A apresentação da exposição e do filme teve lugar em Évora, ontem à tarde. O "documentário", proposta de descodificação dos desenhos quinhentistas do genial Duarte Darmas, aqui fica. Está disponível no youtube.
Ver - www.duartedarmas.com
A apresentação da exposição e do filme teve lugar em Évora, ontem à tarde. O "documentário", proposta de descodificação dos desenhos quinhentistas do genial Duarte Darmas, aqui fica. Está disponível no youtube.
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A cerimónia é hoje e, claro, estando em Évora não vou mesmo poder assistir a esta distinção que o José Alberto vai receber. Passa, a partir de hoje, a ser membro honorário da Ordem dos Arquitetos. Um reconhecimento muito especial, que coroa uma carreira longa e cheia de excelentes resultados.
Tive o prazer de trabalhar com o José Alberto em dois projetos: o Museu Islâmico de Mértola (1991-2001) e a exposição Marrocos-Portugal: portas do Mediterrâneo (1998-1999). Foi há tanto tempo que já quase me parece noutra existência.
Não havia telemóveis, claro.
Os encontros combinavam-se de um dia para o outro. Se alguma coisa falhasse, era difícil a remarcação ou o reencontro.
O ponto fulcral de uma praia, o sítio que se dava como referência era "a bola da nívea". Um belo golpe publicitário, naquela altura em que nos barravam com creme branco, porque o sol fazuia bem à saúde. E íamos todos à praia para sairmos de lá queimados.
Cancros de pele? Ninguém ouvira falar em tal, como é evidente.
Não há pachorra...
A "culpa" é de Robert Indiana e do seu LOVE. Agora, não há sítio nenhum (e aqui na Lusitânia somos especialistas em imitações) onde não tenhamos letras em grande formato e em três dimensões. Fatalmente, "a coisa" chegou às autarquias. Não dão sossego aos munícipes, é o que é.
Final de série!, dizia-se antigamente nos bailes.
Assim acontece com este projeto. Pensado em 2004, sucessivamente adiado até 2018. Arrancou aí, para, aos poucos, ganhar forma. Dia 27, quinta-feira, serão publicamente apresentados os resultados, em Évora.
A partir de novembro, arranca a itinerância.
A caminho de Mértola, e da Feira da Caça, a Antena Um passou o Road to nowhere, dos Talking Heads. Um tema sem tempo.
Aquela estrada não é a de lado nenhum. É exatamente o oposto.
A feira foi uma enchente. Em todos os sentidos.
Um quarto de século já lá vai.
Nos dias 23, 24 e 25 de Outubro de 1997 realizou-se, no Teatro Taborda, em Lisboa, um colóquio a que se deu o título «Lisboa, encruzilhada de muçulmanos, judeus e cristãos».
A iniciativa partiu de Clementino Amaro e tinha como objectivo assinalar os 850 anos da Reconquista de Lisboa, ponto fundamental da história da cidade e um dos grandes marcos da reconquista cristã no ocidente. Se a comemoração do oitavo centenário, em 1947, fora pretexto para uma espaventosa festa centrada na exaltação dos valores do nacionalismo, que correspondiam à cartilha política de então, foi nossa intenção procurar novas leituras dos acontecimentos que levaram à passagem da cidade de Lisboa da área de influência islâmica para a cristã.
Recordo essa data, juntando-lhe uma bela imagem do Castelo de S. Jorge, da autoria de Nikias Skapinakis.
Abertura, hoje às 11 horas de exposição coletiva de fotografia e de pintura, no Ateneu Mourense. É um orgulho participar nestas coisas da minha terra. Lá estive, dando um abraço aos amigos da nova direção da coletividade, antes de flanar pelas ruas da cidade, em terra firme.
Ter de me levantar às 6 da manhã teve esta grande compensação.
Entrevista ao jornal "A Planície" em 15.11.2017:
"Álvaro Azedo garantiu que nos próximos dias irá solicitar à Inspecção Geral de Finanças a realização de uma auditoria ao universo da Câmara Municipal de Moura, para que o novo executivo tenha a noção exacta da realidade."
Já lá vão 5 (cinco) anos.
