sábado, 9 de março de 2024

GUERNICA(s)

Em Guernica solidarizaram-se com a Palestina.

Um massacre lembra outro massacre.

Faltam palavras, sobra a desolação.


sexta-feira, 8 de março de 2024

AINDA A LENDA DA MOURA SALÚQUIA

Recebi, há dias, um email de um professor da Universidade de Massachussets interessado na Lenda da Moura Salúquia. Quando nasceu a lenda?

Na verdade, não sei dizer. Uma certeza apenas: em meados do século XVII a história "já circulava". No livro de Brás Pereira (de 1642), conservado na Biblioteca Nacional (e que copia/recria a obra de Duarte Darmas), vemos uma mulher, aparentemente ensanguentada, na base de uma torre. É a alcaidessa, sem dúvida. Recordo também que, num dos livros da Chancelaria de D. Afonso III, há um texto apócrifo que alude expressamente à lenda. É uma "acrescento" tardio e de justificação. Um processo de construção da memória muito interessante, em todo o caso.







CHEGA DE FACHOS!

À saída da estação de Santa Apolónia.

Há convicções que não mudarei.

quinta-feira, 7 de março de 2024

STARDUST MEMORIES Nº. 76: JOGOS SEM PENEIRAS

Foi em 1981 e em 1982, se não me falha a memória. Na RTP havia os popularíssimos Jogos Sem Fronteiras. Em Moura, para animar as noites de verão criaram-se uns bem mais simples Jogos Sem Peneiras. Participavam, em renhidas disputas que tinham lugar na piscina municipal, os bairros da vila. Entrei na equipa da Salúquia, pois evidentemente.

De que me recordo neste momento? De uma célebre canção de João de Barro e António Almeida, celebrizada por Dick Farney: a saudade mata a gente...





quarta-feira, 6 de março de 2024

COM A CDU, COM A ESPERANÇA QUE NÃO FICA À ESPERA

Perguntaram-me, há dias, se estava disposto a integrar a lista de apoiantes da CDU.

Eh pá, quase fiquei ofendido com a pergunta 😊.

Aqui estou eu, em muito boa companhia.

VIDA BREVE

Adelino Lyon de Castro faleceu com apenas 43 anos. Deixou-nos fotografias. São imagens de que gosto. Como esta, feita certamente nos arredores de Lisboa. Surge referido como "fotógrafo amador". Interessa mais saber se era bom ou se era mau fotógrafo. Ou, como perguntavam os gregos, viveu a vida com paixão?

terça-feira, 5 de março de 2024

BIBLIOTECAS A SUL

Participação num livro de homenagem a Maria José Moura:

No dia 3 de abril de 1986, um simples despacho de Teresa Patrício Gouveia, Secretária de Estado da Cultura, criava condições para a instalação de uma rede de bibliotecas municipais. Era preciso alguém que capitaneasse o projeto. O grupo de trabalho que então se constituiu era coordenado por Maria José Moura, uma veterana bibliotecária que foi a alma do que se seguiu. E o que se seguiu foi uma verdadeira revolução cultural. Era preciso rigor administrativo, mas muito mais que isso. Era imprescindível criatividade e energia, dentro das baias da legislação. Maria José Moura fez da teoria prática. À mistura com uma fervorosa crença na capacidade da juventude.

Só a conheci depois desse processo ter arrancado. Tive a perceção de que algo único se iria passar. A minha perceção ficou, felizmente, muito aquém da realidade futura. No dia em que comecei a trabalhar na Câmara de Moura (em setembro de 1986), estava decidido a avançar para uma remodelação da Biblioteca Municipal. Passei dias a fio, nesses tempos bárbaros sem Internet nem telemóveis, até localizar Maria José Moura, então bibliotecária da reitoria da Universidade de Lisboa. Falar com ela foi o primeiro passo. O segundo, e decisivo, foi ter-nos explicado, com detalhe, o âmbito do projeto. De uma remodelação conduziu-nos, firmemente – «isto faz-se assim, perceberam?» –, para uma intervenção mais profunda e radical. A nossa candidatura seria entregue em maio de 1987. Soubemos, algum tempo depois, que Moura integrava o primeiro grupo de sete municípios que, a sul, iria ter apoio. O contrato seria depois assinado e as obras iniciadas já em 1989.

No dia em que partiu, a sua missão estava bem cumprida. Nunca, até ao fim, a vi deixar de acreditar nas bibliotecas, na capacidade das novas gerações, na decisiva importância da presença da Cultura na vida dos cidadãos. Tal como nunca deixou de acreditar e de evocar o Alentejo onde quis ficar para sempre.

