sábado, 4 de setembro de 2010

A CAMA QUENTE

Homenagem aos mineiros do Chile
que dormem, singelo,
pelo sistema de "a cama quente"

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Na mina trabalha-se por turnos.
Quando se volta, nem se tiram os coturnos.
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Bebido o café negro e trincado o casqueiro,
joga-se o corpo ao sono, mas primeiro,
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enxota-se o camarada da cama ainda quente,
que não há camas, no Chile, pra toda a gente.
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Do calor que sobrou o nosso se acrescenta
pra dar calor ao próximo que entra.
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Vós, que dormis em camas, como reis,
tantas horas por dia, não sabeis
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como é bom dormir ao calor de um irmão
que saiu ao nitrato ou ao carvão
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e despertar ao abanão (é o contrato!)
de um que chega do carvão ou do nitrato!
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É este sistema, minha gente,
que se chama no Chile "a cama quente"...
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O poema, escrito em 1975, é de Alexandre O'Neill (1924-1986), a fotografia data de 1950 e intitula-se Three generations of welsh miners. É um trabalho do grande repórter Eugene Smith (1918-1978). São trabalhos de compromisso político, que não precisa de ser ostensivo para ser eficaz. São para recordar, sobretudo nestes dias que passam e em que os mineiros do Chile se converteram, sem o o quererem, numa peça do carnaval dos media.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

O MEU REINO PELO KAIAFAS

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Este é o Kaiafas.
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Arranjem-nos um Kaiafas. Este nome só quererá dizer alguma coisa para os quarentões. Sotiris Kaiafas chegou a ser Bota de Ouro, feito conseguido jogando pelo Omónia Nicósia, na época de 1975/76. É evidente que ganhar a Bota de Ouro marcando golos ao Freixedas e ao Entradense lá do sítio não é bem a mesma coisa que chegar ao mesmo troféu com a camisola do Real Madrid. Mas, pronto, o nosso Kaiafas lá ficou com a desejada botinha no seu armário de souvenirs.
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Depois da barracada desta noite só me resta fazer dois votos:
1. Que os cipriotas nos mandem o neto do Kaiafas para jogar pela selecção portuguesa;
2. Que a falange de apoio cipriota siga direitinha para a Festa do "Avante!" e faça jus ao voto progressista do seu país. Não é todos os dias que o presidente de um país da União Europeia é cá dos nossos. Refiro-me ao camarada Dimitris Christofias.

CASA PIA

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O processo chega, para já, ao fim. A batalha jurídica vai, seguramente, continuar. Meia dúzia de condenações num processo que chegou a fazer tremer as estruturas do Estado. Mas é só isto? Era esta a rede de pedofilia? No final, fica-se com a sensação que continua a haver mais perguntas que respostas.

ENTRE SAFARA E O SEIXAL

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Contrariamente ao que me prometera e jurara, nem Safara, nem Seixal. Nem Semana Cultural, nem Festa do "Avante!". Continuo mergulhado em rascunhos e nos relatórios das escavações do Castelo de Moura. Aqui fica o cartaz do excelente programa organizado pela Junta de Freguesia em colaboração com a Câmara Municipal. E, já que não posso ir ao Seixal, "mandei" representação familiar: o jovem Manuel faz, aos 17 anos, o tirocínio na Festa. Creio que por razões mais musicais que ideológicas. Mas nunca se sabe...
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Recordação do Alto da Ajuda, em 1981. Um grupo mourense: José Francisco Moita, Tarugo (de óculos à Elton John), o autor de blogue (disfarçado de Tutankhamon), José Ramos (de boné amarelo), Francisco Emiliano e Maria da Luz Branquinho (née Baleizão).

