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segunda-feira, 27 de abril de 2026

ÉVORA 27

Espero, ardentemente, estar enganado (espero mesmo, porque sou alentejano e não gosto de ver a região com imagem negativa), mas a suspeita que tenho é que isto não vai correr mesmo nada bem. Falta pouco mais de meio ano e a indefinição é mais que muita.

Veja-se a iniciativa “À mesa é que a gente se entende”, que reúne à mesma mesa os artistas que integram a programação de Évora_27 e as populações de todos os concelhos do Alentejo Central e principais cidades alentejanas. Não sei o que se entende por principais cidades alentejanas. Não estão as dos distritos de Portalegre e de Beja... Portanto é só o Alentejo Central, não o Lateral.

quinta-feira, 9 de maio de 2024

DIA DA ESPIGA

Hoje é quinta-feira da Ascensão. O Dia da Espiga. E, mesmo em Lisboa, está um dia bonito e luminoso como poucos. Dá vontade de sair para o campo. Mas aqui só para o Campo Grande ou para o Campo Pequeno.

Ouvir o Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de São Bento leva-me um pouco "para lá".




domingo, 7 de janeiro de 2024

QUANDO O FOGO CHIAVA

Quando o lume da lareira começava a chiar, a minha avó Joaquina do Ó (1909-1975) dizia "estão dizendo mal da gente" e arengava (quando só havia mulheres presentes, bem entendido):

Três folhas de alho porro, arre putas não me corram

e cuspia para o lume.

Isto foi-me contado há dias. Nunca tal tinha ouvido. E fiquei com a convicção que o "não me corram" era a versão suave de algo bem mais forte.




segunda-feira, 13 de novembro de 2023

UM TEXTO NA CASA DO ALENTEJO

Texto lido na apresentação do livro do centenário da Casa do Alentejo:

Um dos meus rituais de juventude passava por esta casa. Vinha da faculdade, saía do metro e rumava à Casa do Alentejo. O bar, com a obra de Rogério Ribeiro a servir de enquadramento, era ponto de encontro regular de muitos alentejanos expatriados que aqui se encontravam antes de rumarem aos subúrbios.

Os tempos mudaram. Hoje já não é assim. A Casa do Alentejo está no mesmo local. Mas o bar já não é no mesmo sítio. E a geração dos expatriados avançou na idade e já pouco sai.

Esta Casa é-nos, felizmente, familiar. Semanas de municípios, lançamentos de livros, almoços de confraternização, sessões políticas, muitas sessões políticas, música, poesia, estas paredes viram de tudo um pouco. Todos nós cá viemos, muitas vezes. Porque é a nossa Casa.

E cem anos não é coisa pouca. Daí que se tenha decidido editar um livro comemorativo. Que é sobre a Casa do Alentejo e é sobre a nossa região. A diversidade arquitetónica que aqui encontramos corresponde às múltiplas diversidades e contrastes que encontramos na nossa região. Sob uma aparente unidade escondem-se múltiplas realidades.

Há um conjunto de textos que nos enquadram no espaço e no tempo. A geologia, a história, a arqueologia são convocadas para nos darem uma explicação cabal do que aconteceu e de como aconteceu. Esse é o pano de fundo. O livro desenvolve-se depois num conjunto de tempos, de temática muito ampla, onde muitas conversas cabem. As permanentes citações e referências a amigos presentes ou a outros que já partiram fazem também do livro uma verdadeira fraternidade alentejana. Páginas afetuosas por onde passam as recordações (e vou citar apenas alguns) de Luís Jordão, de Vitor Paquete, de Manuel Geraldo, de António Galvão, de Miguel Serrano, de Urbano Tavares Rodrigues, de Manuel da Fonseca... Há nomes que conhecia mal, como os de Victor Santos e de Fausto Gonçalves, que agora não só conheço melhor mas aprendi a respeitar. O passar do tempo apaga a memória dos homens. É uma lei da qual muito poucos se libertam. Fixar em texto e para a posteridade aqueles que ajudaram a construir esta casa não é tarefa secundária.

