terça-feira, 7 de agosto de 2018

E NÃ ABALEM SEM PAGAR...

É uma história antiga e foi-me contada por amiga, natural do concelho alentejano onde aquilo se passou. Havia uma prova desportiva e, com dificuldade, lá se encaixaram os participantes nos locais de alojamento disponíveis. Um deles foi brindado com este discurso de receção:
- O quarto é o número seis; o pequeno-almoço é das 7 às 9; e nã abalem sem pagar...

Recordei-me deste episódio ao transportar uma familiar a um hospital privado para uma pequena cirurgia. Foi-lhe dito algo como "a intervenção é às 11; não se esqueça de trazer o dinheiro". Sim, não fosse ela dar a banhada. Imaginei-a, nos seus atléticos 60 anos, correndo Avenida de Berlim abaixo, com o pé ligado, perseguida por uma multidão de médicos e de enfermeiros.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

VEGAN POR UMAS HORAS

Fui indecentemente gozado pelos juniores lá em casa, quando contei a "aventura". Às voltas pelo aterro (n'Os Maias fala-se desta zona) e com pouca vontade de almoçar os menus do costume fui dar a uma daqueles restaurantes "saudáveis". Tudo detox, sem gluten, muitos chás, nada de corantes nem conservantes, uns paposecos roxos etc e tal. Optei pela salada vegan. Com tofu. Nada sabia a nada. O tofu tem uma consistência de borracha, o resto era pior ainda. Ao fim de duas horas, cheio de fome, alinhei numa cena um pouco menos detox: bifana e imperial.

RENOVANDO O SITE - www.santiagomacias.org

Paguei ontem a anuidade ao webdesigner. Durante mais um ano, pelo menos, manterei este espaço. O curriculum vitae é que não está atualizado, mas a falha é minha...

domingo, 5 de agosto de 2018

HÁ MAIS ARTE EM NÓS

Escrevi em 28 de abril: a "obra Concorde, Walden I and Walden II, de 1971. Tom Phillips (n. 1937) estava a antecipar, sem o saber o logo da NOS. Há Pop-Art em nós? Em todos nós, decerto". Também há pós-pop, e um design perto do anúncios da NOS, na coleção da Caixa Geral de Depósitos. Há arte em NOS.


Obra de António Quadros Ferreira (n. 1950), da série Perpetuum Mobile
(coleção Caixa Geral de Depósitos)

sábado, 4 de agosto de 2018

CRÓNICAS OLISIPONENSES - XIII

Largo de Santos - 8:43

Sinal vermelho. Param, lado a lado, um BMW, imaculadamente branco, e uma mota. A senhora, bon chic, bon genre, vestida de roupas claras, penteado platinado, vistosa. Na casa dos 50. Na mota está um jovem, de trinta e poucos. Olham-se, casualmente. A janela do carro está aberta. Ele levanta a viseira. Cabelos em desalinho, barba de três dias. Ar de bad boy. Diz-lhe, em tom simpático (ronronante, vá lá...) "já hoje lhe disseram que está muito bonita?". Ela atira a cabeça para trás numa gargalhada, surpreendida e agradada. Visivelmente agradada. Caiu o sinal verde. Seguiram cada um o seu caminho.


O quadro intitula-se A aranha e a mosca (!) e é obra do italiano Eugene de Blaas (1843-1931).

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

PEDRO MARQUES E A FERROVIA IMAGINÁRIA

Afinal há mais ferrovias em estado fantasma. Não é só Beja. Como dizemos no Alentejo, o sol a mais dá cabo do sentido às pessoas...

DIA NACIONAL DA CADEIRA

Faz hoje 50 anos que uma simples cadeira de lona fez o que a Oposição não conseguiu durante mais de 40 anos: afastar Salazar do poder. A queda de um ditador devido a problemas de carpintaria só podia ter o seu epílogo numa cena burlesca, ocorrida no velório de Salazar. A dada altura, surgem em cena os homens mais alto e mais baixo de Portugal: Gabriel Monjane e Toninho de Arcozelo. Quando hoje olho a fotografia só me ocorre pensar "quem terá sido o autor de tão brilhante inspiração?". 


quinta-feira, 2 de agosto de 2018

TEXTO MAIS LIDO NO MÊS DE JULHO DE 2018: ANTÓNIO BORGES COELHO - PRÉMIO UNIVERSIDADE DE LISBOA 2018

Foi no dia da tomada da Bastilha. Divulguei a atribuição do prémio. E telefonei depois ao premiado. As 1194 leituras que o texto teve são mérito de António Borges Coelho. Um dos nomes mais queridos a gerações de alunos, na Faculdade de Letras de Lisboa (e fora dela).

