terça-feira, 1 de setembro de 2026

NAS FRONTEIRAS DE UM PAÍS À MESA

De entre as tarefas que recordo com mais estranheza da minha carreira autárquica está, sem qualquer dúvida, a da missão de confirmar a correta localização dos malhões que delimitam Portugal e Espanha. Isso cabia ao Município, tanto quanto recordo, nos terrenos da Herdade da Contenda (o conhecido e sempre citado 1008 é o da fotografia). Era feita depois uma ata, que se remetia ao Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Com poucas exceções, a nossa fronteira está mais que fixada há muitos séculos. Quais são as exceções? Olivença (cuja área continua sem linha de fonteira marcada nas cartas militares), situações como a do Castelo de Piconha (que só passou para o território de Espanha pelo Tratado de Lisboa de 1864, um curioso documento que vale a pena ser lido) ou da região de Rio de Onor, onde um comunitarismo quase poético resistiu até ao século XX. De resto, as fronteiras estão fixadas e são conhecidas desde há muito. Até por isso se torna difícil perceber todas as subtilezas, e todos os conflitos que persistem por esse mundo fora. Aí se incluem as tensões das línguas, das minorias, dos territórios que mudam várias vezes de soberania – como a Crimeia, desde há séculos foco de sangrentas batalhas –, dos enclaves em território “hostil”.

Portugal é um exemplo incomum de estabilidade territorial. Não tivemos a unificação de várias coroas, como a Espanha do final do século XV. Não passámos por um processo de “criação” de línguas nacionais, como sucedeu em França ou em Itália. Não temos minorias étnicas (os ciganos são, a esse nível, uma situação particular e geograficamente transversal). Estamos pacificamente instalados.

Sempre acreditei que foi essa estabilidade que nos permitiu virar para dentro e dar asas à criatividade culinária. Depois de algumas incursões por outros países (pouco mais de 25, em todo o caso…) vincou-se-me esta ideia: os nossos “conflitos” são à mesa. De norte a sul, passando pelas ilhas, a variedade, a diversidade e a criatividade são absolutamente extraordinárias. Com pratos específicos de cada sítio e que é impossível encontrar fora de uma fronteira cultural e gastronómica específica. O xerém do Algarve, as açordas do Alentejo, os maranhos da Beira Baixa, a chanfana mais a norte, as minhotas papas de sarrabulho, a terrível alheira do Nordeste, fazem parte daquilo que nós somos. E que se prolonga no prazer de estar com outros. E de convidar à nossa mesa. Tentem lá receber um convite na Escandinávia…

Que as coisas assim se mantenham e nos livrem dos horrores gastronómicos – para que conste, nunca pus os pés num KFC e há uns bons 10 anos que não entro num McDonald’s – que, esses sim, ameaçam a nossa civilização. Conservemos a paz. Que em guerra não há tempo para cozinhar. A nossa paz trouxe-nos a paz à mesa. Assim nos mantenhamos.


Imagem no blogue http://acstcmm.blogspot.com/

Crónica em "A Planície"

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