Esta Casa representa todos os alentejos deste mundo. O dos 400.000 habitantes que vivem nos distritos Beja, Évora e Portalegre e os outros que se espalham pela cintura industrial de outos tempos. Almada, o Seixal, a Piedade, a Amadora, Sacavém, quantos alentejos por aí andam. Os bairros de subúrbio superlotados têm contraponto no despovoamento transtagano. Dois deputados eleitos por Portalegre, três por Évora, três por Beja. Oito ao todo. É metade dos que a região elegia em 1976. Ao fim dos dias de trabalho eu próprio regresso à Amadora. A Venda Nova, a Damaia e o Bairro Janeiro são pedaços de um mosaico alentejano que, por estas bandas, vai desaparecendo aos poucos.

Todos os alentejanos que partiram pensam no regresso. Todos os que aqui estão olham para esse horizonte, que tantas vezes nos foge. Há hoje mais alentejanos fora da região que dentro do território. A narrativa de uma evolução é feita, com toda a clareza, por Jorge Gaspar, nas páginas deste livro. O Alentejo mudou muito, nestas últimas cinco décadas. Mudou a paisagem física, tal como se alterou a humana, tal como se transforma a paisagem política. O Alentejo já não tem proletariado rural. A Margem Sul já não tem proletariado industrial. O proletariado mudou de ramo. Está nas grandes superfícies, nas empresas de trabalho temporário e a consciência de classe é coisa dos manuais clássicos.

Todos estes alentejos estão presentes nas páginas deste livro. Ora é o Alentejo histórico que encontramos, ora o geográfico, ora o do debate político. Ora é memorialista e se ocupa do próprio edifício que é a sede da casa, ora convoca artistas, poetas e intelectuais. Não ficamos com uma mini-enciclopédia do Alentejo, nem com um dicionário de pessoas, locais e obras. Não era essa a intenção, afinal. Mas as dezenas de autores que colaboram neste livro do centenário ajudam-nos a compor um fresco da realidade alentejana no seu devir histórico. O Alentejo e a sua casa são o díptico de que se compõe este livro.

         Resta-me felicitar os protagonistas, o João Proença, a Rosa Calado e o Fernando Mão-de-Ferro.Sei, por experiência, o que é garantir a entrega atempada de textos, fazer cumprir prazos de redação e de revisão e assegurar que ninguém falha (prefaciador incluído).

         O livro é um testemunho importante de uma época. E é uma peça essencial para a história desta casa. A verdadeira saga que envolveu a compra do edifício seria hoje impossível, não tenhamos disso ilusões. O que nos torna a todos responsáveis por ela e nos obriga a fazer da Casa do Alentejo uma orgulhosa afirmação do nosso território.

Na última página do derradeiro texto do livro escreve Victor Encarnação “Sonhei que um dia havia de ter uma casa a morar / dentro do meu peito. / A Casa é o Alentejo”. É o final perfeito para um livro em que a ideia do regresso está, de uma forma ou de outra, sempre presente.


sábado, 4 de novembro de 2023

NUNO CALVET (1932-2023)

Morreu, na passada semana, o fotógrafo Nuno Calvet. Um discreto adeus, anunciado alguns dias mais tarde pela família.

Um extraordinário fotógrafo, com grande ligação ao Alentejo. Aqui, escapou ao folclorismo e registou-o em tons nacarados e pastel.

Messejana, em 1981, quando registou muitos sítios da nossa região.



sábado, 10 de junho de 2023

CASA DO ALENTEJO - 100 ANOS

A Casa do Alentejo cumpre, hoje, 100 anos. Uma instituição que é de todos nós, alentejanos. Um palácio de grande beleza, onde já estive vezes sem conta. Razões pessoais impediram-me de estar presente na sessão comemorativa que hoje teve lugar. Estarei seguramente, na sessão de apresentação do livro que celebra este centenário. E para o qual tiveram a simpatia de me convidar para ser o prefaciador.

Viva a nossa CASA DO ALENTEJO!


terça-feira, 1 de novembro de 2022

NEM BESTSELLER, NEM BLOCKBUSTER...

... mas é um bom resultado.