No dia 4 de dezembro de 2017 o presidente da câmara pediu à IGF uma inspeção tendo por objetivo "o conhecimento da saúde financeira do Município" (sic).
Qual foi a resposta da IGF?
Onde está o resultado da auditoria?
Uma coisa tenho como certa na política e na vida: a seriedade é um valor fundamental.
Uma parte da aula de hoje tinha sido precisamente sobre as-Surunbaqi, esse misterioso personagem de finais do século IX e inícios do século X que dominou as serras entre Idanha e Coimbra.
As-Surunbaqi "assolou-me" horas mais tarde. A bordo do 54, uma família encontrou subitamente parentes. Pertenciam a ramos diferentes de vidas marcadas pelo nomadismo.
Pergunta - Tu és donde?
Resposta - Do norte.
Pergunta - Sim, mas do norte donde?
Resposta - De Leiria.
Tecnicamente falando, Leiria fica a norte da Amadora. Faz do norte o teu sul, poderia dizer, mas não disse, as-Surunbaqi.
Gouveia e Melo desempenhou bem a sua tarefa durante a pandemia? Creio ser uma ideia que gera largo consenso.
Isso faz dele um potencial Presidente da República? Não me parece. Não me parece que seja suficiente a montagem, com reconhecido sucesso, de uma estrutura de vacinação e ter colocado "ordem no estábulo" para ver nele um futuro Chefe do Estado. Pessoalmente, não vejo e não votaria nele.
Mas não deixa de ser engraçado - mas engraçado, mesmo - que tanta gente "da situação" esteja a ficar nervosa com a ideia. E que venha agitar o facto de Gouveia e Melo ser militar, registando-se tal como uma "falha" importante. Que militares à frente de um Estado é coisa do terceiro-mundo etc. e tal. Ficamos, portanto, a saber que, nessa perspetiva, os militares são menos cidadãos que os outros cidadãos.
Acham isto normal? Eu não acho.
É um dos mais notáveis desenhos de João Abel Manta (n. 1928). Nos anos terminais do Estado Novo, as sátiras de Abel Manta revelaram-se demolidoras. Como neste "Uma vida exemplar", de 1971, que retrata o cursus honorum do homem do regime. Na altura, há já muitas décadas, ri com gosto com aquela sucessão de um tacho - dois tachos - muitos tachos. Que era típica dos próceres de então.
João Abel Manta deu depois, em 1974/75, um generoso contributo para os tempos de libertação. Os desenhos geniais que produziu aí estão para o atestar.
Amanhã, às 17h30, haverá visita guiada à exposição "Gente da Batalha", conduzida por António Barreto (fotógrafo) e Ângela Camila Castelo-Branco (curadora).
Um trabalho feito com o apoio da Caixa Geral de Depósitos e do Mosteiro da Batalha.
Haverá, até final do ano, mais duas exposições: uma em novembro, outra em dezembro.
Henri Matisse passou uma larga temporada em Marrocos, por volta de 1912/13. A produção desse período foi notável, e a ela regresso, com regularidade.
Na entrada para uma nova semana, aqui fica a entrada da casbah de Tânger, em 1912. O quadro está no Hermitage, em São Petersburgo.
Terra sangrenta de Serpa / terra morena de Moura, cantava Adriano Correia de Oliveira, em 1967. Adriano partiu há 40 anos, num sábado cinzento. Estava em casa, em Queluz, às voltas com o início do 2º. ano da faculdade. Um programa de rádio foi-lhe dedicado nessa mesma noite. Dezenas e dezenas de entrevistas, entremeadas com música. Uma homenagem forte, impossível de esquecer. Quatro décadas volvidas aqui recordo alguém que muita falta nos fez e faz.
Foi no dia 25 de março de 1979. O Recreativo de Huelva, o clube de futebol mais antigo de Espanha, estava pela primeira vez no escalão de topo e iria receber o Real Madrid.
