domingo, 9 de novembro de 2014

A GRANDE CECÍLIA, 50 ANOS DEPOIS

Se eu fosse apenas
Se eu fosse apenas uma rosa,
com que prazer me desfolhava,
já que a vida é tão dolorosa
e não te sei dizer mais nada!
Se eu fosse apenas água ou vento,
com que prazer me desfaria,
como em teu próprio pensamento
vais desfazendo a minha vida!
Perdoa-me causar-te a mágoa
desta humana, amarga demora!
– de ser menos breve do que a água,
mais durável que o vento e a rosa...
Cecília Meireles partiu há 50 anos. O título do post foi roubado ao artigo de Vasco Rosa, no Observador de ontem. A autora está hoje meio esquecida do grande público. Os seus poemas têm marcado presença regular aqui no blogue. Por uma simples razão. Sou particularmente tocado pelo lirismo musical das palavras de Cecília. Pela sua poesia suave e aparentemente simples.
Hoje, dia de pausa curta, melhor me sabe a leitura dos seus poemas. E fazer esta evocação.

Ver: http://observador.pt/especiais/grande-cecilia/


Cecília Meireles, por Arpad Szenes

ENTRE O VERDE E O VERMELHO


20 anos do núcleo do Sporting em Moura.

97 anos da Revolução de outubro, que foi em novembro.

Almoço verde. Jantar vermelho. Um dia entre amigos, felizmente.


Aquele efeito gráfico, posto detrás da cabeça do meu camarada Luís Carapinha, fica esquisito...

sábado, 8 de novembro de 2014

NEM PAE, NEM MEIO PAE

O negócio foi-nos proposto. Cheguei a ter uma reunião com um secretário de estado por causa do Programa Aproximar Educação. A meio da reunião tinha a certeza que Moura não iria aderir.

1) Rejeitamos a ideia de municipalizar a educação. É domínio que deve ser coordenado pelo Governo, independentemente de toda a colaboração que possa/deva haver. Deixar uma área tão sensível ao arbítrio de 308 vontades é uma tentadora tragédia. Particularmente dos que se julgam pequenos justinianos.

2) O PAE iria sobrecarregar a Câmara Municipal com aquela inútil burocracia que é tão do agrado dos serviços centrais do Ministério da Educação.

3) Achei ofensiva uma das propostas, formulada genericamente da seguinte forma: "a ideia é manter os custos; se a Câmara Municipal gastar mais em educação, é responsabilidade da autarquia; se houver racionalização, nomeadamente de recursos humanos [nota do autor do blogue: querem que traduza?], os ganhos serão repartidos numa base 50/50".

Portanto, não obrigado. Nada de PAE, no Município de Moura.

Quem aderiu? Até agora 7 municípios PSD, 2 PS e 1 liderado por uma lista de independentes. Limite sul desta lista: Cascais. Municípios alentejanos envolvidos: ZERO.

Eis a demonstração de que o mundo gira à volta do sol, não das autarcas...

NA RELVA


Dois almoços na relva: um rural, o outro nem por isso. Um é fruto da mais pura casualidade, o outro resulta de uma cuidada e pensada encenação, a partir de uma tela de Manet. Um é de 1942, o outro de 1964. Fotografia a preto e branco de Zambrano Gomes (1883-1953), trabalho a cores de Alain Jacquet (1939-2008).


E, muito a propósito, Splendour in the grass, de William Wordsworth:

What though the radiance
which was once so bright
Be now for ever taken from my sight,
Though nothing can bring back the hour
Of splendour in the grass,
of glory in the flower,
We will grieve not, rather find
Strength in what remains behind;
In the primal sympathy
Which having been must ever be;
In the soothing thoughts that spring
Out of human suffering;
In the faith that looks through death,
In years that bring the philosophic mind.

