terça-feira, 22 de dezembro de 2020

O VINHO QUE VEIO DO FRIO

Há umas horas, numa conversa com um colega, Luís Goldschmidt, rumámos para John LeCarré. Nunca vi o filme de Martin Ritt, O espião que veio do frio (1965). Nunca tinha tido notícia da invulgar informação dada por Nan Perry (Claire Bloom) a Leamus (Richard Burton):

“Dinner will be served at eight with a Portuguese wine spelled D-A-O with a twiddlle over the ‘A’ and pronounced ‘dang. . . I made Hungarian goulash I thought it would be tactful to serve a communist food with totalitarian wine.”

Caramba, com tanto vinho logo tinha que ser Dão...



A MINISTRA DA SAÚDE

A ministra assim, a ministra assado. Devia demitir-se, já se devia ter demitido. As vacinas não vão dar para todos, pois já se sabia. Dias a fio disto, semanas a fio. A minha área política não é, claramente, a da ministra Marta Temido. Mas, muitas vezes tenho pensado, durante estes meses, quantas pessoas aguentariam, com aquela serenidade consciente (consciente porque conhecedora, não por indiferença), a pressão de todas as dificuldades. Seria possível ter feito melhor? Com os meios que há? Tenho, enquanto cidadão (não sou técnico nem comentador televisivo), as maiores dúvidas.

Ganhei, ao longo dos meses, respeito à ministra Marta Temido. Ao mesmo tempo que se me firmou a convicção que sem o papel do Estado, que sem o Serviço Nacional de Saúde, sem os trabalhadores que têm dado o seu melhor, e até mais que isso, teríamos fracassado.

Ouvir um candidato à Presidência da República, chamado Tiago Mayan, dizer que a ministra é responsável por 10.000 mortes causa uma tristeza sem limites. E revolta, ante a infâmia. São os novos lobos liberais atacando o rebanho...

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

XLIII - CRÓNICAS OLISIPONENSES

Do outono para o inverno.

Às 10 horas estava na Faculdade, ainda era outono, às 12 no Palácio da Ajuda e já era inverno. Duas estações do ano no mesmo dia, separadas por minutos e por 5.430 metros.

Lisboa tem uma luz bonita, mas é uma cidade fria. Antes não era. No caminho para sul recordava isso a uma velha amiga, falando do Meireles, funcionário do tribunal, que roubava pastéis de bacalhau na "Tendinha", dos pintas no Largo das Olarias, de uma cena de pancadaria numa cervejaria na Almirante Reis, do barbeiro que assava sardinhas em Alfama, do carteirista no Rossio que se queixava que não o deixavam trabalhar. Tenho essas memórias ainda muito vivas e, sem lamechices bacocas, a Lisboa de então era mais divertida, ainda que menos cosmopolita, que a de hoje. Humanamente? A de antes.





ALÔ, UNIDADE DE MISSÃO PARA A VALORIZAÇÃO DO INTERIOR - VERSÃO ULSBA

Das notícias de hoje:

A Unidade Local de Saúde do Baixo Alentejo (ULSBA) viu os seus dois únicos médicos de Saúde Pública, colocados por mobilidade na Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo tendo a USP da ULSBA ficado sem qualquer médico.










Qualquer dia vai ser assim, como no célebre desenho de Claude Serre (1938-1998).

domingo, 20 de dezembro de 2020

A SOLIDARIEDADE E O REAL DE MOURA

Não é a primeira, nem a segunda, nem a terceira vez que o grupo põe no terreno atitudes de solidariedade. Sem exibicionismos, nem propaganda, de forma direta e prática. Foi isso mesmo que disse a um desses amigos, aqui há dias. Associo-me agora a esta iniciativa.

A atitude de entrega tenho-a testemunhado ao longo dos anos. Dentro e fora da praça. Foi isso também que os fez avançar para a Festa da Padroeira. Uma comissão a dobrar, em tempos difíceis.

Quando um grupo de forcados sabe o que faz, dentro e fora da praça, e tem esta capacidade de entrega, temos razões para estarmos orgulhosos. Por questões de Cultura, de Tradição e de Exemplo. O resto é conversa.



sábado, 19 de dezembro de 2020

PUBLICIDADE SUBLIMINAR?

A Comissão Nacional de Eleições lançou uma campanha de apelo ao voto. Muito bem, é importante votar.

Contudo, o apelo faz-se, na net, na televisão, por toda a parte, com frases como "é o meu presidente", "também é o meu" e "e nosso".