A Maria José Moura, devo as primeiras e algumas das mais importantes lições da minha carreira de funcionário público. Mais importante, e é isso que se deve reter, o País deve imenso, ainda que possa não o saber, a Maria José Moura.

Obra, lançada hoje, disponível em: https://doi.org/10.4000/books.cidehus.21573


segunda-feira, 4 de março de 2024

OLIVENÇA, ONTEM

Cheguei há poucas horas de Olivença.

Não foi uma corrida extraordinária, mas teve momentos bons. Pode questionar-se o estilo deste ou daquele toureiro, mas sem espetáculo e sem arrojo não há corridas. Santa paciência... E foi por isso que Roca Rey aqueceu o ambiente.

Valeu a pena ter ido? Vale sempre a pena! Pelo sítio, pelos cartéis, pela companhia. O resto deixo para os adoradores de alfaces.


domingo, 3 de março de 2024

KANIMAMBO!!!

Kanimambo e Obrigado, diz o pastor Solly Mahlangu. Não sei qual o grupo religioso, mas parece-me muito convincente.

Dizer obrigado é bom. Obrigado a todos os que me ajudaram a construir e a concretizar este projeto. Duarte Darmas - do cálamo ao drone está fechado. Começa-se agora a segunda parte. Todos os 57 sítios, incluindo (de novo) o Alentejo. São 55 fortalezas, de Castro Marim a Caminha. Mais Barcelos e Sintra. Para já, OBRIGADO.

Obrigado, Adolfo Teles.

Obrigado, Alberto Frias.

Obrigado, Ana Maria Borges.

Obrigado, Ana Paula Amendoeira.

Obrigado, Aníbal Costa.

Obrigado, António Ceia da Silva.

Obrigado, António Pita.

Obrigado, Arquivo Nacional da Torre do Tombo.

Obrigado, Bruno Monteiro.

Obrigado, Cafés Delta.

Obrigado, Caixa Geral de Depósitos.

Obrigado, Câmara Municipal de Barrancos.

Obrigado, Câmara Municipal de Campo Maior.

Obrigado, Câmara Municipal de Castelo de Vide.

Obrigado, Câmara Municipal de Elvas.

Obrigado, Câmara Municipal de Mértola.

Obrigado, Câmara Municipal de Mourão.

Obrigado, Câmara Municipal de Serpa.

Obrigado, CCDRA.

Obrigado, Continente.

Obrigado, Daniel Capa.

Obrigado, Diogo Vaz Pinto Mendes.

Obrigado, Direção Regional de Cultura do Alentejo.

Obrigado, Emílio Vilar.

Obrigado, Escola Secundária de Moura.

Obrigado, Filipe Carraço.

Obrigado, Fernando Branco Correia.

Obrigado, Francisco Antunes.

Obrigado, Francisco Motta Veiga.

Obrigado, Francisco Viana.

Obrigado, Inês Boiça.

Obrigado, Isabel Martins.

Obrigado, Jacinta Grilo.

Obrigado, João Efigénio Palma.

Obrigado, João Fortes.

Obrigado, João Muacho.

Obrigado, João Serranito Nunes.

Obrigado, Joaquim Boiça.

Obrigado, Jorge Murteira.

Obrigado, Jorge Rosa.

Obrigado, Leonel Rodrigues.

Obrigado, Leonor Picão.

Obrigado, Luís Rosinha.

Obrigado, Manuela Lopes.

Obrigado, Margarida Santos.

Obrigado, Maria Clara Safara.

Obrigado, Maria do Carmo Ricardo.

Obrigado, Mário Tomé.

Obrigado, Orlando Fialho.

Obrigado, Osvaldo Fernandes.

Obrigado, Paulo Amorim.

Obrigado, Paulo Moita Macedo.

Obrigado, Pedro Cabral Gonçalves.

Obrigado, Roberto Grilo.

Obrigado, Rui Bebiano.

Obrigado, Rui Ferreira.

Obrigado, Sara Boiça.

Obrigado, Silvestre Lacerda.

Obrigado, Teresa Ferreira.

Obrigado, Tomé Pires.

Obrigado, Turismo de Portugal.

Obrigado, TVM.








sábado, 2 de março de 2024

548.970

Quase 550 quilómetros. É essa a diferença entre os dois pontos mais distantes do projeto: Castro Marim e Melgaço. Retomo, agora com um colega e amigo (Miguel Gomes Martins), uma caminhada começada a pensar em 2004, traçada em 2018 e concretizada, parcialmente, entre 2019 e 2022. Parte II do périplo de Duarte Darmas a terminar até final do próximo ano (esperamos / queremos nós).


sexta-feira, 1 de março de 2024

UMA HORTA NO TELHADO DA IGREJA DA ESTRELA

Quando me enviaram, há dias, a imagem do telhado da igreja de Nossa Senhora da Estrela fui tomado por uma sensação de profunda tristeza. Ou de desalento, nem sei bem.

