domingo, 19 de maio de 2019

FESTIVAL ISLÂMICO - O SOM

É difícil resistir ao apelo eletro-turegue de Bombino. Posso quase repetir o que, há seis anos, aqui escrevi. Até porque a magia se repetiu.

Bombino veio de Agadez, no Níger. Um caminho longo para conquistar o público do cais do Guadiana, que aguentou até de madrugada.

O Festival Islâmico de Mértola foi esta festa e este som. O extraordinário Bombino veio aponta os caminhos do sul. Já estamos à espera do dia 20 de maio de 2021.

O vento dança e canta

O vento dança e canta
Entre palmeiras
As vagas dançam e cantam
Entre barcos
Os pássaros dançam e cantam
Entre a terra e o mar
Meus versos dançam e cantam
Ebntre o silêncio e o caderno
Minha alma dança e canta
Nestes caminhos de areia.

Luís Filipe Maçarico in Ilha de jasmim

sábado, 18 de maio de 2019

DESCOBRE-TE

Coisas que fazem falta aos museus.
Irreverência. Criatividade. Inovação.
O MNAA a dar cartas.


MOMENTO GARRINCHA

Em julho de 2016, Portugal não existia. De tal maneira que os franceses pintaram um carro que celebrava a conquista do campeonato europeu de futebol (v. aqui).

Quando um selecionador brasileiro, antes de um jogo com a União Soviética, em 1958, explicava "vocês fazem assim, depois entram assado", Garrincha perguntou "e já combinaram isso com os russos?".

Sou adepto do Benfica, e quero que o Benfica ganhe. Mas com tanto triunfo antecipado, e agindo-se como se os açorianos fossem os russos desta história, de uma coisa tenho a certeza. Se fosse jogador do Santa Clara, logo à tarde até a relva haveria de morder.


sexta-feira, 17 de maio de 2019

UMA HISTÓRIA DE NUDISMO: TUDO PRA TRÁS!

Foi há muitos anos, em Vila Nova de Milfontes. Não fui, para grande pena minha, testemunha presencial dos factos. O episódio foi-me contado pela Elisa e pelo Zé, meus queridos tios. Havia, pela primeira vez, a prática do nudismo nas praias portuguesas. Os meus tios não praticavam a modalidade, mas não lhes passava pela cabeça mudar de praia só por esse motivo. Quem estivesse habituado ou não se incomodasse com a novidade (au contraire, por vezes...), não ligava muito.

Um belo dia, chegou à praia um casal de velhotes - trajados de preto, bem a rigor - com os netinhos e aviados com a cesta do farnel. Mal deram a volta à rocha, deram com aquilo. O senhor largou a cesta, pôs os braços na horizontal, em cruz, e bradou "alto! tudo pra trás!". Os moços, de queixo caído, a avó descompondo o grupo de estrangeiros "vejam só esta pouca vergonha... parece mentira". E abalaram. O dia continuou, com naturalidade.

O episódio faz parte das reuniões de família. O tudo pra trás! tem-me vindo hoje à memória.

Adão e Eva - obra de Masaccio

FESTIVAL ISLÂMICO - O AMBIENTE

Uma das coisas interessantes que o Festival Islâmico tem é aquela criação, fugaz e original, de uma terra nova. É outra Mértola, que nasce e se extingue, de forma rápida. Há sombras desconhecidas que se projetam nas paredes.

A poucas horas de chegar a Mértola, e de mergulhar numa sextasábadodomingo de enfiada, tenho a enorme expetativa de saber que vila vou encontrar.

Vou encontrar amigos, seguramente. Vou estar em casa. Vai haver livro. E vai haver Bombino.


quinta-feira, 16 de maio de 2019

CRÓNICAS OLISIPONENSES - XXIX

Aproximei-me da entrada do local onde iria ter a reunião. Ía formal, de gravata de padrão clássico, óculos escuros e chapéu. Perguntei pela minha interlocutora. O segurança, de ar severo, pegou no walkie-talkie e disse "Delta 4 chama Charlie 3. Escuto". Fico com vontade de rir, ante tanto estilo pseudo-militar. Depois, virou-se para mim e perguntou "e o senhor é...". Por uma fração de segundo, passou-me pela cabeça dizer BOND... JAMES BOND. Depois, resolvi ter juízo e disse MACIAS, SANTIAGO MACIAS. O senhor apontou um edifício "está a ver aquele prédio; vá ter ali, senhor Tiago Messias". A reunião correu bem. A cena pseudo-militar iria repetir-se, ao longo da manhã...