SÁBADO, 14 DE JULHO DE 2018


ANTÓNIO BORGES COELHO - PRÉMIO UNIVERSIDADE DE LISBOA 2018

Do site do Centro de História da Universidade de Lisboa:

O Prémio Universidade de Lisboa 2018 foi atribuído, no passado dia 4 de Julho, a António Borges Coelho, investigador emérito do Centro de História da Universidade de Lisboa e Professor Catedrático Jubilado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

Citando a deliberação do júri, "António Borges Coelho é um nome singular na historiografia portuguesa contemporânea. A sua obra incide sobre tópicos tão diversos como as raízes da expansão portuguesa, a revolução de 1383, a história da Iniquisição, a multissecular presença árabe no que é hoje Portugal, e a historiografia portuguesa. Este trabalho, inovador nos domínios tratados, culmina numa História de Portugal em diversos volumes, que prossegue, em que o autor cumulativamente delineia uma interpretação global do percurso histórico nacional, das origens à actualidade. Foi, a partir de 1974, professor na Faculdade de Letras de Lisboa, onde atingiu a cátedra. Formou, ao longo de décadas, centenas de alunos, nos quais deixou marcas, pelas suas qualidades humanas e pedagógicas. Para além da relevância do seu percurso científico, muitas vezes prosseguido em circunstâncias adversas, o júri sublinhou a grande erudição e acessibilidade da sua obra, e o seu comprometimento com a cultura e língua, evidenciado no modo como integra na narrativa dos acontecimentos a carcterização detalhada de instituições, informações demográficas, e estruturas económicas, sociais e culturais."


Gosto em especial da frase "formou, ao longo de décadas, centenas de alunos, nos quais deixou marcas, pelas suas qualidades humanas e pedagógicas". Não foi meu professor, do ponto de vista formal, mas foi-o de muitas outras formas.


*****

Ler este início do seu livro Raízes da expansão portuguesa, aos 16 anos, deixou-me marcas inapagáveis:


Ao sul e leste o Saará, a oeste o Atlântico, a norte o Mediterrâneo, a oriente desertos e a estrada natural do norte de África, a estrada das invasões, das especiarias e do Islão: eis Marrocos.

No mapa parece um cavalo deitado voltado para o Mediterrâneo com a garupa nervosa bem recortada sobre o Atlântico. A cordilheira do Atlas com os seus 4000 metros de altitude liberta-o da estepe e dos desertos do Leste. Depois os seus campos vão descendo de planalto em planalto, abrindo sobre o oceano os seus largos terraços de terras úberes. Atlas, o velho gigante, não sustenta o céu com os seus ombros possantes, mas sustém estes açafates mouriscos que podem abarrotar de cereais, de gados e de frutas. Um outro braço de montanhas corre paralelamente ao Mediterrâneo - é a cordilheira do Rif, muralha onde vêm quebrar-se as ondas invasoras.


quarta-feira, 1 de agosto de 2018

NÃO, PROF. RUI RAMOS, NÃO É TUDO IGUAL!


A política é hoje uma via rápida de enriquecimento? Para os do arco do poder, talvez. Para os pseudomoralistas, talvez. Não faço julgamentos. Para os políticos do Partido Comunista Português, decerto que não. É um exclusivo do PCP e da CDU? Não, felizmente! Mas nesse terreno damos cartas.

Olhando em volta (e falo do meu território raiano) penso em autarcas como Carreira Marques, Lopes Guerreiro, Fernando Caeiros, José Pós-de-Mina, Paulo Neto, Fernando Rosa, João Rocha, Abílio Fernandes, António Tereno, em deputados como João Ramos, José Soeiro etc. etc. Uns continuam mais ativos que outros. Mas o estilo de vida continua discreto. Não consta que tenham andado em negociatas durante, ou mesmo depois dos momentos de protagonismo.

Não, caro Prof. Rui Ramos, isto não é tudo igual...