 

A fotografia, feita há dias a partir de um drone, mostrava o telhado da igreja num estado absolutamente miserável. Ervas e mais ervas, causando danos ao imóvel. Conheço bem a igreja da Estrela, tal como conheço o seu processo de reabilitação. Até 2013, os estrelenses recusaram-se a usar a igreja. A obra estava por terminar e os habitantes achavam, com razão, que aquela não era a sua igreja.

 

Contactos sucessivos com a EDIA não deram em nada. A determinada altura entrou em cena a Câmara Municipal. Que se sentiu na obrigação de assumir o custo da obra que ainda falta fazer. No dia 17 de janeiro de 2013 assinou-se o contrato para concluir a obra da igreja, custo que foi assumido pela autarquia. No dia 28 de julho do mesmo ano a procissão saiu finalmente da igreja, durante a festa da aldeia. Em abril de 2013, em plena obra, a igreja tinha passado ao estatuto de monumento classificado.

 

Em 2015, o PS chumbou um pedido de empréstimo para que se concluísse a reabilitação da igreja. Desconheço o que mais fizeram, desde outubro de 2017, e até hoje, no imóvel.

 

Esta história pouco exemplar revela tudo o que têm sido os últimos seis anos e quatro meses. Muita propaganda, muitos protocolos assinados, promessas às mãos cheias. Quase nada de obras, quase nada de concretizações de fundo, para além do que vinha do passado. Miragens e mais miragens, a praia e a estação náutica e o hotel de cinco estrelas no Carmo. Valha-lhes aquilo que a CDU concretizou no passado e que serve de cartão-de-visita turístico do concelho. Valha-lhes isso.

 

Sempre tivemos como claro (refiro-me a todos os executivos camarários em que trabalhei) que devemos sempre pensar na resolução dos problemas em termos de futuro. Sempre achámos que, com os escassos recursos financeiros existentes, importa que os mesmos sejam usados em investimentos com retorno e não apenas aplicados em espetáculos sem qualquer consequência no futuro e na melhoria de vida das populações.

 

O que é que continuo a pensar? Que é preciso trabalho de fundo, que é preciso olhar para o património e fazer dele fator de desenvolvimento (e não, não é só turismo nem arqueologia e museus). Os italianos perceberam isso há muitos anos. Que é preciso coragem para fazer projetos e os concretizar. Que é preciso conhecimento (essa parte, eles não têm mesmo), reflexão e debate. E que é urgente avançar soluções

 

O que aconteceu, em 2013, na Estrela foi feito noutros tempos? Sim, noutros tempos, com outra vontade e com outra determinação. É esse caminho que é preciso retomar, impedindo que os telhados dos monumentos sejam transformados em hortas.

Crónica em "A Planície"

LACANT E A APROPRIAÇÃO CULTURAL

Qual o nome de Moura na Alta Idade Média e no período islâmico? Sobre o nome romano persistem dúvidas, mas isso é outra história...

A possibilidade do nome corresponder a Lacant foi-me sugerida pela identificação de um conjunto de estampilhas cerâmicas existentes na região de Moura e que se referem à Eclesie Sancte Marie Lacantensis. Dezenas de vezes olhara as estampilhas sem me chamarem a atenção. Um estudo de uma colega espanhola lançou-me na pista do ovo de colombo. As peças de cerâmica identificavam um topónimo que era o mesmo que fontes árabes referiam (Laqant) e que eu lera uma vez e outra. Ibn Idhari, Ibn Hayyan, Ibn al-Athir falam sempre nesse sítio "misterioso", situado algures entre Beja e Aroche. Tornou-se-me claro que Lacant correspondia à minha terra. Cujo nome passa para Mura, conforme refere Ibn al-Faradi. O meu amigo Christophe Picard chamou a isso a renovação urbana do século XI.

Desde há muitos anos que me dedico ao estudo do período islâmico. E tenho um par de textos publicados (artigos, livros...) sobre a minha terra. Não são trabalhos de que me envergonhe.

Sinto é vergonha alheia quando leio textinhos onde pessoas escrevem sobre Lacant e sobre Património Histórico, sem fazerem a mínima ideia do que falam. Ainda por cima apropriando-se de temas em que não têm qualquer mérito. Coisa que não permitirei.

quinta-feira, 29 de fevereiro de 2024

MÉXICO

Fechando o mês.

