quinta-feira, 3 de maio de 2012

O GABRIEL ALVES DOS TRÓPICOS

Daba na Walna, porta-voz do “Comando Militar” e chefe do gabinete do general António Indjai, chefe do Estado Maior das FA, segundo um despacho da LUSA de 1 de maio:

é no âmbito da busca de "soluções endógenas internas" que o Comando Militar se vai reunir ainda hoje, na Cúria Diocesana, com o PAIGC (Partido Africano da Independência da Guiné e Cabo Verde).

Soluções endógenas internas? Então e se forem endógenas externas? Ou exógenas internas?


quarta-feira, 2 de maio de 2012

TAUROMAQUIA EM MOURA: PATRIMÓNIO CULTURAL DE INTERESSE MUNICIPAL

Foi há cerca de uma hora. A Câmara Municipal de Moura aprovou, por proposta que tive a honra de apresentar, a classificação da tauromaquia como Património Cultural Imaterial de Interesse Municipal. O nosso município junta-se a outros. A ideia é a de promover uma candidatura visando a classificação das manifestações taurinas como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO.

Tauromaquia é cultura.


Goya: as atividades taurinas nas artes

BENFICA - 2.05.1962

Eusébio (por duas vezes), José Águas, Cavém e Coluna marcaram os cinco golos com que o Benfica derrotou o Real Madrid. Foi a última Taça dos Campeões Europeus ganha pelo meu clube. Faz hoje 50 anos.

LICENCIAMENTO A ZERO: UMA HISTÓRIA PORTUGUESA

Em 27 de agosto de 2010 comentei o anúncio do licenciamento zero, bem como as expetativas, porventura desajustadas, que estavam a ser criadas (v. aqui).

Correu pior do que eu pensava. Em 1 de abril de 2011 foi publicado um decreto-lei, 48/2011 de sua graça. O qual avisava "atenção que a partir de maio de 2012 isto é a sério". Na Câmara de Moura levámos o aviso a sério, claro. Vai daí toca a trabalhar para, na medida do possível, responder às novas necessidades e para se adaptarem as rotinas a novas circunstâncias.

Em 9 de março de 2012, um mail da AMA (Agência para a Modernização Administrativa) avisava para a possibilidade de "diferimento na entrada em vigor do decreto". Dizia o mail, entre outras coisas, que "[o] planeamento foi seriamente prejudicado pelo Despacho n.º 154/2011 do Ministro de Estado e das Finanças, de 28 de abril de 2011, que impediu a assunção de novos compromissos no orçamento de PIDDAC, impossibilitando o lançamento do procedimento de aquisição dos serviços de desenvolvimento de software de que dependia a implementação da generalidade das funções do BdE listadas no artigo 2.º da Portaria acima referida". Em tradução livre: se não fossem estes empatas das Finanças punhamos isto a andar.

No dia 24 de abril veio a estocada final: a coisa é adiada por um prazo que pode ir até dois anos. OK, não há problema, a malta espera.



terça-feira, 1 de maio de 2012

PINGO AMARGO

Hoje, o Pingo Doce abriu as portas. O chamariz de 50% de desconto, numa altura em que as famílias vivem momentos de grandes carências, resultou. Houve corrida às lojas. A polícia foi mesmo obrigada a intervir, para acalmar clientes mais ansiosos. Esta iniciativa foi uma forma de sabotar os direitos dos trabalhadores, no seu dia? Foi, claro. Nada de muito surpreendente de quem fez o que fez com a sede das suas empresas, de forma a deixar de pagar impostos em solo pátrio (v. aqui).

Lentamente, vai-se instalando na sociedade portuguesa este sentimento de impunidade no ataque aos valores da Democracia. É um permanente sentido de vingança de que não perdoou, não perdoa nem perdoará um certo 25 de abril. Diga-se claramente que chantagear trabalhadores para os obrigar a fazer uma jornada normal num dia 1 de maio é uma atitude da mais completa baixeza. E tentar desviar as pessoas de uma jornada de reflexão e luta revela o estofo moral dos promotores da iniciativa. E a verdade é simples e é esta: esta gente nunca teve, não tem nem nunca terá respeito pelos trabalhadores nem pelos mais desfavorecidos. Olhou, olha e olhará para o povo como um grupo de gente cuja única vocação é servi-los.