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

D'AQUÉM E D'ALÉM

Durante muitos anos, olhei para o escudo, lá no alto da muralha, e pensei "deve ser coisa do tempo de D. Manuel". Inferia que o monarca quisera deixar a sua marca nas obras efetuadas no castelo, em inícios do século XVI. Pensva eu que aquela arreata que D. Manuel carregava junto ao nome - pela Graça de Deus, Rei de Portugal e dos Algarves, d'Aquém e d'Além-Mar em África, Senhor da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia - tinha também, remotamente, tocado a minha terra.

Inferia erradamente.

Um belo dia, resolvi usar uma teleobjetiva, a partir do Convento do Carmo. Pensamento imediato: "ora bolas! aquilo não é nada D. Manuel! é mais antigo". Consegui entretanto uma fotografia decente desta peça, absolutamente extraordinária, e que vem lançar mais dados para o debate que o enigma da datação da torre de menagem e muros adjacentes constitui.

Ora bem:

1) O início das obras ("refazimento do alcácer") é decidido por volta de 1320;
2) Quando Duarte Darmas passa por Moura, em 1510, a torre está terminada.

Dois séculos é um lapso enorme, em arqueologia medieval. Pedi ajudas várias. Segundo um especialista, o brasão poderá ser um pouco posterior a meados do século XIV. Há aspetos  de organização planimétrica que aproximam a torre de Moura da de Beja, de finais do mesmo século. Portanto...

Parece plausível que as obras tenham sido iniciadas antes de meados do século XIV e se tenham prolongado por algumas décadas. Admitir uma cronologia fernandina para o seu término não me parece disparatado. Tal como também não se pode excluir a possibilidade de uma obra concretizada em várias fases. Mas sempre segundo um mesmo plano, conforme o prova a coerência de talhe dos silhares.

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

MANITAS DE PLATA (1921-2014)


Manitas de Plata (nascido com o nome Ricardo Baliardo) faleceu hoje, aos 93 anos. Genial guitarrista, a sua fama e talento atravessaram décadas.

Aqui fica este registo, em homenagem a um artista de exceção. Aproveitando a oportunidade para recordar um conhecido economista, hoje na casa dos 60, que ficou conhecido nos seus tempos de juventude como "Manitas de Plata", pela rapidez e eficácia com que, nas livrarias, desviava as obras que ele, e os colegas, necessitavam para estudar.

BATDÓLARES


Parto do princípio que a história é verdadeira.

Os dólares, os euros, as libras voam. Como na cena de Batman. O filme de Tim Burton é uma tret de todo o tamanho. Vale o verdadeiro espetáculo de Jack Nicholson, histrião-mor da companhia, deixado à rédea solta por exigências contratuais. A que propósito vem esta referência a um filme menor? Ao dinheiro que voa, com o beneplácito de consultores, auditores e governos dados a práticas pouco católicas. Vem agora o governo do Luxemburgo dizer "é tudo legal". Deve ser, com tanto consultor e auditor à mistura...

Capitalismo selvagem, comentava hoje, na Antena 1, um economista da Universidade do Porto. Capitalismo selvagem parece-me, nestas circunstâncias, uma classificação simpática.

Batman (de 1989) é a escolha cinéfila da semana, isto enquanto as altas esferas continuam mexendo nos nossos bolsos...

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

ENTREVISTA AO JORNAL "A PLANÍCIE"

A entrevista saiu no passado dia 1. Perguntas e respostas.


Um pequeno balanço deste primeiro ano de mandato.
Um pequeno balanço? OK, mas uma auto-avaliação arrsica-se sempre a ser uma forma de auto-elogio… Nem sempre é fácil este tipo de avaliação, tendo em conta a enorme diversidade de iniciativas que o trabalho numa cãmara municipal sempre comporta. Creio que posso dizer, sem favor, que o balanço é claramente positivo. Centraria esse balanço em três tópicos fundamentais: 1) o retomar de obras cujo ritmo tinha abrandado e a conclusão de projetos que reputamos de essenciais; 2) a procura de inovações e o lançamento de novos desafios; 3) os ajustamentos que foi necessário fazer e que decorrem, afinal, de uma permanente tentativa de aperfeiçoamento.