À medida que os anos vão passando, há coisas que sabemos que não faremos, por um motivo ou outro. Das minhas impossibilidade absolutas constam (momento confessional...) duas coisas de aviões:

Andar no Concorde;

Aterrar em Kai Tak.

Tenho outras que ainda espero concretizar. De entre elas (incluindo as "patrimoniais") consta esta: ver uma corrida de touros na Plaza México. Imagino, mas só imagino, que seja qualquer coisa de memorável.


quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

LISBOA, ERA UMA VEZ...

O Luís Pavão ligou-me uns dias antes, porque ia fazer uma visita à exposição LISBOA FRÁGIL, para amigos ligados às arqueologias e a Mértola. Bom, eu não sabia mesmo que ele tinha sido tarefeiro do Museu Nacional de Arqueologia em 1979. Mas lembro-me bem de quando o conheci, em setembro de 1983, no Campo Arqueológico.

Foi uma visita extraordinária, simples e sensível. Que começou com a explicação de como arrancou, com o Mário Pereira, o projeto Tabernas de Lisboa. As fotografias são um testemunho de elevada qualidade e de grande valor histórico. Aquela cidade já não existe. Muitas coletividades sucumbiram, as pessoas morreram ou mudaram de sítio, o comércio de bugigangas tomou conta dos bairros populares.

Seguimos o Luís, num explicação sobre o que foi feito em cada altura, num discurso pontuado de episódios pícaros (o guarda-noturno que não levava a pistola, porque tinha medo que lha roubassem; o homem que deixava a esposa em casa e ia dançar com uma amiga para o salão de baile e foi denunciado por uma fotografia; os donos das tabernas que pensavam que eles eram das finanças; o rebanho passando mesmo junto ao antigo Estádio de Alvalade) e que não se repetirão. Ali, já não há povo. E aquela Lisboa, era uma vez... 

(a fotografia de baixo foi feita no Ginásio Clube de Alfama, que já não existe).

Exposição no Museu de Lisboa, até 23 de março.

https://museudelisboa.pt/pt/nucleos/palacio-pimenta


terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

PAN! PAN!

PAN PAN é a expressão internacional para uma emergência. O PAN é o sinal dos tempos. É o outro foco. Cadelinhas e bichanos, wiskas e coleiras, política fofa e sinecuras. O PAN também tem alma lusitana. Os cartazes são revista à portuguesa, piadas à Fernando Rocha e saudades do Maria Vitória e do Variedades, quando Eugénio Salvador era compère e agora Inês é conmère. O PAN é isto: piadas brejeiras e toques de calcanhar. Roy Boulting e o seu "Duras batalhas em camas fofas" regressam agora, em todo o seu esplendor. Com o patrocínio do PAN. PAN PAN Deus nos livre deste estado de coisas.



segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

69 ANOS!

69 anos é a soma dos quatro membros do grupo Palazzo 1700. Purcell, Vivaldi e eles foram os grandes protagonistas do concerto de ontem à tarde no Panteão. Vamos no terceiro ciclo de "Música no Panteão". Cerca de 20 concertos, até agora. O de ontem teve lotação esgotada. Já vem sendo habitual.

domingo, 25 de fevereiro de 2024

OUTRA CARMEN

José mata Carmen com um taco de baseball. Tudo foi americanizado. Há um rodeo e não uma corrida de touros. O libreto de Henri Meilhac e Ludovic Halévy "diz" uma coisa, as legendas dizem outra. O primeiro cenário faz lembrar o West Side Story, não há referências a Sevilha e é tudo muito yankeeon the road.
Se "acho mal"? A encenação funciona bem. Mas não voltem a falar em "apropriação cultural", que me dá uma coisinha má.
Se gostei muito? Gosto muito mais da versão cinematográfica de Francesco Rosi, é a resposta.

sábado, 24 de fevereiro de 2024

O RETIRO DO ERNESTO - LUXLIFE X 2

Um restaurante de/em Moura foi distinguido pela LuxLife. Não é a primeira vez.
Em 2023 - Best Hidden Gem Restaurant of the Year
Em 2024 - Best Cultural Gastronomy Experience 2024 – Alentejo
Já lá mandei familiares várias vezes. Correu sempre muito bem. Só consegui vaga uma vez. Isso é bom sinal, afinal de contas.
Parabéns!


sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

KUSII DISMARK E AQUELA TANGA DA EUROPA DOS VALORES

O homem da fotografia chama-se Kusii Dismark. Nasceu na Costa do Marfim, viveu parte da sua vida no Gana, tem 37 anos e está há 13 em Malta. Ali fez a sua vida, fez formação profissional, abriu uma barbearia, pagou impostos e criou clientela.