Ora bem, neste momento há um Presidente e chama-se Marcelo Rebelo de Sousa. A campanha de apelo ao voto parece, assim, direcionada. O atual Presidente não precisa disto. E é, seguramente, alheio a este evidente disparate.




STARDUST MEMORIES Nº. 44: BOEING 727

Foram duas vezes de 727. Primeiro Marselha-Argel (com o transbordo atrasadíssimo e o pessoal de terra da Air Algérie empurrando-nos corredores fora vite, vite, vite), uma semana mais tarde Argel-Barcelona (com 14 controlos policiais no aeroporto, uma mais-que-intrusiva revista corporal à entrada da porta traseira do avião e uma aterragem duríssima em El Prat, que me fez perder os meus óculos escuros graduados).

O aparelho que nos levou a Argel tinha a bonita idade de 28 anos (vi no painel da Boeing, à entrada, porque o forro do teto estava descarnado). O teto era assim, alto como o da fotografia. E fumava-se dentro do avião. A viagem tinha ingredientes enervantes - o ambiente era ainda pesado no País e "aquilo prometia" -, pelo aproveitámos para fumar todo o santo voo.

Ah, e não havia lugares marcados. Quando o chefe de cabine se apercebeu que havia um trio lusitano, que estava a viajar junto, correu com um pobre coitado do lugar, mandando-o para outro sítio sem cerimónia e fazendo depois um gesto largo e gentil "vos places, messieurs, madame".

Já lá vão 20 anos.








sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

ÁGUA DE OUGUELA

Na primeira visita a Ouguela fui com outro objetivo. Na segunda, já a tarde caía. Nem sempre à terceira é de vez. Hoje, um denso nevoeiro cobria o Alto Alentejo. Deu para pouco. Mas, sem dúvida que a fonte assinalada por Duarte Darmas ainda lá está. Com outro desenho, claro, mas ainda está no mesmo sítio. Escrevia o Dr. Francisco da Fonseca Henriques, médico de D. João V, em 1726, "na villa de Ouguella ha uma fonte de que bebe a mayor parte dos moradores, a que chamão Fonte Velha (...). Foi a água de Ouguela que procurámos, e que encontrámos.













quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

QUANDO O MUNDO ERA UM POUCO MAIS SIMPLES

Ao quase terminar o levantamento de desenhos de obras promovidas por uma entidade estatal dei com este desenho, a todos os títulos extraordinário. De que se trata? Do esquiço da porta de um galinheiro, com todos os pormenores rigorosamente delineados. Quem assina o desenho? Nada menos que Artur Pires Martins (1914-2000), um arquiteto com grandes responsabilidades no Ministério das Obras Públicas de então. Um homem com um percurso singular, que se dedicou ao desenho da habitações e que viria ainda a colaborar na "Festa do Avante!".

Não desejamos voltar a esse tempo. Mas não podemos deixar de constatar a simplicidade de certas coisas ou, mais provavelmente, de certas pessoas. Como o arq. Artur Pires Martins. Quem em vez de armar em pessoa importante, dava atenção a detalhes "menores", como o desenho da porta de um galinheiro, em Caminha. Fiquei a pensar que gostaria de o ter conhecido.




BEETHOVEN: 250

A data não é certa, mas foi por estes dias que, há 250 anos, nasceu Beethoven. Não sou exatamente o que se possa classificar como melómano. Os meus conhecimentos são curtos, mas gosto de Música. Neste dia de comemoração, aqui fica o primeiro andamento da 3ª. Sinfonia, a minha preferida, em colorida versão:



quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

GEOMETRIA DESCRITIVA

A manhã de domingo pela Lisboa Oriental deu para um passeio ao Museu Nacional do Azulejo. Um tesouro escondido na cidade. Um sítio deslumbrante e muito português.

Havia desenhos geométricos por toda a parte. Para quem, como eu, gosta destes padrões foi divertido e proveitoso.

O binómio de Newton é tão belo como a Vénus de Milo.
O que há é pouca gente para dar por isso.
óóóó---óóóóóó óóó---óóóóóóó óóóóóóóó

(O vento lá fora.)

Álvaro de Campos, 15-1-1928




terça-feira, 15 de dezembro de 2020

O SENTIDO DA VIDA

De onde vimos e para onde vamos e etc. e tal? Isto dá sempre para altas cavalgadas filosóficas ou pseudo-filosóficas. Dá para tudo...