FESTIVAL ISLÂMICO - O JORNAL DOS PEQUENOS

Há também um Notícias de Mértola para os mais novos. Quando ontem, na Câmara de Lisboa, me perguntavam a quem se compravam os serviços (decoração, montagem, animação cultural etc.) do Festival, houve um silêncio de surpresa quando respondi "desde a primeira edição que é tudo feito em Mértola; pelas pessoas de lá". Rematei dizendo "é essa a grande diferença, e é por isso que Mértola é o que é". Boletins como este(s) fazem parte desse princípio e dessa forma de trabalhar.



FESTIVAL ISLÂMICO - O JORNAL DOS GRANDES

Começa o Festival Islâmico. Nas bancas vai estar o Notícias de Mértola, edição da Biblioteca Municipal. Uma presença já habitual, dando mais cor ao evento.


quarta-feira, 15 de maio de 2019

NO TERRITÓRIO DA GAIVOTA

O início das gravações para a exposição Lisboa Islâmica contou com intervenientes esperados. As gaivotas não gostam de intrusos no seu território. Quando o drone se afastava em direção ao Martim Moniz ou à Graça, as gaivotas recolhiam ao castelejo. Mal o drone se aproximava do castelo, havia duas gaivotas que, em jeito Messerschmitt, picavam sobre o aparelho. A evocação de Hitchcock, e de um dos mais inteligentes e premonitórios filmes da História do Cinema, andou por ali. A manhã terminou com uma bela recolha de imagens. E sem danos.

À ATENÇÃO DO PAN: SECÇÃO TRANSPORTE DE GADO

Há um problema básico. Quem toma decisões, só anda em transportes públicos na altura das campanhas eleitorais.

Tenho inúmeros episódios vistos e vividos, ao longo de décadas de uso convicto dos transportes. Os mais interessantes têm lugar carreiras como o 50, o 54, o 99, no fundo de todos aquelas que vão para os bairros da periferia.

terça-feira, 14 de maio de 2019

PASSAGEM POR METROPOLIS

Uma recolha de imagens no interior da Casa dos Bicos levou-me a um filme de Fritz Lang, rodado em 1927 (!). As colunas de luz evocaram-me Metropolis. Foi certamente a memória do modernismo que estava presente no espírito de Manuel Vicente (1934-2013) e de José Daniel Santa-Rita (1929-2001), autores da reabilitação do edifício.

De Metropolis só não gosto do final, com o compromisso entre trabalho e capital. Uma ideia de Thea Von Harbou, uma nazi badernista. O final dos filmes com compromisso ideológico sempre deu barraca, mas isso são cá coisas minhas...




1400

Se os nove senhores e senhoras da fotografia não vivessem em simultâneo (como felizmente sucede) e fosse colocados em fila indiana cronológica, teriam começado em 1400 e chegariam até hoje. Uma história longa e ramificada.

1400 foi o ano em nasceu Luca Della Robbia e em que se fez a paz com Castela.


segunda-feira, 13 de maio de 2019

DORIS DAY (1922-2019)

Mais uma heterodoxia, de entre muitas: gostar de Doris Day. Gosto da voz de Doris Day, elegante e cheia de swing. Gostava menos do programa musical dela, que "dava" às quintas-feiras, entre as 13.30 e as 14.00. Em 1973/74, andava eu no Ciclo e achava-a uma chata. Depois, passei a gostar. Primeiro, mais ou menos. Depois, muito.

Doris Day partiu hoje, aos 97 anos. Gosto muito do Fly me to the moon.

BIZÂNCIO NA BURACA

Não é que seja uma originalidade. Bem longe disso. Mas achei uma certa graça ao jeito de, no Snack-Bar Restaurante O Manel, na Buraca, atarem os cortinados. Quando os vejo arrumados deste jeito, de modo a deixar entrar a luz, lembro-me sempre do Palácio de Teodorico, em Ravena.