Há dias, a polícia entrou no estabelecimento, levou-o (pormenor caricato: o cliente que estava a ser atendido ficou com o corte a meio...) e deu-lhe ordem de expulsão. Para não ficar impedido de voltar a entrar no país, saiu hoje voluntariamente do país.

Li a sua história ao folhear, de madrugada, a imprensa de Malta. Porque disto mais ninguém fala, nem em Portugal, nem em Espanha, nem em França, nem em Itália etc.

Kusii Dismark é a vergonha de nós todos. Peço aos meus amigos da área fofinha do Poder que não me falem da Europa dos valores e da solidariedade e do humanismo e coisas do estilo. Porque depois disparato e recorro a um vernáculo irreproduzível.


quinta-feira, 22 de fevereiro de 2024

TURISMO EM MAIS QUE QUARTA-FEIRA DE CINZAS

Numa das minhas recentes passagens por Moura um velho amigo ofereceu-me um folheto turístico da terra. Constatei, divertido, que o que há para ver é fruto das intervenções realizadas durante a gestão da CDU. É isso que é mostrado dentro e fora de portas. Fico contente, sinceramente, por ter feito parte de equipas que remoçaram a imagem da terra.

Por isso digo que o turismo está em mais que quarta-feira de cinzas. Nada de relevante e de novo foi feito. Não é que não queiram fazer. Lá querer, querem. Só que, infelizmente, não sabem nem são capazes. É pena.


ALMA DE LISBOA

Uma coisa que tem ocupado parte dos meus dias é a pesquisa iconográfica em torno de imagens que tenham o Panteão Nacional (ou sugestões do que nos façam lembrar o edifício) como tema. As obras são depois expostas na ante-câmara do Coro Alto. Já por lá passaram um retrato da infanta D. Maria, a borla e o capelo de Sidónio Pais, uma tela de Nikias Skapinakis, uma fotografia de David Stephenson, uma aguarela de Max Braumann, um fotografia de Luís Pavão, até chegarmos a esta peça de cerâmica, com um desenho de Beatriz Lamanna.

Em março haverá novidades. Regressaremos à pintura.

Vanitas vanitatum et omnia vanitas...


terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

NO DIA EM QUE VOCÊ NASCEU: O CALENDÁRIO MUÇULMANO

O calendário muçulmano é um calendário lunar e tem 12 meses, com 29 ou 30 dias. No total, cada ano tem 354 ou 355. A data de início do calendário é o ano de 622 d.C., altura em que Maomé se deslocou de Meca para Medina (Hégira -  هِجْرَة = partida)‎. A diferença para o nosso o calendário de 365 dias cria uma diferença, que vai "aumentando" com o tempo).

Como fazer a conversão? Em tempos tinhamos as tabelas de Ocaña Jiménez, que não eram nada fáceis de trabalhar e que nos permitiam perceber que data de uma calendário correspondia a quê, no outro. Mas aquilo era uma dor de cabeça.

Hoje temos a net. Que sirva positivamente para estas coisas.

Falando do ponto de vista pessoal:

Nasci a 10 de muharram de 1383.

Fui para a escola primária a 25 de rajab de 1389.

Casei-me no dia 25 de muharram de 1408.

Fui eleito presidente da Câmara de Moura no dia 25 de Dhu'l-Qa'dah de 1434.

Iniciei funções no Panteão Nacional no dia 18 de Sha'ban de 1442.

Hoje é dia 10 de Sha'ban de 1445.

Como fazer a conversão? Ver:

http://www.mela.us/hegira.html


segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

FINISSAGE

E fechou hoje, com uma visita guiada de Fernando António Batista Pereira, a exposição dedicada à obra de Moita Macedo, no átrio da reitoria da Universidade de Lisboa.

É, na minha opinião, a melhor exposição jamais feita sobre o poeta e pintor. Diverti-me a ver uma pequena máquina do tempo: o documentário "Moita Macedo, pintor e poeta na revolução", realizado aos 17 anos por um futuro diretor do Panteão Nacional.

domingo, 18 de fevereiro de 2024

O DISCO RISCADO DAS SONDAGENS

Em 2020 foi uma surpresa a maioria absoluta do PS. As sondagens diziam o contrário.

Nas autárquicas de 2021, Carlos Moedas era enxovalhado por Fernando Medina. Viu-se...

Durante toda esta semana era a perda de maioria absoluta do PP na Galiza, que era dada como mais que garantida.