DECÁLOGO MEDITERRÂNICO: HORTELÃ DA RIBEIRA


É uma planta do Mediterrâneo Ocidental. A hortelã da ribeira (mentha cervina) tem outros nomes: alecrim-do-rio, erva-peixeira, hortelã-crespa, hortelã-dos-campos, hortelã-dos-pântanos e menta-peixeira. O sabor e a textura da hortelã da ribeira fazem parte das nossas vidas. Não há nenhum fado sobre a hortelã da ribeira. No dia em que partiu Celeste Rodrigues (injustamente na sombra...) aqui fica, à falta de hortelã, este verde limão.

terça-feira, 31 de julho de 2018

O QUE QUER DIZER PORTUGAL

Um facto curioso, e que merece ser olhado de frente. Muitos emigrantes usam, a par da bandeira nacional, o logotipo da Federação Portuguesa de Futebol como símbolo do País de origem. Ou seja, a seleção de futebol é Portugal. Também é, naturalmente, mas que se sobreponha aos símbolos oficiais torna-se interessante. Decerto que quem está a trabalhar fora de portas admira os astros da bola, e neles se revê (a maior parte dos jogadores também trabalha no estrangeiro). Tenho a certeza que a classe política não tem a mesma popularidade.


segunda-feira, 30 de julho de 2018

LOULÉ - 1/5

Dias louletanos. Às tantas, dou com esta placa toponímica, referente ao promotor do carnaval civilizado de Loulé. Quando terá sido? E como terá sido? Fico com a vaga suspeita que "antes" era melhor.



Loulé - Carnaval civilizado


Trinidad and Tobago - Carnaval que não parece lá muito civilizado

domingo, 29 de julho de 2018

A PROPÓSITO DE ARQUITETURA E PATRIMÓNIO E REABILITAÇÃO

O que se segue nada tem a ver com a discussão em torno de um certo e determinado prédio em Alfama.

Por norma, quem nunca mexeu um dedo para reabilitar o que quer que fosse, mostra grandes preocupações quando edifícios degradados e ao abandono começam a ser recuperados para uso público. Que devia ter sido assim, que devia ter sido assado, que devia pintar-se de amarelo, ou de branco, ou de azul, que devia ter sido usada madeira e não ferro ou ferro e não madeira etc. etc.

Mas o que gosto mesmo é que quando a discussão chega aos insetos lepidópteros. Ou seja, às traças. It kills me, como dizia Holden Caufield, o protagonista do livro que preciso ler de novo.

A preocupação é com a traça milimétrica ou com a traça original. À falta de régua, aqui fica uma dominical traça original.

sábado, 28 de julho de 2018

CRÓNICAS OLISIPONENSES - XII

Pode um cidadão comprar e vender casas? Pode, claro.
E gerar mais-valias? Acho que sim, nada na lei o proíbe.
E pode dirigir campanhas políticas contra a especulação imobiliária? Também pode. Não pode é a mesma pessoa fazer tudo isso, em simultâneo. Porque nesse desdobramento de personalidade alguém deixa de ser levado a sério.

Como no texto de Mário-Henrique Leiria.

O QUE ACONTECERIA
SE O ARCEBISPO DE BEJA
FOSSE AO PORTO
E DISSESSE QUE ERA NAPOLEÃO

Toda a gente acreditava que era. O presidente da Câmara nomeava-o Comendador. Iam buscar a coluna de Nelson, tiravam o Nelson e punham o arcebispo lá em cima. E davam-lhe vinho do Porto.
Então o arcebispo dizia:
- Sou a Josefa de Óbidos.
Ainda acreditavam que era, embora menos. O presidente da Câmara apertava-lhe a mão. Iam buscar o castelo de Óbidos, tiravam os óbidos e punham o arcebispo na Torre de Menagem. Além disso, davam-lhe trouxas d’ovos.
Nessa altura, convicto, o arcebispo de Beja afirmava:
- Sou o arcebispo de Beja.
Não acreditavam. Davam-lhe imediatamente uma carga de porrada. E punham-no no olho da rua. Nu.

Pintura de Carlos Botelho, um dos meus lisboetas preferidos.

FILÓCTETES P.C.

P.C.? Sim, politicamente correto. O discurso anti-guerra no final alinha por esse diapasão e foi o culminar da trama. Foi o melhor que vi em Mérida? Não, nem por sombras. Achei as interpretações pouco desenvoltas e uma encenação só com dois pontos altos: a omnipresença de Hércules nas projeções e o coro final (antes disso, as moças pareciam padecer do Mal de S. Vito...). Tenho vivas as imagens de uma Pentesilea, em 2002, dirigida por Peter Stein, e, em 2005, de uma Odisseia caribenha, sob a batuta de Derek Walcott. Foi há tanto tempo que quase me parece ter acontecido noutra vida...

Viva Mérida!

quinta-feira, 26 de julho de 2018

COR DUAL

Uma passagem, ontem ao final da manhã, pela Direção Regional de Cultura do Alentejo, permitiu-me ver a interessante e didática exposição sobre os tapetes de Arraiolos. As peças antigas são contrastadas com recriações feitas em computador. Que se recupera? As cores originais, muito mais vivas do que hoje podemos apreciar. As cores de outrora são tão vivas que quase diríamos que um pouco do espírito Haight-Ashbury passou, em tempos, por Arraiolos.

