Conheci a Ana em pequena, mas não muito bem. Fui viver para Mértola teria a Ana uns 6 ou 7 anos. Mantinha relação de amizade com João Cordovil, o pai da Ana. Uma amizade que o tempo consolidou. O João ia-me contando do percurso dela. Da Safara natal para um colégio internacional, em Itália, depois para Princeton, uma das universidades de topo americanas. Só voltámos a falar dela quando a minha filha mais nova tomou o caminho do mesmo colégio internacional (não em Itália, mas nos Estados Unidos). Fui depois sabendo do percurso da vida da Ana, da carreira fora de portas, do casamento, dos filhos.
Um mundo plácido e feliz, sacudido em julho de 2024 por um caso de polícia. O marido de Ana, de nacionalidade peruana, ausentou-se com os filhos, levando pelo caminho as poupanças da família. O que se passa a partir daí é uma pesada novela policial. De início houve algumas notícias, alguma movimentação, mas na voragem das informações de tudo e de nada e do bombardeamento mediático dos nossos dias, as coisas passam depressa.
Afinal, o pai das crianças levara-as para o seu país de origem. Ana foi no seu encalço. Processos em tribunal, o apoio da família e dos amigos, e o ter de enfrentar uma família (a do marido) poderosa e influente, numa América do Sul onde tudo é demasiado caudilihista e onde os mesmos clãs dominam, agora como sempre. A coragem deu alguns frutos, mas Borges gostaria de ter conhecido Ana e a sua história. Que decorre em círculos. Ou num labirinto que teima em não levar a lado nenhum. Como no conto “El inmortal”: “Un laberinto es una casa labrada para confundir a los hombres; su arquitectura, pródiga en simetrías, está subordinada a ese fin. En el palacio que imperfectamente exploré, la arquitectura carecía de fin. Abundaban el corredor sin salida, la alta ventana inalcanzable, la aparatosa puerta que daba a una celda o a un pozo, las increíbles escaleras inversas, con los peldaños y la balaustrada hacia abajo. Otras, adheridas aéreamente al costado de un muro monumental, morían sin llegar a ninguna parte (…)”. O tribunal peruano deu razão a Ana e a guarda dos filhos, mas não a autorização para se ausentar com eles do Peru. As autoridades portuguesas pouco fazem e escudam-se na soberania. Cinismo e cobardia são irmãos gémeos.
Ana tenta refazer a vida e sair do seu labirinto. O que se traduz em viver, em lutar, em recomeçar, a 9.135 quilómetros de Safara. Como Ana relata no seu site “sou confrontada permanentemente com a pressão e ameaças do pai dos meus filhos e da sua família, que contam com recursos materiais avultados e o recurso a redes de influência (no sistema judicial, nos meios mediáticos, etc.), num país com altos índices de corrupção e de insegurança”. As últimas notícias nos jornais portugueses saíram no “Expresso”, há uns meses. Não sei se a “A Planície” chegou a tocar na história de Ana. Admito que sim, mas não me recordo.
830 dias terão decorrido no labirinto sul-americano, no dia em que este jornal sair. Não é muito tempo numa vida. E é, ao mesmo tempo, demasiado tempo assim passado numa vida. E agora? O caminho não tem sido fácil, mas a situação é, apesar de tudo, um pouco melhor que no início de todo este processo. O tempo passa, duramente, mas sem desespero. E agora, repito? Agora é a deixa de Ariadne, como na mitologia. Desenrole-se o fio que há de levar à saída do labirinto. E à vitória do Bem.
Crónica em "A Planície"
Mosaico de Teseu e do Minotauro ( Kunsthistorisches Museum Wien)








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