O associativismo e a questão social do concelho. Considera que os Quartéis vieram a constituir um apoio ao associativismo?
O associativismo foi e será uma peça essencial naquilo que é a realidade social e cultural do concelho de Moura. Nestas coisas, o copo está sempre meio cheio ou meio vazio. Há associações que pensam que não são suficientemente apoiadas; há pessoas fora do movimento associativo que acham tudo isto um desperdício… A nossa política é, aqui, de uma clara continuidade. Achamos importante a prática dos protocolos com as associações, criando direitos e deveres. Não achamos que os 450.000 euros investidos anualmente nesta área sejam um dinheiro atirado à rua.
Os Quartéis? São aqui um instrumento de apoio, mas não são o único. Tenho orgulho naquela intervenção e acho importante o colorido que as associações dão ao edifício.

Fale-nos da importância do investimento e as obras que estão a decorrer nomeadamente na Zona Industrial, a recuperação do espaço do Castelo e museu municipal.
Andamos há anos a defender a importância do investimento público. E a importância da reabilitação de imóveis  e de espaços públicos como parte essencial do desenvolvimento. Você referiu três obras, mas há muitas mais em curso… A da zona industrial está praticamente terminada, depois de um percurso tormentoso, a do castelo passará também pela iniciativa privada, e uma vez que temos um protocolo em preparação com um investidor; o museu municipal inaugurará a primeira exposição em 2015. Agora, faça-me um favor! Acrescente à lista as outras obras em curso: a do Pavilhão das Cancelinhas (750.000 euros), a da Ribeira de Vale de Juncos (500.000 euros), a da Ribeira da Perna Seca (1.700.000 euros), a da ligação dos esgotos à ETAR de Moura (250.000 euros) etc etc. O PS e o PSD têm direito a criticar? Claro! Desgraçadamente, criticam, criticam e nunca, mas nunca, apontam alternativas concretas. A oposição ao nosso trabalho é feita de demagogia e de ausência de ideias.

Qual a influência, no desenvolvimento económico do concelho, das energias renováveis, a par da agricultura?
Estamos a falar de domínios diferentes. Nas energias renováveis o papel da autarquia foi feito de uma presença muito mais evidente. Gostava de sublinhar que o nosso concelho ganhou, de forma direta e indireta, 17 milhões de euros com este projeto. Sem falar na produção da fábrica de painéis… Vale a pena recordar as dúvidas filosóficas do Partido Socialista quanto ao processo da central fotovoltaica. Que faziam falta mais estudos blablabla que podia não ser um bom investimento blablabla que a barragem podia provocar nevoeiro e isso prejudicar a produção de energia e por aí fora. Gosto sempre de recordar isto, para que fique claro quem esteve contra o projeto. Quanto à agricultura, a nossa posição é, como não podia deixar de ser de apoio e de acompanhamento à atividade dos agricultores. Desde as questões ambientais ao recente apoio aos rendeiros dos Machados.

Parque Tecnológico. Como se encontra em termos de desenvolvimento para o concelho?
O Parque Tecnológico sofre os constrangimentos que sofre um País em crise e em que as empresas passam por evidentes apertos. Temos a laborar a fábrica de montagem de painéis, que garante mais de 100 postos de trabalho, e a empresa municipal Lógica. Cedemos recentemente três lotes de terreno (com uma área total de 15000 m2), onde se instalarão três empresas. E vamos, a partir de novembro, dar um novo impulso ao Centro de Apoio a Microempresas de Moura, que é agora detido em exclusivo pela autarquia. O nosso problema é a falta de novos investidores… Como a iniciativa nesta área não se cinge a Moura, comprámos recentemente dois terrenos na Amareleja e estamos a negociar outro. Essa zona industrial continua a ser um dos nossos objetivos.