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

FEIRA DE SETEMBRO - MOURA

Começa de hoje a oito dias a Feira Anual de Setembro que tem lugar, como habitualmente, no Parque Municipal de Feiras e Exposições. O espaço dos pavilhões está esgotado, o que obrigou ao aluguer de uma tenda. O número de expositores aproxima-se dos 100, o de stands dos 150. O espaço exterior está também integralmente ocupado, o mesmo se podendo dizer em relação às tasquinhas.
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São parceiros importantes da Câmara Municipal de Moura nesta iniciativa a APIVALE e a ADCMoura.
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De tudo isto só consigo tirar uma conclusão: para suscitar tanto interesse, Moura deve ser um sítio muito pouco interessante e a autarquia organizar umas feiras péssimas. Só pode ser isso...
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Programa completo em: http://www.feirasdemoura.pt/Programas.html

À VOLTA DA ESCRITA

Os últimos dias têm sido de sossego. E à volta da escrita. O avanço é lento e caótico. Mas com resultados que começam a tomar forma. O livro intitular-se-á Castelo de Moura - Arquelogia: 1989-2008 e é um trabalho conjunto com a minha colega Vanessa Gaspar. Incide sobre os trabalhos desenvolvidos na alcáçova e, muito em particular, no estudo das colecções provenientes daquele local. A edição, da Câmara Municipal de Moura, verá a luz do dia até final do corrente ano.
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Mesa de trabalho do escritor Peter Benchley, aqui fotografada por Bernard Hoffman (1913-1979). Diz-se que uma secretária desarrumada é reveladora de uma mente organizada. Ena, nunca pensei que eu tivesse a mente assim tão organizada. Embora fiquei cheio de inveja da organização mental do meu amigo Pós-de-Mina, cuja secretária...
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E aqui vai uma ideia que me agrada, embora este tema seja tabu lá em casa: "When Nobel Laureate and University of Chicago economics professor Robert Fogel found his desk becoming massively piled he simply installed a second desk behind him that now competes in towering clutter with the first." (Eric Abramson and David Freedman). Sei o que isso quer dizer porque já trabalhei com duas secretárias em simultâneo.

"PARA O PESSOAL AQUI DA METRÓPOLE..."

Foi na Festa do "Avante!" de 1985. Estava a decorrer uma daquelas jornadas de combate ao racismo e ao colonialismo. Houve debate e, no final, teve lugar um momento de animação musical. O moderador e apresentador era o actor Canto e Castro, já falecido. O grupo musical era o Sossabe, constituído por cabo-verdianos imigrantes. Estavam, isso via-se na cara deles, felicíssimos com aquela oportunidade. Tocaram, com alma, talento e sentimento, coladeras e funanás. O melhor momento estava para vir. Um dos músicos chega-se ao microfone e anuncia: "e agora, temos outra música preparada, que é mais ao gosto do pessoal aqui da Metrópole". Vi caras empalidecerem com violência e bandeiras vermelhas perderem o fulgor... E eles , descontraídos, tocaram um fadinho em ritmo de coladera - penso que o Tudo isto é fado, mas a memória pode trair-me -, com enormes sorrisos. Que tinham, na plateia, a resposta da boa disposição de um bom punhado de presentes. Eu incluído. No fim, não resisti a ir dar-lhes os parabéns.
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O discurso de assimilação foi uma das falácias maiores do colonialismo e do nosso fascismo. Mas há gestos e ideias que mergulham fundo em nós. O episódio dos Sossabe é, apesar de tudo, a parte menos grave dessa falácia.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

WWW.CM-MOURA.PT/PLANOS

A Câmara Municipal de Moura coloca à disposição dos munícipes, através desta plataforma, informações da maior importância referentes a diversos Planos do concelho de Moura. É no sentido de se garantir o direito dos cidadãos à informação que surge este WebSIG Planos, uma aplicação concebida integralmente em software livre e aberto ao alcance de todos.

O WebSIG Planos constitui não só um espaço onde cada utilizador pode consultar os Instrumentos de Gestão Territorial em vigor no concelho de Moura, mas também um fórum para a discussão pública de planos em elaboração, revisão ou alteração.

Numa fase subsequente, pretendemos garantir a emissão de plantas online e o acesso ao serviço de dados geográficos através do software SIG instalado no computador de cada um (Web Services).

De modo a cumprir a recomendação de organismos nacionais e europeus, adoptou-se o sistema de referência PT-TM06/ETRS89 - European Terrestrial Reference System 1989.

Por favor envie-nos as suas sugestões ou reclamações para sig.moura@cm-moura.pt.