Acontece que, ao contrário do que escreveu o banal senhor Fukuyama, não estamos no fim da História. Muito longe disso.


O cartoon data de 1871, mas podia ser de hoje

NATUREZA MORTA Nº 6

Hoje é Dia do Trabalhador. Daí a natureza morta vermelha, de William Scott (1913-1989), pintada na Irlanda, em 1956. Daí, também, a frase de Confúcio, em relação à qual tenho, cada vez mais, firmes certezas.

 

"Escolhe o trabalho de que gostas e não terás de trabalhar um único dia na tua vida."
Confúcio (551 a.C. - 479 a.C.)

segunda-feira, 30 de abril de 2012

A MISSÃO EVANGELIZADORA DO BLOCO DE ESQUERDA

Uma das características mais ternurentas do Bloco de Esquerda é aquele hábito evangelizador de quererem pensar por nós e decidir por nós. E não estão no poder...

Agora, resolveram embirrar com as corridas de touros. Irmã vaca, irmão touro, assim tipo franciscanos do burladero. Os argumentos, as falácias e as demagogias são as do costume: a violência blabla o sangue blabla o dinheiro público blabla. Mas o melhor é invocarem a "alteração ética" e, melhor ainda, "a mudança de pensamento na sociedade". Ena! Já policiam o nosso pensamento e decidem aquilo de que devemos gostar. E não estão no poder...

Uma perguntinha: ainda há corridas de touros em Salvaterra de Magos?

Clérigo do Bloco de Esquerda abençoando boizinhos

ÁGUA-FORTE

O preto no branco,
O pente na pele:
Pássaro espalmado
No céu quase branco.

Em meio do pente,
A concha bivalve
Num mar de escarlata.
Concha, rosa ou tâmara?

No escuro recesso,
As fontes da vida
A sangrar inuteis
Por duas feridas.

Tudo bem oculto
Sob as aparências
Da água-forte simples:
De face, de flanco,
O preto no branco.

 

Já há algum tempo andava para colocar aqui esta fotografia de Whoopi Goldberg, retratada por Annie Leibovitz (n. 1949), verdadeira cronista da gente da (na) moda desde os anos 70. Leibovitz tem uma série de produções marcadas pela exuberância, roçando muitas vezes o espalhafato. Criou um número muito apreciável de imagens simbólicas. Mas uma das fotografias de que mais gosto é esta, justamente pelo humor, pelo jogo cromático e pela simplicidade. A atriz parece estar verdadeiramente divertida. Se não está, imita muito bem.

O poema? É de Manuel Bandeira. E o título é, de facto, Água-forte.

