quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

MESQUITA OU NÃO MESQUITA?

Traz hoje o jornal "Público" uma notícia onde sou citado. Sou apresentado sem qualquer vinculação (sou professor na Universidade Nova de Lisboa, investigador do Campo Arqueológico de Mértola e técnico da autarquia mertolense - podiam ter escolhido uma destas designações...) e não fui contactado pelo jornalista. O qual afirma também que "não teve acesso ao conteúdo dos pareceres".

Não vou, obviamente, divulgar o conteúdo do meu parecer. Nem comentar a notícia, nem alimentar polémicas. Dois tópicos apenas:

1. A preservação destas estruturas da Lisboa islâmica (mesquita ou não mesquita é, para o caso, o que menos importa) é crucial.

2. Motivo maior de preocupação, neste momento? O que se cita do parecer do LNEC.




quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

JOGO DE ESPELHOS

Tenho de admitir que fiquei aborrecido e triste quando, por diversas e difíceis razões tivemos de prescindir dos Passos Perdidos para a exposição "Guerreiros e Mártires".

Hoje, de manhã cedo, andei dentro e fora de Arte Antiga. Da luz difusa de fora para a fantástica instalação de José Capela (espelhos, reflexos e perspetivas)  nesses mesmos Passos Perdidos. Senti-me compensado. Senti-me tentado a usar Borges, mas preferi Álvaro de Campos.

Depois, houve uma rajada de visitas guiadas (três), a pouco tempo de começar o confinamento.


Depus a máscara e vi-me ao espelho. —

Depus a máscara e vi-me ao espelho. — 

Era a criança de há quantos anos. 

Não tinha mudado nada... 

É essa a vantagem de saber tirar a máscara. 

É-se sempre a criança, 

O passado que foi 

A criança. 

Depus a máscara e tornei a pô-la. 

Assim é melhor, 

Assim sou a máscara. 

E volto à personalidade como a um terminus de linha.











terça-feira, 12 de janeiro de 2021

O MEU CAPOTE

Foi no outono de 1982, iria jurar que uma semana ou duas antes do Natal. Parámos em Évora, já nem recordo porquê. Percorremos lentamente as arcadas ao longo da Rua João de Deus, a caminho da Praça do Giraldo. O meu avô ía silencioso, como quase sempre. Às tantas parou em frente a uma loja e decretou "vou-te comprar um capote". Acolhi a ideia com alguma reserva, capote era coisa de velhos... Mas nem pensar em rejeitar a prenda. Lembro-me que achei o preço uma barbaridade. O meu avô, sempre de uma austeridade cortante, nem pestanejava nesses momentos. "Gostas deste?", e assim passei a ser proprietário de um belo capote cinzento. Há momentos que não se esquecem.

Hoje é dia 12 de janeiro. O meu avô nasceu há precisamente 111 anos. Devo-lhe esta recordação e muitas outras coisas. Muitas delas decisivas, em termos de caminhos futuros.

O capote tem a bonita idade de 38 anos. É usado em Moura e em Mértola, em Lisboa nunca faz frio.



PITAMENTE CATEGÓRICOS

Nas primeiras eleições, a seguir ao 25 de abril, não se falava sequer em sondagens. Sondagens eram coisas da GALLUP. Depois, aos poucos, foram aparecendo e passaram a fazer parte do nosso panorama. Ganharam reputação entidades como o Centro de Estudos da Universidade Católica. E apareceram muitas entidades muitíssimo menos fiáveis. E que têm fichas técnicas como as da PITAGÓRICA. Fez uma sondagem com 629 entrevistas (era tantas!), das quais resultaram 273 respostas (ena imensas!). É com base nisso que se fazem manchetes. Usadas por independentíssimos órgãos de informação como o TVI e o Observdor.



segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

RECOMEÇA TUDO?

Um regresso a março e o pesadelo parece que não termina. O tempo suspende-se. De novo.

Há um, dois, três, quatro, cinco trabalhos que param, ou quase.

