quinta-feira, 7 de maio de 2026

O CHIC-NIC

Em “Agosto 1914”, Alexander Soljenistsine relata a visita de um nobre russo ao Louvre. Fazia-se acompanhar, na deslocação ao célebre museu parisiense, por um criado que transportava uma cadeira. Quando lhe apetecia apreciar Arte, numa determinada sala, dizia ao criado “la chaise, là” [a cadeira, ali] apontando o local onde queria ficar sentado. A aristocracia russa foi varrida em 1917. Os gestos de quem olha o mundo de cima é que não.
 
Lembrei-me dessa passagem do livro ao tomar conhecimento, há dias, da realização de um “chic-nic”, em pleno Parque Eduardo VII, em Lisboa. Por um valor entre 150 e 300 podia-se usufruir de uma parte do jardim – privatizado por umas horas -, degustando iguarias, preparadas por restaurantes caros, e ouvindo música. Cada um gasta o que lhe pertence como muito bem entende. E onde quer. Mas – e há aqui um enorme MAS – o que é que não se pode admitir?
·      Que um jardim público seja privatizado, ainda que por umas horas, para usufruto de uns quantos;
·      Que o acesso ao local seja, por isso, limitado;
·      Que o evento tenha financiamento público (75.000 euros), daí resultando que o que a todos pertence só para alguns reverta;
·      Que não haja um mínimo de sensibilidade social e se passe ao lado dos problemas do mundo real (numa cidade, a capital, de está de pernas para o ar);
 
Perguntará o leitor o que interessa isso a quem vive em Moura, a mais de 200 quilómetros do evento. Interessa também, num momento em que se tentam privatizar praias, em que se cortam caminhos percorridos historicamente pelas populações, em que o acesso aos campos é cada vez mais difícil, em que o que é de todos passa a ser usado apenas por alguns. Em tom proprietário e com desprezo pelos “de baixo”.
 
O “chic-nic” (fantástica e parola designação) é um sinal dos tempos. Da forma arrogante de exercer o poder, da total sobranceria ante os mais desfavorecidos. Há quem nunca aprenda.  Não resisto a recordar Maria Antonieta, a rainha que gostava de organizar piqueniques chiques (chic-nics, portanto) nos jardins de Versalhes. E que acabou por ser a protagonista principal de um evento coletivo na Praça da Concórdia, em Paris, em 16 de outubro de 1793. Como me comentou um amigo, monárquico!, “aquilo foi de perder a cabeça”.
 
Tanto desvario e tanta falta de humildade são um sinal evidente dos tempos que vivemos. Um certo “direito do mais forte à liberdade”, para usar livremente o título do filme de Rainer Fassbinder. Aos mais desalentados (e no meu ceticismo crónico não sou exatamente um “otimista”) recordo sempre que a História não acabou; que esta é a cava da onda; que constatamos o que, em astronomia, se designa por “movimento retrógrado aparente” – em que um planeta parece recuar visto a partir de um ponto fixo, mas tal não passa de uma ilusão de ótica. Como a própria História se encarregará de explicar.

Crónica em "A Planície"

A imagem é de um conhecido "nude-nic", pintado por Manet.




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