terça-feira, 9 de janeiro de 2018

TODO O OURO DA ADIÇA - UMA EXPOSIÇÃO PARA O SOBRAL


Recebi, hoje de manhã, uma comunicação do Presidente da Câmara de Moura informando que, por razões de ordem financeira, não será possível concretizar, no antigo matadouro municipal, a exposição De Totalica à Adiça: 5000 anos de mineração (registado, para efeitos autorais, nos serviços competentes do Ministério da Cultura). O valor estimado para a realização do projeto (com um teto máximo de 25.000 euros) não cabe nas prioridades atuais da autarquia. Quem tem de decidir, decide. E as opções são de quem tem o poder nas mãos.

Um dado importante, do ponto de vista pessoal: os 25.000 euros referem-se à montagem da exposição. O meu trabalho teria, e terá, custo zero.

Se a uma coisa me habituei, ao longo da minha carreira, foi a dificuldades, a projetos adiados ou concretizados muito depois da ideia inicial ter sido gizada. O recorde absoluto vai para a musealização da torre de menagem do Castelo de Moura, iniciada em 1989 e concluída em 2012... Tracei o projeto para um livro em 1990, para o publicar em 2001. Comecei a trabalhar no Museu Islâmico de Mértola em 1991, para ver a sua inauguração ter lugar em 2001. Etc.


Desta vez, não será preciso esperar tanto tempo. Retomarei o projeto, a concretizar em moldes de recurso, no Sobral da Adiça. A exposição tem de ser repensada, embora o guião original vá ser respeitado.




Que se quer de uma coisa assim? Uma exposição com brilho. Literalmente.

Que se vai mostrar? Cópias das desaparecidas tábuas da Adiça. A palavra estará presente na exposição. Através da Teogonia, de Hesíodo (sécs. VIII-VII a.C.), onde se falava do Jardim das Hespérides e da árvores do pomos de ouro. Através da poesia. Ainda Robert Frost me virá dar uma ajuda. Através de textos do século XI que aludem à importância das minas da Adiça. O metais das atividades tradicionais cruzar-se-ão com peças modernas. A luz da Adiça entrará na exposição pelas fotografias de Jorge Campaniço.


Iremos mostrar toda a riqueza mineira do concelho de Moura e cruzá-la com a produção artística (nas suas vertentes eruditas e populares, que se iluminam mutuamente e se complementam) e com a vida quotidiana.


Reproduções de pinturas de Alexandre Charles Guillemot, de François Boucher, de Johann Georg Platzer, de Anthony van Dick, as fotografias de Uwe Niggemeier entrarão em diálogo com o ambiente de uma forja. Os brinquedos tradicionais farão outro apelo à memória de todos nós. O poder do deus Hefestos estará sempre presente.



No final, voltamos ao início e ao Génesis: "e havia trevas sobre a face do abismo; e o Espírito de Deus se movia sobre a face das águas. / E Deus disse: Haja luz; e houve luz".



Imagens poesia, luz e ambiente. Tradição e modernidade, passado, presente e futuro, eis a ideia central da exposição. É isso que iremos fazer. Com dificuldades, é certo. E, também, com a ajuda de colegas qualificados (a quem já comecei a contactar e que entrarão, com amizade, neste projeto).

 



A parte positiva nas viagens de longo curso são coisas assim... O guião foi, em traços gerais, feito entre Paris e Atlanta, em maio de 2016. Nove horas sobre o Atlântico, a ver filmes idiotas e a jogar às cartas, é dose a mais. Puxei do caderno de apontamentos e comecei a delinear o projeto. Só "falhei" uma vitrine. Ainda pensei em usar, em ante-título, a expressão "há aí uma minera muito boa", tirada de A crónica do mouro Rasis, um texto medieval. Depois desisti, porque a língua portuguesa é mais que traiçoeira.


A luz que vem das pedras



A luz que vem das pedras, do íntimo da pedra,
tu a colhes, mulher, a distribuis
tão generosa e à janela do mundo.
O sal do mar percorre a tua língua;
não são de mais em ti as coisas mais.
Melhor que tudo, o voo dos insectos,
o ritmo nocturno do girar dos bichos,
a chave do momento em que começa o canto
da ave ou da cigarra
— a mão que tal comanda no mesmo gesto fere
a corda do que em ti faz acordar
os olhos densos de cada dia um só.
Quem está salvando nesta respiração
boca a boca real com o universo? 



Pedro Tamen

1 comentário:

Miguel Rego disse...

Cá te espero! Bom trabalho!