Este site encontra-se ainda em fase de construção/ manutenção. É normal que ainda não estejam disponíveis todos os conteúdos. Por este facto pedimos as nossas desculpas e prometemos ser breves.

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É este o texto de apresentação de www.cm-moura.pt/planos. Refira-se, em especial, o espírito de iniciativa e o empenho de dois jovens técnicos da autarquia, que resultou na produção desta página. Não faltarão as habituais, e quase sempre desajustadas, críticas. Nada de novo, nesse domínio. O interesse da página é indiscutível. O resto é conversa fiada.
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Planta de condicionantes da Zona Industrial de Moura
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Veja-se o site: www.cm-moura.pt/planos

terça-feira, 31 de agosto de 2010

É POR CAUSA DO PROF. QUEIROZ, NÃO É?

Dos jornais:
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O Presidente da República, Cavaco Silva, recebe esta quarta-feira em audiência o procurador-geral da República, Pinto Monteiro, anunciou hoje o Palácio de Belém, sem adiantar os motivos do encontro.
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É por causa do processo do Prof. Queiroz, não é? É isso, não é? Além disso, não estou assim a ver de que mais possam falar.
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FELIPE OLIVEIRA BAPTISTA

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A notícia tem horas: o estilista português Felipe Oliveira Baptista é o novo director artístico da Lacoste. O currículo do jovem criador, divulgado pela imprensa, é de tirar o folêgo a qualquer um. A isso não foram insensíveis os responsáveis da marca do crocodilo. Que o escolheram de um grupo muito restrito de pré-seleccionados, onde estavam os melhores de entre os melhores.
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Pode ser um pouco provinciano, mas fico sempre contente quando vejo um português sair-se bem lá fora. Mesmo que à frente de uma marca que nunca usei.
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Site:
http://www.felipeoliveirabaptista.com/

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

1000

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Mil posts já lá vão neste blogue, iniciado em Dezembro de 2008. Outros mil se seguirão. Que fotografia é esta? A do rei Pelé, comemorando o seu milésimo golo, marcado no dia 19 de Novembro de 1969. Andava eu na 1ª classe. Um facto menos relevante, sem dúvida.

BALADA DO PAÍS QUE DÓI

O barco vai
o barco vem
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português vai
português vem
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o corpo cai
o corpo dói
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português vai
português cai
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o barco vai
o barco vem
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português vai
português vem
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o país cai
o país dói
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o tempo vai
o tempo dói
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português cai
português vai
português sai
português dói
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O dia está de sol e eu devia estar de acordo com o sol. Mas não estou. Deixem-me partilhar com quem aqui passa a balada do país que dói, de Ana Hatherly (n. 1929). Poesia experimental, sim, mas também intensamente melancólica e portuguesa. Tão melancólica quanto a fotografia cheia de sol que Agnès Varda (n. 1928) fez, em 1954, na Póvoa de Varzim.

JOSÉ CUBERO SÁNCHEZ "EL YIYO" (1964-1985)

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Foi no derradeiro momento do último touro da tarde. José Cubero Sánchez El Yiyo, que participara, um ano antes, na fatídica corrida de Pozoblanco, teve morte quase imediata ao ser atingido no coração. A lide tinha sido de grande categoria e o jovem matador evidenciava todas as qualidades que auguravam uma brilhante carreira. Bastará dizer que, dois anos antes, e com apenas 19 anos, saira duas vezes em ombros pela porta grande de las Ventas. Coisa que não é para qualquer um.
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Recordo-me de ter visto, atónito, as imagens no telejornal. El Yiyo morreu na praça de Colmenar Viejo, faz hoje 25 anos. Um registo desses trágicos momentos pode ser visto aqui.