A exposição tem como subtítulo, justamente, a ilusão da cor e pode ser vista até dia 28 de setembro.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

O MEU AIRBUS A380 - pequena crónica aero-ferroviária

Foi um cume da parolice a excitação à volta da aterragem de um avião, que teve lugar na passada segunda-feira, no Aeroporto de Beja.

Enquanto isso acontecia, e um engarrafamento assinalável era gerado na rotunda à entrada de Beja, os utentes da CP eram enfiados dentro de um autocarro a caminho de Casa Branca. "Vamos lá mas é ver se dou com o caminho", disse-me o motorista, quando o inquiri acerca do cumprimento do horário. Pensei que fosse uma piada. Não era. Em Viana enganou-se e teve de volta para trás numa rotunda. Não havia ninguém para cobrar o bilhete e meti-me no inter-cidades. Quis pagar com multibanco. O revisor olhou-me com ar "olha para este armado em fino". Só em contado. Mainada. Aterrei em Sete Rios com quase uma hora de atraso.

Hoje, apanhei a altometora (o inter-cidades não deu sinal de vida) para Évora. O altifalante ia educadamente avisando "senhores passageiros blablabla o atraso é de 6 minutos". Depois 20 minutos, 24 minutos, 45 minutos, 51 minutos, 56 minutos. Chega-se a Évora uma hora e cinco minutos depois da hora. Os que foram para Beja tiveram menos sorte. Tinham o autocarro à espera.

Menos mal. Temos o maior avião do mundo estancionado em Beja. Essa é que é essa.

o A380 à saída de Beja (23.7.2018)

outro A380, à saída de Sete Rios (25.7.2018)

segunda-feira, 23 de julho de 2018

TORRE DO RELÓGIO - MAIS UM PASSO

Cobertura metálica, para uma obra arrancada a ferros. Tout va avec. Já faltou mais para estar concluída. A imagem é de hoje e está no Instagram do ateliermob, a equipa autora do projeto.

domingo, 22 de julho de 2018

INVEJA DOMINICAL

Anda um grupo de cidadãos durante nove dias a escavar com mil cuidados paupérrimas estruturas medievais no Castelo de Moura e depois vai-se à net e vemos os esplendorosos mosaicos que, algures em Chipre, foram escavados. A mesma quantidade de terra removida, quase sem interferências e com este conjunto posto à vista.

Em 2019 continuaremos a saga iniciada em 1989. Nesta campanha encontrámos 1 (uma) tessela. Vamos no bom caminho.


sábado, 21 de julho de 2018

PESCADOR


Fotografia feita em Mopti (Mali), na primavera de 2008. O poema é de Vinicius de Moraes. Coisas de sábado ocioso.

PESCADOR
Rio de Janeiro , 1946

Pescador, onde vais pescar esta noitada: 

Nas Pedras Brancas ou na ponte da praia do Barão? 
Está tão perto que eu não te vejo pescador, apenas 
Ouço a água ponteando no peito da tua canoa... 

Vai em silêncio, pescador, para não chamar as almas 
Se ouvires o grito da procelária, volta, pescador! 
Se ouvires o sino do farol das Feiticeiras, volta, pescador! 
Se ouvires o choro da suicida da usina, volta, pescador! 

Traz uma tainha gorda para Maria Mulata 
Vai com Deus! daqui a instante a sardinha sobe 
Mas toma cuidado com o cação e com o boto nadador 
E com o polvo que te enrola feito a palavra, pescador! 

Por que vais sozinho, pescador, que fizeste do teu remorso 
Não foste tu que navalhaste Juca Diabo na cal da caieira? 
Me contaram, pescador, que ele tinha sangue tão grosso 
Que foi preciso derramar cachaça na tua mão vermelha, pescador. 

Pescador, tu és homem, hem, pescador? que é de Palmira? 
Ficou dormindo? eu gosto de tua mulher Palmira, pescador! 
Ela tem ruga mas é bonita, ela carrega lata d'água 
E ninguém sabe por que ela não quer ser portuguesa, pescador... 

Ouve, eu não peço nada do mundo, eu só queria a estrela-d'alva 
Porque ela sorri mesmo antes de nascer, na madrugada 
Oh, vai no horizonte, pescador, com tua vela tu vais depressa 
E quando ela vier à tona, pesca ela para mim depressa, pescador? 

Ah, que tua canoa é leve, pescador; na água 
Ela até me lembra meu corpo no corpo de Cora Marina 
Tão grande era Cora Marina que eu até dormi nela 
E ela também dormindo nem me sentia o peso, pescador... 