Um júri que vai arrancar e não sei ainda como, um outro que deveria tomar forma e não sei como. A reunião de sexta-feira em Arte Antiga foi ao ar, tenho três livros para acabar e não sei como, tenho filmagens para fazer e não sei como.

Mesmo mal que estou no grupo dos que-têm-mesmo-que-estar. A partir de quinta, não estarei em confinamento, mas em reclusão.

Quando é que isto acaba?




domingo, 10 de janeiro de 2021

COM JF7

Porquê JF7?

Tem João Ferreira tem grande classe, como o CR7.

E está no lugar 7 dos boletins de voto.

É nele o meu voto.



sábado, 9 de janeiro de 2021

CARTA AOS MEUS ALUNOS

Há já alguns anos, talvez uns 12 ou 13, o ministro José Mariano Gago foi a Mértola para apadrinhar a apresentação do mestrado Portugal Islâmico e o Mediterrâneo. Durante o encontro com a nossa equipa, disse esta coisa extraordinária: "sabem como é que recrutam professores para uma das melhores universidades americanas? Pedem três livros escritos a cada um dos candidatos e é com base nisso que fazem a seleção". Ou seja, interessa aquilo que se mostra saber ou ter feito.


Conto quase sempre este episódio nas aulas de apresentação. Voltarei a fazê-lo, no dia 8 de fevereiro, quando começar o seminário sobre “Gestão do Património”. Porquê? Qual a relevância desta historieta?


Pela simples razão que, na investigação, como na vida, como na ação política, interessa ser direto e ir direito ao que interessa, sem rodeios. É relevante o que realmente produzimos de prático e importa muito pouco aquilo que dizemos que queremos fazer. Há um par de coisas que digo sempre aos alunos, e que são, para mim, princípios básicos de atuação. Posso estar errado, mas são esses que defendo. E que tento pôr em prática.


Por isso lhes digo que o planeamento (rigoroso, calendarizado, cronometrado) é necessário, tanto quanto o é a passagem à ação. Quando os vejo com discursos difusos à volta do que estão a fazer, cito-lhes Brian Clough. Não era um filósofo, nem pertencia a nenhum “think tank”. Foi treinador do Derby County no início dos anos 70 e tinha um princípio simples, e precioso: “todo o drible que não resultar em golo, é um drible desnecessário”. Por isso, e muito concretamente, deixem-se de tretas. Foquem-se nos resultados e na forma de os obter. Habituem-se a fazer várias tarefas ao mesmo tempo. Acostumem-se a não “sair às 5 e meia e agora tenho de ir para casa e vou fazer uma caminhada ou tenho de ir passear o cão”.


Se tomarem conta de uma escavação ou de um museu (farão muito mais na vida do que arqueologia e museus, e se algum tonto vos disser o contrário, riam-se dele) não se ponham a apontar para trás, porque o anterior responsável deixou isto ou aquilo por fazer. Isso acontecerá sempre na vida, que alguém deixe algo para fazer. Tentem é vocês dar o dar tudo por tudo, onde quer que estejam, e caminhar em frente.


E não se ponham com promessas, do “agora é que vou fazer”, “tenho quase o projeto pronto”, “vou começar a escrever”. Das duas, uma: ou fazem, ou não fazem. Portanto, concretizem e mostrem resultados. Não consigo ter respeito por gente que está sempre a representar, como se num teatro estivesse. Aqueles que estão sempre com desculpas e a calimerar o mundo, fazendo-se de vítimas. Não copiem projetos e ideias. Procurem vocês outras soluções. Diferentes e atrevidas. Umas vão resultar, outras não. Lembrem-se que o sucesso não se mede só por termos muitas vitórias, mas também, e em grande medida, por termos o menor número de derrotas possível.


Habituem-se a tentar outros caminhos na vida. E se um dia vos desafiarem para algo diferente (uma intervenção na vida social, um cargo associativo, uma tarefa humanitária ou um cargo autárquico) pensem sempre “porque não?”. Mas pensem nessa outra realidade como uma missão, não como um emprego ou como um modo de vida.


