tanto ajudaram a formar politicamente toda uma geração de joves estudantes.

sábado, 14 de abril de 2012

CARLOS ZORRINHO, CAPITAL DA FELICIDADE

O momento Laurinda Alves da semana esteve a cargo do deputado socialista Carlos Zorrinho. Que, em declarações, à Diana FM, disse:

“se todas as pessoas quiserem ser felizes pelo dinheiro, nomeadamente agora as populações emergentes, o planeta é insustentável”, defendendo “uma outra forma de olhar o mundo”.
É o projeto de vida que faz as pessoas felizes não é a conta bancária, embora a conta bancária ajude quando não se tem projeto de vida”, acrescentou.

Num país em que pululam as capitais (do azeite, dos móveis, do sol, do vinho, da água, da caça etc.), Carlos Zorrinho é, por si só, a capital da felicidade.

Carlos Zorrinho, eventualmente sem cheta,
mas com um projeto e munta feliz

ENTRETANTO, EM PYONGYANG...

... já se organizam manifestações de apoio à proposta de Miguel Cadilhe de criar um imposto extraordinário sobre a riqueza (ler aqui).


Apoiante de Cadilhe brandindo entusiasmado as propostas do Querido Economista. Aquilo de conduzir só com uma mão é que não é grande ideia, mas a Brigada de Trânsito lá do burgo deve se mais tolerante que a nossa.

EIS UM IMPORTANTE IMPULSO À INDÚSTRIA DE FABRICO DE COLCHÕES

Quem tiver mais de 25.000 euros no banco perde o direito ao RSI (ler aqui). Os da MOLAFLEX já devem estar a esfregar as mãos de contentes.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

UM OFÍCIO DO PRESIDENTE DA CÂMARA DO CRATO PARA O MINISTRO DAS FINANÇAS

O Ministro das Finanças, Prof. Doutor Vitor Gaspar, mais o Ministro dos Assuntos Parlamentares, Lic. Miguel Relvas, resolveram mandar um ofício às câmaras fazendo perguntas sobre a dívida das ditas.

O Presidente da Câmara do Crato, João Teresa Ribeiro (CDU), deu a Suas Excelências uma resposta à altura. Uma devolução de bola digna de um Rafael Nadal.

A PROPÓSITO DE SOFÁS - 3/7

Ainda e sempre, dedicado ao meu amigo Humberto. Por causa dos sofás.



De Dioguo Fogaça a huuma dama muyto gorda, que se encostou a elle, & acahyram anbos, & ella disse-lhe sobre ysso mas palauras.

Que gentill feycam de damas!
nam sey como volo digua:
que tudo he cu & mamas,
& barrigua.

As mamas dam polo ventre,
o ventre polos joelhos,
& do cu at’oos artelhos
gordura sobresalente.
Arreneguo de tais damas,
he forcado que o digua:
ca tudo he cu & mamas,
& barrigua.

Corregeram na muy bem,
pero foy com muyta pena,
ca lhe fizeram querena
no rrio de Sacauem,
Reuolta d'ambalas camas;
ysto com muyta fadigua:
ca tudo he cu & mamas,
& barrigua.

Corregeram-lh’o costado,
mas a quilha fycou podre,
rramendaram-lh’a com hum odre,
do auesso trosquiado
& com tres peles de guamas
muyta estopa d’estrigua:
ca todo he cu & mamas
& barrigua

Nam prestou calafetar,
porque faz aguoa porfundo,
nam ha crespym no mundo
que lh’a podesse vedar.
Ho diabo dou taes damas
he forçado que o digua:
ca todo he cu & mamas
& barrigua.

Mas quebraram-lh’as estoras,
encostou-se sobre mym,
teue debayxo crespym
bem acerca de tres oras.
Ja rreneguaua das damas,
sayo, com muita fadiga,
debayxo de cu & mamas
& barrigua
.

Ora bem, deitemos contas à vida: a pintura é de Lucian Freud, o poema de Diogo Fogaça. Foi publicado no Cancioneiro Geral, de Garcia de Resende.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

ARQUITETURA NEO-ISLÂMICA

A Praça Nova, no Castelo de S. Jorge, é ponto de paragem obrigatória para os meus alunos. Porque o sítio tem uma história longa e porque a intervenção de reabilitação merece ser vista, pensada e discutida. O que se descobriu e integrou? Estruturas de três épocas (Idade do Ferro, Época Islâmica e Baixa Idade Média). Como se protegeram essas estruturas? Criando proteções de grande dimensão e de desenho bem visível.