domingo, 29 de abril de 2012

STROMBOLI

Apenas a água principiou a ferver, com a revolução do peixe que se aproximava da superfície, rompeu a mais tremenda gritaria e algazarra, de que tenho memória, e que ainda redobrou ao aparecimento dos primeiros atuns. Começou então a toirada.
Sucedeu que o primeiro atum arpoado se escapou, e caído à água com tal velocidade parecia voar, jorrando sangue que o acompanhava de um rastro de púrpura. A assuada ao marujo infeliz foi medonha, e vi jeitos de o atirarem também à água. Mas é que os primeiros atuns que apareciam, tendo ainda campo avonde para nadar, fugiam das barcas, enquanto os marujos, abrindo os braços, e com grandes pancadas no costado das lanchas, os incitavam às sortes, como se fossem bois.
Isso, porém, durou pouco. Entre borbolhões de espuma assomou logo uma densa camada de peixe, e tão apertada pelo costado das barcas, que os marujos quase lhe davam às cegas, levantando uma cabeça a cada arpoada.
Viu-se então que o atum era de bom calibre e muito. Ao meu lado, um perito amador, mas de reconhecida autoridade, ia-o contando, e quando chegou aos quinhentos verificou-se que não fazia falta no copo, onde continuava a afluir em camadas igualmente densas.
O sangue e a água, misturados, soltavam-se aos cachões, envolvendo os peixes em línguas de púrpura cristalina, e ao centro da rede faziam remoinho, abrindo um poço fundo e largo, por cujas paredes transparentes giravam, desvairados, os grandes bichos cintilantes.
Dissera-me o meu hóspede que o Joaquim Negrão me preparava uma surpresa, e sem o ter esquecido eu pensava, com cepticismo, no que poderia haver mais surpreendente do que aquele espectáculo de colossal carnificina, com tal cenário, nunca igualado, nem aproximado pela fantasia do mais asiático dos imperadores romanos.
O contador já ultrapassara o milhar e ainda o peixe acudia em abundância, sendo algum de extraordinário tamanho. Eram os "velhos manhosos", observava um marujo, que só aparecem no fim. Com efeito, as camadas que vinham à superfície tornavam-se pouco a pouco menos densas, avolumando ainda mais as proporções dos "velhos manhosos" que se multiplicavam.
O Negrão, aproximando-se do meu grupo, para falar com o mestre da companha, bradou-me:
- "Agora vou-lhe mostrar um quadro da mitologia." - "Vamos lá ver", repliquei, se bem que pouco disposto ao entusiasmo, já embotado pela prodigiosa cena a que assistia. Depois de falar com o mandador, o Negrão gritou para a ré da barca: - "Bem, se não há mais nenhum, que venha cá o Serafim..." - "O Serafim, o Serafim!" pôs-se a clamar quase em coro a marujama, e um rapaz atarracado, embezerrado, e arruivado, como que lhe veio nos braços, pela amurada fora, até onde o Negrão estava. E ouvi este que lhe dizia: - "Não quero desculpas; é para já..."
Então o rapaz, depois de olhar entre envergonhado e receoso para o meu grupo, principiou a despir aquela quantidade de trapalhadas em que os pescadores se envolvem, mesmo de Verão, quando vão para o mar. E apareceu admiravelmente bem proporcionado e forte, com um tronco de coiraça grega, abaulado no peito e estio no ventre, os quadris estreitos, mas as coxas volumosas e de formidável musculatura. Tirante os pulsos, o pescoço, e os pés, que andavam tostados do sol, todo ele era de uma brancura marmórea. De pé, na borda da lancha, erguendo os braços e juntando as mãos, tomou um leve balanço e jogou-se à água, sumindo-se entre os peixes.
Mas em poucos segundos ele surgia, quase na extremidade oposta do copo, montando um enorme atum, que, para se desembaraçar da estranha carga, entrou a correr vertiginosamente, saltando sobre o outro peixe que lhe impedia a passagem, ou mergulhando subitamente, para reaparecer alguns metros mais longe, sempre com o tritão às costas, agarrado com a mão esquerda a uma das alhetas, agitando a outra mão no ar, e dando gritos de triunfo. O rapaz estava transfigurado; resplandecia de audácia e mocidade, entre as grandes salsadas de água rubra que lhe lambiam o corpo, e luzia, ao sol, como um vivo mármore cor-de-rosa.
Animados pelo exemplo, outros rapazes se atiravam à água, para cavalgar os peixes, mas nenhum tinha a segurança heróica, nem a graça helénica do Serafim.
A pesca fechou acima de mil e trezentas cabeças. Mais de "treze centos", como dizia a gente da companha. Fora, na verdade, uma copejada maravilhosa.
Tomámos o bote para regressar a terra. O sol ardia já como fogo, e em volta da armação formara-se um círculo imenso ensanguentado, onde as lanchas, carregadas de peixe, bordejando, abriam silhagens de carmim, que se lhes reflectia nos bojos das velas pandas.
Quando entrámos em águas limpas, senti a necessidade de me purificar, depois daquela monstruosa hecatombe, e atirei-me, nu, ao mar. Após vários mergulhos fundíssimos, até onde o peso morto do corpo me podia levar, passei debaixo dos braços um cabo que lançaram do bote e deixei-me rebocar para terra, já meio adormecido...


A ideia de colocar um excerto de Stromboli (Roberto Rossellini, 1950) não é de agora. Não era exatamente esta a cena que tinha em mente, mas um facto ocorrido há uns tempos levou-me a escolhê-la.

