segunda-feira, 1 de maio de 2023

CINCO QUILÓMETROS DE PAISAGEM

O meu bisavô José Perfeito (1887-1975) nunca foi a Beja. Tinha nascido em Aldeia Nova de S. Bento e viveu toda a vida em Moura. Em 1973 ou 1974, o meu pai ainda pensou levá-lo a Lisboa. Mas a saúde do avô Zé era frágil e ele optou por não o sujeitar a uma viagem longa.

A redação de um trabalho de investigação sobre as vias medievais tem-me levado a recordar, muitas vezes, o avô Zé. Lembro-me muito bem dele, sentado na sua cadeira de braços, na cozinha da Avenida da Salúquia, nº. 34. Quase sempre sorridente, quase sempre silencioso.

Do mundo, levou a imagem do sítio onde nasceu, de Moura e da Herdade da Defesa, onde laborou toda a vida. Foi trabalhador rural até o corpo ceder, numa idade já avançada. Um homem digno.

E tenho-me lembrado, sistematicamente, dele porque o percurso de casa para o campo, com regresso ao fim do dia, foi o quotidiano de quase toda a gente, até tempos recentes. Do mundo se saia conhecendo os poucos quilómetros de paisagem que permitiam a ida e vinda num mesmo dia, antes que o sol se escondesse. Viajar? Viajavam os militares, os mercenários, os comerciantes, os aventureiros e, bem entendido, os aristocratas. Uma das minhas bisavós, que trabalhou nos campos do Montijo, contava que tinha visto as luzes de Lisboa, lá ao longe. Essa dúzia de quilómetros que a separava da Civilização nunca foi vencida.

Ao longo de centenas de anos, assim foi. A realidade era imutável, o tempo quase não se movia. Lemos o “Itinerário de Antonino” (que talvez date do século III) ou o “Anónimo de Ravenna” (uma descrição dos caminhos que deverá ter sido escrita no século VIII) e estamos ante idênticas paisagens. Passamos depois às descrições geográficas de Ibn Hawqal, do século X, e de Idrisi, do século XII, e muito poucas coisas mudam. Havia uma estrada ao longo da costa algarvia, outra que se dirigia daí até Alcácer do Sal, e depois para Lisboa. Havia vias que cruzavam o território em direção ao centro da Península. Até ao século XVIII viveu-se nessa realidade lenta. As estradas de macadame, primeiro, os caminhos de ferro, mais tarde, e um rápido acelerar da vida vieram mudar o mundo. Mas, mesmo depois disso, uma vasta maioria de pessoas continuou a viver uma vida modesta, marcada por ritmos antigos. Nascia-se, vivia-se e morria-se num sítio, sem nada se ter sabido do que estava para lá dos cerros que determinavam o fim do mundo conhecido.

Pela minha secretária espalham-se fichas com nomes estranhos como Dimiana, Kanisat al-Gurab, Laqant, Ukasha, Shirush, Byza e outros assim. São esses sítios que me ajudarão, assim o espero, a reconstituir uma malha de caminhos. Por eles passaram gerações de homens, que na retina levaram apenas uns poucos quilómetros de paisagem. É esse mundo mais pequeno e íntimo que me interessa. Mesmo sabendo a impossibilidade que a escrita da História comporta e mesmo com a plena noção que as reconstituições que ensaiamos nos devolvem sombras, mas não a luz plena da realidade de outros tempos.

Crónica de hoje em "A Planície"

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