domingo, 29 de agosto de 2010

EVOCAÇÃO DE SANTO ALEIXO


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“Ao prezente he do termo de Moura sendo antiguamente independente della”. Assim se escrevia em 1758 nas memórias paroquiais, as mesmas que davam conta da abundância dos campos e nos falavam do trigo, da cevada, do centeio e das bolotas que se podiam ver em volta da aldeia.
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Santo Aleixo é um conjunto de tribos familiares. Vivem, desde sempre, em volta de um forte ou de uma igreja. Que são o mesmo sítio. A igreja é o centro da aldeia. Que é o mesmo que dizer que é o centro do mundo.
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A aldeia organiza-se como uma acrópole, as ruas fechando-se em baixo na Rua Nova, limite antigo de Santo Aleixo. Chega-se devagar, cruzando rios e riachos, terras de montado e de silêncio. O silêncio mantém-se quando passamos o primeiro largo e as primeiras ruas. Várias ruas são percorridas e ainda não se vê ninguém nas ruas. É já demasiado tarde para quem saiu para trabalhar no campo, e ainda demasiado cedo para o resto do dia. Cruze-se a aldeia um pouco mais, até à escola, onde a musicalidade e as lengalengas do ensino de outrora deram lugar a novos métodos. São 40 meninos, menos, muito menos que em tempos idos. Em breve saberão qual o melhor pego e qual a melhor amoreira das redondezas. Começarão sem pressa a tactear o território e a tomar conta dele. Vai neles, nas brincadeiras deles, e na fala deles, o futuro da aldeia de Santo Aleixo.
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Há um secreto rumor que não lobrigamos ainda. Mercearias de desenho antigo onde cada menos gente vai – “só para as faltas”, ouve-se dizer dizer – contrapõem-se ao bulício da confeitaria, onde se fazem bolos com nomes originais – argolas de vinho, coronilhas, moreninhas de manteiga. De aromas e de alguns sons se vai fazendo esta parte da manhã.
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Entremos mais, um pouco mais, na aldeia, até uma dessas pequenas oficinas desconhecidas, onde os artefactos do dia-a-dia são ainda feitos como há muitos anos atrás. As cadeiras são, ainda são, de loendro e de zambujo, mas o buinho deu lugar à mais prosaica corda. Há um mundo antigo que desaparece, podemos senti-lo a cada passo, em cada casa e em cada conversa. Por isso um sapateiro nos diz “hoje a bota caneleira é bota de luxo, para pôr de festa”. O que antes era trabalho é hoje coisa supérflua e de ostentação.
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De onde quer que estejamos, a igreja é o centro da aldeia e, portanto, o centro do mundo. Chega-se à igreja vencendo o desnível, socalco após socalco, até se poder olhar o território em volta. Há casas num primeiro plano, depois terras, a Adiça ao longe, desaparecendo nos dias de bruma. Não diz muito uma aldeia vista de cima, com as ruas desertas e as casas fechadas. Vem, não sabemos donde, um silêncio que se sobrepõe a todos os sons. O tempo deixa de existir e é como se toda a vida se detivesse à volta dos muros das casas, imobilizando-se os ramos das árvores e deixando-se os pássaros suspensos no seu voo.

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É assim Santo Aleixo no sossego dos seus dias. Foi assim que conheci Santo Aleixo, no Verão de 1973. Nunca me lembro de ter visto quase ninguém nesses dias passados na estação dos Correios, onde fazia companhia, fraca companhia, à tia Elisa. Na verdade lembro-me de duas pessoas, da professora que me tinha inquirido no exame da 4ª classe (como se chamaria e o que será feito da senhora?) e de um rendeiro que veio mandar um vale de trinta contos. “Ena, tanto dinheiro”, pensei, mas Elisa explicou-me que era o dinheiro de todo o ano e que cultivar a terra também tinha despesa. “Ah!”, pensei outra vez, “afinal não é assim tanto”. Aos dez anos, a vida deixava de ser um eterno idílio. Descobri isso em Santo Aleixo. As outras duas memórias da aldeia são precisas e dizem respeito só à estação dos Correios: à placa outorgada ao almoxarife, atestando o bom estado das instalações, e ao cheiro a madeira afagada pela cera. É engraçado que a coisas tão pouco importantes, e que nunca se apagarão, se possam resumir as recordações de uma terra. Só voltei a Santo Aleixo muitos anos depois, sem voltar a saber da professora e do rendeiro. Calor, silêncio e o cheiro às madeiras polidas e enceradas ficaram sendo sinónimos da aldeia.
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À volta de Santo Aleixo repousam restos das santo-aleixos doutros tempos. Os nomes são só nomes nos livros de História – Anta da Negrita, Castelo do Murtigão, Bezerra de Ouro –, abandonados nos campos e esquecidos por quase todos. A prosperidade antiga deste território, nos tempos em que os seus campos davam prata, repousa em livros que poucos lêem. Durante séculos, os homens alimentaram-se do ventre da terra. Em segredo, no mais completo silêncio, as minas de prata alimentaram uma prosperidade frugal. Palmo a palmo, metro a metro, a superfície e as entranhas da terra foram revolvidas. Podemos imaginá-los, aos santo-aleixenses de há mil anos, envenenando-se com os vapores do chumbo, enquanto derretiam o minério. Podemos vê-los, por entre o mato, em sítios escondidos à volta de Santo Aleixo, arrancando metais à terra, transformando-os e vendendo-os nos mercados das grandes cidades do sul. Podemos ouvir o seus passos surdos, nas tardes quentes de Verão e nas noites frias de Inverno, escapando às tropas dos imperadores, dos califas e dos reis e ludibriando quadrilhas de ladrões até chegar em segurança à aldeia.