Alqueva é visto como grande instrumento da agricultura, mas também de turismo. Que se vai fazer para ser um polo de desenvolvimento?
Não me pergunte isso a mim! Alqueva servirá, decerto, a agricultura, mas o nosso concelho é dos menos beneficiados. E quanto ao turismo, o melhor será rever-se rapidamente o Plano de Ordenamento em vigor. Que é da responsabilidade do governo e que constitui uma séria limitação ao investimento nesta zona. O erro maior é pensar que o modelo dos “resorts” é adaptável a esta realidade. Não é. E assim vamos, com planos que são muito bonitos no papel, mas que na realidade não funcionam. O problema não é só do concelho de Moura. Os meus colegas relatam situações muito semelhantes.

As acessibilidades do concelho, a recuperação de ruas e passeios. Quais as intervenções?
As acessibilidades são, nas vias principais, responsabilidade do Governo. Registamos com agrado a obra na estrada Moura-Sobral. Faltam outras, claro. Nas estradas e caminhos municipais temos dificuldades. Com 170 kms. de vias não chegamos a todo o lado. As reparações terão um incremento com os 100.000 euros que pedimos de empréstimo. Os investimentos serão nos locais mais carenciados. Repare numa coisa: nos últimos anos tivémos mais de 4 milhões de euros de cortes no nosso orçamento. Isso limita em muito as intervenções que refere.
O avultado investimento que foi realizado na rede de água, permite estar a funcionar em pleno?
Há investimentos camarários e há investimentos da empresa “Águas Públicas do Alentejo”. Nos primeiros incluimos parte substancial da cidade de Moura e a primeira fase do Sobral. Faltam zonas “marginais”, quero dizer mais longe do centro, no caso da cidade, e mais as segunda e terceira fases do Sobral. E ainda as quatro fases da Amareleja. Só no Sobral e na Amareleja, o investimento ronda 5,5 milhões de euros. Sózinhos, não vamos lá… A obra da AGDA permite, nesta altura, abastecer o concelho a partir da nascente da Fonte da Telha, embora não de forma exclusiva.
Qual a posição da autarquia em relação ao possível aumento do preço da água que é estipulado pela Entidade Reguladora.
Em rigor, não é estipulado. O que a ERSAR (Entidade Reguladora) aponta é uma necessidade de compatibilização de tarifas, tendo em conta as diferenças que há, de município para município. A subida do preço da água é, por isso, uma quase fatalidade. Porquê? Pelo baixo custo que tem no nosso concelho e pelo facto de termos uma cobertura insuficiente da fatura que pagamos ao nosso fornecedor, a AGDA. O que quer isto dizer? Que por cada 100 euros que a Câmara paga à AGDA, os consumidores (eu, você, todos nós) pagamos à Câmara 33 euros. Assim, não há orçamento que aguente. Em todo o caso, importa sublinhar que defendemos a água como bem público e moderação nas tarifas. Até por razões de ordem social.

Como viu a aprovação da redução da taxa de IRS na Assembleia Municipal que foi aprovada com os votos do PS e PSD; e em relação à proposta do PSD, em relação à derrama?
A redução da taxa variável do IRS é um ato de demagogia barata. Quer a prova? Uma pessoa que ganhe 750 euros brutos por mês, recupera cerca de 8 euros por ano (dá 0,022 euros por dia). Dizer que isto é uma forma de dinamizar a economia e de atrair pessoas só por brincadeira… Além do mais, quem mais ganha, mais recebe do IRS. É uma espécie de Robin dos Bosques ao contrário. Os ricos é que ganham. Esta iniciativa do PS dá bons títulos nos jornais, mas na prática não dá nada de palpável para os mais desfavorecidos.
A da derrama anda na mesma onda… Houve uma recomendação à Câmara. A reformulação está a ser estudada para depois voltar à Assembleia Municipal.