Um animado grupo de mourenses (conhecidos como Os caveiras, coisa que um dia contarei) resolveu por-se a caminho de Huelva para ver o jogo. A passagem da fronteira fazia-se com passaporte, não havia telemóveis, muito menos vendas online. Chegados a Huelva, a inevitável notícia: a lotação estava mais que esgotada, como se vê pela crónica do ABC. Lá andaram, de bilheteira em bilheteira fazendo o choradinho somos portugueses, viemos de longe etc. Às tantas, um dos funcionários apontou para uma porta, nitidamente para despachar, e disse "batam ali, que logo se vê". Assim fizeram. A comitiva daqueles homens de ar pesado (perto da casa dos 50, todos de sobretudo escuro, um estilo solene - quem não os conhecesse...) bateu à porta. Abriu-a um guarda civil, com o clássico tricórnio e uniforme verde-azeitoina. O mais velho puxou da carteira e abriu-a para mostrar um documento e repetir a cantilena. Não chegou a abrir a boca. Ao olhar para a carteira aberta, o militar fez uma rígida continência e ordenou, marcialmente, "pasen!". Os caveiras entreolharam-se rapidamente e entraram sem dizer palavra para um camarote, magnificamente situado, de onde viram o jogo.
O episódio foi-me contado, anos mais tarde, por um divertido Rafael Pereira, que me disse, intrigado: "sabes, Santiago, ainda hoje para saber quem é que raio ele pensou que nós éramos!".
Crónica inócua? Decerto. Mas recordar estas coisas faz(-me) bem. Dos caveiras já só restam dois. Chamam-se João Macias e Joaquim Santos e têm 85 e 86 anos.
Às voltas com a infindável procura de elementos sobre a minha terra, fui dar com mais esta planta (data de 1834!) num arquivo militar espanhol. As perspetivas estão ligeiramente distorcidas e há distâncias que estão falseadas. Mas é, sem dúivida, um poderoso elemento informativo. E veio lançar-me uma dúvida sobre o verdadeiro estado das muralhas no século XIX...
Amanhã. há referendo em duas freguesias do concelho de Moura.
O que está em causa é a reposição das freguesias de Safara e de Santo Aleixo da Restauração.
Há quem esteja ao lado das populações. Como a CDU.
E há os que dizem que estão.
Josep Borrell, que é economista de formação, veio dizer que a Europa é um paraíso e a maior parte do resto do mundo é uma selva. O discurso depois surge mais nuanceado (está disponível na totalidade em https://www.eeas.europa.eu/eeas/european-diplomatic-academy-opening-remarks-high-representative-josep-borrell-inauguration_en) mas importaria que Borrell dissesse à custa de quê e de quem se constroem os (nossos) paraísos.
As nossas lideranças europeias estão neste nível. O que explica quase tudo.
Um casaco perdido no alcatrão da Avenida de Berna trouxe-me à memória as soft sculptures de Claes Oldenburg ou, talvez, alguns fragmentos de George Segal. Todo o quotidiano tem o seu toque de pop art.
A Secção de História da Associação dos Arqueólogos Portugueses promove, depois de amanhã, uma jornada de homenagem a Susana Correia, uma querida amiga e colega que recentemente nos deixou.
Haverá muitos testemunhos, ao longo do dia. Não irei faltar a esta iniciativa. Onde intervirei, ao final da tarde.
Programa Provisório
09h30-10h00m - Receção dos participantes
10h00m -10h30m - Abertura
10h30m - Francisco Sande Lemos - "Susana Correia nos primórdios do Campo Arqueológico de Braga (1977/78)"
10h45m – António Carlos Silva - "Uma mulher do Norte, em trânsito para o Alentejo- Lisboa, tempos do IPPC e do MNA"
11h00m – Teresa Marques - "Década de 80- A alegria do trabalho num sopro de nostalgia"
11h15m -11h30m – Pausa
11h30m – Filomena Barata - "A minha Susana e Miróbriga"
11h45m – Jacinta Bugalhão - "Legado de Susana Correia aos jovens arqueólogos".
12h00m – João Marques – “De Évora a Reguengos de Monsaraz, passando por Beja (muitas vezes): 1997-2005”
12h15m – Carlos Boavida – "«Informação Arqueológica», um boletim de e para divulgação da Arqueologia Portuguesa"
12h30m – 15h – Pausa – Almoço
15h00m - Vítor Oliveira Jorge – “Susana Helena Bastos Correia da Fonseca, antiga aluna, amiga de sempre, cidadã empenhada: a nostalgia do Sul”
15h15m – Manuela de Deus, Florbela Costa Perpétua Guerreiro e Luís Cruz - “Susana em Miróbriga - uma encruzilhada de afetos”
15h30m – Teresa Ricou Nunes da Ponte e Luís Costa Fialho - "Carta Arqueológica de Cuba".