Perguntei a alunos de uma turma de licenciatura em História (12) e de uma turma de mestrado (12) "quem foi Manuel Teixeira Gomes?". De entre duas dúzias de alunos de grau superior, apenas 2 (dois) sabiam quem tinha sido. Os restantes nunca tinham ouvido falar de um homem que foi Presidente da República (1923-1925) e que assinou uma obra literária de reconhecido mérito. A culpa não é deles, bem sei...

O excerto que acima se reproduz faz parte do texto Uma copejada de atum, publicado na obra Agosto Azul.

sábado, 28 de abril de 2012

MIA BELLA MOURA

Há cinco cidades que tenho especial curiosidade em conhecer (por esta ordem):

1. Nápoles
2. Cartum
3. Tóquio
4. Isfahan
5. Nouakchott

Nápoles não me surpreenderá, em termos de ambiente urbano.  É uma certeza firme. Sobretudo depois de conhecer Moura (a minha cidade natal, no Alentejo meridional) há quase 50 anos. Tenho a convicção de vir ali a encontrar uma cidade gémea...

Em agosto do ano passado deparei, numa das ruas de Moura, com um contentor do lixo que fora alvo de uma intevenção de arte pública (soi-disant...). Alguém colara um recorte de uma revista, com um risonho bebé, por cima do brasão da cidade. Fotografei e pensei "só em Moura...".

Pensava que todas as possibilidades de criatividade estavam esgotadas. Até ontem. Fui alertado, por um mail do meu amigo José António Oliveira, que alguns miúdos da cidade andavam a roubar as rodas dos contentores do lixo para as usarem em improvisados carros de corrida. As célebres carretas dos meus dias de meninice e que pensava estarem esquecidas para todo o sempre. Naquele tempo usavam-se rodas de rolamentos e as velocidades que se atingiam na estrada de Brinches desafiavam qualquer Fittipaldi... Agora são as rodas dos contentores do lixo...

Olhei o mail, estupefacto, enquanto pensava "putaquepariu, as rodas dos contentores do lixo? o que mais se irá inventar na mia bella Moura?". Não me atrevo a pensar, sobretudo num sítio onde indisciplina, criatividade, reguilice, hedonismo, iniciativa, orgulho e alegria de viver andam a par.

Moura é divertida? É, mais do qualquer outro sítio que conheço. E exasperante, na mesma medida.


PS: alguém me arranja o mail de Stefano Domenicali? Pode estar interessado em contratar um dos artistas, nunca se sabe.

sexta-feira, 27 de abril de 2012

MANUEL RIO-CARVALHO: ARTE CONTEMPORÂNEA - 1984/85

O meu colega e amigo Rui Costa Pinto citou no facebook um texto do blogue Centro Nacional de Cultura, assinado por Maria Helena Souto e em homenagem a Manuel Rio-Carvalho (1928-1994) - v. aqui.

De entre todos os professores que tive na Faculdade quatro foram decisivos: António Marques de Almeida, Cláudio Torres, João B. Serra e Manuel Rio-Carvalho.

Este último foi meu professor de História da Arte Contemporânea no 4º ano. Homem de invulgar cultura e sensibilidade, Manuel Rio-Carvalho transformava cada aula num momento de descoberta, pontuando as explicações com comentários bem-humorados e indo buscar ligações e exemplos onde menos esperaríamos. Aquela disciplina foi uma verdadeira celebração, uma mistura de idas ao teatro, visitas a exposições, passeios pelas ruas de Lisboa e deslocações a museus. Levava-nos festivamente aos ambientes mais espantosamente lumpen da Mouraria e depois cumprimentava-nos com uma fria cordialidade britânica quando íamos assistir às conferência que dava na Gulbenkian. Politicamente conservador, tinha uma abertura de espírito que o levava a considerar os nossos radicalismos como uma espécie de acne mental.

Tinha o hábito de dizer e de escrever coisas surpreendentes. Recordo, em especial, um texto que redigiu para o Jornal de Letras (1983? 1984?) intitulado "Para compreender a beleza do Barreiro". Evocando referências tão díspares como a "Carmen", de Bizet e o "Deserto Vermelho", de Antonioni, Rio-Carvalho encontrava poesia num subúrbio industrial. Usei a sua inspiração para um textinho bem mais modesto que, muitos anos depois, escrevi para a Planície e ao qual dei o título "Para compreender a beleza da Salúquia".