As casas islâmicas, ainda que de grande dimensão, têm um padrão comum a tantas outras da Península Ibérica: um pátio central e compartimentos que se desenvolvem a partir daí. Falta informação para o visitante não especialista, mas o problema principal não me parece que esteja aí: 1) vemos mais a intervenção contemporânea que os vestígios arquitetónicos do século XII em si; 2) o pé-direito das casas parece-me francamente exagerado face ao que conhecemos.

A que propósito vem este arrazoado?

É que se prepara, no castelo de Mértola, a reconstituição integral de uma das casas escavadas: a nº 10, que conheço muito bem e em cuja escavação trabalhei, já lá vão mais de dez anos. Tenho as maiores dúvidas quanto à razoabilidade do projeto. Ao contrário do que acontece na Praça Nova, cuja escala permite que a nova intervenção se dilua, a de Mértola vai ficar bem visível e isolada no meio da escavação. E em clara colisão com as estruturas de proteção dos monumentos da Antiguidade Tardia.

Votei vencido neste dossiê. Vencido, mas não convencido. Muito menos silencioso.

Reconstituição da volumetria das casas islâmicas
(Castelo de S. Jorge, Lisboa)

O FUTURO, VISTO A PARTIR DE COIMBRA

Teve lugar, ontem ao fim da tarde, um encontro promovido pelos alunos da licenciatura em arqueologia. Procuram respostas. Sobre o futuro, sobre a profissão, sobre a sociedade. Convocaram professores e investigadores da casa para falarem dos percursos de vida e das perspetivas de um futuro que a todos escapa. A troca de impressões prolongou-se por três horas. Um tempo que dei por bem empregue.

Não creio que o meu errático e anárquico percurso seja exemplo. Ou que os tenha ajudado. Revi várias vezes, no longo regresso a Mértola, o essencial do que lhe tentei dizer:

1. Esta geração de alunos tem uma preparação técnica de base claramente superior à minha;
2. O problema que se depara aos jovens arqueólogos não é técnico, é político, ou de enquadramento político;
3. A massificação do ensino, incluindo ao nível superior, tornou impossível a garantia de pleno emprego aos jovens licenciados, nas áreas em que são formados;
4. Impera no setor uma lei da selva (com uma abjeta exploração de jovens arqueólogos por parte de alguns empresários sem escrúpulos) que é preciso combater, através do sindicato, ou da ordem, ou das associações, ou de qualquer outra forma;
5. Pior ainda, a supressão de lugares no Estado, e uma estúpida e analfabeta burocratização, tornam difícil um controle que deveria ser muito mais apertado;
6. É necessária mais ousadia e menos acomodamento por parte de uma geração (a deles) que cresceu num mundo fofo e despreocupado;
7. A pressão social em breve se tornará intolerável. Nessa altura, coisas interessantes, dos pontos de vista social e político, começarão a acontecer.

A Rua Ferreira Borges, em Coimbra, às 21.05 de ontem.
Todas as ruas são bonitas, quando iluminadas pela chuva da noite.

terça-feira, 10 de abril de 2012

A VIA SÍNICA DO PSD

Sempre me fez um pouco de confusão aquele logo em forma de chapéu chinês dos autarcas do PSD.

Hoje fez-se luz. Claro! O Heduíno Gomes foi do Conselho Nacional do PSD. E até andou pelo Gabinete de Estudos do partido. Vão ver que o logo foi ideia dele. Serão ainda resquícios das visitas de outrora à pátria do Grande Timoneiro?


FASCISMO, SEMPRE! 25 DE ABRIL, NUNCA MAIS!

Texto publicado passado mês de março no Campanário do Vale do Roxo, edição da paróquia de Ervidel:


A PROEZA DE MUDAR A REALIDADE E A HISTÓRIA MUDANDO OS NOMES AS OBRAS E SEUS AUTORES...

Uma das grandes proezas de alguns campeões do 25 de Abril e de outros 25 de Abril por esse mundo é mudar os nomes às obras. Pensam eles que assim mudam a realidade e a história de Portugal ou do mundo. Esses ditos campeões hão-de morrer, como toda a gente, e depois deles virá quem reporá os nomes no devido lugar. É apenas uma questão de tempo. Exemplos não faltam por esse mundo fora.

A cidade russa de São Petersburgo, depois da revolução, foi rebaptizada pelos comunistas como Leningrado. A ilusão não durou 80 anos. A cidade retomou o seu nome original.

Centenas de nomes de outras localidades russas e depois soviéticas tiveram a mesma sone quando acabou o comunismo.

Em grande número de fotografias de dirigentes soviéticos, todos aqueles que caíam em desgraça eram de seguida apagados das ÍotograÍias, isto é, da história...