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A prata partiu há mil anos, sem deixar rasto nem memória nem nada.

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Foi aqui que nasceu, no século IX, e que a partir da aldeia desafiou os poderosos do seu tempo, o guerreiro Faraj b. Khayr al-Tutaliqi. Poetas e guerreiros, pastores e mineiros. São ecos que chegaram até nós como sons que se desvanecem e poucos em Santo Aleixo reconhecerão o parentesco com esses remotos antepassados.

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Fora da aldeia, só os pastores e os rebanhos se movem num cenário que pouco deve ter mudado em mil anos. Os fumos do minério deram, contudo, lugar ao espesso negrume dos fornos de carvão, cujo fumo vemos, aqui e além, cortar a linha do horizonte. A dureza do dia-a-dia não mudou e ficará, talvez, como a marca perene num ambiente pouco amigável e que não dá tréguas a quem aqui vive.

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Fora da aldeia, longe da aldeia e longe do mundo, fica o Convento da Tomina, sítio de uma fé casada com o isolamento. O convento foi erigido entre brenhas e penhascos – em sítio áspero e fragoso, diz um texto antigo -, longe de tudo e fora do mundo. Um delírio em pedra argamassada sob a forma de fé, mas não deixa de impressionar a tenacidade dos que levaram a cabo tal empresa e habitaram o convento durante séculos. A Tomina é hoje uma quase miragem. A Senhora da Tomina dá o nome à principal festa religiosa da aldeia.

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Regressemos à aldeia, ao território dos santo-aleixenses. Regressemos ao centro do mundo. Muitas vezes esse mundo teve que se defender à custa do sangue de quem aqui nasceu. Numa ocasião, em 12 de Agosto de 1644, o ataque atingiu dimensões nunca vistas. A descrição que nos chegou refere-se a uma data e a uma ocasião. O que nela se conta ocorreu muitas vezes antes e muitas outras depois. São vozes vindas do passado que nos contam como se tentou tomar a aldeia encostando sessenta escadas às trincheiras e são os mesmos sussurros que nos dizem como depois os habitantes mataram pelas ruas e casas mais de quatrocentos dos inimigos.

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Se pararmos na Rua Lopo Sancas e esperarmos que passe a máquina do tempo veremos começarem a tomar forma vultos e sombras. Olhemos as casas que ardem, os muros das casas que se derrubam para que de umas se pudesse passar a outras: “E como Lopo Mendes quisesse levantar bandeira branca, e pedir quartel, as mulheres que estavam dentro do reduto lho não quiseram consentir, e pegando na bandeira lha fizeram baixar”. Cinzas e lume, dor e morte. Evoquemos a fúria das mulheres de Santo Aleixo, as mesmas que arrancavam lajes da igreja e as atiravam para cima dos inimigos, deixando-os logo sepultados debaixo dos pedaços das campas.