Os Monty Python explicam tudo em imagens. Através do génio de Terry Gilliam, o menos visível da troupe. O sentido da vida? É mais ou menos assim:




segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

MÁRTIRES DE MARROCOS NA "RÁDIO OBSERVADOR"

E logo à noite será tempo de rumar ao Bairro de Alvalade, para uma entrevista na Rádio Observador. O jornalista João Paulo Sacadura "convocou-me" para falar um pouco sobre a exposição que está em Arte Antiga.

A partir das 20:20:

https://observador.pt/programas/convidado-extra/



domingo, 13 de dezembro de 2020

UM COMBOIO NO SÉCULO XVI

Numa visita matinal ao Museu Nacional do Azulejo, aproveitei para revisitar esta curiosidade, a que acho especial graça. O convento teve obras profundas no final do século XIX. Os neo-qualquercoisa estavam na moda. No meio dos capitéis neo-manuelinos um dos mestres de obras deve ter querido homenagear a recente linha de caminho de ferro, que passa a 50 metros do claustrim.

É assim que se criam grandes balbúrdias em Arqueologia e História da Arte.



sábado, 12 de dezembro de 2020

STARDUST MEMORIES Nº. 43: TENHO BARCOS, TENHO REMOS

Hoje, pela manhã, o amigo David Monge da Silva veio evocar um momento especialmente emotivo, ocorrido na Amareleja, já lá vão quatro anos. Ele não se esqueceu. Eu também não. Há coisas inapagáveis.

A Feira do Vinho de 2016 decorreu em ambiente especialmente caloroso. No sábado de manhã, dia 10, andei em peregrinação pela Amareleja fora, com o meu primo Manuel Ramalho e mais um nutrido grupo de moços, alguns deles antigos alunos do Manuel na Filarmónica. No final, houve uma última intervenção do extraordinário Rancho de Cantadores de Aldeia Nova de São Bento. Num breve agradecimento, referi duas coisas: as minhas origens em Aldeia Nova e depois, já não sei porquê..., falei na importância das modas antigas e de como é crucial esse permanente reavivar da memória. E citei uma dessas modas, de que gosto especialmente: Tenho barcos, tenho remos. Para meu enorme espanto, o grupo cantou-a de seguida, dedicando-ma. E não foi cantar por cantar. Foi uma interpretação superior.











Ver o vídeo aqui:

https://www.facebook.com/david.mongedasilva/videos/1302179319855387/

E mais este registo:



STARDUST MEMORIES Nº. 42: AUTÁRQUICAS, DE 1976 A 2016

Há precisamente 4 anos, e para assinalar os 40 anos das primeiras eleições autárquicas, a Camara Municipal de Moura promoveu uma sessão comemorativa. Um momento importante, a todos os níveis.

Uma leitura no facebook veio recordar-me os nomes dos presidentes da FEPU eleitos em 12.12.1976. Há um presidente que ainda está em funções. Saiu, por vontade própria, e depois regressou. É um homem jovial, chamado António Figueira Mendes.

















sexta-feira, 11 de dezembro de 2020

APOM DISTINGUE CLÁUDIO TORRES

Agora foi a Associação Portuguesa de Museologia a distinguir Cláudio Torres. Um prémio justo e hoje consensual. Fiquei muito feliz com este reconhecimento. Fiz questão de o dizer, oportunamente, ao presidente da APOM, João Neto, um amigo que muito tem feito pelo prestígio do setor no nosso País.

Trabalhei ao lado do Cláudio quase 15 anos a fio. Uma oportunidade única e que moldou a minha forma de trabalhar. Uma experiência que foi a minha escola profissional. Já várias vezes escrevi sobre isso e de vários modos o relatei. E se celebro o prémio do Cláudio na primeira pessoa é pela convicção que muitos outros poderão escrever o mesmo, com outras tantas variantes pessoais. Mértola e o Cláudio foram a nossa escola profissional e cívica. Isso vale mais que todos os títulos académicos.

À tua, Cláudio.




quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

OS MÁRTIRES NA COMUNICAÇÃO SOCIAL

É sempre um dado fundamental. Ter good press. Só isso só não basta. A publicidade por si só não chega... Publicidade sem nada mais é propaganda balofa a coisa nenhuma.

Creio não ser esse o caso, felizmente, de "Guerreiros e Mártires", no Museu Nacional de Arte Antiga. O trabalho de uma vasta equipa resultou numa exposição que, posso dizê-lo sem imodéstia, é um trabalho coletivo de qualidade. E que, do ponto de vista pessoal, encerra um capítulo na minha vida profissional. O "sucesso visual" do que pode ser visto deve muito, mas muito mesmo, ao trabalho de Manuela Fernandes e de Sónia Teixeira Pinto. A SIC, o Expresso, o Público, a Antena 2, agora a RTP têm dado destaque a "Guerreiros e Mártires".

