terça-feira, 12 de janeiro de 2021

O MEU CAPOTE

Foi no outono de 1982, iria jurar que uma semana ou duas antes do Natal. Parámos em Évora, já nem recordo porquê. Percorremos lentamente as arcadas ao longo da Rua João de Deus, a caminho da Praça do Giraldo. O meu avô ía silencioso, como quase sempre. Às tantas parou em frente a uma loja e decretou "vou-te comprar um capote". Acolhi a ideia com alguma reserva, capote era coisa de velhos... Mas nem pensar em rejeitar a prenda. Lembro-me que achei o preço uma barbaridade. O meu avô, sempre de uma austeridade cortante, nem pestanejava nesses momentos. "Gostas deste?", e assim passei a ser proprietário de um belo capote cinzento. Há momentos que não se esquecem.

Hoje é dia 12 de janeiro. O meu avô nasceu há precisamente 111 anos. Devo-lhe esta recordação e muitas outras coisas. Muitas delas decisivas, em termos de caminhos futuros.

O capote tem a bonita idade de 38 anos. É usado em Moura e em Mértola, em Lisboa nunca faz frio.



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