Resultado:










Mas sondam quem? E o quê? E como? (poupem-me a explicações sobre "margens de erro"; muito agradecido)

ARUCIVETUS - UMA MEMÓRIA DE MOURA

Era um sexteto. Gravaram, em 1984, um single, em 45 rpm (rotações por minuto). Tive um gira-discos DUAL, que a minha avó Luzia me trouxe de Madrid, e que reproduzia discos em quatro velocidades: 16, 33, 45 e 78...

Voltando ao que interessa, o sexteto chamava-se ARUCIVETUS e era constituído, e seguindo a ordem da fotografia (da esquerda para a direita), por José Lourinho, Alberto Galanducho, António Bragadesto, João Fernando Costa, João Alberto Pereira e Mário Rui Ventinhas. A aventura musical não teve sequência, mas os ARUCIVETUS fazem parte da memória da minha terra e de minha geração. Na capa do meu disco lê-se: Santiago Macias 31/XII/84. Andava por Moura, como sempre, preparando a passagem de ano.

Foi graças ao José Lourinho que obtive a versão digital dos dois temas do single: Província e Sábio. Vão estar hoje (e na próxima quarta-feira) em destaque na emissão de Rádio Saudade (Moura - 92.8 FM e na net: https://rp.radioplanicie.com).


sábado, 17 de fevereiro de 2024

O MARAVILHOSO MUNDO LIBERAL

E ainda só passaram dois meses...


sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

VIOLETTES DE TOULOUSE

Cada vez que há futebol com equipas estrangeiras, instala-se o caos no metro. Urros, "cânticos", saltos - ao ponto da carruagem balouçar (!) - encontrões etc.

Na quinta-feira, entrou uma horda no Terreiro do Paço. Eram os do Toulouse. Iam a caminho da Luz, felizmente. Quando vão para Alvalade é pior. Como mudo no Marquês, tenho de os aturar até ao Campo Pequeno.

Nos anos 30 do século XX havia um perfume: Violettes de Toulouse. A avaliar pelo aroma da claque, devem ter usado um lote muito antigo. E já estragado...


DOUTORAMENTO EM ZOOM

Daqui a pouco, sem a pompa da imagem (Universidade de Paris, no final da Idade Média), mas com alguma formalidade, há a transmissão em direto (videoconferência) de provas de doutoramento em História da Arte. Já participei em vários júris de doutoramento. Mas nunca como arguente na minha Faculdade, e nunca por zoom. Uma dupla estreia.

Às 14.30:

https://www.letras.ulisboa.pt/pt/component/ohanah/doutoramento-em-historia-da-arte-13?Itemid


quinta-feira, 15 de fevereiro de 2024

RÁDIO SAUDADE EM PODCAST

Já há podcast, ainda que só me versão "experimental". O programa vai ficando para o futuro. As quatro primeiras emissões já estão disponíveis:

https://soundcloud.com/user-129438212/1-radio-saudade (Maestro José Coelho)

https://soundcloud.com/user-129438212/2-radio-saudade (Amália Rodrigues)

https://soundcloud.com/user-129438212/3-radio-saudade (Maestro José Coelho)

https://soundcloud.com/user-129438212/4-radio-saudade (Nuccia Bongiovanni)


quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

GESTÃO E PROTEÇÃO DO PATRIMÓNIO ARQUEOLÓGICO: HOW NOT TO BE SEEN...

(Re)começo hoje o seminário de Gestão e Proteção do Património Arqueológico. Com um número recorde de 33 alunos. Prometerei, e tentarei cumprir, um programa com novidades. Um dos tópicos centra-se, sempre!, no que não deve ser feito. Quais os erros a evitar. Exemplos? O processo da Sé de Lisboa, o projeto do Convento do Carmo (Moura), mais a recente desestruturação legislativa e de serviços etc. Os maus exemplos abundam.

Esta nova geração de alunos tem sempre elementos reivindicativos. Isso é francamente bom. Vamos ver como será.

Como não fazer ou como não ser visto... Vai tudo dar ao mesmo.


terça-feira, 13 de fevereiro de 2024

VÃO VER QUE É DESTA...

O documento é este (consultado há pouco depois de ler vários textos na imprensa):

https://www.infraestruturasdeportugal.pt/sites/default/files/inline-files/AnexoA1-Fichas-de-Projeto.pdf

Garante a modernização da linha ferroviária, até Beja, no prazo 2021-2030.

2021, 2022 e 2023 já lá vão... E nada ainda.

Em 2030, se ainda cá estiver, estarei aposentado. Resta-me o consolo de saber que só pagarei meio-bilhete... Se isto for verdade.