Ah, que tu és poderoso, pescador! caranguejo não te morde 
Marisco não te corta o pé, ouriço-do-mar não te pica 
Ficas minuto e meio mergulhado em grota de mar adentro 
E quando sobes tens peixe na mão esganado, pescador! 

É verdade que viste alma na ponta da Amendoeira 
E que ela atravessou a praça e entrou nas obras da igreja velha? 
Ah, que tua vida tem caso, pescador, tem caso 
E tu nem dás caso da tua vida, pescador... 

Tu vês no escuro, pescador, tu sabes o nome dos ventos? 
Por que ficas tanto tempo olhando no céu sem lua? 
Quando eu olho no céu fico tonto de tanta estrela 
E vejo uma mulher nua que vem caindo na minha vertigem, pescador. 

Tu já viste mulher nua, pescador: um dia eu vi Negra nua 
Negra dormindo na rede, dourada como a soalheira 
Tinha duas roxuras nos peitos e um vasto negrume no sexo 
E a boca molhada e uma perna calçada de meia, pescador... 

Não achas que a mulher parece com a água, pescador? 
Que os peitos dela parecem ondas sem espuma? 
Que o ventre parece a areia mole do fundo? 
Que o sexo parece a concha marinha entreaberta pescador? 

Esquece a minha voz, pescador, que eu nunca fui inocente! 
Teu remo fende a água redonda com um tremor de carícia 
Ah, pescador, que as vagas são peitos de mulheres boiando à tona 
Vai devagar, pescador, a água te dá carinhos indizíveis, pescador! 

És tu que acendes teu cigarro de palha no isqueiro de corda 
Ou é a luz da bóia boiando na entrada do recife, pescador? 
Meu desejo era apenas ser segundo no leme da tua canoa 
Trazer peixe fresco e manga-rosa da Ilha Verde, pescador! 

Ah, pescador, que milagre maior que a tua pescaria! 
Quando lanças tua rede lanças teu coração com ela pescador! 
Teu anzol é brinco irresistível para o peixinho 
Teu arpão é mastro firme no casco do pescado, pescador! 

Toma castanha de caju torrada, toma aguardente de cana 
Que sonho de matar peixe te rouba assim a fome, pescador? 
Toma farinha torrada para a tua sardinha, toma, pescador 
Senão ficas fraco do peito que nem teu pai Zé Pescada, pescador... 

Se estás triste eu vou buscar Joaquim, o poeta português 
Que te diz o verso da mãe que morreu três vezes por causa do filho na guerra 
Na terceira vez ele sempre chora, pescador, é engraçado 
E arranca os cabelos e senta na areia e espreme a bicheira do pé. 

Não fiques triste, pescador, que mágoa não pega peixe. 
Deixa a mágoa para o Sandoval que é soldado e brigou com a noiva 
Que pegou brasa do fogo só para esquecer a dor da ingrata 
E tatuou o peito com a cobra do nome dela, pescador. 

Tua mulher Palmira é santa, a voz dela parece reza 
O olhar dela é mais grave que a hora depois da tarde 
Um dia, cansada de trabalhar, ela vai se estirar na enxerga 
Vai cruzar as mãos no peito, vai chamar a morte e descansar... 

Deus te leve, Deus te leve perdido por essa vida... 
Ah, pescador, tu pescas a morte, pescador 
Mas toma cuidado que de tanto pescares a morte 
Um dia a morte também te pesca, pescador! 

Tens um branco de luz nos teus cabelos, pescador: 
É a aurora? oh, leva-me na aurora, pescador! 
Quero banhar meu coração na aurora, pescador! 
Meu coração negro de noite sem aurora, pescador! 

Não vás ainda, escuta! eu te dou o bentinho de São Cristóvão 
Eu te dou o escapulário da Ajuda, eu te dou ripa da barca santa 
Quando Vênus sair das sombras não quero ficar sozinho 
Não quero ficar cego, não quero morrer apaixonado, pescador! 

Ouve o canto misterioso das águas no firmamento... 
É a alvorada, pescador, a inefável alvorada 
A noite se desincorpora, pescador, em sombra 
E a sombra em névoa e madrugada, pescador! 

Vai, vai, pescador, filho do vento, irmão da aurora 
És tão belo que nem sei se existes, pescador! 
Teu rosto tem rugas para o mar onde deságua 
O pranto com que matas a sede de amor do mar! 

Apenas te vejo na treva que se desfaz em brisa 
Vais seguindo serenamente pelas águas, pescador 
Levas na mão a bandeira branca da vela enfunada 

E chicoteias com o anzol a face invisível do céu.