Ver - https://www.rtp.pt/play/p6677/e511302/as-horas-extraordinarias


quarta-feira, 9 de dezembro de 2020

PRÉMIO GULBENKIAN PATRIMÓNIO - MARIA TEREZA E VASCO VILALVA

Uma iniciativa da Fundação Gulbenkian dirigida a projetos de reabilitação do património fora do âmbito estatal.

As candidaturas terminam no dia 18 de dezembro.

Ver - https://gulbenkian.pt/fundacao/premios/premio-vilalva/

terça-feira, 8 de dezembro de 2020

RIBEIRA DA PERNA SECA - ANTES E DEPOIS

Acontecimentos recentes, e algumas coisas que fui lendo, levaram-me a escrever este texto para "A Planície":


No dia 29 de novembro de 2020 choveu bastante na serra. A meio da tarde, a ribeira da Perna Seca, no Sobral da Adiça, transbordou pontualmente das margens e tocou algumas casas mais próximas ao curso de água. Não foi a primeira grande cheia a ter lugar, desde que a obra de regularização da ribeira foi começada. Na noite de 13 de novembro de 2014 uma chuvada semelhante tinha posto à prova a capacidade de escoamento da obra. Estive lá um pouco antes da meia-noite e tenho fotografias que o demonstram.


Conheço muito bem este processo. Tive-o em mãos entre outubro de 2005 e dezembro de 2016. Mais de uma década de labuta, até se conseguir resolver um problema que poderia assumir proporções ainda mais graves. Como teria ocorrido em 2014 e no final do passado mês de novembro.


Um dos momentos mais marcantes do meu percurso autárquico, e da minha vida, ocorreu na noite de 29 de dezembro de 2009. A ribeira transbordara, uma vez mais. O acesso principal à aldeia estava cortado e tivémos de entrar, o José Maria Pós-de-Mina e eu, pela Estrada dos Carapinhais, num percurso mais longo, por entre a escuridão e a chuva que ainda caía. Preparávamo-nos para ouvir um coro de reclamações, à chegada. O que aconteceu foi, para nós, muito pior. Havia um terrível silêncio, um misto de desalento e de tristeza se apossara dos moradores que vivem aqui nesta zona. Ouvia-se apenas aquele rumor da água a correr depressa, quando a ribeira começava a esvaziar lentamente.


No dia seguinte, houve uma brevíssima reunião. O José Maria disse-me apenas “já percebeste que temos mesmo de avançar, com ou sem financiamento, certo?”. Sim, tinha percebido isso claramente. Esperavam-nos pela frente sete duros anos.

No jornal A Planície de 1.2.2010 a secção de Moura do Partido Socialista declarava, sem pejo nem que vergonha, que “esta obra não é da responsabilidade da Administração Central”. Claro que avançámos e não vou aqui estar a historiar todo este processo. O dia 18 de dezembro de 2016, quando a obra foi formalmente inaugurada foi dos mais significativos e decisivos da minha vida pessoal e política.


Parece-me relevante este regresso ao passado – nem por isso assim tão distante –, pelas seguintes razões:


1.    Ai de nós se esperarmos por milagres e que sejam outros a vir resolver os nossos problemas;

2.    Ai de nós se não combatermos e não resolvermos e não promovermos soluções que vão além do papel;

3.    As soluções e a força estão em nós. Em todos nós. Não há salvadores da pátria, nem profetas nem homens ou mulheres providenciais;

4.    Somos nós, com o nosso empenho, o nosso sentido de luta e a nossa capacidade de concretização. Somos nós e, como diz um velho amigo meu, a “infinita liberdade do espírito”.


É essa a minha firme convicção. E tal como se ultrapassou o problema da Ribeira da Perna Seca (a ribeira transbordou um pouco no dia 29.11.2020? nem consigo imaginar o que se teria passado sem aquela obra...) se ultrapassaram outros e se podem deixar para trás muitos mais. Com trabalho, com perseverança, com tenacidade.


Recordo um poema de Eugénio da Andrade “se as mãos pudessem (as tuas, / as minhas) rasgar no nevoeiro, / entrar na luz a prumo”. A grande diferença é que a palavra aqui nos cabe e quem tem de rasgar o nevoeiro somos nós. Agora e em cada momento das nossas vidas.


Crónica em "A Planície"