E assim, de manhã cedo, a História se me cruzou no caminho.



domingo, 12 de maio de 2019

REN

Foi no Alentejo, há uns anos. O senhor que me recebia mostrava-me as marcas bem evidentes do seu sucesso. Às tantas, exibiu um pequena tira de terreno, que fazia as vezes de local de aterragem para ultra-leves. Intrigado, e tendo em conta onde estávamos, perguntei "isto aqui não é REN (reserva ecológica nacional)?", ao que ele respondeu, com ar de triunfo, "não, isto aqui é meu".

A nossa relação com as normas não é fácil. Uma fotografia posta a circular nas redes sociais mostra um edifício plantado em cima de uma igreja. Gera-se um enorme clamor. Há uma torrente de piadas fustigando a autarquia. Nunca tinha visto as imagens antes. A única coisa que me surpreendeu é que só agora o assunto tenha vindo a lume. A construção que está, literalmente, em cima da igreja data dos anos 60 ou 70 do século XX...

Coisas destas acontecem? Sim, no Mediterrâneo até acontecem com frequência.


Agia Dynami (Atenas)

sábado, 11 de maio de 2019

MESQUITAS, EM BREVE

O lançamento do livrinho "Mesquitas" será no dia 18, às 17 horas. De hoje a uma semana, no âmbito do Festival Islâmico. Textos em português e em árabe. Prefácio de Rosinda Pimenta, vereadora da Cultra da Câmara Municipal de Mértola, entidade que patrocinou a edição. Design da TVM, tradução de Badr Hassanein.

São 20 imagens, de 9 países: Alepo, Argel, Cairo, Córdova, Damasco, Djenné, Gibraltar, Kairouan, Lisboa, Mértola, Mopti, Moura, Rabat, Sidi Bou Said e Tlemcen.

sexta-feira, 10 de maio de 2019

MÉRTOLA ON MY MIND

Não estou por lá, mas vou estando. Tanto no filme, em que apareço vestido à Hulot, como no livro sobre Cláudio Torres, para o qual contribuí com um pequeno texto. Que foi escrito em abril de 2013 e que só há minutos reli, depois de o descobrir nas catacumbas do meu gmail. Pela Georgia passei uma vez. Mértola, essa, está-me sempre no pensamento.



QUINTA COLUNA Nº. 3: CIDADE DAS ROSAS

Em 2011, o Presidente da Câmara de Serpa, João Rocha, pediu-me um parecer quanto à viabilidade de se proceder à escavação e valorização de um sítio arqueológico, no concelho de Serpa. Não se procurava um local à toa, mas sim O sítio. Ponderados vários fatores – acessos, potencial científico, interesse paisagístico -, indiquei a Cidade das Rosas como sendo o local de maior interesse. E o mais fácil de abordar, num horizonte temporal curto.

O que é a Cidade das Rosas e onde fica? O nome é bonito e esse é o primeiro dado que joga em seu favor. Tem o código nacional de sítio 24 e começou a ser escavada por José Olívio Caeiro (1949-2009). As campanhas foram-se, ao longo de décadas, sem que um projeto de raíz tenha sido construído. José Caeiro publicou, sobre o sítio, breves notas: em 1978, em 1987 e em 1995, nas atas de um congresso e em publicações periódicas. Maria da Conceição Lopes integraria, mais tarde, esta estação, e as que lhe estão associadas em dois estudos que continuam a ser as obras de referência para este território: Arqueologia do Concelho de Serpa (1997) e A Cidade Romana de Beja. Percursos e debates acerca da "civitas" de Pax Ivlia (2003). Em 2006, José Norton, João Luís Cardoso e A. Barros e Carvalhosa publicaram ânforas provenientes do local. A Cidade das Rosas é uma villa romana (habitação de uma grande propriedade), que teve ocupação continuada até ao período califal. Não se pode falar em modelo ou em padrão, mas é uma realidade que constatamos noutros sítios arqueológicos do sul. Ou seja, muitas grandes propriedades não foram abandonadas na Alta Idade Média. Já bem dentro do período islâmico, sítios como Milreu, Cerro da Vila, Alto do Cidreira, Cidade das Rosas etc. continuam a ser habitados.