Depois de me ter saído particularmente bem no teste escrito final de Arte Contemporânea (onde, pedantemente, misturei o ensino artístico e as perspetivas althusserianas de reprodução da classe dominante) e de um trabalho com uma apresentação-perfomance sobre a pop-art Rio-Carvalho aconselhou-me seriamente a seguir uma carreira de crítico de arte. Ainda hoje a ideia me diverte...

A dispensa de prof. Rio, como era conhecido no Instituto de História da Arte, é um episódio sórdido da história da Faculdade de Letras. Voltei a encontrá-lo apenas uma vez, dois ou três depois de concluir a licenciatura, na Fundação Gulbenkian. Ficou surpreendido pela minha opção pela arqueologia islâmica. Desejou-me boa sorte. Ficar-lhe-ei para sempre reconhecido por aquelas aulas e pela aprendizagem e descoberta que nos proporcionou.

 
Jantar final do curso de História da Arte (julho de 1985)
Ginjal, Almada

O sítio era, na altura, uma taberna modestíssima. Foi o prof. Rio, claro, que nos indicou o sítio e depois nos apresentou aos donos. Percebemos que era habitué. Rio-Carvalho está à esquerda na foto. Imediatamente a seguir, e com uma frondosa cabeleira, não está o cantor pop israelita Izhar Cohen, mas sim o Dr. Cláudio Torres.

SER SAXOFONISTA É TER NA ALMA UMA CHAMA IMENSA

O jornalista do "Público" Nuno Catarino diz, numa crítica de jazz, a propósito da americana Matana Roberts que ser saxofonista é ter na alma uma chama imensa.

Prepare-se, meu caro. Com um pouco de azar vai haver queixa na Procuradoria, como no caso da senhora que metia um viva o Benfica na música do "atirei o pau ao gato".  O sr. Lopes e o sr. Costa já tratam de si...

Não conheço Matana Roberts. Mas, com uma crítica destas, vou comprar o disco.

Pormenor da capa do livro de Ricardo Araújo Pereira

quinta-feira, 26 de abril de 2012

FOSGASSE, TAMEIN SÓ FASEM PREGUNTAS BUÉ DIFÍSSEIS...

Do que eles se tinham de lembrar...
Perguntar a deputados os nomes do último chefe do governo antes do 25 de abril e do primeiro a seguir. Barraca total (ver aqui). Gostei em especial daquela resposta-vaselina do moço que disse "o importante é comemorar a data blablabla". Esse é dos que vai longe.
Curioso, o único a acertar foi um deputado do CDS-PP.
 

O BORGES

A cara do senhor que me atendeu no restaurante era vagamente familiar. Mas não mais que isso. Alguém referiu, ao meu lado, que era um dos donos do “Borges”. Aí sim, ligou-se a máquina do tempo, o cabelo do senhor ficou mais escuro, as rugas desapareceram e ficou à minha frente, por artes mágicas, o homem que servia imperiais ao balcão do Borges. A cervejaria nada tinha de especial, a não ser a afabilidade dos empregados, que aturavam sorridentes a impertinência da juventude de Letras, e o facto de ficar mesmo à saída da Alameda da Universidade. O Borges tinha um estranho íman, que nos puxava lá para dentro, só para espreitar, só para ver se havia alguém. Fatalmente, havia alguém. Assim foi, entre 1981 e 1986.

A sala de entrada era o grande ponto de encontro dos alunos da faculdade. Do lado esquerdo ficava o balcão. À direita, havia filas de mesas, encostadas umas às outras, para rentabilizar o espaço. Isso diminuía a intimidade das conversas, mas ninguém ía para o Borges namorar. As séries de imperiais e de tremoços desfilavam por entre discussões mais ou menos absurdas sobre o futuro da investigação, sobre a falta de saídas profissionais, sobre a entrada de Portugal na CEE. Discutiam-se os livros comprados na livraria da esquina. Passei lá muitos finais de tarde, na companhia de colegas que, por vezes, voltei a encontrar muitos anos depois. Alguns tornaram-se pessoas muito importantes, que ganharam tiques e pose e que falam com um tom de voz que cheira a Poder. Nunca lhes recordo esses dias, não vão eles ficar embaraçados. 