Este projeto está agora terminado. Dentro de um ano haverá a memória do filme e dos livros que ficaram. Sobretudo de grande esforço que tudo isto foi. Para já fica o registo:

O livro foi descarregado mais de 3750 vezes do site - www.duartedarmas.com

O filme já foi visto mais de 1000 vezes no youtube - https://www.youtube.com/watch?v=5OZoMTDVFUA



quinta-feira, 13 de outubro de 2022

A CONSTRUÇÃO DA PAISAGEM, EM MONSARAZ

Domingo, será dia de Monsaraz. Para falar do projeto sobre Duarte Darmas (tenho a sensação que isto se irá repetir e tripetir...), numa sessão em que partilharei o espaço de intervenção com Álvaro Beleza, presidente da SEDES. Vai ser interessante ensaiar outras formas de ver a paisagem.



sexta-feira, 7 de outubro de 2022

CASTELO DE VIDE, EM MODO DE ABERTURA

As Jornadas de Castelo de Vide deram-me a oportunidade de divulgar um projeto que agora finalizo. Coube-me a conferência de abertura (Duarte Darmas – desenhador do rei e construtor da imagem do Portugal raiano). Um momento francamente bom, revisitando outro Alentejo. Embora não tenha deixado de pensar "convidado para fazer este género de aberturas? estás a ficar velho, é o que é...".


quinta-feira, 26 de maio de 2022

DUARTE DARMAS: LIVRO ACESSÍVEL ONLINE

Mais um passo, num projeto que se aproxima da sua conclusão. Está, a partir de hoje, disponível para consulta e para descarga gratuitas, o livro que resultou do projeto. O mesmo sucederá, muito em breve, com o filme e com a exposição, que serão também disponibilizados sem encargos a todos os interessados.


http://www.duartedarmas.com/livro.php


domingo, 3 de abril de 2022

CANTATA(s)

Anda tudo sedento de tomar o gosto à vida, depois destes dois anos estranhos e sem classificação possível.

Música e vozes, ontem à noite e hoje à tarde. Tinha comprado bilhetes para o espetáculo do CCB há mais de dois anos. Foram devidamente "amortizados" (e com que qualidade!) ontem à noite. Um espetáculo comovente e forte. Tanto quanto as vozes que escutámos.

A tarde de hoje teve um enquadramento diferente. Um cantata da autoria do compositor argentino Daniel Schvetz. Um centena de pessoas deu um ambiente diferente ao Panteão Nacional, onde dominaram os sons de "Umbra Lusitania". Um espetáculo original, com uma partitura original e bela.


segunda-feira, 7 de março de 2022

NATUREZA MORTA

Até quinta, nas instalações da Fundação INATEL, em Évora.

Preocupações que andam na ordem do dia. Presença no território sob forma de imagem. Por José Manuel Rodrigues, nome maior da fotografia portuguesa.


CÉU MEU

Estava assim o céu da minha terra, às 16:47 de ontem.

De Juan Ramón Jiménez:

Sólo mi frente y el cielo.
Los únicos universos.
Mi frente, sólo, y el cielo.

(Entre ellos, la brisa pura,
caricia fiel, mano única
para tales plenitudes.
La brisa, que baja y sube).

Arriba, todo el ser vivo,
todo el sueño en mi sentido,
rozando a aquel con las alas
que a su armonía él le baja.

Nada más.
(¿Acaso eres
tú la brisa que va y viene
del cielo, amor, a mi frente?)


terça-feira, 12 de janeiro de 2021

O MEU CAPOTE

Foi no outono de 1982, iria jurar que uma semana ou duas antes do Natal. Parámos em Évora, já nem recordo porquê. Percorremos lentamente as arcadas ao longo da Rua João de Deus, a caminho da Praça do Giraldo. O meu avô ía silencioso, como quase sempre. Às tantas parou em frente a uma loja e decretou "vou-te comprar um capote". Acolhi a ideia com alguma reserva, capote era coisa de velhos... Mas nem pensar em rejeitar a prenda. Lembro-me que achei o preço uma barbaridade. O meu avô, sempre de uma austeridade cortante, nem pestanejava nesses momentos. "Gostas deste?", e assim passei a ser proprietário de um belo capote cinzento. Há momentos que não se esquecem.