Vejam este textinho, que escrevi há já 13 anos:

https://avenidadasaluquia34.blogspot.com/2011/01/beja-o-aeroporto-e-o-comboio.html


segunda-feira, 12 de fevereiro de 2024

MINHA TERRA

Florbela Espanca, ontem à noite, no regresso a casa, depois da chuva e no silêncio de uma Moura adormecida. Eram 00:25:53, segreda-me o telemóvel. 


A. J. Emídio Amaro

Ó minha terra na planície rasa,
Branca de sol e cal e de luar,
Minha terra que nunca viu o mar
Onde tenho o meu pão e a minha casa...

Minha terra de tardes sem uma asa,
Sem um bater de folha... a dormitar...
Meu anel de rubis a flamejar,
Minha terra mourisca a arder em brasa!

Minha terra onde meu irmão nasceu...
Aonde a mãe que eu tive e que morreu,
Foi moça e loira, amou e foi amada...

Truz... truz... truz... Eu não tenho onde me acoite,
Sou um pobre de longe, é quase noite...
Terra, quero dormir... dá-me pousada!


domingo, 11 de fevereiro de 2024

PLACIDEZ NA PLANÍCIE MOURENSE

Que fazer num domingo de Carnaval chuvoso e sem graça? Gravar programas de rádio. Mais concretamente "meter voz" nas emissões 7 a 15 da Rádio Saudade. Até meados de abril a programação está concluída. Quando cá vier, dentro de semanas, "avanço" até final de julho.


sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

LÁ NO XEPANGARA

Na verdade, não é Xepangara, mas sim Chipangara. Isso é irrelevante. É um bairro na Beira, cidade onde viveu o genial José Afonso. Que apanhou os ritmos africanos com a mesma simplicidade e a mesma beleza com que apanhara o folclore português. Quanto mais o tempo passa, mais o seu fantástico talento se torna evidente.

"Lá no Xepangara" é do álbum "Coro dos tribunais", de 1975. Ninguém diria que tem 50 anos, não é?


Rotunda de Chipangara (Beira).

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

LXV - CRÓNICAS OLISIPONENSES: É PROIBIDO PROIBIR

Foi disso de que me lembrei, do velho slogan, na manhã de ontem (às 11:16:28, diz o telemóvel), ao passar por esta bela imitação de "hispano-árabes", na esquina da Rua Gonçalves Crespo com a Rua Bernardim Ribeiro.

Podemos pensar em variantes:
É proibido vazar anúncios;
É proibido estragar fachadas;
Etc.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

ESCARAPIADA

Como muito bem sabem, há coisas que surgem do nada... Ontem sonhei com a Amareleja, por causa de uma conversa tida ao fim da tarde, na véspera. Hoje de manhã, no metro, sei lá porquê, lembrei-me de uma coisa que já não vejo há muito: as escarapiadas. O meu avô comprava-mas (e palmilhas e popias), na padaria da Ladeira da Salúquia, pela manhã. Foi assim, nas férias, entre 1976 e 1986. Dez anos, entre o começo do liceu e o fim da faculdade. A década do crescimento.

O que são escarapiadas? Receita em:

https://www.amesacomaziza.com/2017/02/21/escarapiada/


terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

HOJE, NA RENASCENÇA

De casa aos estúdios da Renascença é um pulinho (350 metros...). Uma estreia, para mim. Conversa à volta do livro "Património à solta", de Maria Cardeira da Silva (NOVA /FCSH), com a autora e o jornalista José Pedro Frazão. Passa hoje à noite, no programa "Da capa à contracapa".




segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

A ARGENTINA? ISSO AGORA JÁ NÃO INTERESSA...

A Argentina foi "interessante" por uns dias. Não interessava a substância, mas as chaladices que Miliei ia dizendo dia-sim, dia-sim. Agora, o país está ao rubro, Milei teve de deixar cair o seu querido pacote legislativo, a inflação disparou e o caos está instalado. Em países onde há comunicação social, o assunto é notícia. Onde não há, não é.


sábado, 3 de fevereiro de 2024

FOI SÓ O LAPSOZITO DO COSTUME

Ou a uma habitual falta de ética, de vergonha, de seriedade etc. (muitos etc.)

Há quatro anos a SIC inventou uma primeira página do "New York Times" (!) sobre a Festa da Avante! ("que mal faz o cagulo?, diz-se na minha terra). Junte-se a isso a omissão de tudo o que o PCP faz, das suas posições políticas, da intervenção dos seus militantes mais destacados, em favor da pouca discreta promoção da extrema-direita.