E não se esqueçam de uma coisa. A verdade é como o azeite. Vem sempre ao de cima. É só uma questão de tempo.














Crónica em "A Planície"

Fotografia: Bruno Barbey (1941-2020)

quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

O SAL DOS LIVROS

De Eugénio de Andrade, O sal da língua:

Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém – mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar.
Para que não se extinga o seu lume,
o seu lume breve.
Palavras que muito amei,
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.

É A CULTURA, ESTÚPIDO...

A cena de faroeste de ontem é uma questão política e cultural. Foi no Capitólio, podia ter sido num saloon. Um acaso não foi, seguramente.

É favor não esquecer que o grunho teve 74.000.000 (setenta e quatro milhões) de votos.

Desde ontem me interrogo: e se os invasores fossem negros ou índios?

De Westworld (1973) não reza a História. Mas ilustra a inacreditável jornada de ontem.


terça-feira, 5 de janeiro de 2021

JOÃO CUTILEIRO EM MÉRTOLA

Aqui se recorda um texto publicado neste blogue, em 24.11.2011.

Quem entra em Mértola, vindo de Beja ou de Serpa, depara, no meio de uma enorme rotunda, com uma escultura, onde coexistem colunas em mármore, um conjunto de rochas e uma oliveira que é, por si só, um monumento.

Esta escultura, concebida em 1991 por João Cutileiro, tem uma história curiosa. A Câmara Municipal de Mértola foi, na altura, distinguida pelo trabalho desenvolvido no Centro Histórico. Deslocou-se à vila o ministro Valente de Oliveira. O prémio, do conhecido escultor, vinha dentro de uma caixa. Era uma miniatura, destinada por certo a figurar no gabinete do alcaide. Que não, foi dito ao ministro, a autarquia estava convencida que a escultura era mesmo a sério e portanto já havia uma rotunda preparada e tudo. O que era verdade. Depois de uns momentos de embaraço, o assunto foi rapidamente decidido. Mértola teria a sua escultura em king-size. E assim se preparou e instalou a mais bela peça de arte feita em Mértola nos últimos séculos.

A equipa autárquica em regime de permanência era então constituída por Fernando Rosa (presidente) e pelos vereadores José Manuel Santana e António Raposo.



segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

MEMÓRIAS PAROQUIAIS - CIDEHUS: UM SERVIÇO PÚBLICO

As "Memórias Paroquiais" são um insubstituível elemento de trabalho para quem queira estudar a realidade portuguesa. E não me reporto, necessariamente, ao século XVIII. Muita da informação que contêm é da maior importância para o período medieval.

As Memórias são o resultado de um inquérito às paróquias portuguesas, mandado fazer pelo Marquês de Pombal. Os resultados são de desigual interesse e dependem muito do empenho que cada pároco colocou na sua tarefa. Mas os dados são sempre relevantes e de enorme utilidade.

As Câmaras Municipais têm, progressivamente, vindo a promover a edição dessas Memórias. A de Moura fê-lo em 2002. Quando havia preocupações com o Património e editava livros.

Em plena redação de um trabalho sobre urbanismo, arquitetura e iconografia de sítios, fui parar a um magnífico site, feito a partir da Universidade de Évora.

As Memórias Paroquiais do Alentejo (já publicadas ou não) está lá disponíveis:

http://www.cidehusdigital.uevora.pt/portugal1758

Serviço público e investigação ao dispor de todos.

UMA QUERELA DO PRIMEIRO MUNDO...

Prefiro não entrar nesta querela do elenco negro/dobragem branca.

E recordo outra questão, bem mais significativa.

Do site da UNICEF

A REALIDADE DA MALÁRIA
O maior assassino de crianças.
A malária mata uma criança cada 30 segundos, cerca de 3000 crianças por dia.
Mais de um milhão de pessoas morre de malária por ano, a maioria crianças com menos de 5 anos, ocorrendo 90% dos casos de malária na África subsaariana.



PAULO PORTAS E OS DOIS PICOS DO KILIMANJARO

Paulo Portas consegue ver o que não existe.