A oposição, mais concretamente o PSD, sublinha que em relação ao turismo devia existir mais ligação dos museus com os hotéis, com os restaurantes, com as agências de viagens, enfim com os agentes económicos do concelho. Em suma, colocar os museus, Alqueva, e até mesmo a Contenda, dentro de uma estratégia  turística global e concertada capaz de atrair visitantes e contribuir para o aumento da economia local.  Há uma estratégia turística global?
Há, claro que há. Olhe uma coisa, percebo lindamente a frustração de algumas pessoas. Andaram uma vida a dizer que era preciso fazer qualquer coisa pela Mouraria e mais os Quartéis e mais o Castelo e mais o Pátio dos Rolins. E diziam e voltavam a dizer que era preciso fazer qualquer coisa pelo Matadouro e pelo Convento das Beatas. O problema é que nunca fizeram nada, mas nada mesmo, para que isso fosse concretizado. Vêm agora com palavreados sofisticados, “estratégia global”, “aumento da riqueza” etc. sem perceberem que não há estratégia que possa ser construída com uma cidade que deixa ao abandono os seus principais monumentos e os seus sítios mais imblemáticos. Nós fizémos o contrário. Mas, como lhe digo, se há coisa que percebo são essas pequenas infelicidades e frustrações…

A nível de educação, têm sido realizadas recuperações e remodelações de equipamentos escolares. Como vê o futuro da Escola de Santo Amador? A falta de pessoal não docente nas Escolas tem sido uma realidade este ano lectivo. A autarquia vai colmatar essa falha do Ministério?
A Deus o que é de Deus, a César o que é de César, dizia-se em Roma. À Câmara o que é da Câmara, ao Ministério o que é do Ministério. Ou seja, cada entidade deverá assumir as suas competências. A Câmara Municipal tem sempre uma atitude de cooperação, não podemos é estarmos a subsitituir o Ministério cada vez que este não cumpre as suas obrigações.
Reafirmamos o nosso compromisso com a Educação. A escola de Santo Amador é para manter. Quem a quiser fechar que assuma essa responsabilidade. A nossa perspetiva é outra. Reabrimos há menos de um ano a Escola de Santo Aleixo, vamos intervir proximamente em três escolas, temos a Carta Edsucativa em revisão e mantemos a aposta na Escola Profissional. E, se tivermos capacidade financeira, retomaremos a remodelação global das esolas. Sem Educação não há futuro. Essa é uma das ideias que herdámos e que mantemos.

Uma das situações que a maioria da população acusa a Câmara é a morosidade e a burocracia que existe quando se necessita de aprovar projectos  para construção de um edifício ou até mesmo para se realizar obras.  A que se deve essa situação?
A burocracia existe e há morosidade e lentidão e isso tudo. As leis em vigor em Moura são as mesmas do resto do País. Os problemas são idênticos. Precisamos de legislação mais simples e que facilite a vida das pessoas. Mas cada vez que se mexe nesta área, simplifica-se e fica sempre pior… Repare que a burocracia faz parte de pequenos jogos de poder. Se as coisas não forem complicadas como é que algumas pessoas exercem esse pequeno poder? Uma vez ouvi um técnico (não interessa onde, nem se foi em Moura) dizer a um senhor idoso e de ar modesto “isso vai ser dirimido em sede de licenciamento”. Quando vi o ar atarantado do homem pensei “já o arrumou”. A burocracia é isto, um jogo de palavreado e de subjugação. Combatê-la é um dever moral e político de todos nós.