Ontem, o Expresso veio pedir desculpa por mais um erro. Ri com gosto ao ler a palavra erro. Num anúncio sobre debates apareciam todos os líderes. Todos? Não faltava um. Vejam se adivinham qual... Depois lá emendaram a mão. A intenção não mudará, contudo.


sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

SÓ CABO VERDE...

Passarei uma parte da tarde de amanhã vendo um jogo de futebol: Cabo Verde-África do Sul. Uma coisa é certa: se Cabo Verde ganhar será a única equipa ainda em prova a estrear-se nas meias-finais da CAN. A Nigéria já por lá andou 15 vezes, a Costa do Marfim 10, a República Democrática do Congo 5, a África do Sul 3 e o Mali (que nunca venceu!) 6.

A comunicação social lusitana tem ignorado, quase por completo, a CAN.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

UM JACKPOT LITERÁRIO NO SÉCULO XI

O livro (Histoire des Almohades, de Abd al-Wahid al-Marrakushi, escrito em 1227 e publicado em Argel, em 1893) não existia em Portugal. Recordo-me de o ter consultado, em 2003 ou 2004, na Biblioteca do INALCO (Institut National des Langues et Civilisations Orientales), em Paris. Tenho na memória uma sala de leitura “à antiga” (pouca luz, muitos móveis em madeira, catálogo manual...), onde gastei, com prazer, largos dias. O livro não acrescentava nada de excecional à informação que já tinha sobre o sul de Portugal. Estaquei, contudo, atónito, nesta colorida passagem, relatada pelo poeta Ibn Habous:

Cheguei um dia a Silves, depois de ter estado três dias sem comer. Perguntei a quem me poderia dirigir naquele local e um habitante indicou-me Ibn al-Milh. Fui então à oficina de um encadernador que, a meu pedido, me deu uma pele muito fina e um tinteiro, e escrevi versos em louvor daquele de quem me tinham dito o nome; fui depois a sua casa. Encontrei-o no vestíbulo e ele respondeu de forma muito graciosa à minha saudação, acolhendo-me da forma mais amável: "suponho, disse-me, que és estrangeiro". Assim é, respondi. "E a que classe de homens pertences?". Sou, respondi, um literato, um poeta, quero dizer, e pus-me a recitar os versos que tinha acabado de escrever. Ouviu-os muito bem, convidou-me a entrar e, fazendo que me servissem de que comer, conversou comigo com uma amabilidade que nunca tinha visto. Quando pedi licença para me ir embora, saiu e voltou a entrar, seguido por dois criados que traziam um cofre, que fez pousar à minha frente. Abriu-o e tirou de dentro 700 dinares almorávidas, que me deu. "Toma o que é teu", disse-me, entregando-me mais uma bolsa contendo 40 meticais, "isto é mais uma prenda minha". Surpreendido com as suas palavras, que eram para mim um verdadeiro enigma, perguntei de onde vinha "o que era meu". "Fica a saber, respondeu, que pus de parte uma das minhas propriedades, cuja receita anual é de 100 dinares, que destino a poetas. Acontece que nenhum me procurou, nos últimos sete anos, devido aos problemas que assolam o território, e foi assim que se acumulou a soma que te é entregue. Quanto aos 40 meticais, são dos meus rendimentos pessoais".

A data de nascimento de Ibn al-Milh é incerta, admitindo-se que possa ter ocorrido por volta de 1030. Sabe-se que morreu em 1107. A referência aos “dinares almorávidas” ajuda-nos a enquadrar este episódio nos finais do século XI, porque é a altura em que essas cunhagens começam. Os últimos 15 anos do século foram marcados por grandes convulsões. O emir almorávida Yusuf b. Tashfin derrotou os cristãos em Zalaca, em 1086, e assumiu depois posições de maior força. O príncipe sevilhano al-Mutâmide, o homem mais poderoso do sul, acabou deposto pelos almorávidas, e exilado, em 1090. Ou seja, a acalmia sugerida pelo texto deverá ter ocorrido na última década do século, e depois de restabelecida a paz nos territórios meridionais.

O curioso neste texto é que há uma espécie de um 3-em-1. Por um lado, a concessão de uma bolsa literária, depois a existência de um poeta-mecenas. Depois ainda, a ideia de um “jackpot”. Ou seja, de um prémio acumulado, que foi entregue a um afortunado Ibn Habous.

Quanto valeu o “jackpot”? É só fazer contas. 700 dinares (3,85 g., cada) equivalem a cerca de 2,5 kg. de ouro. Nada menos de 150.000 euros em moeda atual. 21.400 euros de bolsa literária por ano? Rico mecenas, o nosso Ibn al-Milh...

Crónica em "A Planície". Pintura orientalista de Ludwig Deustsch.