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Tudo acabou na igreja, com o tecto a cair no meio de uma explosão, gente morta e estropiada, outra lançando-se do que restava do telhado. Sentemo-nos no adro da igreja e olhemos o que resta desse cenário terrível: uma lápide onde se lêem os nomes dos homens principais de Santo Aleixo que foram mortos ou ficaram feridos ou cativos. Estranha justiça esta que homenageia só os homens, e dentre estes apenas os principais, aqueles que por riqueza herdada ou adquirida se distinguiam de todos os outros.

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Na igreja de hoje, apenas a placa evoca esses momentos de horror. O silêncio do templo só é quebrado nos momentos de celebração ou nos dias de festa. Nesses dias Santo Aleixo ganha reverberações da Anadaluzia e guerras antigas tornam-se ainda mais difusas.

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A procissão, esse desfile de celebração tão remoto como o Mediterrâneo, marca o compasso da festa. O tamborileiro, tão antigo como a procissão, marca o ritmo do desfile. O percurso é antigo e de todos conhecido. Todos os preceitos passam de geração em geração. Há flores, guiões e andores e imagens. Há anjinhos, música e padres. “A luxúria leva ao fogo”, proclama um clérigo, enquanto moças bonitas e vestidas a preceito vão passando devagar. A quem se dirigirão as palavras? Às moças, a nós ou a si próprio?

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Nos dias de festa a quietude é quebrada e revive uma Santo Aleixo antiga e telúrica. Quando quase todos partem, voltam a quietude e o silêncio, quase só quebrado pelas vozes que, a espaços, ainda ecoam nas tabernas ou pelos insistentes ensaios dos grupos corais.

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Um ritmo conhecido retoma-se nos dias seguintes às festas. Voltaremos mais tarde à aldeia. Partidos os visitantes, soam agora outros passos nas suas ruas. Guardas e carteiros são quem as percorre com regularidade e por dever de ofício. Há menos cartas a entregar e menos ocorrências a registar. Com o passar dos anos, as voltas e os percursos tornam-se mais rápidos.

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Há dias que ficaram lá atrás no tempo e que não se podem retomar. Não podemos aí demorar-nos, não vá o destino tomar conta de nós. Depois de sairmos é a partida sem olhar para trás, porque a podemos perder como a Eurídice. E assim a aldeia mergulha a pouco e pouco no horizonte como uma cidade vista do mar, quando o barco se afasta e nessa altura já não se vê a cidade.

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Em 1758 a aldeia tinha 737 habitantes. Em 2001 eram 842 os residentes. Diáspora e perenidade marcam o horizonte de Santo Aleixo da Restauração. Os que ficam são os guardiães da aldeia. Os que partem talvez não regressem. Os que ficam repousarão um dia à saída da aldeia. Chamam-se Carrasco. Ou Fialho. Ou Caldeira. Ou Quitéria. Ou Balancho. São os santo-aleixenses.
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Texto do livro Santo Aleixo da Restauração, ontem apresentado ao público.

VAE VICTIS

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

RECORDAÇÕES DA CASA AMARELA

Sexta longa-metragem de João César Monteiro (1939-2003), estas Recordações da Casa Amarela, de 1989, mereceram ao seu autor reconhecimento internacional. Cineasta interessante, que sabia escrever e filmar histórias (o que é coisa pouco vulgar num cinema nacional, onde a qualidade dos argumentos é uma generalizada desgraça), João César Monteiro dá-nos, com este alter ego (João de Deus), uma visão sardónica e provocadora de uma Lisboa meio marginal. A filmografia de João César Monteiro tem outros momentos interessantes, com filmes como Silvestre (1986), A comédia de Deus (1995) e o crepuscular Vai e Vem (2003). A sua obra mais falada, e menos vista, terá sido Branca de Neve, que mereceu ao realizador contundentes opiniões sobre o público português (ver e ouvir aqui).
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Como é dos poucos cineastas portugueses de que verdadeiramente gosto, aqui fica um excerto de um filme que vale a pena ser visto:
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DOMINGO, EM SANTO ALEIXO