Como se encontra a dívida da Câmara Municipal, tendo em atenção a situação económica do País?
É uma dívida moderada. As Câmaras têm dívidas, tal como muitos de nós temos dívidas. Quando é necessário fazer um investimento e não temos meios recorremos a empréstimos. Assim temos feito, para obras e melhoramentos, de forma contida e controlada. A dívida total da Câmara anda pelos 10 milhões de euros, dos quais 8 de médio/longo prazo e 2 a fornecedores. Desta parte, metade é a dívida à AGDA e refere-se à água que consumimos. Acabar com a dívida é fácil. Para-se a atividade, param-se os apoios e acaba a dívida. Será essa a opção que a Câmara vai tomar? Claro que não!

Já se encontra em preparação o orçamento e as opções do plano para o próximo ano. O que se espera de 2015 tendo em conta a conjutura actual e o próprio orçamento de Estado?
Não espero grande coisa. Espero mais dificuldades, mais conversa de chacha de politólogos de ocasião e mais explicações sobre a necessidade de conter o desperdício. Dito isto, e com mais ou menos dificuldades, seguiremos em frente, num combate permanente pela nossa terra. 2015 será o ano de concluir o Pavilhão das Cancelinhas, a obra da Ribeira da Perna Seca, do Matadouro, do Parque de Leilão de Gado e outras de menor dimensão. Lançaremos novas iniciativas e prepararemos o futuro.



terça-feira, 4 de novembro de 2014

PARA QUE SERVE O SUL?

Angela Merkel diz que Espanha e Portugal (oh não, os iberos...) têm licenciados a mais. 17,65 da população portuguesa completou estudos superiores, contra 25,1% da alemã. É preciso, diz a senhora, estimular o ensino vocacional. Uns pensam, outros executam.

Para que serve o sul, pergunta-se a classe dominante setentrional?

ESTIMADA DONA FRANCELINA

Não sei se ainda estará entre nós. Deverá andar pelos 95 anos, perto disso. A sua figura era, no mínimo, invulgar, mesmo tendo em conta que a palavra invulgar não queria dizer grande coisa, na Faculdade de Letras daqueles anos. Os seus cabelos brancos, a sua longa écharpe, a maneira jovial de se sentar em cima das mesas e de fumar cigarro após cigarro davam-lhe uma imagem única. Era a aluna mais velha de História da Arte. O estilo descontraído herdara-o das Belas-Artes, onde andara no final dos anos 40. Embora insistisse num tratamento informal nunca conseguimos deixar de lhe chamar “Dona Francelina”.

Lembro-me de si com regularidade. Lembro-me, em especial, do dia em que pegou num braço e me arrastou corredor fora, na Faculdade de Letras, até um canto mais tranquilo. Aí chegados, fitou-me de ar sério e disparou “olha lá filho, tu és bom aluno e podes fazer qualquer coisa de jeito; mas andas aí numa vida e numa agitação… estou preocupada contigo; olha o que aconteceu ao Zé Dias…”. Lembro-me do torpor que senti, enquanto as sinapses tentavam funcionar. Só passados largos segundos percebi que a senhora se referia ao militante comunista José Dias Coelho, assassinado pela PIDE em 1961, aos 38 anos. Tinham sido colegas, claro está. Tentei tranquilizá-la e prometi-lhe, mentindo conscientemente, que iria mudar.

O seu ar reprovador nunca me abandonou, nos últimos dois anos de faculdade, os mais intensos politicamente e aqueles em que percebi que aquele ambiente de minuetos, vénias e traições não era para mim. Lembro-me de a ver abanar a cabeça com desalento, sentada na secretária à entrada do Instituto de História da Arte, enquanto eu distribuia comunicados ou afixava a pauta de classificação dada aos professores, uma originalidade que me custou caro… Também não ficará surpreendida se souber que dos média-16 do curso de História 81/85 só o Carlos Almeida, eu e mais um ou dois estamos fora daquele sistema.

Neste ano que passou, a sua recordação tem sido recorrente. Acho que, no fundo, a senhora sabia que eu não encaixava ali e que faria outras coisas na vida. Confesso-lhe que, tanto na juventude como depois, a ideia de ser Presidente da Câmara de Moura nunca me ocorreu. Também não se surpreenderá, Dona Francelina, se lhe disser que desempenho o cargo com todo o afinco e tentando fazer o melhor possível. Ou como diz, sibilino, um amigo meu “tudo isto foi uma evolução natural”.