O caso mais engraçado que conheço é o de uma fotograÍia de Mao com um grupo de pessoas numa das suas digressões pela China. Como alguma dessas pessoas não ficaram na fotografia a sorrir de felizes, foram retocadas para ficarem a mostrar as dentuças e assim exibirem a sua felicidade de estarem ali com o Presidente Mao.

O desrespeito pela história, eliminando as suas figuras reais e proeminentes, também se tornou moda em Portugal com o 25 de Abril.

Há meia dúzia de anos, a convite dele próprio, dirigi-me ao gabinete de um ministro da educação, com o fim de lhe dar umas dicas, de que aliás o tipo bem precisava. Acção frustrada pois ele não percebeu patavina da mensagem e manteve o sistema de ensino na miséria que todos conhecemos.

Com a sensação de frustração por missão não cumprida, lá dei a sessão de terapia por terminada. Então ele teve a amabilidade de me acompanhar à porta. Ao despedir-me dele, reparei num quadro que estava atrás da sua própria secretária e disse-lhe:

- Tens ali o retrato de Nun’Álvares.

Ao que o Ministro da Educação de Portugal (da educação de Portugal!) responde:

- Tenho de tirar dali o gajo, que não gosto de beatos atrás de mim.

E assim uma das cinco maiores figuras da história de Portugal é apagada pelo próprio Ministro da Educação (da educação de Portugal!).

Com o PREC, o 25 de Abril veio fazer revisões da história às dúzias.

A Ponte Salazar passou então a chamar-se Ponte 25 de Abril. E assim, quem a construiu deixou de ser Salazar para ser um desses inteligentes da brilhante data, talvez o Otelo, qualquer um dos Vascos ou o Rosa Coutinho.

A Barragem Salazar, em Alcácer do Sal, passou a chamar-se Barragem Dr. Francisco Gentil.

A Fundação Salazar. criada por particulares (por particulares!) em 1969 e que, com dádivas e heranças desses particulares, construía casas para famílias pobres. fui dissolvida e os seus bens espalhados por várias instituições.

Em Lisboa, a Avenida 28 de Maio (a data ern que, em 1926, o ExérciÌo acabou com as bombas, os assassinatos e a desordem financeira) passou a chamar-se Avenida das Forças Armadas (as que produziram o sistema político corrupto e ruinoso em que estamos). E também em Ervidel a Rua 28 de Maio passou a chamar-se Rua 25 de Abril.

A Emissora Nacional passou a chamar-se Radiodifusão Portuguesa.

O Ministério do Interior passou a chamar-se Ministério da Administração Interna – “interior” cheirava a “fascista”.

A PIDE passou a chamar-se SEF e SIS, agora controlados pelo novo poder, a maçonaria.

E – chegados ao ponto – a Barragem Engenheiro Arantes e Oliveira – pelos vistos nome maldito! – passou a chamar-se Barragem do Roxo.

Quem mudou o nome à obra e ao seu autor ficou feliz de lhe colocar a máscara. Mas a realidade permanece. E, tal como São Petersburgo, lá há-de vir o dia de chamar verdade à verdade.


Heduíno Gomes



Quem é Heduíno Gomes?
Nem mais nem menos que o antigo líder do Partido Comunista de Portugal (marxista-leninista) e da Aliança Operário-Camponesa. O "renegado Vilar", na visão de outros grupúsculos maoistas. Ainda assim, Heduíno foi recebido por Mao, distinção recusada a demais dirigentes maiostas lusitanos. Era Heduíno que proclamava "cada deputado eleito pela AOC será uma espinha cravada na garganta de Barreirinhas Cunhal", inesquecível slogan do pós-25 de abril. Recorde-se, aliás, que Heduíno elegia o PCP, e o seu "social-imperialismo", como alvo principal. Há coisas que anunciam o futuro...
Os anos passaram e Heduíno mudou de vida. Aderiu ao PSD e tornou-se empresário da mulher, a cantora Ana Faria.
É co-autor de um blogue que faz as posições políticas do PSD parecerem de extrema-esquerda e o presidente Cavaco Silva um perigoso comunista...
A dúvida final: quem serão os outros quatro grandes portugueses?

Um agradecimento, do fundo do coração, para o meu amigo Carlos Lopes Pereira, que me fez chegar esse arauto da democracia que dá pelo nome de Campanário do Vale do Roxo.
Sobre a atividade política de Heduíno Gomes, também Vilar, veja-se o blogue de José Filipe Murteira: http://notasaesquerda.blogspot.pt/


Símbolo do AOC
"Vota no castelo! Vota AOC!"