Alguns materiais islâmicos desta última foram publicados por Manuel Retuerce no Congresso de Cerâmica de Toledo, em 1981. As deambulações feitas por uma peça cerâmica e por um cabo de faca em osso dariam pano para mangas. Não é, contudo, esse o tema do presente texto.

A Cidade das Rosas fica bem perto de Serpa, à distância de uma légua e à vista de que passa na estrada. Mesmo em frente está o Lagar da Herdade Maria da Guarda. Em março de 2012, manifestei a João Rocha o interesse em, em conjunto com Maria da Conceição Lopes, iniciar um projeto de investigação sobre a Cidade das Rosas. A intenção foi recebida com agrado tanto pelo autarca com por João Cortez de Lobão, proprietário do local. O mandato autárquico 2013/2017 interrompeu este processo.

No início de 2018, foi anunciado, pela Câmara de Serpa, o iminente arranque de um projeto para a Cidade das Rosas. Foi uma boa notícia. O sítio tem uma belíssima localização e o proprietário é uma pessoa que tem sensibilidade para estes temas. O potencial é enorme e um dia terá de ser concretizado. Não só através da continuação dos trabalhos iniciados, há já 40 anos!, por José Caeiro, como pelo alargamento da escavação a outros sítios, que potenciem uma explicação global da Cidade das Rosas. É coisa para uns bons 20 anos.

Aguardo, aguardamos todos, com interesse, expetativa e entusiasmo, o arranque das escavações, uma vez que em 2018 nada aconteceu. Provavelmente será em 2019 que se vai dar o primeiro passo. Virão, depois, o evoluir dos trabalhos, as publicações e o programa de divulgação do sítio.

Crónica publicada hoje, no "Diário do Alentejo"

quinta-feira, 9 de maio de 2019

RACISMO SUBURBANO

Estação de Oeiras - cerca das 15 horas de ontem.

Um homem está sentado ao a meio da carruagem, junto à janela. Entra uma senhora negra, na casa dos 40. Era uma mulher bonita. Não espampanante, nem vistosa. Só bonita e de ar discreto. Senta-se ao lado do homem. O qual parece acordar do torpor que o fazia, há minutos, olhar para a chuva lá fora. Levanta-se, como se tivesse sido empurrado por uma mola, com um ar incomodado. Cruza a carruagem na minha direção. Sai em direção à carruagem seguinte. A mulher segue-o com o olhar. Deu-se conta da "motivação". Daí a minutos, o mesmo indivíduo volta. Volta a percorrer a carruagem sem se sentar. A mulher volta a olhá-lo, mantendo a mesma expressão, a meio caminho entre a tristeza e o desprezo. Nenhum deles se dá conta que me apercebi do que se passou.

Não aconteceu na África do Sul do apartheid. Foi ontem, a meio da tarde. Quando cheguei ao local de trabalho, comentaram "ai, o Santiago hoje está muito sério...". Pois, devia estar.

África do Sul, em 1990. A imposição de autocarros separados terminara semanas antes.

quarta-feira, 8 de maio de 2019

VOX POP

Heduíno Gomes, ou Vilar, veio dar um ar da sua graça e contar, de novo, o que já se sabe. Mais do que a sua militância no PSD, facto bem conhecido, o que chama a atenção são as suas posições políticas, próximas da extrema-direita. É certo que o órgão informativo que acolhia as diatribes de Heduíno Gomes era o Campanário do Vale do Roxo. É curioso ler as coisas que escrevia. Como esta:

https://avenidadasaluquia34.blogspot.com/2012/04/fascismo-sempre-25-de-abril-nunca-mais.html

Leia-se também o DN de hoje e fique-se com a certeza que a jornalista não distingue marxista-leninista de maoista:

https://www.dn.pt/1864/interior/lembra-se-dos-onda-choc-historia-do-jovem-marxista-leninista-que-criou-o-fenomeno-10849801.html