Despeço-me, mesmo sem saber de si, com amizade e com saudades daqueles dias,
Santiago Macias (20.10.2014)


Crónica publicada em A Planície, no passado dia 1 de novembro.

SERRA LEOA

Alguém, lá para os lados de Freetown, espreitou este blogue. Deve ser erro de satélite. Se não for isso, fico mesmo intrigado. Em todo o caso, é melhor falar da Serra Leoa por causa do blogue que por outros motivos.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

MAIS SAFARA

Dois prémios para o concelho de Moura, na gala da revista Mais Alentejo. O Prémio Literatura para Carlos Campaniço, o Prémio Excelência (Artes Plásticas) para o Prof. António Vidigal. Muitos parabéns!


domingo, 2 de novembro de 2014

ALL ABOUT EVE - II


Este filme, All about Eve, de Joseph L. Mankiewicz, é absolutamente extraordinário. Já por aqui andou, em 4.3.2009. A cena a que se reporta o diálogo que se segue foi retirada do youtube, por questões relacionadas com direitos de autor. Repito a troca de argumentos:

Miss Casswell: Oh, waiter!
De Witt: That isn't a waiter, my dear. That's a butler.
Miss Casswell: Well, I can't yell, 'Oh, butler!' can I? Maybe somebody's name is Butler.
De Witt: You have a point. An idiotic one, but a point.
Miss Casswell: I don't want to make trouble. All I want is a drink.
Max: Leave it to me. I'll get you one.
Miss Caswell: Thank you, Mr. Fabian.
De Witt: Well done. I can see your career rising in the east like the sun.

Porque me lembrei disto? Por, ao longo da vida, ter visto carreiras que despontam e se erguem, sem nada que o sustente. Muitos anos de investigação, docência, política e observação sedimentam isto.

UMA CIDADE E O SEU MUSEU: 6/20 - BERLIM

O Pergamon fica em Berlim. Fica numa zona da cidade conhecida como A ilha dos museus. Não visitei a Alte Nationalgalerie, fechada para obras. Compensei isso com duas idas ao Pergamon, durante o desenvolvimento de um projeto sobre arte islâmica.

Curiosamente, não foi tanto a coleção de arte islâmica que me ficou na memória (com exceção do Quarto de Alepo), mas sim as três peças de arquitetura que foram metidas dentro do edifício. Alfred Messel e Ludwig Hoffmen conceberam este espaço, que tomou forma entre 1910 e 1930. Lá dentro, são pontos de passagem obrigatória a Porta de Ishtar, o altar de Pergamon e a fachada de Mshatta. Três momentos da História da Arquitetura, três monumentos arrancados ao seu sítio de origem, três símbolos da mentalidade colonial...

Quase não conheço Berlim. Mas esta cidade não seria a mesma sem a ilha e sem o Pergamon.

Site: http://www.smb.museum/en/museums-and-institutions/pergamonmuseum/home.html




TUNÍSIA

A primeira primavera já lá vai. Refiro-me à da Tunísia. Está por fazer a história das manobras ocidentais e das manipulações informativas que andam à volta do que, erradamente, se convencionou chamar "mundo árabe".

Um veterano jornalista dizia-me, há dias: "já reparaste nos resultados da Tunísia? o vencedor é Béji Caïd Essebsi". "Quem?", volvi. Nem mais nem menos que um experimentadíssimo político, que serviu fiel e longamente os governos de Bourguiba e de Ben Ali. Um regresso ao passado, de duvidoso resultado.

Nem tudo corre mal. Numa útil medida sanitária, os tunisinos puseram a andar, há poucos horas, Bernard-Henri Lévy.