O João abominava o Borges, que classificava como “espelunca”. Não era tal, mas o João às vezes tinha coisas assim e só lá fomos almoçar uma vez. Um dia de grande azar, porque encontrou uma mosca no meio do arroz de polvo. Foi a única mosca que vi no Borges, e logo morta, e fiquei convencido que os empregados sabiam da opinião do João sobre o Borges e lhe semearam a mosca no prato… 

Não sei se o sítio ainda existe. Se existir não entrarei. Com um pouco de sorte não terá sido transformado num “fast-food”. Com mais sorte ainda, haverá lá dentro um sortido de estudantes despenteados, discutindo coisas absurdas. Não é sítio para homens grisalhos. Cabelos brancos só detrás do balcão, onde pontificarão, se o sítio existir e não for um “fast-food”, empregados antigos, dispostos a aturar o barulho da juventude. E, talvez, com um “stock” de moscas mortas para alvejar clientes impertinentes.


Texto publicado em "A Planície" (1.4.2012)
Ao tentar copiar uma fotografia - a única que encontrei na net- com a fachada atual do Borges a imagem "desconfigurou", creio que é assim que se diz. A imagem ficou com sobreposições e fantasmas. É sempre assim quando se tenta recuperar o passado, não é?

quarta-feira, 25 de abril de 2012

TÁXI!

O 25 de abril de 1974 trouxe-nos, felizmente, a possibilidade de sermos interventivos e irreverentes sem estarmos condicionados a censores, a bufos e a pides. O País de hoje nada tem a ver, e ainda bem que não tem, com o de 24 de abril de 1974.

Entre 1974 e 1982 as paredes das nossas cidades foram um importante suporte de escrita e da liberdade de expressão. Enormes murais cobriam muitas paredes, nem sempre da forma mais adequada ou no local mais apropriado.

Os murais do MRPP eram dos mais expressivos e militantes. Sofriam, por vezes, os efeitos do humor cáustico dos tempos que se viviam. No que aqui se reproduz, e que estava no Largo da Estrela (Lisboa), em dada altura um espirituoso resolveu acrescentar um balão à frente da imagem do grande dirigente e educador do proletariado português, Arnaldo Matos. Que dizia o balão? Isto apenas: "Táxi!".

Viva o 25 de abril! Também por coisas como esta.
 
 

VERMELHO




Hoje é aquele dia que a direita detesta. Detesta mesmo, por mais que tente disfarçar. A prova está nas recentes manobras de destruição de algumas das mais belas conquistas que a revolução de abril proporcionou. Como o Poder Local, uma das mais radicais e inovadoras modificações que a sociedade portuguesa conheceu.

Muita gente contribuiu para que o dia 25 de abril chegasse. De entre todos, reservo um lugar especial para os meus camaradas do Couço. Durante longos anos lutaram de forma abnegada por melhores condições de trabalho e de vida. Foram presos às centenas. Uma das jornadas de luta ocorreu em abril de 1962, faz agora 50 anos. Os registos da PIDE não deixam margem para dúvidas quanto à violência da repressão. Os operários do Couço não têm amigos nos jornais nem entre a intelectualidade lisboeta. Por isso, a efeméride passará mais ou menos incógnita, sem o estardalhaço que envolveu as comemorações do dia do estudante.

O meu 25 começou há algumas horas, num jantar com camaradas do PCP, em Mértola. Continuará pelo Couço (onde nunca fui e onde estarei apenas sentimentalmente), recordando as fotografias de Fausto Giaccone, testemunho único de dias fundamentais na construção da história recente portuguesa.

Onde andas tu, Maria Antónia, minha camarada do Couço?