É no domingo, às 11 horas, o lançamento do livro Santo Aleixo da Restauração, com fotografias de Alberto Frias e texto meu. O trabalho levou, entre inúmeras peripécias, hesitações, avanços e recuos de toda a ordem, em grande medida da minha responsabilidade, quase dez anos a ver a luz do dia. É narrativa que ficará para mais tarde. Para daqui a muitos anos.
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O Alberto teve, segundo me disse depois, de ser amparado, por não ter resistido à emoção da frase "Alberto, a impressão está terminada".
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A iniciativa, da Câmara Municipal de Moura, faz parte do programa das Festas da Tomina.
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Imagem do livro (© Alberto Frias e CMM)

LICENCIAMENTO ZERO

A ideia é, em si, interessante. Ou seja, reduzir a um mínimo indispensável os procedimentos burocráticos para facilitar a vida aos cidadãos é sempre um passo importante. Responsabilizar os cidadãos e dar-lhes margem de manobra, comprometendo-os, ao mesmo tempo, nas soluções, parece-me outro passo importante. Toda a gente aplaudiu: empresários, autarcas, deputados etc. etc.
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Problema não negligenciável: anunciar este licenciamento zero da forma como o foi feito vai dar a muitas pessoas a ideia que podem fazer as coisas de imediato ("foi isso que o senhor primeiro-ministro disse, não foi?"). Mais, lançar assim programas como este, tão ao gosto da mentalidade anglo-saxónica, num país mediterrânico, e onde o improviso e a indisciplina são regra, vai causar uma generalizada confusão. Em especial em localidades de pequena dimensão, mais afastadas dos grandes centros e com populações menos jovens.
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Frases ainda menos negligenciáveis da imprensa on-line de ontem: "vão ser também eliminadas todas as licenças prévias a algumas atividades, substituindo-as por ações sistemáticas de fiscalização posterior ao início da atividade"; "vai ser possível abrir um restaurante só com registo electrónico. A verificação dos regulamentos será feita a posteriori"; "em contrapartida, será agravado o regime de multas para quem não cumprir as regras". Os distraídos e os mais ingénuos que se cuidem.
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47 anos de lusitanidade deixam-me uma funesta sensação: isto vai dar rebaldaria. E multas. Muitas multas e muito desespero. Desejo, do fundo do coração, estar equivocado e poder dizer, dentro de um ano, o simplex funcionou e aquela coisa do licenciamento zero não deu barraca.
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quinta-feira, 26 de agosto de 2010

CAFÉ ALIANÇA

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Uma notícia triste. Fechou, de vez (?), as portas o Café Aliança, em Faro. Se descontarmos a Brasileira, em Lisboa, e o Majestic, no Porto, hoje a atirar para o chique, o Aliança era um dos raros bastiões de que nunca me esqueço. A par do magnífico Santa Cruz, em Coimbra. Mas também do Arcada, em Évora, agora convertido em casa de bifes.
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O Aliança tinha um detalhe de particular interesse: as suas paredes estavam forradas de fotografias antigas, imagens magníficas de um Algarve pré-turístico que se perdeu no tempo. Mais: algumas dessas fotografias estavam assinadas Zambrano. Nunca consegui chegar à fala com o proprietário, mas tenho quase a certeza que as fotografias eram de Zambrano Gomes, natural de Oliva de la Frontera (Espanha), mas que fez grande parte da sua carreira em Moura.
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É espreitar e escolher:
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http://www.cafesantacruz.com/
http://www.cafemajestic.com/
http://www.abrasileira.pt/
http://www.lusitana.com/
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Zambrano Gomes, fotógrafo de Moura é um livro editado pela nossa Câmara Municipal.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

PARA NÃO DIZEREM QUE EU É QUE SOU MAU...

Para não dizerem que eu é que sou mau convido-vos à leitura do texto de Ana Sá Lopes sobre a passagem do Bloco de Esquerda à clandestinidade (cliquem aqui sff).
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Não sei porquê, mas acho que vou ter mais comentários do que quando escrevo sobre cinema, cidades ou corridas de touros...
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Apoiantes do Bloco num comício de Manuel Alegre (aquilo dos óculos escuros é para não serem reconhecidos)