15h45m – Ana Sofia Antunes, Consuelo Gómez Granel, Alma Maestre Rubio e Lidia Vírseda Sanz - "Degebe em Alqueva: 1998-2001"
16h00m – Carolina Grilo - "A Rua do Sembrano, um caso paradigmático de arqueologia urbana na cidade de Beja"
16h15m – Manuela de Deus e Samuel Melro - "Susana Correia e o "enclave" do Baixo Alentejo"
16h30m – 16h45m - Pausa
16h45m - Paulo Lima - "O contributo da arqueóloga Susana Correia para a salvaguarda da história oral do sul do Alentejo: os projectos de Cuba e de Beja para o entendimento da resistência popular contra o fascismo"
17h00m - Santiago Macias - "Susana Correia e o projeto do Museu de Moura"
17h15 – Encerramento dos trabalhos
Há muito que queria prestar esta homenagem. De manhã cedo rumei ao cemitério local, na companhia de Carolino Tapadejo. Ali se encontra a última morada de Fernando Salgueiro Maia (1944-1992), um homem que foi decisivo para o sucesso do 25 de abril. Ali estivemos, em silêncio, durante longos minutos.
Castelo de Vide alberga ainda a Casa da Cidadania, que lhe é dedicada e que tem um programa expositivo de elevada qualidade. Ali se conserva o célebre megafone que ajudou a sepultar o fascismo. É bom que a memória perdure.
Pintura de Ventura Porfírio (1908-1998), que pode ser vista no Cineteatro Mouzinho da Silveira, em Castelo de Vide. É uma obra dos inícios dos anos 60.
Um dia destes terá de se fazer a recolha da pintura desconhecida do século XX que faz em recantos desconhecidos.
O poema, que fala do céu azul, remete-me para outro sítio: ¡Virjen del Carmen, que estén / siempre en tus manos los remos; / que, bajo tus ojos, sean / dulce el mar y azul el cielo!
Cores fortes e primárias são o ponto de partida da exposição da mourense Carmo Monge, patente a partir de hoje na Casa do Alentejo, em Lisboa. A inauguração foi uma oportunidade para ver a pintura e para conviver com alguns expatriados que por aqui estão.
Carmo Monge expôs anteriormente na Casa-Museu Silvestre Raposo, em Vila Nova de S. Bento.
Esqueci-me de lhe perguntar se a presença subliminar de Nicolas de Staël é uma citação ou uma mera coincidência.
As Jornadas de Castelo de Vide deram-me a oportunidade de divulgar um projeto que agora finalizo. Coube-me a conferência de abertura (Duarte Darmas – desenhador do rei e construtor da imagem do Portugal raiano). Um momento francamente bom, revisitando outro Alentejo. Embora não tenha deixado de pensar "convidado para fazer este género de aberturas? estás a ficar velho, é o que é...".
A montanha pariu um rato é um expressão muito comum. Aplica-se a um razoável número de situações. Quem foi seu autor? O escritor grego Esopo, nascido em finais do século VII a.C. e que faleceu em meados do século VI a.C.. Transcrevo do site https://ciberduvidas.iscte-iul.pt:
'Mons parturibat, gemitus immanes ciens,
eratque in terris maxima exspectatio.
At ille murem peperit. Hoc scriptum est tibi,
qui, magna cum minaris, extricas nihil.
(Fedro, Fábulas de Esopo, Livro IV, XXII – Mons parturiens)
A tradução é esta:
A montanha dava à luz, no meio de gemidos medonhos,/imensa era nos povos a expectativa./Mas ela pariu um rato./Isto foi escrito para ti,/ que, embora projetes grandes coisas,/nada acertas.
Estão abertas, até 31 de janeiro de 2023, as candidaturas ao Prémio Gulbenkian Património - Maria Tereza e Vasco Vilalva.