Hoje é dia 12 de janeiro. O meu avô nasceu há precisamente 111 anos. Devo-lhe esta recordação e muitas outras coisas. Muitas delas decisivas, em termos de caminhos futuros.

O capote tem a bonita idade de 38 anos. É usado em Moura e em Mértola, em Lisboa nunca faz frio.



segunda-feira, 4 de janeiro de 2021

MEMÓRIAS PAROQUIAIS - CIDEHUS: UM SERVIÇO PÚBLICO

As "Memórias Paroquiais" são um insubstituível elemento de trabalho para quem queira estudar a realidade portuguesa. E não me reporto, necessariamente, ao século XVIII. Muita da informação que contêm é da maior importância para o período medieval.

As Memórias são o resultado de um inquérito às paróquias portuguesas, mandado fazer pelo Marquês de Pombal. Os resultados são de desigual interesse e dependem muito do empenho que cada pároco colocou na sua tarefa. Mas os dados são sempre relevantes e de enorme utilidade.

As Câmaras Municipais têm, progressivamente, vindo a promover a edição dessas Memórias. A de Moura fê-lo em 2002. Quando havia preocupações com o Património e editava livros.

Em plena redação de um trabalho sobre urbanismo, arquitetura e iconografia de sítios, fui parar a um magnífico site, feito a partir da Universidade de Évora.

As Memórias Paroquiais do Alentejo (já publicadas ou não) está lá disponíveis:

http://www.cidehusdigital.uevora.pt/portugal1758

Serviço público e investigação ao dispor de todos.

sábado, 2 de janeiro de 2021

DA IGUALDADE

Foi há semanas. Entrei num pequeno café do Alto Alentejo, para registar um prosaico totoloto. O dono do café estava em pleno e convicto monólogo com o que devia ser um cliente habitual: "sabes como é que eu sou; gosto de ajudar toda a gente" (o interpelado fazia que sim com a cabeça, sem grande entusiasmo); gosto de facilitar e não sou um gajo complicativo; estamos aqui para isso, não é?; olha, no outro dia, telefonou para cá uma às 7 menos um quarto, para eu lhe meter o euromilhões; disse-lhe logo que não; tenho que tratar toda a gente por igual, olha a esperta...". Virou-se para mim "o meu amigo faz favor de dizer".

Tive vontade de perguntar: "o que entende, em rigor, por ajudar e facilitar? é que não percebi a lógica da argumentação...". Em vez disso, limitei-me a dizer "são cinco apostas da máquina, por favor".

Woody Allen passeava pelas ruas de Manhattan, observando as pessoas à sua volta. Era esse um dos seus métodos favoritos para arranjar material para os argumentos. Todos os dias tenho testemunhos ao vivo que provam a eficácia do método.




terça-feira, 11 de junho de 2019

DA CASA DO ALENTEJO À FEIRA DO LIVRO

Da manhã para a tarde. Um feriado "atípico". O desafio para ser o orador convidado no 96º. aniversário da Casa do Alentejo deixou-me a certeza da passagem do tempo. Não costumam convidar juniores para a tarefa. Por outro lado, foi um enorme prazer estar, de novo, num sítio que diz tanto a tantos de nós. E dizer o que me ía/vai na alma sobre o futuro da nossa região. Acabei por ficar lá até meio da tarde, no meio de amigos e em convívio fraterno e ameno.

Mais acima, 1.700 metros a noroeste da Casa do Alentejo, esteve o meu sítio vespertino. Tinha lugar a apresentação da obra Portugal, uma retrospectiva. O auditório, na Feira do Livro, estava cheio e havia muita gente em pé. Um bom prenúncio. Não estava à espera que o Rui Tavares chamasse ao palco os autores presentes e, menos ainda, que nos convidasse a dar uma breve explicação do que tinha sido feito. Em todo o caso, creio ter sido útil aquela conjunto de pequenas intervenções.

Hoje, seguem outras "sagas". Um verão quente em perspetiva.