Hora di bai? Sim, “hora da partida”, em caboverdiano. (Re) verifiquei, quase com espanto, há semanas, que me faltam, em termos oficiais, menos de três anos para o final da minha carreira profissional. Dela não tenho razão de queixa, que os ziguezagues feitos foram por opção própria. Por vezes, por escolhas demasiado solitárias.
Quando terminei a licenciatura, em julho de 1985, tinha colegas que apostavam que faria carreira universitária. Um deles comentava o meu estilo de condução - prudente e não muito veloz - dizendo “tens condução de professor da faculdade”. Uma frase divertida e absurda. A Academia, naquela altura, não me seduzia nem um pouco. Mas também não a rejeitava. O mestrado, na Nova, e o doutoramento, em França, fizeram parte desse caminho. Depois houve a carreira autárquica (12 anos, zero de arrependimento), depois a direção do Panteão (já lá vão cinco anos e meio) e agora há a clepsidra, que avança sem cessar. Regresso, como sempre, a “Memórias de Adriano”: “dizer que os meus dias estão contados não significa nada; sempre assim foi; é assim para todos nós”. E, como sempre, retomo o trabalho.
Quando vier o outono de 2029 - é essa a “hora di bai”, se entretanto não for alterada e partindo do princípio que lá chegarei - a bússola apontará para um sítio entre 120° e 130° do local onde me encontro. “Nha sonho” está 215° a sudoeste.
Toda a nossa vida é uma geografia. De terras, de pessoas, da família, dos amigos. E dos outros, também. A passagem pelos sítios e os contactos com as pessoas são um lento cerzir de histórias. Misturam-se cores e padrões, como num tapete berbere. E, às vezes, muitas vezes, dá vontade de voltar às origens. E de nunca mais delas sair. Viajei pouco, ao longo destes 63 anos. Somam-se alguns sítios, num percurso sentimental curto. De que tenho sempre saudades? De Roma, de Tunis, de Damasco, de Argel, do Cairo, de Tadmur, de Hydra, de Atenas, de Granada. E, claro, do Tarrafal. Moura e Mértola serão sempre casos à parte.
O Panteão Nacional tem-me deixado pouco tempo “pessoal”. Coisa sem solução, ainda menos nesta idade, mergulho sempre demasiado no que faço. Em 2027 haverá mais uns quantos livros - quatro, se as contas não falharem, entre compromissos académicos e outros. O tempo é agora de acalmia. Não é ainda o momento, outra vez Yourcenar, de ver a linha da costa por entre uma névoa luminosa. Mas aproxima-se o momento do balanço, a hora de pensar no que será a vida depois da vida que tenho há 40 anos. Ainda não é hora de parar, o que só acontecerá quando não houver força para mais. Mas começa a ser o momento de planear a “hora di bai”. Que vai incluir uma família mais alargada, e esse é outro fator decisivo na equação sentimental. Voltarei a todos estes temas na crónica de 1 de outubro de 2029.
Crónica em "A Planície"
Sem comentários:
Enviar um comentário