Ver - https://gulbenkian.pt/fundacao/premios/patrimonio-maria-teresa-vasco-vilalva/
Vencedores nos últimos 3 anos:
2022 - Restauro dos tetos mudéjares da Sé do Funchal
2021 - Reabilitação da igreja de São José dos Carrpinteiros (Lisboa)
2020 - Restauro da igreja de Santa Isabel (Lisboa)
Da esquina da Calçada do Cascão com a Rua do Museu de Artilharia à Rua do Mirante a distância é curta. 400 metros separam estas duas declarações. Uma que pede mais amor. Outra que diz gosto de ti mas não gosto de mim. Quem escreverá estas coisas na calada da noite (parto do prinncípio que é à noite). E porquê? E para quê?
Uma cidade morre assim.
Os novos moradores não serão daqui. Os antigos e os vizoinhos dos antigos irão para outros lados. O anchluss social chama-se gentrificação.
Última volta na manivela, como se dizia noutros tempos. Manhã passada em Colares. Com o filme já a ser montado, ainda se fez um aditamento, graças à generosidade do Jorge. Como depois se verá, o mote é dado por um conto de Jorge Luis Borges, "Funes ou a memória".
Retomo agora, já quase na casa dos 60, autores de “juventude”. Alguns, quase caíram no esquecimento. Ou porque são pouco promovidos, ou porque não estão na moda, ou por qualquer outra razão. Um deles é Somerset Maugham (1874-1965), prolífico autor com uma carreira que se estendeu ao longo de várias décadas. Tem vários livros de viagens. Coloridos e interessantes. Em “Um gentleman na Ásia”, obra construída a partir de experiências tidas na década de 1920 na Birmânia e no Vietname, deparei com esta frase concisa e firme: “no Oriente não há silêncio”. Somerset Maugham constataria, hoje, que o silêncio desapareceu das nossas vidas. Ou seja, não é só no Oriente que não há silêncio… Não há um só sítio, um único para amostra, em que não tenhamos som. Não há um só espaço comercial em que a música não surja ou nos deixe em sossego. Nem que seja só por um segundinho.
A que propósito vem este tema? Por ter passado, há dias, junto ao portão da antiga Sociedade dos Azeites. Onde os meus avós viveram e o meu avô trabalhou como porteiro. Desconhecedor dos dias da semana, sabia que era domingo porque, ao acordar, ouvia o som do galinheiro, que ficava a 100 metros de casa. Em volta da casa, só havia silêncio. Nem o rumor dos homens que iam para o lagar, nem o ruído das camionetas que entravam a toda a hora, nem o som desengonçado dos carros de burro, que faziam parte da paisagem daqueles dias. O silêncio era sinónimo de domingo.
Viajei muito pouco, quase nada, mas é verdade que no Médio Oriente não há silêncio. O ruído do trânsito no Cairo faz qualquer das nossas cidades parecer moribunda, o rumor do “suq” de Alepo (o que terá sido feito dele?...) era feito de um mar de sons, com vagas de todos os tipos, as estradas ao longo do deserto têm enxames de pequenas localidades com cafés onde toda a gente parece estar zangada e falta altíssimo. Prefiro, ainda assim, esse ruído feito de vozes – ou de buzinas de carros -, ao puro barulho de “animação” que se me depara um pouco por toda a parte. Coisas da idade? Nem por isso… Na juventude, preferia os bares de música africana – como o “Bom Tom”, nas traseiras da Sé de Lisboa – porque a música era menos barulhenta e sem a catadupa de decibéis de outros locais.
Com tanto som e tanta animação por toda a parte, o silêncio torna-se-me necessário e vital. Nas bibliotecas – onde detesto ouvir murmúrios e “animação” a toda a hora nas salas de leitura –, nas praias – quando lá vou, o que é raro –, nas salas de cinema e de concertos, quando escrevo ou preparo a semana de trabalho. O silêncio é o contraponto do resto e um espaço de refúgio. Por alguma razão, termino a crónica ao fim do dia. Não está ninguém no Panteão. O silêncio é total. São 17:50 do dia 27 de setembro de 2022.
Crónica, hoje, em "A Planície".
O quadro do viajante solitário perante o mar de nuvens foi pintado em 1818 por Caspar David Friedrich (1774–1840).