 

terça-feira, 24 de abril de 2012

DOIS DIAS DEPOIS, UM DIA ANTES

O score obtido por Marine Le Pen, em França, quase relegou para segundo plano a contenda Hollande-Sarkozy. Marine tem um ar de pessoa comum e diz as banalidades que agradam a um eleitorado que tem medo dos árabes, dos pretos e que ainda ainda sonha com la grandeur de la France. Essa foi uma das derrotas da esquerda. A outra é sabermos que a votação de Marine vem, sobretudo, do meio operário. E do sul, onde ganhou num departamento (Gard) e onde, outrora, o PCF predominava (em 1978 todos os deputados do Gard eram desse partido...).

É essa a situação em França, tandis qu'au Portugal já se esboçam derivas autoritárias. Segundo Magina da Silva, inspetor máximo da polícia, já foram dadas instruções para "impedir manifestações, desfiles e acções de rua que não tenham seguido todos os procedimentos legais". Uf... Um cravo na lapela exibido por mais de duas pessoas será uma ação de rua?

O Vasco Lourenço e o Otelo que se ponham a pau. Ainda lhes vão pedir cópia do requerimento que deviam ter entregue para fazerem o 25 de abril...

Conselho de amigo: vale a pena ler o blogue 5 dias.

Magina da Silva, uma Marine de calças (parto desse princípio, claro) e boina

OS PORTENTOSOS BÍCEPS DE JOÃO PROENÇA

 Ontem, João Proença, da UGT, foi dizer ao primeiro-ministro como é. E afirmou, num certo estilo de abstenção violenta, que "só ficará arrependido de ter assinado o acordo de concertação se tiver de o denunciar". Mai nada! Assim é que é. PPC deve ter ficado a tremer de medo...
 
Proença, exibindo a sua musculatura política após o encontro com PPC

segunda-feira, 23 de abril de 2012

EM CARTUM

Séguidille

Brune encore non eue,
Je te veux presque nue
Sur un canapé noir
Dans un jaune boudoir,
Comme en mil huit cent trente.

Presque nue et non nue
À travers une nue
De dentelles montrant
Ta chair où va courant
Ma bouche délirante.

Je te veux trop rieuse
Et très impérieuse,
Méchante et mauvaise et
Pire s'il te plaisait,
Mais si luxuriante !

Ah ! ton corps noir et rose
Et clair de lune ! Ah, pose
Ton coude sur mon cœur,
Et tout ton corps vainqueur,
Tout ton corps que j'adore !

Ah, ton corps, qu'il repose
Sur mon âme morose
Et l'étouffe s'il peut,
Si ton caprice veut,
Encore, encore, encore !

Splendides, glorieuses,
Bellement furieuses
Dans leur jeunes ébats,
Fous mon orgueil en bas
Sous tes fesses joyeuses !


Na verdade, não foi o autor do poema, Paul Verlaine, quem esteve em paragens africanas, mas sim o seu amante temporário, Rimbaud. O sítio onde Marta Sentís (n. 1949) fez esta fotografia, datada de 1984, deixa-nos margem para a imaginação. O poema de Verlaine parece-me, pois, apropriado ao ambiente vivido naquela casa da capital sudanesa.

domingo, 22 de abril de 2012

JOSÉ VILHENA

Com alguma surpresa, soube ontem que o autor mais castigado pela censura fascista foi o humorista José Vilhena (n. 1927), com 29 (!) livros apreendidos. Nem marxistas, nem neo-realistas, nada disso. Mas sim um autor dado a livros espalhafatosos, pouco convencionais e provocatórios. Onde o regime fascista era ridicularizado, sem dó nem piedade. Foi, por isso, várias vezes detido. Pior ainda, Vilhena divertia-se a satirizar o clero, de forma impiedosa e ácida. Coisa que um regime beato e sisudo não lhe perdoava. Diga-se, aliás, que o humor nunca foi o ponto forte das ditaduras.

Nunca foi "bem" gostar de José Vilhena. Mais um ponto em meu desabono: acho imensa graça ao estilo pouco delicado e a traço grosso de Vilhena. Ainda andam pelas minhas estantes exemplares de As misses, As noites quentes do cruzado D. Egas e A vaca borralheira. Um certo Portugal dos anos 50 e 60 passa por ali...

Rui Zink escolheu-o como tema para a sua tese de mestrado em Literatura e Cultura Portuguesas na UNL, em 1989. Ainda bem.

Montagem no livro As noites quentes do cruzado D. Egas (1973)