Última descoberta: Vladimir Putin como "czar do Partido Comunista Russo".

Fez-me recordar aquele sketch dos Monty Python, em que John Cleese via uma "realidade" que não existia. Como os dois picos do Kilimanjaro. Só depois de tapar um olho conseguia enquadrar a realidade - v. aqui. Fica a sugestão.



domingo, 3 de janeiro de 2021

DEBATES

O que aconteceu no "debate" de ontem era expectável. O candidato fascista (o tal que fala com Deus...) transformou o que deveria ter sido um debate num completo caos. Com a complacência da "moderação". Conheci/conheço populistas assim. Nomeadamente no meu concelho de Moura. Eram/são imbatíveis na mentira, na insinuação, na perseguição, no "eu é que sei o que as pessoas querem", no "eu é represento o povo". Pois claro que sim...

Não creio que valha a pena perder tempo com este tipo de "debates". Não tenho a mínima paciência para fascistas nem para gente mal educada.

E a minha opção está tomada.





sábado, 2 de janeiro de 2021

DA IGUALDADE

Foi há semanas. Entrei num pequeno café do Alto Alentejo, para registar um prosaico totoloto. O dono do café estava em pleno e convicto monólogo com o que devia ser um cliente habitual: "sabes como é que eu sou; gosto de ajudar toda a gente" (o interpelado fazia que sim com a cabeça, sem grande entusiasmo); gosto de facilitar e não sou um gajo complicativo; estamos aqui para isso, não é?; olha, no outro dia, telefonou para cá uma às 7 menos um quarto, para eu lhe meter o euromilhões; disse-lhe logo que não; tenho que tratar toda a gente por igual, olha a esperta...". Virou-se para mim "o meu amigo faz favor de dizer".

Tive vontade de perguntar: "o que entende, em rigor, por ajudar e facilitar? é que não percebi a lógica da argumentação...". Em vez disso, limitei-me a dizer "são cinco apostas da máquina, por favor".

Woody Allen passeava pelas ruas de Manhattan, observando as pessoas à sua volta. Era esse um dos seus métodos favoritos para arranjar material para os argumentos. Todos os dias tenho testemunhos ao vivo que provam a eficácia do método.




TOP 3: 2008/2020

Pequena mania pessoal, num blogue pessoal. Quais os textos mais lidos ao longo destes anos?

Destaco três, os que mais consultados foram. O tema "autarquia-Moura" (what else?) está à cabeça, mais que destacado.



22695 leituras num texto sobre um conjunto de disparates ditos/escritos sobre a reabilitação da antiga discoteca de Moura. Foi uma grande aposta de então (foi processo em que não participei diretamente) e um grande sucesso. Moura ganhou um belo espaço. As críticas vieram de quem nunca fez nada de semelhante nem conseguiu construir nada parecido. Nem antes nem depois. O PS local, who else?



10041 leituras num texto sobre a forma como o Real Madrid chacina treinadores. Foi na altura em que José Mourinho por lá iniciava o seu percurso. Houve quem lesse o texto como um desejo meu que o nosso compatriota falhasse. Nada mais longe das minhas cogitações, bolas...



8716 leituras num texto sobre um querido conterrâneo, já desaparecido. Propunha eu que a Câmara Municipal perpetuasse a sua memória através da atribuição de uma bolsa de estudo com o seu nome. A proposta não teve sucesso.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

UM HOMEM NA CIDADE

O ano começa mal. Morreu Carlos do Carmo (1939-2021), artista maior de Lisboa e do País. Um fadista excecional, um profissional como uma rara perceção de como trabalhar com o público. Numa perspetiva de grande exigência e com a noção de que um espetáculo musical não é um local de convívio e de conversa enquanto "alguém está para ali a cantar".

Vi-o ao vivo apenas duas vezes. Uma em Moura, com ele muito zangado com a indisciplina do público; outra, em 3.2.2017, num concerto promovido pela Presidência da República para celebrar 40 anos de poder local democrático.

Aqui fica este excerto do filme "Fados" (2007), de Carlos Saura. Um música imortal. Tal como o cantor.